Destinados à Payre

10 Temos um acordo


{Payre}

O Rei Erak encarou irritado o Duque de Horn, mas suas palavras foram ditas controladamente.

–- Estou ciente do que está acontecendo em Nagtar e estamos fazendo o possível para salvar e proteger as pessoas dos Ducados mais vulneráveis, como é o seu caso. Mas sabe muito bem que a situação fugiu do controle desde que Khor retornou. Todos nós estamos preocupados, caro Duque. O seu Rei Tack mais do que ninguém em função da localização de suas fronteiras.

Os olhos brancos do Duque de Horn luziram em clara demonstração de raiva. Os outros treze Duques presentes continuaram a exibir expressões impassíveis diante da cena que se desenrolava na Sala Azul. Alguns até pareciam mais preocupados com as imagens virtuais que passavam em diversos pontos da sala de forma a mantê-los atualizados sobre as batalhas que aconteciam em Payre naquele momento.

Ninguém se impressionava com as farpas trocadas entre o Duque de Horn e o Rei Erak. Era de conhecimento geral o descontentamento do Duque com o reinado do filho de Melkor. Para ele o atual rei de Sylesth era demasiado orgulhoso de suas próprias origens para se importar com os demais, mesmo que estes fossem seus aliados. O Rei Melkor havia sido um soberano muito mais justo e preocupado com seu próprio povo e com toda Payre, tanto que não hesitou em dar a própria vida para libertar os inúmeros Oberohs e Eiffs que foram aprisionados na Segunda Grande Batalha. Agora o filho parecia não se importar que tamanho sacrifício perdesse o seu sentido.

–- Majestade, entendo a atual situação de Payre, não me tome por um ignorante! Mas deve reconhecer que ninguém nesta mesa tem tantos do seu povo sendo escravizado pelos Deiroons quanto eu! Os Oberohs estão morrendo! – Ele passou seus olhos por cada membro que participava da reunião no palácio de Sylesth. Ninguém ousou contradizer sua afirmação. Exceto o Rei.

–- Toda Payre está perecendo. Todos nós estamos morrendo. Isso não quer dizer que vamos desistir, então não podemos evitar que seu povo, tão valioso para você quanto para os Aliados, acabem como vítimas dessa guerra. Lembre-se que mesmo os poderosos Serines não resistiram.

–- Não use os Serines como desculpa para o descaso que esta acontecendo com os Oberohs! Eles se sacrificaram por algo maior, para nos salvar! Já os de Nagtar estão morrendo por um punhado de terra!

–- Duque de Horn! – A voz de Erak perdeu a calma usada até então, tornando-se fria e ameaçadora. – Não se trata de apenas um punhado de terra inútil. Estamos falando do que separa Khor de seu objetivo! Estamos falando em manter a Tríplice de Deow longe de Sylesth até o retorno do Predestinado! Isso é por Payre!

–- Mesmo que signifique a sobrevivência apenas dos Nerinis e dos Alicanos?! — A voz, além de indignação, estava carregada de ironia.

O Rei Erak saiu de seu lugar, na ponta da longa mesa de vidro que também exibia as mais diversas cenas de guerra e foi até o Duque de Horn, este se manteve em pé e altivo como estivera durante toda a discussão. Os dois eram quase da mesma altura logo puderam se encarar firmemente nos olhos um do outro.

–- Sim, caro Duque – respondeu o Rei em tom cortante. – Mesmo que isso signifique a sobrevivência apenas de alguns. Caso tenha esquecido, uma Nerini e um Alicano foram os escolhidos para trazerem a vida o Predestinado através das palavras da própria Deusa Ashy. Acha que isso não é motivo suficiente para arriscarmos tudo? Ou prefere que, ao chegarem em Payre, o Predestinado e os Humanos Escolhidos não tenham mais nada para salvar? Estamos ajudando aqueles que podemos, mas não temos como proteger a todos. Isso é uma Guerra, caso não tenha reparado.

Alguns Duques balançaram a cabeça em concordância. Não havia escolha. Eram sacrifícios necessários. Outros ficaram refletindo. O que o falecido Rei teria feito? Teria sido tão duro, até mesmo displicente com a vida de outros? Não, não alguém que havia morrido para proteger os demais.

O Duque de Horn blasfemou algo na língua oberoh antes de sair do salão em que a reunião acontecia, visivelmente inconformado com a atitude de Erak. Logo os demais duques também foram se retirando, não havia mais nada a ser discutido.

Assim que ficou sozinho Erak sentou-se em uma das cadeiras e se recostou exausto. Ouviu a porta abrir, mas não precisou virar a cabeça para saber que era sua mãe, a Rainha Syka, quem entrava.

