Destinados à Payre

36 Sentimentos egoístas


Notas iniciais
Oláááaáá!! o/ Sim, ainda estou viva! Eu declaro oficialmente o mês de agosto o pior mês do ano, pqp!! Tudo que tinha para acontecer (e dar errado), aconteceu ¬¬' Maaaas, vamos deixar essas questões pra lá e simbora ler o capítulo!! o/ ~Ayara, ta aqui o capítulo 37!! ~ eheuehuehuheeh

Mona sentiu a dor, que poderia ser considerada insuportável em outros tempos, mas não naquele momento. Não depois de tanto preparo e tantas horas fortalecendo o seu corpo e também sua mente. O que mais a incomodava ali não era o fato de sua perna esquerda estar quase inutilizada, ou os vários ossos claramente danificados em seu corpo. Os cortes, o sangue perdido, sua respiração acelerada que parecia incendiar seus pulmões. Nem mesmo o fato de estar lutando ao lado da garota que se tornara tão próxima de Choi. Não, nada disso. De longe, o mais incômodo eram aqueles malditos olhos zombeteiros. Olhos negros e maliciosos, que a observavam como um gato que brinca de forma quase indolente com o indefeso ratinho sem esperança de salvar-se por não ter para onde correr. Como ela não tinha.

Sabia que os Deiroons eram fortes, tinham estudado todas as raças de Payre, a deles em especial, pois eram os inimigos mais perigosos que enfrentariam. Então tinha consciência de que a maioria dos símbolos que o Deiroon de olhos negros trazia em boa parte do seu corpo eram de nascença. Serviam para protegê-lo contra diversas magias, e que os demais haviam sido feitos para o mesmo fim, embora tivessem menor eficiência. Também era ciente de que por mais que o cortasse, picasse, ou esmagasse qualquer membro dele, logo ele se regeneraria — com exceção da cabeça. E, se isso não fosse o bastante, eram absurdamente fortes e velozes. Por isso, assim como Lali, ela estava sendo jogada de um lado para o outro naquela prisão que se tornara uma arena de vidro, sem conseguir reagir.

Suas flechas eram tratadas com desprezo, suas investidas eram motivos para risos escandalosos daquela criatura. Lali havia sido atirada para o alto, colidindo violentamente contra o teto de cristal, ao tentar acertá-lo com seu chicote, pois o Deiroon meramente se apropriou da arma da garota e a usou em proveito próprio. Sorte da indiana por ter reflexos tão bons, assim, caiu em pé, ainda que com visível dificuldade. Então, passado algum tempo, ali estavam elas, meros brinquedos quebrados daquele ser. Ela não conseguia considerá-lo um “homem”, isso o definiria como “alguém”. Se Mona se prendesse a isso, por mais que estivesse em uma situação ruim, não conseguiria dar cabo dele. Outra coisa que a incomodava, talvez mais do que o divertimento irritante que ele exibia.

Não tinha ideia de como estavam as outras lutas, mas imaginava que Ren tinha sido o mais beneficiado com o sorteio. Ainda que Alexis o detestasse, os dois tinham o mesmo objetivo, e Mona sabia quão poderoso o Príncipe havia se tornado. Mesmo um Deiroon como aquele não seria um adversário à altura. Só que a mente de Mona, mesmo contra vontade, logo se focou na luta que mais a interessava, além da sua própria: a de Choi e Angel. Eles também eram fortes, a garota irritante sendo sempre uma constante surpresa para todos, e isso talvez os fizesse escapar do embate sem danos maiores.

Olhando para sua dupla, Mona franziu o cenho. Lali tinha dado uma surra em Ren na disputa anterior, porém parecia incapaz de provocar qualquer ameaça ao Deiroon e, para ser bem honesta, ela também não estava sendo lá muito produtiva no momento. A única coisa que conseguia fazer, com uma facilidade nada lisonjeira, era sangrar e receber os potentes golpes do adversário. Era humilhante. E aterrador.

