Destinados à Payre
24 Hora de Despertar
Notas iniciais
–- Ele está acordando. Chamem a Rainha.
Alexis ouviu aquelas palavras soarem distantes e levemente abafadas. Chamar a Rainha? Sua mãe já estava morta.
Sua mente confusa subitamente lhe trouxe algumas lembranças. Memórias de uma verdade descoberta através de uma espécie de sonho.
Procurando entender o que acontecia, ele abriu os olhos. E pânico o tomou. Estava mergulhado em água. Havia água para todos os lados, e mesmo não tendo nada em suas narinas e boca, era capaz de respirar. Aquilo o chocou e o deixou desnorteado. Sem entender o que acontecia, jogou o corpo para frente, batendo em um vidro, só então percebendo que estava preso. Mais pânico, dessa vez fora de controle. Seus punhos batiam com força contra sua prisão claustrofóbica.
–- Tire ele dali! Rápido!
–- Estamos tentando, Majestade!
A água começou a sumir, assim como a sua consciência. Sem a água ele não conseguia respirar. Era apenas o início do seu pesadelo.
***
–- Noor, os Guardiões estão requisitando a sua presença. Todos os Humanos já acordaram.
–- Ela também?
–- Não. Ela ainda não.
As vozes eram estranhas. A língua era totalmente desconhecida, mas por algum motivo, ele era capaz de entender o significado de cada palavra.
Alexis abriu os olhos lentamente. Não estava cercado por água dessa vez, mas por três pessoas desconhecidas. E absolutamente não humanas.
Quando fechou os olhos, cansado, imagens de uma garota loira lhe veio à mente. Angel. Ela estava morta. A dor o tomou, atingiu cada célula do seu corpo. Era tão poderosa que ele não foi capaz de suportar. Relaxando o corpo, mais uma vez adormeceu.
***
Noor observou o Príncipe voltar a dormir. De novo. Já havia perdido a conta de quantas vezes isso tinha acontecido desde que ele foi tirado da capsula de cristal. Até mesmo os Humanos, obviamente bem mais fracos do que ele, já tinham despertado e recuperado totalmente a consciência. Apenas Alexis e uma das garotas Humanas ainda permaneciam inconscientes.
A Oberoh suspirou, saindo do quarto. A tal garota nem sequer tinha sido retirada do tubo. Estavam todos receosos do significado disso, pois ela não tinha dado qualquer sinal de reação desde sua chegada. Os seus sinais vitais estavam abaixo do normal e ela não reagia a nada que era tentado para fazê-la se recuperar. Não sabiam o que fazer se ela morresse. Qual seria o propósito de sua vinda se isso acontecesse?
A inconsciência do Príncipe também preocupava. Ao contrário da garota, ele estava totalmente bem, mas não despertava completamente. Parecia mais como se não quisesse fazer isso. Mas por quê?
A Rainha Syka tinha dito que conseguira conversar com ele, com o uso de seus poderes, sem nenhum problema. O processo no qual foram passadas várias informações sobre Payre havia sido um completo sucesso. Então o que o fazia continuar adormecido?
Era uma situação realmente frustrante. Quase tanto quanto ter descoberto que, para seu profundo ódio, a namorada Humana do Príncipe, era no fim das contas, uma das escolhidas de Ashy. Angel também estava em Payre. Mas talvez não sobrevivesse. E, honestamente, Noor não conseguia ficar completamente descontente com isso. Embora, sendo uma dos Guardiões, sua missão fosse protegê-la.
***
–- Já se passaram muitos meses.
–- Sim.
–- Como estão os outros?
–- Estão se adaptando bem, Majestade. Apenas, com a compreensível dificuldade de entender que tudo isso é real. – Um toque de ironia. – E que não estão mortos.
Não estava morto? Alexis sentiu pesar ao ouvir aquelas palavras.
As vozes já lhe eram familiares, as duas vozes femininas eram as que mais escutava quando voltava a consciência, embora às vezes preferisse apenas ouvir e novamente adormecer. Já estava prestes a fazer isso, quando alguém o chamou.
Apenas um sussurro. Mas era ela.
Sentindo seu coração disparar, ele abriu os olhos e se ergueu. Estava sentado em uma cama, com lençóis muito brancos, quase ofuscantes. Quando ergueu a cabeça, seus ouvidos latejaram, como se o sangue estivesse correndo muito rápido ali. Não conseguiu ouvir direito e seu estômago se contorceu. Uma náusea intensa o assaltou subitamente.