–- Parece cansado meu querido. – Syka foi até seu amado filho e o abraçou contra o peito, dizendo. – Desculpe por não poder estar presente. Os Guardiões requisitaram minha presença com urgência. Estão montando estratégias para quando Ele chegar.

Erak suspirou, abrindo-se de uma forma que só conseguia com a mãe e com seu amigo Esan, também um Alicano e seu primo por parte de pai.

–- Às vezes eu gostaria que o Rei Melkor permanecesse vivo pelo menos até o retorno dele, assim eu não precisaria me envolver com essas questões politicas tão irritantes e poderia me dedicar a elaborar estratégias de guerra que nos ajudassem a derrotar esses malditos Deiroons de uma vez. É frustrante ficar apenas evitando conflitos maiores, tentando sobreviver até a chegada de um desconhecido que será o nosso salvador. Então me sinto culpado ao pensar dessa forma, pois meu pai morreu valentemente por acreditar nisso.

–- Não se culpe, meu amor, eu mesma, às vezes, fico com raiva por ele ter me deixado nessa situação, mesmo que isso seja uma injustiça, pois ele foi corajoso e fiel aos seus princípios até o final, o meu amado Melkor. — A Rainha fez uma pausa, era sempre difícil lembrar do marido. — E também me sinto inútil ao aguardar que o desejo dos Deuses se torne realidade. Mas precisamos ter esperança, acreditar nas palavras da Deusa Ashy e orar para que seu irmão retorne logo. – Syka depositou um suave beijo no topo da cabeça do filho. — E não se esqueça do quanto ele vai precisar do seu apoio, pois passará a viver em um mundo totalmente desconhecido e não apenas isso, deverá amar Payre tanto quanto nós a amamos. Na verdade até mais, só assim poderá protegê-la e salvá-la, como é o seu destino.

Erak não conseguiu verbalizar o quanto às vezes o atormentava o rancor por saber que enquanto ele nasceu e cresceu em meio a uma guerra sem fim, seu irmão mais velho, aquele que seria o verdadeiro Rei de Sylesth, e provavelmente de toda Payre, vivia confortavelmente em outro mundo, longe de toda aquela destruição e morte. Como poderia depositar suas esperanças em alguém assim? Alguém que vivia em um outro Mundo?

***

{Terra}

Angel sentiu o calor do sol. Era tão agradável e a fazia sorrir tal qual uma tola criança que exibia a face para ser beijada pelos pequenos raios dourados de luz. Como ela havia feito um dia. Até tudo escurecer e morrer dentro dela. Assustada, Angel acordou. Nem percebeu que pela primeira vez em quatorze anos não sentiu a tristeza que a acompanhava em cada despertar. Sua atenção estava voltada totalmente para o rapaz que dormia ao seu lado, carinhosamente a abraçando.

Surpresa com a situação ficou parada admirando a face morena próxima a sua, seus narizes quase se tocando. Estavam na penumbra, mas era possível, graças a sua visão privilegiada e a luz do abajur próximo, observar como ele era lindo. E adormecido parecia outra pessoa, era mais o garoto que deveria ser do que o homem precoce que era.

Angel notou os cílios longos e negros como asas de um corvo que tocavam as bochechas e as mechas dos cabelos sedosos que se espalhavam pela testa. A boca, geralmente apertada em uma linha reta de seriedade, agora estava levemente erguida, como se Alexis estivesse satisfeito com algo. Era isso que o fazia parecer diferente, Angel reparou, ele exibia uma expressão feliz. Só então a garota se deu conta de que, assim como ela, Alexis era provavelmente alguém muito infeliz.

Mas poxa, ela era odiada por cada membro de sua família, era órfã, a única pessoa que a amava tinha morrido e por culpa dela, e se isso não fosse o bastante, tinha o detalhe da morte iminente por causa e um coração que não funcionava direito. Agora, e ele? O que um príncipe lindo e podre de rico, adorado pelo mundo inteiro, com uma longa vida pela frente que provavelmente iria desfrutar acompanhado por um harém das mais deslumbrantes mulheres, tinha para reclamar? Uma espinha indesejada na testa?

Absorta em suas indagações, Angel continuou a observar o Príncipe adormecido, até que os olhos dele foram se abrindo levemente e focaram o seu rosto. Nenhum dos dois mexeu um centímetro sequer durante algum tempo. Ficaram passando os olhos um pelo rosto do outro, tentando gravar cada linha, cada cor, a procura de respostas, mas descobrindo novas questões. Mais interesse, mais dúvidas, mais receios. O que era aquilo que os ligava daquela forma? E aquela estranha sensação de reconhecimento que sentiam, como se já estivessem estado juntos daquela forma em algum momento de suas vidas...