Se apenas um daquela raça já se mostrava extremamente difícil de lidar, como se sairia em uma guerra contra um exército deles? Não sobreviveria, tal como o Rei Erak alertara Alexis. E aquilo lhe causava um medo terrível, como não sentira nem mesmo quando abrira os olhos pela primeira vez e descobriu que não estava mais na Terra. E que poderia nunca mais ver seus pais. Ou Choi. Afinal, estava em um mundo estranho, mas ainda viva e em condições físicas melhores do que quando estava em casa. No entanto, em seu lar não precisava lutar pela própria sobrevivência. Nem pela sobrevivência de tantas outras vidas, como começava a entender.

Aquela não era apenas uma luta para avaliar seus poderes, sua condição física, seu desenvolvimento durante aquele quase um ano. Era uma batalha para mostrar se ela seria capaz de resistir ao que viveria em Payre. E, para sua angústia, ela não seria. Se continuasse daquele jeito, nunca seria.

Viu Lali ser agarrada pelo ombro e lançada contra uma parede com brutalidade. Antes que a garota pudesse reagir, o Deiroon a chutou no estômago com sua característica crueldade. Lali ainda foi capaz de puxar um de seus chicotes e o passou no pescoço dele, dando diversas voltas com uma velocidade e precisão. Viu os olhos da indiana brilharem em um tom de verde mais claro, mostrando que ela concentrava mais do seu poder, e realmente o adversário não conseguiu tirar tão fácil a indesejável arma que envolvia seu grosso pescoço, como fizera das outras vezes. Então, para seu horror, o Deiroon parou de reagir e cravou seus dentes no ombro feminino que antes havia agarrado.

Os olhos de Lali se tornaram opacos e ela começou a deslizar pela parede, sendo amparada pelas mãos sedentas por carne. O Chicote de Dari se desprendeu de sua mão e caiu no chão. Mona olhou para o alto. Zafy mostrava claramente sua intenção de intervir na luta. Se ela fizesse isso tudo estaria acabado. A dor, a necessidade de matar aquela criatura, mas, para seu desespero, também seria a confirmação de que ela era uma frágil garota que precisava ser protegida, que não tinha força suficiente para lutar pela própria vida. E que era, no fim de tudo, apenas a Monalisa egoísta apontada friamente por Choi.

Sim, ela seria uma covarde egoísta. Pois Lali, logo que caíram na prisão, a cobriu em diversos golpes, deixando claro que levava a sério o fato de serem uma dupla, tanto que ela só estava sendo sugada daquela forma cruel por tentar defender Mona, que estava caída no chão, com a perna destroçada, ocupada em sentir pena de si mesma, e medo. E Lali tentara protegê-la, apesar disso. E o que ela, Mona, havia feito até então pela garota? Nada, além de sentir inveja e ciúmes pela proximidade dela de Choi.

Vergonhosamente admitia que foi tomada por certa satisfação ao ver a linda indiana ser ferida pelo Deiroon logo no começo da disputa. Vê-la sofrer havia sido prazeroso, pois ainda lhe ardia o peito lembrar-se dos olhares trocados entre Lali e Choi. Olhares de carinho, de preocupação, de entendimento. Aquela estranha que ninguém conhecia antes de chegarem a Payre, era amiga de Angel, por consequência de Alexis, e muito querida por Choi. Mantinha distância dela e de Ren, os irmãos malvados. Aquilo revoltara Mona, mas depois de apenas alguns minutos ao seu lado contra o Deiroon, ela foi levada a entender como aquela situação tinha acabado daquela forma. Lali, ao contrário dela e de Ren, havia se preocupado com as pessoas estranhas que foram com ela àquele mundo, queria ficar forte não somente para se proteger, mas para proteger a todos. Angel, Alexis, Choi, e agora Mona percebia, até mesmo ela e Ren.

