Destinados
8 A dúvida agonizante
Notas iniciais

Eu não sabia o que fazer. Sabia o que eu não podería fazer, que era ceder ao impulso titânico de correr até a casa de Bella e sequestra-la pra longe, muito longe daqui.
Meu peito doía. Minha cabeça girava. Minhas mãos estavam ríjidas como o resto do meu corpo, e minha garganta estava travada como se alguém estivesse me estrangulando.
Olhei para o relógio da parede. Muito mais para me movimentar do que para ver as horas, que eu sabía bem devido minha sensível percepção de tempo.
Vinte minutos. Apenas vinte minutos tinham passado desde que Edward partiu para reencontrar Bella. E eu já estava enlouquecendo.
Eu sabía que podía analisar cada emoção que corria por Bella, desde quando Edward saiu até aquele exato momento. Eu nem precisaría me esforçar para experimentá-las... Eu era capaz de monitorar suas emoções em distâncias muito maiores agora... Elas vinham a mim sem que eu precisasse convocá-las. Mas eu preferi me concentrar apenas nos meus sentimentos e ignorar o que me tentava, levantando meus muros o mais alto e fortemente que pude ao meu redor, porque eu não quería sentir, em primeira mão, o amor se reerguer.
Enfiei a cabeça nas mãos, entrelaçando meus dedos em meu cabelo e puxando com força. Expirei fechando os olhos, e tentei pensar em outra coisa qualquer. Não adiantava. A dor era tanta, o medo era tão esmagador, a insegurança era tão ácida que eu quería estar queimando numa fogueira a continuar sentindo aquilo.
Como Edward pôde suportar quatro meses? Eu mal estava suportando alguns minutos! Como sería o resto da minha existência? Como eu aguentaría essa agonía cruel?
Me levantei abruptamente do sofá, uma vontade insana de arrebentar a casa toda, de coloca-la a baixo.
Fechei meus olhos novamente, apertando as pálpebras.
Eu precisava correr. Eu precisava ficar longe, o mais longe possível. Bella me procuraría quando quisesse conversar, e me dar a terrível notícia que eu já esperava, quando estivesse pronta. Isso levaría horas... talvez dias.
O pensamento me fez arquear o corpo pra frente em uma mágoa arrasadora. Eu estava agindo tão... Humanamente. Eu não me recordava a última vez que tinha sentido algo próximo daquilo... Me sentía fraco e impotente, tolo.
Como eu fui estúpido a ponto de acreditar que Bella sería minha? Mesmo que nós tivéssemos cedido aos anseios que compartilhávamos, eventualmente Edward voltaría, e a tomaría de mim de qualquer forma. O coração dela pertencía a ele. Eu sabía, sempre soube... Mas a esperçança traiçoeira havía me envolvido em seus tentáculos, e eu me deixei iludir...
Antes mesmo que eu pensasse, meus pés já estavam em movimento, me guiando pra onde meu instinto me levasse.
Eu corri. O mais rápido que era capaz. E acelerei quando alcancei o penhasco...
Nosso canto... A lembrança me fez contrair o corpo em uma bola e pegar impulso. Num salto desesperado me atirei do precipício como um míssel, atingindo o mar em dois segundos, meu peso me afundando vários metros, até que senti o barranco de areia sob minhas botas encharcadas.
Eu fiquei parado ali, com os olhos fechados, ouvindo os barulhos amenos do fundo do mar, a temperatura gélida me dando a falsa sensação de alívio, a pressão me esmagando e me segurando lá embaixo.
Eu não quería pensar, eu não podía... Não quería sentir também, mas isso eu não conseguía evitar, era intrínseco, fazia parte de minha constituição, era como uma parte de meu corpo, um orgão. E minhas emoções estavam embaralhadas e intensas demais, me fazendo agonizar.
