Destinados à Payre
31 Palavras afiadas como espadas
Notas iniciais
— Como sabem, devem escolher a arma mais adequada, por si mesmos. Assim que fizerem essa escolha, seus Mestres lhes lançarão um desafio.
Angel observou com certa curiosidade a expressão de Mona e Choi. Havia saído daquela sala, pois não tinha condições de precisar o quanto poderia controlar suas emoções, mas ao encontrar Alexis no corredor e solicitar que ele esperasse ali com ela, conseguiu esfriar a cabeça.
Depois de alguns minutos esperando, e tentando convencer Alexis de que nada sério havia acontecido, viram um Choi com olhos muito vermelhos passar em disparada por eles. Como ela sabia que ele não era do tipo que se chapava logo pela manhã, caso conseguisse descobrir alguma droga naquela, dane-se a redundância, droga de lugar, só poderia ser resultado da briga entre ele e Mona.
Com pesar, ela observou a tristeza indisfarçável nos sempre risonhos olhos castanhos. Sentia muito por ser parte sua culpa, o que era surpreendente para ela, assim como havia sido surpreendente seu rompante ao defendê-lo daquela forma. Tinha ficado cansada de o ver seguir a garota com tanta dor no olhar, quando pensava que ninguém estava notando, tanto, que não foi capaz de controlar suas palavras. Era uma linguaruda idiota, no fim das contas.
Não estava acostumada com essa coisa estranha e ligeiramente incômoda que era a amizade. E era o que sentia pelo rapaz sorridente que havia se preocupado com ela e com Alexis, que havia chorado sobre seu corpo quando todos pensaram que ela estava morrendo. Jamais seria capaz de esquecer aquele momento, quando as mãos gentis dele pegaram a sua e a apertaram com força. Havia sentido cada lágrima quente sobre a sua pele já tão fria.
Sem falar que, apesar de toda aquela situação na festa, Choi nunca a tinha julgado ou tratado de forma diferente. Havia batido nele no quarto de Leonard, Alexis confirmara que quebrara o braço do rapaz. Mas ele não tinha tentado em nenhum momento feri-la, embora estivesse fora de si naquele dia, algumas memórias lhe mostravam que Choi tinha, o tempo todo, ficado na frente de Leonard, impedindo-a de fazer algo terrível ao próprio primo, não que ele não merecesse, mas ela não precisava se tornar algo semelhante àquele desgraçado. E jamais poderia devolver tamanho favor.
Encarando aquele que agora via como um amigo, Angel reparou na sua seriedade incomum. Choi estava ao seu lado, o mais afastado possível de Mona. A garota também não parecia muito bem, seus olhos dourados não tinham se erguido uma vez sequer desde que Angel tinha entrado na sala com Alexis. Detestava a garota mimada, mas era capaz de compreender seu desespero em ser notada e amada pelo pai. Ela não tinha feito o mesmo com o avô, por toda sua vida? Apenas havia feito escolhas diferentes, com os mesmos resultados inúteis. Ela era, em muitos aspectos, tão patética quanto a Mona.
— Angel, pode escolher sua arma.
Ela piscou, notando que estivera tão absorta em suas conjecturas, que nem mesmo vira Mona, de fato, escolher o arco, Ren algo que parecia uma arma de fogo qualquer, Choi uma bola esquisita que ela não fazia ideia do que era, cuja única função que imaginava era a de ser arremessada na cabeça do inimigo, e Lali um pedaço de metal todo rebuscado com pedras. Com estranhamento, ergueu as duas sobrancelhas para a indiana. Sério que ela tinha escolhido aquela coisa inútil só porque era bonitinha?
— Angel?
— Certo, entendi – respondeu ela impaciente à Rainha.
Aproximou-se sem pensar duas vezes do vidro que estivera observando quando havia entrado naquela sala da primeira vez. Já tinha escolhido o que queria.
— Aquelas espadas.
Apontou para uma dupla de espadas curtas, com o cabo dourado e azul. Eram lindas e, o melhor, bastante letais. Achou-as muito adequadas, pois em seus treinos na Terra, sempre havia preferido espadas curtas, adaptavam-se melhor aos seus movimentos. E claro, ao seu diminuto tamanho, era honesta o suficiente para admitir.