–- Alteza! Por Erow! Ele acordou!
–- Chamem o Curador! Rápido!
Mãos tentaram segurá-lo, mas ele não queria ficar ali. Com dificuldade, ficou em pé, mas seus pés não o sustentaram, e Alexis desabou no chão.
Sentiu mais mão tentando ajudá-lo, mas dessa vez ele permitiu. Foi colocado deitado novamente sobre a cama. Olhando para as estranhas pessoas à sua volta, perguntou, em uma voz rouca e baixa, em uma língua desconhecida, mas que percebera ser a usada por aquelas pessoas:
–- Angel está aqui?
Uma mulher pequena, com cabelos lilases e bondosos olhos cinzentos, estranhamente familiares, respondeu:
–- Ela está, meu querido.
–- Quero vê-la.
A mulher olhou para o homem ao seu lado. Ele balançou a cabeça de forma positiva. Então ela voltou sua atenção para Alexis.
–- Meu nome é Syka, Alexis. E nós vamos levá-lo até ela.
O nome lhe trouxe lembranças, mas que logo lhe escaparam, pois foi rapidamente erguido por dois homens muito altos. Um tinha longos cabelos negros, presos em uma trança. Seus olhos eram cinzentos, como os da pequena mulher, mas não havia nenhuma bondade neles. O outro homem também usava uma trança muito comprida, mas seus cabelos eram de um loiro escuro e seus olhos verdes eram mais amistosos do que os do seu colega.
Alexis foi praticamente carregado até uma porta. Ela foi aberta de forma automática e eles entraram no que lhe pareceu um elevador muito grande, pois coube ele, os dois grandalhões, Syka, um homem todo de branco com espantosos cabelos vermelhos e mais outra mulher, essa mais alta que a aquela que havia se apresentado, mas também com uma cor incomum de cabelos. Eram azuis, quase cinzentos. Contudo, o que mais lhe chamou a atenção foram os olhos, pareciam não ter pupila e também eram de um azul acinzentado.
Quando todos estavam acomodados no espaço, a porta se fechou e alguém informou “Sala de Recuperação”. Alexis sentiu seu estômago se contrair por alguns segundos, mas foi o suficiente para lhe roubar o fôlego. Quando soltou o ar, ao mesmo tempo em que a porta era aberta, ouviu uma risada abafada de um dos homens que o ajudavam. Podia apostar que era do moreno.
–- Desculpe não tê-lo alertado sobre isso. – Syka disse com suavidade, naquele idioma que ele não conhecia, mas que era capaz de compreender, e falar. – Estamos tentando nos adaptar sobre as reações que o nosso mundo podem causar no corpo de um Humano.
–- Ora, ele não deveria ser mais resistente, mãe?
A pergunta estava carregada de ironia. Alexis estava certo, o cara de olhos cinzentos parecia ter uma certa antipatia por ele. Contudo, o mais surpreendente foi saber que ele era filho daquela delicada mulher, pois ela parecia ser no máximo sua irmã, afinal não aparentava ter mais do que vinte anos.
–- Ele ainda tem o corpo de um Humano, portanto, está sujeito as implicações disso. – Havia paciência nas palavras dela, ainda assim, um rápido brilho de advertência passou por seus olhos.
Mal tinham saído do elevador, mais rápido que ele já conheceu, outras três pessoas se juntaram ao grupo. Um homem e duas mulheres, todos vestindo as mesmas roupas do sujeito ruivo. Uma espécie de casaco curto, branco, calça muito larga e sapatilhas, também brancas. O mais estranho, além do fato de terem olhos de variados tons de roxo, eram as pupilas verticais, como as observadas em cobras. Os cabelos eram todos em tons alaranjados e a pele muito clara, coberta por minúsculas sardas, da mesma tonalidade dos olhos.
Sentindo sua mente um pouco mais limpa, ele tentou se firmar, procurando dessa forma observar melhor as pessoas que o rodeavam. Todos estavam em silêncio, parecendo ansiosos em lhe dar tempo para se acostumar com o que via. E ele realmente estava precisando desse momento. A imagem daquele grupo era chocante. Syka, ou a Rainha, como se dirigiam a ela, tinha orelhas pontudas e o homem moreno era seu filho, ainda que ela parecesse muito mais jovem do que ele. O sujeito loiro tinha o corpo coberto por símbolos azuis. Ruivos com sardas roxas e olhos de cobra o encaravam. A mulher de cabelos azuis tinha a pele ligeiramente brilhante, quando ela se movia parecia refletir como vidro.