Eu gritei, mas o som foi abafado pela imensidão de água salgada que me cobria. Os pequenos seres marinhos, que não ousavam se aproximar mais que oito metros de mim, sumiram, tão abruptamente quanto meu rugido escapou por minha garganta.
Perdi a noção de tempo. E na profundidade em que me encontrava era impossível saber se já havía amanhecido.
A escuridão me confortou um pouco, mas também acentuou a sensação de vazio que me tomava, e logo eu estava nadando, sem prestar atenção na direção.
Algo pulsava no fundo de minha mente, querendo me trazer de volta, tentando me acordar do torpor de desalento em que eu estava submerso, mas eu me esforcei para não ser atraído pela força que eu sabía de onde vinha.
Então alguma coisa no canto de meus olhos capturou minha atenção. Um flash. Um risco vermelho, muito intenso, que desapareceu assim que eu concentrei meu olhar no lugar de onde surgiu.
Parecía... Não. Eu estava atordoado demais. Confuso demais. Provavelmente tinha sido apenas um reflexo de luz num coral... O problema era que, no nível em que eu estava, a luz não alcançava as formações irregulares por onde eu agora caminhava...
A distração foi o suficiente para que minhas defesas, já enfraquecidas, cedessem completamente. E então ela me atingiu.
Eu ofeguei com a saudade potente que me alcançou como um murro no estômago, me fazendo expirar, em uma única lufada, todo o ar que ainda concentrava em meus pulmões. Ela era um reflexo perfeito da minha, mas eu reconhecía a essência para compreender que não nascía em mim... Vinha de longe, à minha busca, e me chamava de volta, para onde meu coração estava.
Emergí tão rápido quanto mergulhei. Escalei as rochas da encosta com uma urgência desenfreada, e assim que meus pés tocaram o pico das montanhas do desfiladeiro, eu já estava correndo de volta.
O dia havía raiado, e o céu estava rajado de rosa e púrpura, as nuvens cinzentas já se movendo para encobrir a luz tímida do sol que não aquecía a terra, ainda úmida com o orvalho. O cheiro me lembrava ela... Doce e penetrante, fresco e suave, limpo... E meu peito se contorceu como se eu ainda tivesse um coração vivo.
Eu seguí para a casa, em vez de ir direto ver Bella. Precisava me trocar. Minha aproximação, e o reconhecimento das emoções que fluíam até mim, me fizeram reduzir o passo, e respirar fundo algumas vezes para me preparar.
Edward estava na varanda dos fundos, a expressão neutra, os olhos graves. Emitía uma aura de tristeza e receio, culpa, mas tudo muito suave, e encobertos por uma camada densa de esperança.
Eu parei quando alcancei a borda da mata, me concentrando e me fechando em mim mesmo. E fiquei inquieto quando as emoções de Edward mudaram.
Assim que ele detectou minha presença ficou ansioso e inseguro. Ouvi seu suspirar quase exasperado, e considerei a possibilidade dele não ter sido assim tão bem sucedido em sua empreitada.
– Está tudo bem? – perguntei enquanto caminhava, a passos quase humanos, em direção a ele.
Edward assentiu, e por muito pouco eu não notei o ciúme que vibrou por meio segundo ao redor dele.
– Bella me pediu para te dar um recado... – falou com a voz evidentemente controlada – Ela quer conversar com você.
Eu afastei a esperança e o medo com uma expiração pesada.
– Ela devería estar dormindo... – murmurei pra mim mesmo, ainda que soubesse que ele podía me ouvir.
– Ela deve estar... Eu voltei há algum tempo. – Ele suspirou – Imaginei que estaría aqui.
Eu neguei e contive a dor em meu olhar.
– Fui caçar. – mentí.
Ele podería ter refutado meu argumento. Eu com toda certeza não cheirava a sangue, e minhas roupas molhadas denunciavam que eu tinha feito qualquer outra coisa além de emboscar cervos ou ursos. Mas Edward não disse nada. Me olhou como se tentasse ver o que ía por trás de meu semblante nulo, forçou minhas barreiras para vasculhar meus pensamentos, depois suspirou e desistiu.