A Rainha balançou a cabeça de forma positiva, então uma Nerini, a mesma que estivera durante a reunião, e da qual Angel não lembrava o nome, chegou próxima do vidro e o tocou com as mãos espalmadas. Em seguida, como se o vidro fosse feito de algo gelatinoso, enfiou a mão e abriu sua palma. Um pequeno redemoinho de vento saiu dela e foi em direção as espadas, que estavam em uma altura significativa. De forma suave, os ventos levaram as armas até a Nerini. Ela as pegou e foi até Angel, entregando-as com um simpático sorriso. Angel reparou nos cabelos roxos da mulher e em seus olhos muito verdes. Aquele pessoal era mesmo bem colorido. Se ela fosse uma garota mais sensível, diria que eram seres de uma beleza única e vibrante.
Voltando sua atenção para as espadas, ficou surpresa com o quão leve elas eram, o que a deixou meio desconfiada de sua eficiência, afinal a potencia dos os golpes também levava em consideração o peso da arma usada. Será que tinha feito uma péssima escolha? Mas como poderia ter adivinhado isso? A Rainha tinha sido bem clara, eles deveriam escolher a primeira arma que lhes atraísse a atenção. Bem, ela era sempre uma azarada dos infernos mesmo.
Deixando de lado sua situação deprimente, ficou assistindo o que Alexis escolheria. Sabia que ele iria preferir uma espada, afinal ele fizera esgrima a vida toda. E, de fato, ele escolheu uma, aliás, muito elegante, e definitivamente parecia ter um bom peso, notou com inveja.
— Agora que todos estão com suas armas, iremos para o seguinte passo. – a Rainha Syka fez um gesto para que todos a seguissem.
Algumas portas adiante entraram em outra sala. Sério, aquele palácio era uma coisa absurda, tudo era exageradamente espaçoso e grandioso. E esse novo lugar não era diferente. Teto muito alto, pilares gigantescos, piso que mais parecia um espelho e com inúmeros detalhes intrincados formando desenhos de... Espere! Dragões?
— Essa é a Sala dos Céus, uma homenagem aos Serines – Jaffar sorria de orelha a orelha ao dizer isso. Sim, tinha dado para reparar que ele era muito fã dos tais seres extintos. – Como sabem, o palácio deles é chamado de Palácio dos Céus, e esses são os Dragões Ebóreos, os únicos seres que atualmente habitam o reino de Oyst.
Ótimo, a boa notícia é que ninguém entrava naquele reino, e agora ela entendia o motivo, então eles não precisariam encontrar aquelas criaturas pavorosas e seus simpáticos dentes pessoalmente.
— Aqui vocês passarão pelas provas ordenadas por seus Mestres. Como falei anteriormente, quando uma criança payreana escolhe qual o caminho que quer seguir em sua longa vida, ela também determina quem deve guiá-la por esse caminho. E cada criança é desafiada por seus Mestres. Esse ritual serve tanto para o discípulo mostrar seu valor, quanto para o Mestre avaliar que tipo de aprendiz terá. Em alguns casos o Mestre pode recusar o aluno.
Angel se animou um pouco com as palavras de Syka. Nada contra a doce Rainha, mas o fato de ela ser exatamente isso, tão “doce”, não criava boas expectativas quanto aos treinos que teria com ela. Queria alguém como, sei lá, Esan. Ele, sim, apesar do jeito calado, parecia alguém que realmente colocaria seu aluno no batente. Choi era um sortudo.
Claro, podia ser pior, pensou olhando para Alexis. Cara, ter que chamar de “Mestre” o irmãozinho pentelho e filho da puta era muito além de qualquer má sorte.
— O que foi?
— O que foi o quê? – ela se fez de desentendida ao ser questionada por Alexis.
— Qual a razão dessa expressão: “ele está ferrado”?
Angel riu.
— Acho que a Rainha tem a aparência de uma fadinha toda serelepe e meiga, mas no fundo possui uma mente perturbada e maligna – Angel sussurrou para ele. – Que outra explicação teria ela escolher exatamente Erak como seu Mestre?
— Bem, talvez ela tenha a questionável esperança de que isso possa nos aproximar de alguma forma.
— Que pensamento lindo, Alexis – ela zombou, ainda em tom baixo. – É isso que terá em mente quando estiver aguentando os gritos enfezados do Rei Zangão?
Antes que Alexis pudesse retrucar algo, a Rainha tomou a palavra novamente. Caramba, além de tudo aquela mulher era uma matraca.
— Noor, qual será o desafio de Mona?