–- O que são vocês?
–- Você lembra-se do sonho, Alexis? – A Rainha perguntou com sua voz melodiosa. Melodiosa e familiar.
O sonho. Os Três Deuses. Payre.
–- Não foi um sonho. – Alexis sussurrou para si mesmo.
–- Tem razão, não foi. Eu lhe contei sobre Payre. Sobre nós.
–- Eu estou em Payre agora?
–- Sim, você e os Humanos da Deusa Ashy.
–- Os humanos da profecia.
A Rainha Syka sorriu.
–- Exatamente.
–- Quem são eles? Os humanos mencionados.
–- Monalisa, Rembrandt, Esha Lali, Choi Hee e Angel.
Seu coração disparou. Angel. Ela não estava morta. Naquele mundo, em Payre, ela não estava morta. Ainda que estivesse surpreso com quem também estava ali, só conseguia focar sua atenção na possibilidade de ver Angel novamente.
–- Como a Angel está? Por que ela está em uma “sala de recuperação”?
A Rainha fez sinal para duas pessoas da equipe de branco. Eles se apressaram em seguir a frente do grupo que voltou a caminhar, dessa vez por um lugar parecido com um labirinto de vidro. Imagens de coisas que ele não era capaz de entender apareciam de forma aleatória na superfície desses vidros que lembravam telas, mas eles eram capazes de cruzar por essas imagens, como se elas não fossem sólidas. Lembravam os hologramas dos filmes de ficção científica, só que com uma qualidade muito superior. Reparou que algumas figuras saiam das telas, ficando soltas pelo ar, se deslocando entre elas.
Os homens, que ainda o carregavam, pararam em frente a uma parede. Alexis logo percebeu que era na verdade uma porta, que não se abriu, ela simplesmente sumiu. O material, que ele tinha imaginado ser um tipo de metal, simplesmente derreteu, do meio para as bordas. Voltando ao normal quando eles passaram por ela.
Quando o grupo entrou na ampla sala oval, ele deixou de questionar as coisas à sua volta, pois, dentro de um dos gigantescos tubos de vidro, que se espalhavam pelas paredes da sala, estava Angel.
Ela se encontrava dentro de um enorme aquário, cheio de água. Era provável que ele também tivesse sido colocado em um daqueles tubos. Ainda recordava do desespero que tinha sentido ao ficar preso ali dentro. Preocupado com essa ideia, observou que Angel estava de lado, seu corpo nu em posição fetal. Os braços abraçavam as pernas enquanto seu rosto repousava sobre os joelhos. Seus longos cabelos prateados, mais longos do que ele tinha visto da última vez, flutuavam suavemente ao seu redor.
–- Por que ela está ali dentro? – Ele perguntou sem desviar os olhos da imagem à sua frente. Todo seu corpo gritando para tirá-la de lá. Mas aquele era um lugar cheio de particularidades, precisava entender o que acontecia para não machucá-la.
–- Ela está se recuperando da viajem, Alteza. – O homem com cabelos flamejantes respondeu. – Todos vocês foram colocados nessas cápsulas de cristal quando chegaram em Payre. Foi uma viajem muito longa e difícil, que prejudicou tanto seus corpos quanto suas essências. Dentro dessas cápsulas, a água de Payre foi capaz de curá-los e mantê-los estáveis até que pudessem recuperar a consciência.
Alexis observou que havia mais cinco tubos, todos estavam vazios, com exceção daquele no qual mantinham Angel. Onde estavam os outros? Por que ela era a única ali?
Desvencilhando-se dos dois homens, que ainda o seguravam, virou-se para a Rainha. Aquela, que no sonho, tinha dito ser sua mãe. Uma mãe que estava viva. Sacudindo a cabeça ele procurou deixar isso de lado. Não era capaz de assimilar tantas informações inacreditáveis. Para ele aquela história todo dizia respeito a outra pessoa. Um outro sujeito era o tal Predestinado, não ele. Ele era apenas Alexis e sua prioridade naquele momento era saber o que estava acontecendo com Angel. Depois pensaria na loucura toda em que estavam. Se é que realmente estava acordado. Ou vivo.