– Eu não entendo a ligação que desenvolveram entre vocês... – murmurou hesitante – Mas é algo que eu não esperava... Que me surpreende por ser tão sólida...
Não tão sólida quanto eu desejei que fosse... resmunguei em minha cebeça.
Edward estreitou os olhos imediatamente, mas eu estava protegendo minha mente, ele não tería como ter ouvido...
– Eu vou trocar de roupa... – falei com indiferença, já passando por ele – Depois vou até lá.
**************************************************************
Demorei mais do que o realmente necessário, até mesmo para um humano.
A verdade era que eu estava tentando adiar aquilo o quanto podía, com medo, muito medo, do que Bella quería conversar comigo. Óbvio que eu tinha ideia sobre o que sería, mas uma parte de mim, que eu descobri ser inesperadamente muito escandalosa e estúpida, se agarrava a uma fagulha de esperança.
Tentei calar essa voz incoerente que berrava no fundo de meu cérebro, dizendo que Bella talvez estivesse em dúvida, o que me daria algum tempo. Eu estava certo de que não era o caso, e mesmo que fosse, não faría diferença, mas não conseguía me impedir.
Todo o tempo que compartilhamos, os sentimentos que nos conectavam, a estranha ligação que compreendemos ter... Tudo me prendía à sutil crença de que eu tinha alguma chance de trazê-la pra mim, de penetrar e permanecer em seu coração definitivamente.
Sacudi a cabeça com força, dispersando o pensamento insistente. Calcei um outro par de botas e me levantei, caminhei até a parede de vidro para olhar o dia lá fora. Estranhamente estava mais claro que de costume, alguns raios de sol escapando pelas nuvens espessas, atingindo o chão em feixes de luz pálida.
Com um suspiro pesado eu me virei. E dei de cara com Edward escorado em minha porta.
Como eu não tinha percebido ele alí?
– Aconteceu alguma coisa entre vocês... – ele murmurou, emitindo uma certeza que eu nunca contestaría.
A afirmação me pegou de surpresa, assim como sua presença. E então minha guarda estava baixa, e eu não me importei nem um pouco.
– O que te faz pensar isso? – Perguntei, sem me dar ao trabalho de esconder as emoções que eu tinha certeza de estarem expostas em minha expressão.
Edward acenou com a mão para mim, confirmando que estava evidente em minha postura.
Eu expirei enquanto sentía sua insegurança e seu ciúme me alcançar. Assim como eu, ele não estava mais se preocupando em mascarar a verdade.
– Não aconteceu nada realmente, Edward. – Assegurei.
– Mas iría acontecer... E não somente por sua vontade. Não é verdade? – Ele disse tranquilo, antes que eu pudesse terminar meu comentário.
Eu me calei, e ele continuou.
– Bella estava relutante ontem... – falou com a voz influenciada por seu receio – Ela não me contou nada sobre esse tempo em que estive longe, apenas me ouviu, mas sua atitude defensiva, a maneira como ela parecía incerta... – ele negou com a cabeça – E assim que eu pedi a ela que me desse outra chance... Ela imediatamente disse que precisava conversar com você... – Seus olhar se tornou mais intenso nos meus. Ele estava acessando meus pensamentos.
Eu estava com a mente vazía, mas não estava me protegendo de qualquer forma.
– Eu conheço a alma humana... Muito por causa do meu dom, e... – ele voltou a falar – Eu conheço a alma de Bella ainda melhor, apesar de nunca ter lido sua mente... Toda a hesitação que ela demonstrou também tinha a ver com o que eu fiz, mas, não era só isso... – ele suspirou – E depois de ver você tão... Atingido... Sua atitude espelha a dela com tanta perfeição que eu sería cego se não entendesse. Estão ambos apreensivos, como se minha volta estivesse... Atrapalhando alguma coisa...