–- Por que estamos aqui, desse jeito? – finalmente Angel perguntou baixinho.

–- Eu não ia deixá-la sozinha naquela sala – respondeu ele no mesmo tom.

–- Certo. Mas não era para estar deitada em uma das camas da Sala Médica, recebendo tratamento da adorável Enfermeira Feliz?

Alexis ficou em silêncio por alguns instantes.

–- Não queria ser visto pelos corredores com um roxo no queixo a carregando praticamente desmaiada nos braços. Essa sala era mais fácil de acessar sem sermos vistos.

–- Mentiroso.

Ele não retrucou.

–- E faz parte da sua estratégia de discrição estarmos juntos nesse sofá?

–- Caiu um temporal.

Angel balançou a cabeça afirmativamente.

–- Certo, entendi. – Ela semicerrou os olhos e disse quase num sussurro: – Obrigada.

A garota começou a se erguer, quando Alexis a segurou pelo braço mantendo-a sentada ao seu lado.

–- Por que não costuma ficar por muito tempo em uma escola?

Angel que estava sentada, sem cerimonia alguma, se recostou contra o peito de Alexis que permanecia deitado de costas no sofá. Ela ficou em silêncio por um longo tempo antes de responder.

–- Para irritar meu avô. Ele fica muito puto cada vez que recebe um comunicado de disciplina das escolas. Quando sou expulsa, então, acho que gostaria de me matar. – Angel riu e não acrescentou que ele provavelmente só não fazia isso porque bastava esperar a natureza seguir o seu curso e logo seu desejo se tornaria realidade. – Também é a única forma que tenho de conhecer novos lugares. – Ela fechou os olhos enquanto continuava falando com seriedade. – Não tenho permissão para ir a qualquer lugar. E nem grana. Ele me mantém como prisioneira e eu só consigo liberdade temporária quando viajo de uma escola para outra.

Os dois ficaram em silêncio. Angel queria se chutar por ter dito tanto sobre si mesma, não era sua intenção, mas quando percebeu já estava desabafando. Mais um alerta sobre o efeito que o príncipe tinha sobre suas emoções.

Alexis tocou seus cabelos, enrolando os fios prateados nos longos dedos morenos.

–- Eu tenho uma proposta. – Ele puxou de leve os fios com os quais brincava a impedindo de falar. – Esqueça sobre querer você longe ou da minha tentativa de aprisioná-la aqui. Pense apenas nos benefícios que você teria com o que vou dizer. Consegue fazer isso?

Angel suspirou e virou a cabeça na direção dele, balançando de forma positiva. Então Alexis começou:

–- Como posso ajudá-la a irritar seu avô? Não sei o que a leva a querer isso e no momento não importa. Mas imagine poder ser tão rebelde quanto quiser, recebendo uma quantidade admirável de advertências e, apesar disso, não ser expulsa. – Vendo que ela erguia uma sobrancelha indagadora, Alexis prosseguiu. – Sim, eu sei que ser expulsa é a cereja do bolo, mas tenho uma alternativa muito melhor. O quanto estaria disposta a irritar o vovô Lancaster?

Angel riu, era divertido perceber o senso de humor estranho de Alexis.

–- Estou sempre disposta a aprimorar a arte de fazê-lo sofrer.

–- Mesmo que isso coloque toda a família Lancaster no mesmo pacote? E que o seu nome se torne motivo de comentários?

Dessa vez a garota arqueou as duas sobrancelhas muito interessada. Desforra sobre as pessoas que a ignoravam, maltratavam e a amaldiçoavam desde o seu nascimento? E desde quando ela tinha um nome a zelar?

–- Agora estou curiosa e adorando a perspectiva.

–- Bem, posso garantir que cada deslize seu se torne motivo de comentários entre ilustres políticos e empresários. Todos comentarão sobre as desgraças dos Lancasters, a forma imprópria com que a futura geração está sendo criada e todas essas coisas que os respeitáveis membros da nossa classe adoram criticar. E, creio que alguém tão preocupado com o bom nome da família como é caso de George Lancaster não vai achar divertido ter que esclarecer como a neta foi vista viajando para Paris com o príncipe Alexis, entre outras situações que alguém tão criativa como você será capaz de pensar.

–- Paris? Como assim?