Lali não era uma Monalisa.

Será que era tão difícil provar aos outros, e principalmente a si mesma, que não era uma garota cruel e mesquinha? Não — Mona se ergueu sobre a perna ferida, seus olhos brilhando como nunca, se tornando quase brancos -, não era difícil. Ela só precisava aprender a se esforçar pelos outros, mais do que por si mesma. E tinha chegado a hora de começar a fazer isso.

Ergueu o Arco de Essência e a flecha incandescente lançada por ela acertou diretamente o pescoço do Deiroon, que imediatamente largou a sua presa, enquanto berrava tentando se livrar do objeto que parecia queimá-lo. E era isso que a flecha fazia, queimava a carne grossa e escura do Deiroon impiedosamente. Motivada pelo sucesso e feliz por ter conseguido libertar Lali, que caída no chão observava boquiaberta o desespero do adversário delas, Mona lançou mais flechas. Incontáveis flechas.

A cada disparada sentia suas energias se esvaírem, mais rápido, com maiores consequências, para ela e para o Deiroon. Esse era o resultado de usar tanto poder sem ainda estar totalmente preparada, conforme Noor a avisou. Suas flechas eram criadas a partir de sua própria essência, por isso apenas algumas poderiam conter tanta energia. Contudo, para vencer o adversário, Mona estava indo além do que poderia. O estranho é que não estava arrependida, concluiu ao observar o Deiroon caído sobre os joelhos, ainda na tentativa de arrancar as flechas que o torturavam. Conseguia com esforço se livrar de algumas, mas seu corpo estava cada vez mais debilitado.

Mona já não tinha condições de continuar. Com um sorriso de satisfação e orgulho por seus feitos, caiu de lado sobre o chão frio. Viu com o canto do olho o sujeito começar a rastejar até ela, parecendo muito determinado. Aquilo a preocupou, porém estava tão esgotada que não conseguiu reagir e assistiu, quase como se nem estivesse mais ali, a criatura com pele e carne queimada se desprendendo do corpo, que se desmanchava e ficava pelo caminho, formando um rastro nauseante e com cheiro fétido impossível de ignorar, aproximar-se cada vez mais e com maior desespero.

Tentou mover os membros para se afastar, mas não foi capaz. Tudo parecia distante, pesado e... inútil. Suas flechas não o queimariam rápido o suficiente para impedi-lo de beber seu sangue e fortalecer-se com isso. E Mona não podia fazer nada além de se preparar para sentir os dentes afiados sobre a sua pele já tão castigada.

Observou os dedos do Deiroon, também cobertos por símbolos, se aproximarem do seu rosto. Fechou os olhos, não aguentaria ver mais daquele monstro. Estava esgotada. Passou um tempo. Um pouco mais. Então ouviu um grito. Era de uma garota, Lali, e logo algo que pareceu mais um rugido, era o Deiroon. Surpresa, voltou a abrir os olhos e deparou-se com Lali agachada ao seu lado, seu chicote, em uma forma que lembrava uma corda grossa e muito forte, firmemente prendia a criatura mais morta do que viva, limitando seus movimentos e rasgando ainda mais a carne enegrecida.

Lali puxou outro chicote e com ele enrolado no pescoço do Deiroon, que se contorcia enlouquecidamente, tentou terminar aquele penoso desafio. Mas era visível a falta de forças que a impedia de conseguir isso. Ela estava sem energia, enfraquecida pelo sangue que ele havia lhe tomado antes. Ainda assim, com os dentes trincados, sob gritos de fúria e impaciência, Lali não desistia. Lágrimas corriam pela face suja de sangue, suor e poeira, mas ela continuava a puxar com os dois braços, um mantendo o Deiroon preso, o outro tentando arrancar a única parte que ele não seria capaz de regenerar, e consequentemente, poderia matá-lo. A cabeça.