Eu o encarei de volta, controlando os ânimos ao nossa redor. Ele não estava nervoso ou aborrecido, apenas bastante inseguro, mas meu dom agiu sem que eu fizesse esforço.
– Eu nunca ví você assim... – ele falou com uma breve adimiração, enquanto ficava ereto e cruzava os braços em seu peito – Nem com Alice, nem em suas lembranças...
– Eu não sou um rival, Edward... – Afirmei com certa mágoa. Eu quería ser. Quería representar algo suficientemente significativo para Bella a ponto de ter alguma chance de competir com Edward pelo amor dela. – O coração de Bella pertence a você.
Ele sorriu torto, sem humor algum.
– Eu não tenho mais certeza sobre isso. – a voz melancólica.
– Devería ter. – disse com frieza, e me direcionei para fora do quarto.
Estava nos pés da escada quando sua pergunta me alcançou.
– Se ela não souber mais... A quem pertence o coração? – Ele indagou, e uma potente vibração de medo cingiu tudo ao meu redor.
Eu continuei seguindo para a porta, respondendo baixo, sem qualquer entonação sugestiva, antes de passar.
– Então você terá de lutar pra obte-lo novamente... Porque eu o quero também.
E enquanto corria para encontrar Bella, um sorriso genuíno se espalhou por meus lábios, a voz dentro de minha cabeça intensificando ainda mais seu tom e argumentos.
**************************************************************
Decidi me apresentar pela porta da frente, ao invés de me esgueirar pela janela do quarto. Eu tinha me deparado com a viatura de Charlie ainda na entrada de carros, e quis cumprimentá-lo e me mostrar presente.
Depois de duas batidas ele abriu, um sorriso sincero enrrugando seus olhos castanhos, que eram idênticos aos de Bella.
– Bom dia, meu rapaz! – falou um pouco surpreso – Não esperava te rever tão cedo...
Seu comentário foi divertido, e ele se sentía confortável. Eu sorri.
– Bom dia. Eu gostaría de levar Bella até a escola essa manhã, senh... Quer dizer, Charlie. Cheguei cedo demais?
Ele sorriu ainda mais e me deu espaço pra passar.
– Não, de jeito nenhum. – Ele respondeu – Bella está tomando banho. Eu me atrasei um pouco essa manhã... Já tomou café?
– Já sim, obrigado. – mentí – Posso esperar por ela?
Ele assentiu.
– Fique à vontade. Eu vou lá em cima para avisá-la que está aqui.
Charlie subiu as escadas emitindo uma reconfortante vibração de alegria, e eu não pude evitar de me sentir satisfeito com o fato óbvio de que ele gostava de mim. Em alguns minutos ele estava de volta, depois de bater na porta do banheiro e avisar a Bella que eu a esperava no andar de baixo. Eu sentí o nervossismo ondular dela até mim, e então estava apreensivo novamente.
– Ela já vai terminar de se aprontar – Charlie me avisou enquanto pegava sua jaqueta no cabideiro – Eu estou saindo. Pretende levá-la pra passear hoje depois da escola?
Eu dei de ombros, sinceramente incerto.
– Vai depender da vontade dela. – Disse controlando o receio. Eu não sabía se, depois da conversa que ela quería ter comigo, eu me mantería em Forks.
Charlie sentiu confiança e leve adimiração.
– Gosto da maneira como age com ela, meu rapaz... – comentou – Ganhou minha confiança tão rápido quanto um piscar de olhos. – ele estreitou o olhar, tentando parecer intimidador, mas eu sabía que era apenas para impor sua autoridade paterna – Não me decepcione.
Eu sorri levemente, fingindo ter sido atingido por seu protecionismo honrável pela filha.
– Não irei, senhor. – disse.