Noor e toda sua sensualidade indecente para aquela hora da manhã, caminhou lentamente até ficar na frente de Mona. O curto percurso foi marcado pelo balançar exagerado dos quadris volumosos. Ainda que não tivesse absolutamente nada a temer, Angel deu uma olhada de esguelha para Alexis, afinal, não custava nada garantir se ele precisava ou não tomar uns cascudos, mas para seu azar ele estava olhando na sua direção, a boca linda logo se abrindo em um sorriso cínico. Droga, foi pega no flagra em uma ceninha boba de ciúmes.
— Mona – Noor ergueu o queixo da garota com a ponta do dedo, até que ela a fitasse. – Você irá lutar contra um dos Humanos. A luta só terminará quando um de vocês não conseguir mais levantar.
Minha nossa, que vaca!
Mona não reagiu, continuou parecendo um zumbi, Angel notou que isso deixou a azulzinha toda impaciente, por isso quase não estranhou as palavras seguintes dela:
— Choi será seu adversário.
Isso fez Mona acordar. Ela piscou com força e observou o rapaz com quem teria que se engalfinhar até ficar inconsciente. Angel, mesmo não tendo nenhum apreço por ela, sentiu simpatia por sua situação e pelo Choi, pois era inegável a sua agitação com a novidade. Ele olhava para os lados totalmente aturdido, evitando ostensivamente a única pessoa que realmente queria ver.
— Os dois podem se encaminhar para o centro...
— Espere.
Aquela era a voz de Esan? Angel estava surpresa, pois imaginava algo mais cavernoso e grave para um homem daquele tamanho, contudo sua voz era bem suave e tranquila. Parecia uma dublagem em que a escolha de elenco não tinha sido muito feliz. Mas até que era interessante.
Noor, que havia sido interrompida, olhou para o outro Guardião com ar questionador.
— Choi, esse também será seu desafio – Esan disse para o rapaz, antes de desviar os olhos para a Rainha. – Sugiro que possamos ter pelo menos alguns minutos para ensiná-los como manejar suas armas, Majestade.
A Rainha fez que sim com a cabeça. Noor pareceu não gostar muito, mas fez um gesto com a mão, para que Mona a seguisse. As duas saíram da sala, logo Esan e Choi fizeram o mesmo.
Legal. E eles, iam ficar ali parados feito estátuas enquanto os outros dois treinavam o uso de suas armas? Cada vez mais incomodada, Angel voltou a testar o peso de suas “faquinhas de plástico”, uma em cada mão. Céus, que péssima escolha. Muito, muito ruim.
— Elas até que são bem bonitinhas.
Angel ignorou o comentário sarcástico de Alexis, caso contrário ficaria tentada a enfiar uma delas naquele nariz arrogante. Mas sua curiosidade venceu seu incomodo e ela olhou para a arma que ele carregava.
— Posso segurá-la?
— Por mais que eu seja um cavalheiro e a ame, já vou avisando que não vou trocar com você. – Alexis disse, rindo, enquanto lhe passava a espada.
Ela voltou a ignorá-lo, mas agora porque estava encantada com o brilho do metal em suas mãos. E com seu peso. Com olhos brilhantes, encarou o namorado, mas Alexis estava com as suas espadas, que pareciam ainda mais com meros brinquedos em suas mãos enormes. Ele lançou uma para cima e a pegou no ar, o cenho franzido em descrença.
— Poderia parecer menos emocionado com as minhas espadas? Já está sendo ofensivo.
— Elas não tem peso. Nada.
— Elas são chamadas de Penas de Dragão, pois foram realmente forjadas com as penas dos Dragões Ebóreos – Angel levou um susto, nem tinha reparado na aproximação da Rainha. – Foi um presente dos Reis Serines, um símbolo de nossa aliança. Nunca foram usadas antes.
Angel olhou melhor para as armas, antes de voltar sua atenção para a soberana. Sentiu a ansiedade na própria voz, mas não podia deixar a oportunidade passar:
— Então, se elas são assim tão importantes e tal, não seria melhor se eu escolhesse outra coisa? Eu vi uma mai...
— Não há necessidade. – Syka logo acabou com as suas esperanças. – Como eu disse, é extremamente importante que a escolha seja feita por instinto. A sua essência escolheu essa arma, Angel.
Pelo visto a sua essência era tão problemática quanto todo o resto, Angel pensou, desgostosa.
— Mas como vou lutar com essas... Essas... Pluminhas?