Respirando fundo, Mona ergueu o braço, apoiou-o no chão e se arrastou para mais perto de Lali. Quando tocou na perna da sua dupla, ela virou a cabeça, surpresa.

― O que está fazendo? Descanse, eu terminarei isso.

― Não. – Mona sentiu a garganta arder apenas com essa simples palavra, então com maior esforço, continuou. – Nós terminaremos isso.

Segurou o braço de Lali que mantinha preso o pescoço do Deiroon, e juntas, com o restante de energia que tinham combinadas, canalizadas para o mesmo ponto, puxaram o Chicote de Dari.

Mona perdeu a consciência, por isso não viu a cabeça do Deiroon voar pelo ar enquanto os restos do corpo em decomposição, pelo efeito das flechas, se desmancharem em uma massa fumegante pelo chão, não restando nada para ser recuperado.

Como estava inconsciente, Mona também não ouviu os gritos agoniados de Angel que se fizeram ouvir, claros e aterrorizantes.

***

Ren observou os adversários. Sim, eram dois. Não seria ingênuo de acreditar que poderia contar com a ajuda de Alexis naquela situação. Tudo bem que o cara podia ter certa razão, afinal a coisa toda do baile, pelo que Mona contou, tinha sido bem mais louca do que Ren tinha imaginado. Mas não era hipócrita a ponto de afirmar que não faria de novo se soubesse dos resultados. Havia conseguido sua vingança e foda-se se a psicopata na verdade era apenas uma órfã com parentes ainda mais doentios. Que culpa ele tinha se o próprio primo dela tinha assassinato a tal empregada? Como iria saber? E, pelo que lhe constava, ele até tinha a ajudado, afinal, graças ao seu plano, Angel foi capaz de se lembrar de toda aquelas merdas que tinham acontecido com ela. Então, se o casalzinho real queria apontar suas ações como dignas de um vilão sem coração, que fosse. Ren não dava a mínima, só era um porre aguentar todo aquele drama pra cima dele.

Deixando essas babaquices de lado, observou o tal Deiroon que teria de matar. O sujeito era maior do que Ren imaginara, tinha uma estrutura ainda mais avantajada do que a do Rei Erak e Esan, que já eram enormes. Bem, sorte que ele havia aprendido a usar muito bem sua arma, pois, apesar de ser um pé no saco, Zaffar era um cara cheio dos truques e muito direto. Ele não tinha ido pra cima dele com frescuras psicológicas e coisas do tipo. Com explicações claras e bem técnicas, o fizera usar seus poderes em várias situações, até que ele conseguisse entender perfeitamente como funcionava a tal Pistola Elementar, tatuada em seu braço..

Posicionou-se de forma defensiva quando o Deiroon virou seus olhos vermelhos na direção dele, finalmente deixando de encarar Alexis, algo que havia feito desde que os dois praticamente despencaram ali embaixo. Ren começou a reunir energia, mas desconcentrou-se quando Alexis, com sua maneira arrogante de sempre, questionou o feioso grandalhão.

― Qual o seu nome?

Claro. O cara era um filho da puta que ignorava todo mundo, aí quando estavam prestes a se engalfinhar com um monstro disposto a, literalmente, devorá-los, o sujeito resolvia ser educado e perguntar o nome da criatura.

O Deiroon também não encarou a inusitada pergunta com simpatia, seus olhos se estreitaram quando voltaram a analisar Alexis. O Príncipe, por sua vez, permaneceu com a postura relaxada, mãos nos bolsos das calças, pernas levemente afastadas e olhar indiferente.

― O que vocês são?

Ao invés de responder, o Deiroon aproveitou para fazer outra pergunta, que pelo visto estava tomando sua mente, e com a puxada de papo de Alexis, se sentiu à vontade para fazê-la.

― Somos Humanos — Alexis respondeu, simplesmente.