Alexis a apoiou com um dos braços enquanto utilizava o outro para ajuda-lo a sentar. Quando ficou ereto, apoiado contra o sofá, não soltou Angel, permaneceu a abraçando contra o peito enquanto explicava:

–- Você disse que gostaria de conhecer novos lugares, eu posso fazer com isso aconteça. Tenho o dinheiro necessário e o poder para garantir que ninguém, nem mesmo o seu avô, a impeça de ir ao meu lado para qualquer lugar que quisermos.

Angel o observou um tanto cética.

–- Como poderia conseguir tirar uma menor de idade sem a autorização do responsável de forma que isso não se torne uma grande dor de cabeça, uma dor de cabeça de nível internacional, aliás?

O Príncipe sorriu e poiou o queixo sobre a cabeça dela.

–- Basta lembrar ao bom e velho George, caso ele tenha algo a dizer, o que sinceramente eu duvido, que apesar de não ser o rei ainda, já possuo influência significativa nas decisões importantes do que tem acontecido na Europa na área de Transportes, que é a base da fortuna dos Lancasters. Nesse caso, ele não se sentiria a vontade para me negar o prazer de passear com a adorável neta, não concorda?

Angel não conseguiu evitar a surpresa diante de tamanha demonstração de poder. Nem mesmo alguém como seu avô, mundialmente conhecido e respeitado entre os mais poderosos empresários e políticos era suficientemente capaz para enfrentar aquele que era apenas um garoto de dezessete anos. No futuro, que tipo de homem ele seria com tamanha responsabilidade?

–- Sabe, sinto como se a minha escolha fosse a clássica “pular da frigideira para o fogo”.

–- Nessa situação, a frigideira não possui a liberdade que o fogo promete.

–- A frigideira leva mais tempo para torrar o bacon – Angel filosofou entre brincando e séria.

–- Está com medo? Estou surpreso.

Ela se desvencilhou dos braços que a seguravam e ficou em pé observando Alexis que permaneceu sentado a encarando.

–- Vamos supor que eu aceite essa tão generosa oferta. Como isso funcionaria? De que maneira isso afetaria minha discreta existência nessa escola?

–- Não afetaria de nenhuma forma. Continuaria a frequentar somente nas semanas de prova e no restante do tempo poderá fazer o que quiser. Como bolar planos mirabolantes para tirar o sono do seu avô. E melhor, poderá por em prática em qualquer momento que estiver com disposição para isso.

A garota olhou a noite pela janela e voltou a fitá-lo depois de algum tempo refletindo.

–- Vamos ser francos. Aquele beijo e, bem, tudo o mais que rolou entre nós lá naquela sala não foi totalmente planejado. – Ela olhou para um ponto qualquer no topo da cabeça dele, evitando seus olhos. — E não consigo deixar de pensar que em algum lugar nessa negociação existe uma expectativa para que esse tipo de coisa faça parte do acordo.

–- Tem razão. Existe uma expectativa. – Angel não pode evitar a expressão de surpresa. – Mas, não estou propondo isso especificamente. Não estamos negociando o seu corpo. É mais o caso de se acontecer foi por que nós dois tivemos vontade, não porque quero uma recompensa por levá-la para conhecer o mundo. E por deixar que apronte muito por aqui. E isso não inclui incêndios, ok?

Alexis a observou atentamente.

–- Aliás, estou curioso. O que exatamente não foi planejado, o beijo ou o soco?

Angel deu alguns passos para o lado e inalou o ar.

–- Isso é cheiro de macarrão? Meu Deus que fome!

Ela foi seguindo o aroma até um carrinho repleto de comida.

–- Caramba, um banquete!

Sem dar a minima para o rapaz que continuava sentado aguardando por uma resposta, que ela não tinha a menor noção de como responder, Angel ligou várias luzes e pegou um prato, após se servir de várias coisas se sentou no chão em frente a mesa de centro e começou a comer avidamente.

Alexis finalmente conformado com a situação, também se serviu e sentou-se em frente a garota.

Ainda que a fome fosse muito verdadeira e estivesse provando o paraíso em formato de frango, Angel não pode deixar de continuar a pensar na decisão que Alexis havia colocado em suas mãos. Seria, de fato, aceitar o que ele propunha a melhor opção? Fazer o que quisesse, esmagar o orgulho do seu adorável avô e de quebra conhecer vários lugares do mundo? Ela nunca poderia ter sonhado com algo assim. Tudo bem que na realidade ainda estaria a merce de uma pessoa, mas seria alguém disposto a conceder coisas que ela sempre havia almejado. Como dizer não para isso?