A Rainha sorriu. Angel virou os olhos para o alto. Aquela era sua Mestra, quantos dias levaria para ficar completamente louca?
— Você vai entender que a força das espadas dependerá unicamente da sua própria força. Todas as armas escolhidas por vocês serão mais ou menos potentes de acordo com seus corpos e essência. Observem a luta que virá, e entenderão isso melhor. – dizendo isso, a Rainha se afastou retornado para o lado de Erak e Jaffar.
Assim que ela se foi, Lali se aproximou deles.
— Coitado do Choi– a garota foi logo dizendo. – Ele será capaz de bater na Mona?
Boa pergunta. Ele seria capaz disso?
E a Mona?
***
Choi olhou para o objeto em suas mãos. Esan havia sido muito claro e monotonamente didático sobre o seu funcionamento. Quem olhasse para aquilo veria apenas uma bola de metal azul do tamanho de um punho. Era totalmente lisa e sem qualquer adorno. Ele tinha sido instantaneamente atraído por ela, tinha até cogitado escolher algo mais imponente e com aparência perigosa, mas de uma forma além de sua compreensão, viu-se apontando para a tal esfera e não pôde alterar sua decisão.
Esan disse que ela se chamava Olho de Grong. Ela era capaz de assumir a forma que ele conseguisse criar, e absorvia qualquer elemento que tocasse, até mesmo poderes lançados em sua direção, armazenava-os e permitia seu uso quando achasse necessário. Para usá-la da forma correta, primeiro teria que fortalecer sua mente, torná-la capaz de passar a sua essência para a arma, caso contrário, ela seria apenas uma bola inútil, impossível até de ser arremessada, pois quando sentiu sua essência, colou nele como se fosse um ímã. Choi teria que aprender até mesmo como se livrar dela. Lançando um olhar para o grandalhão à sua frente, que continuava a observá-lo em silêncio, Choi suspirou. Sabia que tinha que se concentrar, tal como Esan orientou, mas estava com dificuldade para conseguir tal proeza naquele momento. Só conseguia pensar que teria uma luta com a Mona. O que iria fazer? Ela certamente ficaria mais do que feliz em finalmente ter a oportunidade de lhe dar uma boa surra, e pelo visto teria até a participação especial de um arco, mas Choi não sabia o que uma derrota significaria para ele naquela situação. Esan desistiria de ser seu Mestre?
Seu objetivo maior ali em Payre era ajudar Alexis, Angel e Lali na missão para poderem voltar para casa, como poderia fazer isso se seu treinamento não fosse um total sucesso? Já ouvira falar que Esan era o melhor guerreiro de Sylesth, tendo sangue real, competia até mesmo com Erak. Seria fenomenal ser seu aluno, mas e se sua derrota acabasse com essa chance? Não tinha ideia do que poderia lhe acontecer nesse caso. Provavelmente lhe indicariam outro Mestre, mas esse não seria uma Guardião, nem alguém poderoso, pois todos desse nível já estavam naquele grupo.
— Se continuar remoendo questões sem importância, jamais conseguira utilizar o Olho de Grong. – Esan comentou de forma paciente.
— Eu sei disso. Mas não estou no meu melhor momento para usar meus “incríveis poderes mentais”.
— Quando estiver em uma batalha, lutando para salvar sua pele e a de seus amigos, perceberá que esse momento foi o mais alegre de sua vida.
— Não conte com isso – Choi resmungou baixinho.
Esan inclinou a cabeça para o lado, analisando-o com certa suspeita.
— O que está o afetando tão profundamente? É a garota?
Bem, se aquele seria seu “guia espiritual” era melhor deixar as coisas às claras logo.
— Sim.
— Não quer lutar com uma Humana?
— Por ai.
— Ah. Com essa Humana.
Certo. O cara não era um musculoso sem cérebro, por isso Choi limitou-se a dar de ombros. Após alguns minutos, durante os quais Choi permaneceu olhando fixamente para o objeto em suas mãos, Esan comentou:
— Se não quer ferir a garota, lhe dou um conselho: lute com ela. – Choi não pode deixar de erguer a cabeça e fitá-lo com sua melhor expressão de “você fumou algo”? Mas Esan não se abalou e continuou: — Você será o único oponente que Mona enfrentará que não terá como objetivo matá-la. Essa é uma oportunidade para a ajudara descobrir seus poderes, tanto quanto você mesmo. – Esan olhou-o com tranquilidade – Eu não vou deixar de ser seu Mestre se perder essa luta. Mas estará impedindo-a de aprender a se defender e a lutar caso perca apenas para poupá-la de alguns machucados que serão curados em minutos por nossos Curadores.