– Pare de me chamar assim, Jasper. – ele devolveu numa risada, já retomando seu bom-humor – Me faz sentir ainda mais velho. Bom dia, filho. Leve minha menina em segurança.
Eu anui e ele passou pela porta, e alguns minutos depois eu ouvi o carro arrancar suavemente para a pista.
Tentei não me ater às emoções angústiantes que penetravam em mim. Foram quinze minutos desesperadores, mas eu precisava permanecer firme se quería que Bella fosse honseta comigo e consigo mesma.
Ela desceu devagar, o coração aos pulos. E quando nosso olhares se encontraram, eu entendi que estava completamente indefensável.
– Oi... – ela disse numa voz trêmula.
Eu me levantei e encarei seus olhos hesitantes.
– Oi. Como está hoje?
Ela deu de ombros e prendeu uma mecha de seu cabelo atrás da orelha.
– Acho que você poder responder isso melhor que eu...
Eu respirei fundo, tentando ignorar a dor que quería me distrair. Bella vincou a testa.
– Jasper, eu...
– Podemos conversar a caminho da escola. – Cortei o mais suavemente que pude – Você está quase atrasada.
Ela assentiu e me esperou passar pela porta, me seguindo logo depois.
Eu parei ao lado da porta do motorista, e ela me entregou as chaves sem pestanejar. Nós subimos na pick-up, eu tirei o carro da calçada, e seguimos em silêncio.
Eu não quería iniciar a conversa, mas estava torcendo para que ela permanecesse em silêncio até que chegássemos a nosso destino. Infelizmente as coisas não se desenrolaríam como eu desejava.
– Eu não quero magoar você... – Ela disse baixo – Mas prometemos nunca mentir um pro outro...
Eu decidi que aquele momento merecía atenção, e eu não tinha como adiá-lo.
Um atraso não a colocaría em grande apuro. Parei o carro no acostamento da via, desliguei a ignição e me virei pra ela.
Os olhos... Os portões de sua alma. Sempre me mostraram muito mais do que eu podía entender. E naquele momento evidenciavam mais do que eu quería enxergar.
– Você sabe onde está seu coração, Bella? – perguntei num sussurro.
– Eu... Eu acho que não... – ela disse, e eu fui engolido pela incerteza que emanava dela.
Abaixei a cabeça e suspirei, tentando ser forte.
Eu nunca fui fraco, nunca vacilei, nunca me detive por medo. Mas ali estava eu, subjulgado à vontade de uma garota humana, que tinha poder sobre mim, mais do que minha criadora jamais teve, mais do que minha suposta companheira, mais do que eu mesmo.
– Você não precisa segurar suas vontades por mim...
– Não estou. – ela afirmou com segurança – Eu não tenho certeza de mais nada, eu... Ontem quando Edward me pediu pra aceita-lo de volta... – ela expirou – Tudo que conseguí pensar foi em como nós dois ficaríamos...
– Você quer isso? – perguntei a olhando – Quer ele de volta?
Ela me olhou por um minuto inteiro, depois assentiu fracamente. Eu suspirei e desviei meu olhar do dela, tentando esconder a mágoa. Mas desde que ela podía senti-la, não fazía grande diferença.
– Eu quero tentar... – ela falou num murmúrio angustiado – eu ouvi as razões dele e... Eu... Eu ainda... Ainda tenho sentimentos por ele... – expirou – Eu não sei o que fazer, porque... Eu tenho sentimentos por você também e... – pausou enquanto a angústia aumentava exponencialmente – Mas eu não consigo decidir o que é mais forte... Eu... Tô tão confusa...
Engolí a dor e me resignei. Eu a quería feliz. Fosse comigo ou com ele.
– É com ele que seu coração está, Bella? – ela não respondeu – Porque se for isso, eu não vou me colocar no caminho de vocês... Eu posso abrir mão, o que me importa é sua felicidade.
– Eu já te disse... Eu não sei...