Isso chamou a atenção de Ren. Qual era a intenção dele, afinal? O Príncipe nunca tinha sido conhecido por ter uma personalidade sociável e aberta a novas amizades. Ele era, na verdade, um tremendo calculista, então certamente aquele papo furado tinha alguma intenção por trás. E Ren estava certo que não seria nada bom para o Deiroon, e para ele.

― Humanos. – repetiu o Deiroon, ao exibir uma curiosidade cautelosa.

Ren notou que o monstrengo parecia particularmente preocupado enquanto observava Alexis. Pelo que tinha aprendido sobre eles, alguns Deiroons, através do poder contido nas tatuagens que tinham espalhadas pelo corpo, podiam “sentir” a essência de seus adversários. Talvez aquele ali tivesse percebido o poder acima do normal que Alexis possuía.

― Agora, responda minha pergunta.

― Dashtar.

Alexis sorriu, e não havia uma mísera gota de simpatia no gesto. Era propositadamente ameaçador, o que apenas foi confirmado por suas palavras:

― Tenho algo a lhe propor, Dashtar. – o Deiroon e Ren olharam fixamente para o Príncipe, que explicou. – Você pode tentar matar a mim e a ele. Se fizer isso, vou cortá-lo de cima a baixo em um único golpe e você morrerá. – havia tamanha confiança nas palavras de Alexis, que o Deiroon nem mesmo esboçou reação, apenas estreitou ainda mais seus olhos, tornando-os apenas duas linhas negras na cara quadrada. – Já, se surrar ele – apontou Ren com um leve movimento de cabeça – não vou intervir na luta. Ele será todo seu.

― Mas que porr...!

― Combinado, Humano.

Antes que Ren pudesse esboçar qualquer outra reação, o Deiroon foi em sua direção com tamanha velocidade que, quando lançou uma bola de fogo, ela acertou apenas a parede do outro lado, pois o gigante de olhos vermelhos já o erguia pelo pescoço e o arremessava contra o chão. Ren imediatamente se ergueu e tentou manter distância do adversário. Com a raiva brilhando em seus olhos, observou Alexis, ainda na mesma posição, sorrindo zombeteiro para ele. “Maldito!”

Sem perder tempo, começou a jogar bolas de fogo no Deiroon, que se esquivava com preocupante facilidade e novamente se aproximava dele. Ren começou a correr pela prisão enquanto pensava em um plano que o ajudasse a eliminar sozinho o tal Dashtar. Porém não era ágil o bastante, logo foi capturado e amassado contra o chão. Com os punhos unidos e fechados, o brutamontes acertou-o em cheio no estômago e no peito com duas investidas enérgicas. Ren não foi capaz de respirar, de ver, de sentir nada além de uma dor imensa por um tempo que pareceram horas.

Quando o ar saiu de seus pulmões, foi seguido por um jorro de sangue tanto da boca quanto do nariz. Ouviu as gargalhadas de Dashtar e quase podia sentir a satisfação de Alexis. O ódio provocado por essa noção fez com que concentrasse essência suficiente para criar um circulo de fogo que acertou o Deiroon. Não apenas isso. Ao atingir o peito largo e musculoso do adversário, o fogo mudou de forma, se expandiu e se espalhou por todo ele. O golpe inesperado fez com que Dashtar se debatesse em uma tentativa de apagar as chamas. Aproveitando-se disso, Ren atirou outras bolas de fogo. Já se orgulhava dos seus feitos quando o Deiroon ergueu a cabeça e abriu os braços, os símbolos localizados nas extremidades de suas mãos cintilaram. A carne no seu corpo que antes parecia queimada se regenerou e extinguiu o fogo que a consumia.