E sendo muito franca, o beijo e o que aconteceu durante aqueles momentos acabaram por mudar um pouco as suas perspectivas. Angel ia morrer, isso era fato, quando, não sabia, mas todos os médicos foram unanimes quanto a ela não chegar a idade adulta. Alguns arriscaram afirmar que ela chegaria somente aos vinte anos. Angel já havia feito uma porrada de coisas malucas nos seus dezessete anos, mesmo sob o firme controle de George. Suicídio, expulsões, brigas, bebedeiras, drogas. Assassinato. Mas havia algo que nunca havia feito ou mesmo tentado. Sexo. Não era capaz de dizer bem o por que disso, mas o mais provável fosse a sua total falta de interesse nas outras pessoas. Já lera e vira filmes a respeito, os filmes que tivera acesso não lhe despertaram a minima curiosidade. Havia achado até um pouco nojento. Mas, depois do beijo só conseguia pensar no que poderia acontecer se tivessem continuado. Por isso tinha dado um soco nele. Queria se impedir de fazer o que seu corpo gritava desesperadamente que fizesse. O tinha beijado como forma de punição por tantas palavras arrogantes, por agir como se fosse simples limpar a existência dela da sua vida, mas o ato foi muito além do que ela imaginava. E percebeu que para Alexis havia acontecido o mesmo.

E agora, diante dessa nova situação, outras questões estavam martelando na sua cabeça. Ele havia dito que não descartava a possibilidade de repetir o que haviam compartilhado. E ela descobriu que era exatamente o que necessitava ouvir. Não ia desperdiçar a chance de provar algo, que pelo que pode perceber naqueles minutos de beijos e caricias, seria uma experiencia pela qual ela certamente gostaria de passar antes de... Enfim. E nada mal cair fora daquela vidinha que ela levava bem mais ou menos, fazendo do seu avô uma piada entre seus colegas esnobes, conhecendo o mundo e saciando vontades que nem imaginava possuir com um príncipe árabe lindo de morrer que era capaz de a derreter apenas com o olhar. Não que ela fosse admitir isso a ele. Mas era isso, só se ela já estivesse morta para recusar uma proposta dessas.

–- Eu topo.

Alexis que levava um copo com suco a boca, parou o gesto no ar.

–- Mesmo?

–- Sim. Imagino que tenha alguns limites que eu devo tomar o cuidado de não ultrapassar.

Ele arqueou uma sobrancelha parecendo muito surpreso.

–- Na verdade tem sim. – Alexis colocou o copo sobre a mesa e a encarou seriamente. – Acho que já mencionei, nada de incêndios, certo? – Ela fez que sim com a cabeça, parecendo meio entediada. – Nada de ações perigosas que possam por em risco, principalmente a você mesma. Isso incluí armas, drogas e qualquer outra coisa semelhante que possa vir a pensar. – Angel novamente balançou a cabeça afirmativamente, enrolando um fio de cabelo no dedo distraidamente. – E por último. Se eu ouvir falar que foi vista em situação comprometedora, seja com homem ou mulher, nosso acordo estará desfeito e sairá daqui imediatamente como tinha planejado no início.

Angel bufou.

–- Poxa, como poderei me divertir se conseguiu, em poucas palavras, acabar com as primeiras opções da minha lista de “coisas legais para fazer na Alpha quando se tem um príncipe todo poderoso para limpar a sua barra”. Agora tenho que riscar “ser uma incendiária”, “traficante de armas e drogas” e a minha favorita “a vagabunda da escola”. – Ela viu que ele continuava com a mesma expressão severa. – Certo, estou brincando. Sou criativa, posso pensar em outras coisas bacanas, talvez não tanto quanto as “proibidas”, mas... – Alexis franziu as sobrancelhas. – Meu Deus! Eu não sou tão maluca assim, ok?

–- Você já foi expulsa por porte de drogas e por um incidente com arma de fogo.

A garota se levantou bruscamente, derrubando os talheres. Indo até onde a mochila estava, disse com palavras rápidas e de maneira desconexa:

–- Não foi assim! Aquele cretino não queria falar merda alguma, só se preocupou em esconder tudo e só piorou as coisas! Eu nunca mexeria com essas coisas! Por ela! Por ELA! Eu prometi! Aquele canalha não podia acreditar, não depois do que... – Angel pegou a mochila e foi em direção a porta. – Eu concordo com tudo. Aceito o acordo e farei do seu jeito. Mas eu tenho um único limite. Se você ultrapassar mesmo que levemente, eu saio daqui na mesma hora. Seja do jeito que for. – Ela finalmente o encarou nos olhos e disse muito claramente: – Nunca pergunte nada sobre mim.

Alexis a observou por algum tempo antes de responder:

–- Nunca perguntarei.

Sem dizer mais nada ela saiu da sala.