– Mas você quer ele de volta...
– Assim como quero ficar com você...
Eu paralisei com sua afirmação e a fitei com intensidade.
– Eu estou dividida... – ela explicou – Antes... Se Edward tivesse voltado logo depois... Eu não tería dúvidas, mas agora... Eu não quero perder você...
– Não pode ter a nós dois, Bella...
– Sei disso. – disse com urgência – Mas não consigo imaginar minha vida sem sua presença, Jasper...
Eu suspirei amargamente e apoiei minha cabeça no encosto do banco, fixando meu olhar no pára-brisa.
– Você terá a parte de mim que quiser, Bella... – confessei, adimitindo aquilo mais pra mim mesmo que pra ela – Se minha amizade, minha presença for tudo que quer... Então eu darei isso a você.
Ela suspirou e uma onda de alívio vibrou entre nós.
– Promete...?
Eu assenti. Incapaz de negar o que quer que fosse a ela.
– Eu sei o que está sentindo... – ela falou, e sua voz era ressentida – E eu me sinto horrível por estar fazendo isso com você, mas...
Eu me virei e segurei sua mão. Bella entrelaçou nossos dedos.
– Eu entendo. – assegurei – Eu sempre soube que isso acontecería, por isso evitei que nos envolvéssemos mais... Você não tem que justificar nada, Bella.
– Não, você não entende...
– Eu entendo sim. – interrompi com cuidado – Você o ama. Eu sei disso, Bella, eu posso sentir, lembra?
Ela sacudiu a cabeça, e uma ponta de aborrecimento se misturou à angústia que ela projetava.
– Mas eu amo você também! – Ela praticamente esbravejou, e meus olhos se arregalaram.
Eu tinha noção disto. Eu conecía os sentimentos que ela nutría por mim, mas ela nunca tinha verbalizado aquilo. Não com todas as letras... E as palavras não só me pegaram de surpresa mas me chocaram com sua veemência, sua intensidade. Congelei enquanto ela respirava aos arquejos, se refazendo de sua declaração impulsiva.
– Eu amo você... – ela repetiu, num tom melancólico e terno que me desmanchou.
Eu expirei, só então me dando conta de que tinha interrompido a respiração.
– Eu esperei tanto pra ouvir isso... – murmurei pra mim mesmo.
Então tudo em volta de nós parou. O ar se tornou denso, difícil de respirar até pra mim, e a energía entre nós dois pulsou com força, fazendo com que o toque que acontecía entre nossas mãos se tornasse insuficiente.
Bella levantou a outra mão até meu rosto, deslizando-a até minha nuca, emaranhando os dedos em meu cabelo.
Eu imitei seu gesto, e nós estávamos presos um no olhar do outro, o universo esquecido.
Não era o momento certo, aquilo parecía mais uma despedida do que um começo, mas eu não tinha mais forças, nem vontade, de me deter.
Nossos lábios se tocaram superficialmente, e ela expirou fechando os olhos. E eu estava entregue.
A maciez de sua boca me fez suspirar, antes que nossos lábios partissem silenciosamente, e se encaixassem.
Eu prendi seu lábio inferior entre os meus, querendo prolongar a sensação o máximo que podía, e então Bella deslizou a ponta da língua, me pedindo passagem, e eu lhe dei permissão.
Sua mão se apertou contra minha nuca, um gemido baixo, abafado, escapando dela quando nossas línguas se tocaram.
Eu aprofundei o beijo devagar, explorando cada canto de sua boca doce, tomando tudo que conseguía daquele momento. E por vários minutos tudo que era possível se escutar dentro da cabine da pick-up era o som de nossos lábios se encontrando, o sussurro de nosso primeiro beijo ecoando ao nosso redor, pulsando dentro de mim, vibrando em cada célula de meu corpo.