–- Onde estão os outros? Disse que vieram mais humanos conosco, por que a Angel é a única que está “se recuperando”?
–- Os demais estão bem e nesse momento estamos ajudando na adaptação deles a esse mundo. Logo poderá vê-los. – A Rainha Syka olhou para a garota Humana dentro do tubo de cristal. – Angel ainda está lá porque foi a única que não recobrou a consciência.
–- O que isso significa? – Alexis também olhou para Angel. Sua voz traiu sua ansiedade. Controle. Seus sentimentos oscilavam e era com muito esforço que ele mantinha suas emoções. Ele tinha que manter o controle.
–- Também não sabemos. – Ela passou as mãos pelos cabelos, suspirando.
Aquele gesto chamou sua atenção. Era estranho ver a Rainha agir de forma tão “natural”. E, ainda mais desconcertante, perceber que era um gesto parecido com o que ele próprio fazia com frequência, como uma vez Angel havia observado.
Foco. Ele precisava disso, ou enlouqueceria ali. Fechando os punhos com força, a ponto de machucar suas juntas, perguntou com o máximo de domínio de si mesmo que pode juntar:
–- Não sabem? Não foram vocês que planejaram tudo isso?
–- Nós apenas seguimos as orientações deixadas pelos Serines.
Alexis lançou seus olhos assustados sobre Angel.
–- Quatro. A profecia falava em quatro humanos. – Ele murmurou, uma ideia tomando sua mente e fazendo-o sentir as pernas fraquejarem novamente. – Choi, Ren, Mona e Lali. Quatro. Não cinco. Quatro.
–- É isso que também não entendemos. Por que vieram cinco?
–- Bem, temos algumas teorias. – Uma das mulheres ruivas falou. – Pode ser por causa dos gêmeos. Rembrandt e Monalisa. Talvez eles compartilhem a mesma essência.
–- Sim. – Aquele que parecia o líder da Equipe Branca concordou. – Isso é possível, pois não sabemos exatamente como funcionou a transferência da essência da Deusa Ashy. Então faria sentido serem cinco. Além disso, os próprios Serines deixaram registrado que seis capsulas deveriam ser construídas. Eles sabiam que viriam seis pessoas e não apenas cinco. Mas, — ele piscou seus estranhos olhos – isso não explica o porquê da inconsciência da Humana.
–- Fizemos algumas análises sobre isso. – O outro sujeito ruivo também se aproximou do grupo. – Angel estava fragilizada quando veio para cá, ela estava praticamente... morta. – Ele lançou um olhar, cor de ameixa, cheio de desculpas para Alexis. – Talvez a única coisa que a mantenha viva agora seja a água de Payre e esse longo tempo é porque muito precisa ser curado.
Alexis olhou para as estranhas pessoas a sua volta, todos o encaravam com diferentes graus de curiosidade, com exceção dos frios olhos cinzentos. Ali só havia desprezo.
Irmão. A palavra surgiu na sua mente, mas Alexis tratou de bloquear qualquer pensamento sobre isso. Não era o momento.
–- Se não sabem exatamente o que está acontecendo e tudo o que tem são possibilidades, quer dizer que não fazem a mínima ideia se Angel vai despertar, é isso?
Silêncio.
Frustrado, temeroso e com suas forças se esvaindo cada vez mais, Alexis questionou, a ninguém em particular:
–- Há quanto tempo ela está assim?
–- Três anos. – A Rainha respondeu. – Vocês todos vieram há três anos.
Alexis sentiu sua cabeça ficar leve, mas manteve-se firme. Não fraquejaria na frente daquelas pessoas que o analisavam minuciosamente, como se ele fosse uma aberração sendo apresentada em um espetáculo. Tinha aprendido ao longo dos seus... Espere. Ele já não tinha mais dezessete anos. Esteve por três anos naquele mundo, adormecido.
Sua cabeça latejou fortemente e isso o fez levar a mão à testa, mas mal concluiu o movimento, já estava sendo carregado dali. Não conseguiu sequer entender quando começaram a retirá-lo da sala.
Agora ele estava irritado.
–- Me soltem!
Todos se afastaram, apenas um par de mãos femininas, muito frias, manteve-se firmemente em seu braço.
–- Alteza, — era a mulher de cabelos azuis, aquela que sempre estava no quarto quando ele acordava. – seria melhor voltar para o quarto e descansar. Esteve por três anos completamente inativo, precisa repousar ou entrará em colapso.