Exibindo seus olhos vermelhos em tom mais escuro do que antes, Dashtar passou a pegar com as próprias mãos, ainda estranhamente brilhantes, as bolas de fogo que continuamente Ren disparava, e as esmagava como se fossem algo sólido e inofensivo. E quando ele se aproximou de Ren e segurou-o pelo pescoço, erguendo-o como a uma criança indefesa; foi exatamente desse jeito que ele se sentiu. Seus poderes não tinham mais efeito sobre o inimigo e Ren percebeu suas forças se esvaindo a cada energia lançada. Agarrou o pulso do sujeito tentando se soltar, mas apenas tornou a pressão exercida mais forte. Graças às suas novas habilidades era capaz de ficar um bom tempo sem respirar, mas a força usada pelo Deiroon o assustava, pois com aquelas mãos enormes poderia quebrar seu pescoço com a facilidade que empregaria para destroçar um graveto.

Tendo as pernas balançando no ar, sem condições de se soltar, indefeso e sozinho naquela luta, Ren fechou os olhos e praguejou. Sabia que não o deixariam morrer, mas era revoltante que Alexis conseguisse sacaneá-lo de duas formas tão contundentes. Primeiro, o fazendo apanhar daquele jeito; segundo, o colocando na irritante situação de passar novamente por todo o treinamento com o maldito Zaffar, aquele Mestre metido que adorava lembrá-lo da surra recebida da indiana gostosa. Ia ser um inferno!

Assim, valia a pena uma nova tentativa de vencer aquela disputa. Abrindo os olhos, Ren encarou diretamente o Deiroon. Viu o sorriso e o brilho esfomeado de seus olhos cada vez mais escuros. Ele tentaria tirar seu sangue. Esperou por isso. Quando Dashtar abriu a boca para cravar os dentes nele, Ren praticamente enfiou o punho entre eles e disparou uma sequência de três bolas de fogo. O brutamontes engoliu toda aquela energia. Ren foi arremessado longe no mesmo instante, caiu de costas estatelado no chão, então ergueu a parte superior do corpo o suficiente para poder assistir o Deiroon se debater com um das mãos sobre o estômago e a outra sobre a própria garganta. Os olhos estavam arregalados e sangue escorria deles. Algumas linhas vermelhas, como se fossem rachaduras, surgiram em alguns pontos do seu corpo. Parecia que as bolas de fogo tinham explodido ele por dentro e sua regeneração não estava sendo nada fácil. Além de muito, muito dolorosa.

Com dificuldade, Ren ficou em pé. Lançou um jato de água na direção do Deiroon, que ainda estava sofrendo as consequências do último golpe, por isso voou direto contra a parede. Ele ficou lá, braços e pernas abertas, colado na pedra às suas costas enquanto a água, com uma força surpreendente, continuava a jorrar do punho de Ren. O rapaz, agora sorrindo, foi se aproximando e assim intensificando a força do golpe. Pedaços de pele escura se lançaram para todos os lados, era como se o enorme Deiroon estivesse sendo atingido por milhares de golpes com tamanha força que seu corpo não conseguia se recuperar totalmente e em tempo de evitar ficar cada vez mais danificado.

Mas Ren foi imprudente, aproximou-se demais, e só quando uma mão agarrou seu tornozelo é que ele se deu conta disso. Ele esqueceu que os Deiroons podiam controlar as partes arrancadas de seus corpos como se fossem a porra de zumbis alienígenas. Quando sacudiu a perna para se livrar da coisa nojenta, reparou na força que um mero membro perdido daquela criatura tinha. A mão não o soltou, e ainda começou a apertar com tanta intensidade que logo ele estava no chão, sentindo seus ossos abaixo do joelho serem estraçalhados lentamente. Gritando, bateu na mão em desespero, sem nenhum resultado. Acertou-a com fogo e, mesmo em chamas, ela continuou a apertar. Sua perna já era apenas uma massa disforme de carne, ossos e sangue. E a dor, puta merda, a dor...!!

Lágrimas corriam de seus olhos enquanto observava seu sangue se esvair pelo membro que já não mais possuía. Uma sombra o cobriu. Ergueu a cabeça, sentiu-se zonzo e mal conseguiu focar algo, contudo não precisou de muito para perceber que o Deiroon, quase totalmente recuperado, estava parado bem a sua frente. Droga, ele estava ferrado!