Choi apertou a esfera com força entre seus dedos.
— Não serei capaz de feri-la, mesmo que de leve. Ainda que seja para o bem dela.
Esan olhou para a janela por alguns instantes, antes de dizer:
— Sabe o que enfrentarão daqui há apenas alguns dias? – Claro que Choi não sabia. – Um Deiroon.
— Ora, viemos para Payre por esse motivo.
— Não, não estou me referindo à guerra. Estou falando da finalização de seus treinamentos. Para testar se estão aptos a iniciar a jornada pelos reinos, cada um de vocês terá que matar um Deiroon. Sozinho.
— Certamente irão impedir que eles nos transformem em carne moída, caso a coisa não saia tão bem.
— Sim, irão. Mas e depois? — sem esperar pela resposta de Choi, Esan continuou — Como eu disse, não deixarei de ser seu Mestre se perder essa luta. Mas me recuso a treinar alguém que não sabe o real significado de proteger. Proteger é possibilitar que a pessoa também possa cuidar de si mesma. Não podemos ser arrogantes e pensar que estaremos sempre por perto, isso seria muita irresponsabilidade. E eu não seria capaz de orientar um irresponsável que não sabe o valor de uma pessoa que é capaz de confiar na própria força para sobreviver.
Dizendo isso, Esan saiu da sala, deixando Choi encarando o Olho de Grong, enquanto refletia sobre as palavras duras, porém muito verdadeiras. Ninguém naquele grupo estava disposto a proteger Mona, nem mesmo o irmão dela. Se fosse necessário, até Alexis faria, mas unicamente pela missão. De qualquer forma, ela estaria por conta própria, então como poderia ajudá-la? Ainda que estivesse em meio a uma campanha para tirá-la de sua cabeça, não era forte o suficiente para não se preocupar com ela. Precisava ajudar Mona. E, pelo visto, precisava a salvar de si mesma, pois Mona só teria isso.
Decidido, Choi concentrou toda a sua atenção na esfera, e finalmente viu acontecer algo.
***
Mona não quis encarar Noor, sabia que ela estava extremamente irritada e não a culpava por isso. Por um momento imaginou que aquela mulher louca iria bater nela, mas a alien limitou-se a andar cheia de fúria a sua volta, a ameaçando e a chamando de Humana estúpida. Em outro momento qualquer, Mona teria revidado. Em algum outro dia, teria partido pra cima dela, teria sido tão ofensiva e cruel quanto Noor. Mas não naquele dia, não quando ainda ouvia a voz de Choi partida, tal como sentia todo seu corpo. Não quando percebeu o fim em cada palavra de raiva dele. Um fim que não havia como alterar.
Então deixou Noor lançar seu veneno, suas palavras duras. Quem se importava? Achava inútil aprender a criar flechas a partir de sua essência, como a Oberoh tentava ensiná-la. Até parece que seria capaz de fazer isso ao lutar contra o Choi. Mesmo depois de ele tê-la ferido tanto, e de tantas maneiras, sabia que não era nem de perto o que ela mesma já havia feito com ele antes. E agora queriam que ela ferisse seu corpo? Era risível. Não faria isso, de forma alguma.
Finalmente Noor desistiu dela, com altivez saiu da sala dizendo para segui-la, pois estava na hora da luta e que ela ficaria muito satisfeita quando Choi a massacrasse. De uma forma doentia, Mona também ficaria, afinal, não seria uma espécie de redenção por tudo? Ela sabia a dor de ter seus sentimentos rejeitados e pisados. Ela havia provocado isso nele por três anos. Ficar inconsciente em uma luta seria tão mais simples e menos doloroso, que mesmo que Choi a acertasse repetidamente, ainda sofreria menos.
Chegando ao salão em que todos os esperavam, viu que o centro estava livre e a Rainha, graciosamente o indicou para ela. Calmamente Mona foi até lá e aguardou pela chegada de Choi. Sentindo o leve peso do arco, ficou admirando sua beleza, enquanto o tempo passava. A prata e os desenhos de flores em linhas levemente douradas deixavam-no com uma aparência delicada, mas sólida. Era interessante notar que ele não tinha um fio, segundo Noor, ele teria que ser criado a partir de sua essência, assim como as flechas.