Alexis apenas a fitou, seus olhos azuis gelados, tanto quanto suas palavras.
–- Me solte. Agora.
Ela o largou, exibindo uma expressão estranha, como se estivesse ofendida. Ou magoada.
Ignorando o grupo que se manteve distante, Alexis foi em direção a capsula na qual estava Angel. Quando se aproximou o suficiente, ergueu a mão e tocou no cristal. Seu coração se contorceu, uma mistura de alegria e pesar. Ela ainda estava viva, ainda estava com ele, mas ao mesmo tempo tudo era incerto e obscuro.
Ele, pela segunda vez, soube o que era sentir medo. Encontrava-se em um mundo desconhecido, cercado por seres que não eram humanos, atordoado com uma gama de informações sobre si mesmo que não era capaz de absorver, sobre as quais não era nem capaz de pensar. Não sabia se sonhava, se estava em algum tipo de pós vida sobre o qual nunca tinha ouvido falar. Estava desorientado. Mas o pior, o mais assustador. Estava prestes a perdê-la. De novo. Não podia, ela não devia fazer isso com ele.
–- Nem pense em me deixar sozinho em um lugar desses, Angel! – Sua voz soou mais alta do que gostaria, mas já estava no limite do controle de suas emoções. – Acorde! – suas duas mãos abertas, pressionaram o vidro com força, como se assim pudesse alcançá-la. – Vamos lá, vai realmente perder pra mim dessa forma? Eu disse que era mais fraca do que eu, sua arrogante! Acorde, Bela Dorminhoca! Acorde, droga!
Alexis notou que alguma coisa havia mudado quando todos começaram a falar ao mesmo tempo. Mas o que realmente lhe mostrou que tinha acontecido algo novo foi a vibração que sentiu sob suas mãos. Pequenas luzes começaram a piscar na água, cercando completamente o corpo de Angel.
Ele vibrou com o delicioso calor da esperança o aquecendo. Sua Angel jamais admitiria uma derrota fácil assim. Principalmente para ele. Aquela pequena orgulhosa.
–- Ela está sonhando! – Alguém gritou ao seu lado.
Sem tirar as mãos do vidro, ele olhou para o homem que observava fascinado imagens brancas como nuvens, em uma espécie de tela.
–- O que isso significa?
–- Significa que ela, pela primeira vez desde que chegou a Payre, está consciente!
–- Poderemos monitorá-la, ajuda-la a se recuperar e lhe fornecer acompanhamento para se adaptar ao nosso mundo. – uma das mulheres ruivas acrescentou, também absorta nas imagens.
Alexis já estava prestes a fazer uma nova pergunta, mas calou-se quando viu a imagem de si mesmo se formando em meio ao que agora parecia uma neblina. Angel estava sonhando com ele.
Sorrindo, assistiu Angel imitar uma expressão de raiva que ele exibia, gargalhando quando ele ficou ainda mais irritado. Outra pessoa apareceu na tela. Era uma mulher oriental, rindo alegremente, enquanto fazia uma trança em longos cabelos louros. Aquela certamente era Hye Kyo. Em seguida, seu rosto apareceu novamente, agora adormecido sobre um travesseiro, banhado pelo luar. Dedos pequenos e pálidos delineavam lentamente seus traços, parando nos lábios. Após beijá-lo, ela encostou o rosto junto ao seu e também adormeceu.
Alexis não foi capaz de afastar os olhos daquela imagem. Precisava da familiaridade e das emoções que Angel lhe provocava para manter a sanidade. Quando sentiu seus olhos piscarem, cada vez mais frequentemente, percebeu que estava no limite das suas forças. Quando suas pernas fraquejaram, apoiou a testa no cristal, entre as mãos, ainda mantidas ali. Em sua cabeça cheia de temores, receava que se quebrasse o contato com ela, Angel poderia voltar a dormir. Por isso, quando perdeu a consciência, Alexis deslizou até o chão, apoiado no cristal em que ela estava. Caído e totalmente apagado, uma de suas mãos permaneceu espalmada sobre a superfície fria, nunca se afastando dela, seu corpo enrolado junto aos pés da capsula.
Quando os dois homens se aproximaram para carregá-lo dali, a Rainha Syka, assombrada, percebeu o par de olhos incrivelmente violetas, focados em Alexis.
A tela que exibia os sonhos estava agora apagada.
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