Aquele era o sentimento mais poderoso que eu já havía experimentado em toda minha existência. Era mais que paixão, mais que amor... Não existía um nome, uma definição perfeita. Era como se eu tivesse encontrado meu caminho, o sentido de minha vida, como se eu estivesse enxergando a luz pela primeira vez. E eu soube, bem alí, nos braços dela, que eu era um ser incompleto, que tinha encontrado seu outro pedaço.
Os arcos de meu sentimento tocavam os de Bella, e eles cintilavam e tremulavam como se quisessem se fundir, tornarem-se um só... As emoções dela estavam mais intensas, mais profundas, mais sólidas, e eu desejei silenciosamente que aquilo fosse capaz de fazer alguma diferença.
Quando o ar ficou mais escasso do que já estava, eu quebrei o beijo, encostando minha testa na dela, ainda de olhos fechados.
– Eu amo você, garota... – falei num sorriso, ainda envolvido pela breve realização.
O riso baixo dela quase me aliviou, mas a incerteza ainda estava alí, inegável, e não nos permitiría esquecer que não era tão simples assim...
– Você pode me dar algum tempo? – ela pediu com a voz sussurrada – Eu preciso pensar...
Eu expirei e me afastei dela, segurando seu rosto entre minhas mãos.
– Eu posso te dar o que você quiser, Bella... – afirmei, meu olhar intenso – Posso te dar até mesmo minha ausência, se você me pedir isso...
– Não, Jasper! – ela se apressou pelas palavras, pânico vibrando ao nosso redor – Não, eu não quero isso! Por favor, me prometa que não vai embora. Eu sei que estou sendo egoísta, injusta até... Mas não quero que você se afaste...
Seus olhos estavam rasos, e suas emoções tumultuadas. Eu a abracei.
– Eu prometo que não vou te deixar... – prometi, ignorando a dor que ameaçava me tragar para o inferno.
– Me perdoe... – Ela pediu, provavelmente sentindo minha agonía.
Eu me afastei mais uma vez e a olhei tentando demonstrar tranquilidade.
– Só descubra onde está seu coração, Bella...
Ela assentiu insegura e suspirou.
Nós nos olhamos em silêncio por mais alguns minutos, inúmeras emoções se misturando dentro de mim e dela, mas não cabiam mais palavras, só espera...
Eu liguei o carro e nos guiei até a Forks High, satisfeito por não precisar mais descer do carro na esquina. Descemos sob olhares curiosos de adolescentes surpresos, nos abraçamos ignorando toda a atenção que nos era dispensada, eu devolvi as chaves a ela, e me virei pra partir.
Bella segurou meu pulso.
– Podemos nos ver mais tarde? – ela indagou com hesitação – Você não quer que eu te conte sobre a conversa?
Eu vacilei. Não tinha certeza se quería vivenciar as emoções dela em relação ao reencontro com Edward. Mas sabía que era importante conversarmos sobre aquilo.
– Eu venho te buscar... – sorri.
Ela sorriu timidamente, mas o sorriso não alcançou seus olhos, e em seu interior tudo que pulsava era tristeza e medo. Me aproximei e deslizei os dedos em sua bochecha corada, segurando seu queixo com cuidado.
Projetei o que sentía por ela, pela primeira vez deixando que todo o sentimento fluísse de mim sem restrição, olhando nos olhos dela fixamente.
Bella ofegou e suspirou em seguida. E então seu olhar me mostrou o quanto ela não tinha noção da potência do que eu guardava por ela.
Ela me abraçou forte.
– Eu te amo, Jasper... – murmurou em meu ouvido.
Eu suspirei, sabendo que talvez aquilo não fosse suficiente.
Quando ela se afastou eu sorri outra vez, enquanto assentía em silêncio. Permanecí alí, observando ela seguir em direção aos prédios, engolíndo o medo, a mágoa, a insegurança que me acompanharíam até que aquela dúvida dentro dela fosse sanada.
Fale com o autor