Ouviu passos se aproximando, que tiraram sua atenção da arma. Era Choi, não ergueu a cabeça para confirmar isso, mas o comando de Esan para que ele fosse para o centro do salão, onde ela estava, tirou suas dúvidas. E o reflexo dele no chão a sua frente fez com que apertasse com força a peça em suas mãos. O que ele iria fazer?
Ainda que se visse merecedora de sua fúria, lhe doía pensar que ele seria capaz de bater nela, não em função da questão física, mas sim pelos sentimentos envolvidos no ato. Ela, mesmo estando furiosa e machucada, não seria capaz disso. Ainda que em muitos momentos no passado deixasse visível certa vontade de jogar coisas nele, de espancá-lo por ser tão intrometido, por não deixá-la em paz, jamais teria conseguido feri-lo. Nunca.
Mas e ele? Choi, depois de tudo, estaria tão indiferente a ela que chegaria a esse ponto?
Ela aceitava e temia o que aquela luta lhe reservava.
Mantendo os olhos no reflexo dele no chão, Mona ouviu uma Noor muito raivosa dizer:
— Então? Precisamos inserir informações em seus cérebros humanos para que saibam o significado da palavra “luta”? — um riso soou, carregado de deboche – Eu sei que não há necessidade disso, as pessoas da Terra entendem muito bem sobre isso.
“Tanto quanto os payreanos” Mona pensou, dado que eles estiveram sempre em meio a guerras. Mas estava mais angustiada pela falta de reação de Choi do que pelas palavras ferinas da sua Mestra Bruxa.
Um movimento repentino a sua frente fez com que erguesse a cabeça, a tempo de ver o olhar inexpressivo de Choi. Ele ergueu a linda bola azul com a mão direita, a posicionando com a palma aberta para cima. A esfera passou a flutuar sobre a palma estendida, assim que Choi ergueu a mão esquerda e colocou-a ao lado da outra, a esfera se dividiu em duas, ficando cada uma sobre uma mão estendida. Então os olhos cor de chocolate do rapaz brilharam e as duas peças de metal luziram no mesmo tom castanho dos olhos dele, assim que o brilho se intensificou, elas foram mudando de forma e se adaptando as mãos do rapaz, como se fossem um par de luvas sem dedos. Quando o brilho sumiu, todos notaram que na pele de Choi tinham sido deixadas marcas azuis, tatuagens em formas de círculos fechados, uns sobre os outros.
Era evidente a surpresa de todos na sala. Os terráqueos, por algo como aquilo ser possível, e os payreanos, por ele ter conseguido fazer tão facilmente. Sabiam que só podia ser pelo sangue que ele havia bebido um dia antes, mas era inegável que o controle mental do rapaz era acima do que esperavam. Os payreanos já se questionavam o quanto haviam subestimado a essência da Deusa Ashy que existia neles.
Mona estava bastante impressionada com a exibição do seu oponente, mas nem mesmo isso tirou-a de sua apatia. Também tinha bebido o sangue de Alexis e dos Reis, assim como os demais, com exceção de Angel, ainda que ela tivesse quase fumegado de raiva por ser a única excluída, então sabia que talvez fosse capaz de controlar seu arco, até mesmo sentia algo como uma corrente elétrica entre a sua pele e o metal da arma, mas não iria reagir. Ela tinha optado por pedir desculpas dessa maneira. Podia até ser meio covarde, mas era uma escolha sua, e era um alivio poder fazer alguma escolha ali, afinal desde que chegara em Payre, nada havia acontecido por decisão sua.
Assim que seus olhos encontraram os de Choi, nova surpresa. Ele ergueu o braço e fechou os punhos depois de flexionar os dedos, como se estivesse pegando algo no ar. Mona arregalou os olhos quando entendeu, ele havia pegado o próprio ar e o jogou na sua direção. Ela sentiu uma ventania ao seu redor, mas nada realmente agressivo, contudo, quando ele fez o mesmo movimento com a outra mão, ela sentiu seu corpo ser arrastado para trás, em questão de segundos, estava sendo lançada contra a parede, do outro lado do salão. Não doeu, pois seu corpo estava muito resistente, mas a desorientou.
Mona ficou estirada no chão, olhos muito abertos, vendo Choi aproximar-se com passos decididos. Quando a ponta dos sapatos dele quase tocaram os seus pés, ele parou e olhou-a de cima. Mais uma vez ela notou a estranha falta de qualquer expressão no rosto e nos olhos dele. Aquilo era ainda mais assustador que raiva ou a repugnância. Era a indiferença. O nada.