O medo inconveniente, mas incontrolável, já o tomava, quando muito rapidamente tudo mudou.

Ouviu um grito que não era o seu. Era tão apavorante que ele sentiu como se toda a dor e a angústia contida nele fosse a sua própria.

Quem era? O que tinha acontecido?

Antes que pudesse acumular mais questões em sua mente caótica, porém, um jato quente e viscoso caiu sobre ele. Foi tão repentino, que engoliu uma quantidade significativa daquele líquido e a bile lhe subiu no mesmo instante pela garganta, machucando-a com a sua acidez e acumulando mais lágrimas em seus olhos. Quando conseguiu abrir os olhos, buscando entender o que tinha acontecido, percebeu que estava coberto por sangue e pequenas partículas de algo que não soube definir a principio o que era. O ar a sua volta estava tomado por elas — cinzas! Eram cinzas! -, que caíam lentamente em direção ao chão. Cada vez mais confuso, ergueu a cabeça e, em meio àquela nuvem cinzenta, reparou que Alexis, após dar um salto incrível, saiu da prisão pelo teto, que já se encontrava aberto, ao mesmo tempo em que dois Curadores desceram velozmente e logo o cercaram. Antes que Ren pudesse esboçar qualquer reação, foi sedado.

Já perdia noção do que acontecia com ele, quando reparou em um detalhe. Os gritos horripilantes tinham silenciado.

Vagamente lhe ocorreu. Eles eram de Angel.

Apesar da situação, Ren riu, ainda que soasse mais como um soluço. Seja lá quem tinha feito algo com a namorada do Príncipe, estava ferrado. Ele bem sabia como era isso.

***

Seu coração estava tão acelerado que quase doía. Mas sabia que a fonte daquela agitação não tinha sido o uso dos seus poderes, como das outras vezes. O medo era o responsável pelos batimentos atípicos.

Enquanto corria para a prisão na qual Angel e Choi tinham sido deixados para lutar contra o Deiroon, Alexis reparou, ainda que de relance, na quantidade de Curadores que corriam pelo grande salão. Nunca tinha visto tantos. Eles tentaram pará-lo, o que se mostrou uma tolice. Ele precisava ver Angel e ninguém o deteria.

Na borda da prisão, várias pessoas estavam paradas, e sussurros eram ouvidos. Tudo parecia em uma desordem incomum àquele lugar. O que só o deixou ainda mais preocupado. Ao passar por todos, que abriram passagem sem qualquer hesitação, uma lembrança o tomou. A manhã em que chegou ao quarto de Leonard, na Alpha. A manhã em que quase tinha perdido Angel.

Desesperado, já na borda da prisão, olhou para baixo. Aquele dia voltou com força total à sua mente, assim como todas as emoções relacionadas a ele, tão incontrolável quanto a frieza súbita de seus membros ao reparar nas expressões de pânico por todos os lados. Choi, em especial, muito machucado, o olhava, pálido e aflito. E do outro lado da prisão estava Angel.

― Angel!

Em um momento Alexis estava lá no alto, em choque, gritando o nome dela. No instante seguinte, estava de joelhos no chão ao lado de uma Angel quase irreconhecível. Ele mal foi capaz de respirar.

De alegria. Ela estava viva. Percebia o suave, quase imperceptível, movimento que Angel fazia, provando que ainda estava ali, com ele.

De horror.

― Não toque nela!

Ele ouviu a voz da Rainha Syka, mas não ergueu a cabeça. Alexis sentiu seus olhos arderem ao passá-los pela pequena figura desacordada no chão. Os cabelos estavam vermelhos, da cor do sangue; as partes que restavam de pele também estavam da mesma cor. Mas boa parte do corpo visível tinha sido corroído, como se ácido a tivesse atingido dos pés a cabeça. Em alguns pontos a carne tinha sido tão atingida pelo que quer que tenha feito aquilo, que restavam apenas buracos escuros por onde sangue ainda escorria.