— Então vai ser a mártir dessa vez? – o riso dele também não deixava transparecer qualquer emoção. – O que está querendo? Que eu a deixe em farrapos para que possa encenar a peça “a pobre garota que expiou seus pecados”? Você é mesmo ridícula.
Aquilo doeu. Tanto que sentiu seus pulmões arderem, pois evitava até mesmo respirar. Como se até mesmo esse ato natural pudesse desencadear ainda mais dor.
E ele, insensível a isso, continuou:
— Sabe, pensei mesmo em deixar que me acertasse alguns golpes e que me nocauteasse, afinal, caramba, sou um cavalheiro. Mas, desde quando você é uma dama? Desde quando você é alguém que entenderia uma gentileza dessas? Não. Nossa Mona é uma criatura que até mesmo sentiria prazer em fazer isso.
— Eu não...
— Não? Ora, Mona, mantenha pelo menos algum ponto positivo sobre si mesma, continue sendo a criatura capaz de falar com honestidade qualquer coisa que pensa. Quantas vezes me imaginou nos seus alvos?
— Isso foi antes.
— Antes de perder seu príncipe perfeito? Antes de perder a cambada de babões que te idolatravam, idiotamente me incluo ai, antes de perder o status e a popularidade? Antes de perder seu pai? De estar sozinha?
Quem era aquele Choi?
Mona não era capaz de reconhecer aquele sujeito frio e cruel a sua frente. Ele disparava palavras afiadas e duras, que cortavam e batiam tão forte e tão profundamente que pareciam despertar mais do que auto piedade nela. Era fúria.
— Eu vou ser muito franco com você. Por respeito aos velhos tempos. – um canto dos lábios cruéis se ergueu, num arremedo de sorriso. – Ninguém aqui está preocupado com você. Os payreanos só vão protegê-la porque precisam de você viva. Alexis e Angel não estão nem ai com o que vai lhe acontecer ao final disso tudo. Lali nem a conhece, mas ainda assim eu já adianto que você não é muito querida por ela. Ren, embora seja seu irmão, por favor, o cara é capaz de te usar como ponte se isso fizer com ele volte para seu lar doce lar. E eu – os olhos castanhos ficaram quase negros, profundos e sombrios. – Eu realmente espero que possa voltar para casa, para seu querido papai, mas não me importo com isso. Eu não ligo para o que vai acontecer com você. Ninguém liga.
Decepção. Culpa. Angustia. Raiva. Dor.
Mona sentiu tudo ao mesmo tempo. Sua mente antes inerte agora estava girando para tantos lados que a deixava zonza. Ele tinha razão. Ninguém ia se importar com ela. Não era amiga de nenhum deles, nem mesmo próxima, até seu irmão era um estranho. Ela podia se sentir culpada, mas e dai? Quem ia dar bola para isso? E a dor que sentia era apenas sua, assim como seu ressentimento pela situação em que estava.
O que queria fazer? O que podia fazer?
Estava sozinha em um mundo estranho.
Queria voltar para casa? Sim. Sentia falta dos seus pais, ainda que seu pai fosse indiferente, sua mãe a amava e sua adorável avó.
Também queria ser a Monalisa de Choi. Não iria abrir mão disso. Ela era a garota que passara dezessete anos se esforçando para despertar o amor do pai. Fracassara. Mas não havia sido um desperdício total, ela havia aprendido a ser persistente e a lutar cegamente por seus objetivos. E para lutar, precisava sobreviver, e isso só dependeria dela mesma. Ninguém ligava para ela. Podia aceitar a dor, a decepção, a angustia que esse pensamento causava. Mas não, ela era Mona, e aceitaria a raiva, pois era a única coisa naquele momento que lhe daria forças para sobreviver.
Ela estava sozinha em um mundo estranho.
Então ela precisava ser mais forte do que todos.
Se erguendo lentamente, Mona ficou de frente para Choi. Ergueu o arco até ele ficar na altura do peito largo do rapaz. Os olhos dourados luziram como poças de ouro, uma linha dourada surgiu no arco, e uma flecha incandescente se formou, posicionada entre a linha flexionada e a mão feminina, firme e sem hesitação.
Com os olhos fixos nos dele, Mona lançou a flecha.
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