Finalmente Alexis ergueu a cabeça para a Rainha.

― O que estão fazendo?! Por que não estão curando ela?!

Syka, que também trazia o semblante carregado de sofrimento, respondeu em tom contido:

― Nós já estamos cuidando dela, Alexis. Eu limpei em torno da Angel para podermos nos aproximar. Não sabemos o que tinha no sangue do Deiroon que fez isso, por esse motivo os Curadores estão trazendo uma cápsula de cura para colocá-la dentro. Isso evitará que ela seja ainda mais ferida e que outros também se machuquem.

Alexis voltou a atenção para Angel e novamente foi tomado pelo sofrimento de vê-la naquele estado. Quanta dor ela devia ter sentido! Os lábios pequenos, tão lindos, estavam esburacados, o canto esquerdo tinha praticamente derretido. Ainda era possível notar a existência da suave covinha no queixo, e ao reparar nesse pequeno detalhe, uma nova onda de emoção o tomou. Lágrimas furtivas surgiram nos olhos de Alexis, fazendo-o reagir. Ignorando a recomendação da Rainha, ele tocou com a ponta do dedo, em um gesto carregado de gentileza e amor, aquele pedacinho de sua Angel. Não queria machucá-la ainda mais, mas precisava daquele toque para saber que ela estava ali. Para que ela soubesse que ele estava ao seu lado.

Ouviu a movimentação em torno deles. Os Curadores tinham chegado com o equipamento necessário.

― Alteza, por favor, se afaste. Precisamos levá-la. – o Curador Falki solicitou, em voz baixa e sentida.

Alexis obedeceu. Não despregou os olhos dela enquanto Angel foi erguida no ar através da magia e, em seguida, colocada dentro da cápsula, que logo foi preenchida por água curadora. Ninguém tentou impedi-lo quando seguiu o grupo de Curadores até o Centro de Cura. Nem mesmo sugeriram que ele deveria descansar também. Todos sabiam da relação que havia entre o Predestinado e a Humana, Escolhida da Deusa Ashy. Muitos já tinham testemunhado a preocupação de um pelo outro, então não havia dúvidas de que Alexis só sairia do lado dela quando Angel estivesse totalmente recuperada.

Apenas restava a incerteza de quando seria isso, pois jamais haviam visto algo como aquele efeito do sangue de um Deiroon sobre qualquer ser de Payre.

E nenhum dos outros Humanos tinha passado por algo assim.

Nem mesmo Choi, que também fora tocado por respingos do mesmo sangue.

***

A Rainha Syka observou a garota ser levada. Estava tão concentrada em seus pensamentos sobre a situação inusitada, já que contribuía ainda mais para suas dúvidas quanto ao verdadeiro papel daquela menina no que estava por vir, que não reparou na expressão do filho, Erak.

Não viu quando Esan sutilmente segurou-o pelo braço para impedi-lo de seguir os Curadores que levavam Angel.

Assim, também não notou o olhar chocado de Noor quando percebeu o gesto.

O que a Rainha em sua introspecção acabou por perder, foi a prova de que a presença da garota poderia refletir de outras formas naquele que era o destino de Payre, e talvez não fosse somente na missão profetizada pelos Deuses.

Nem tudo tinha sido escrito por eles.

Mas tudo estava entrelaçado.

Notas finais
Então, o que acharam? Repararam que a Mona não foi a única egoísta do capítulo? eheheheh Na verdade ela foi até a MENOS o.O Espero que tenham gostado, desculpem a demora, em postar e responder os coments, que estavam lindos demais!! *-----* Obrigada por lerem Destino, pela paciência e por não desistirem!! Beijos e até o próximo que será, DE QUALQUER JEITO, na próxima semana! o/