Destinados
9 A dolorosa decisão
Notas iniciais

– Podemos conversar? – Edward me perguntou assim que passei pela porta.
Expirei irritado.
Eu não quería conversar, não quería expor o que estava sentindo, estava confuso, angústiado e inseguro. Mas sabía que em algum momento tería de resolver aquilo. Não que Edward merecesse satisfação, mas se houvesse alguma chance de Bella me escolher, eu prefería que ele entendesse que eu não tinha atravessado seu caminho por capricho. Eu precisava que ele soubesse que o que eu estava sentindo por ela era verdadeiro, sério.
– O que quer conversar, Edward?
– Jasper eu... – ele começou, e sua insegurança estava me deixando atormentado – Eu não posso julga-lo, nem à Bella, se vocês se envolveram emocionalmente em minha ausência... O erro foi meu em partir e...
– Nisso você está terrivelmente certo. – cortei com o tom ácido.
– Eu não quero brigar, ou discutir... – ele afirmou tentando se manter calmo – eu só quero entender. Sei que você não me deve explicação alguma...
– Certo mais uma vez.
– Eu estou te pedindo apenas que me permita compreender o que está acontecendo...
Eu suspirei. Ele podería estar sendo possessivo como todos nós, de nossa espécie, éramos naturalmente. Mas ao invés disso Edward estava se esforçando pra ser compreensivo, e isso me desarmou. Nós tínhamos uma história, fazíamos parte de um clã, que era muito mais uma família do que um grupo de vampiros, e em todos os sentidos, ao longo dos anos em que convivemos, ele foi, e ainda era, meu irmão.
Sobre tudo isso, eu sentía, eu conhecía sua dor, bem demais. Era justo. Sermos honestos um com o outro sería o melhor.
– Tudo bem. – cedi num suspiro pesado – Vai ser mais fácil se eu te mostrar.
Eu estava certo de que não era meu o papel de expor aquilo, e eu tería de pedir desculpas a Bella depois, nós não tínhamos conversado se ela quería ou não que ele soubesse, mas eu quería deixar tudo claro, precisava que ele entendesse.
Ele assentiu em silêncio, e eu deixei que minhas barreiras caíssem.
Recordei o primeiro momento, aquele em que percebí que algo em relação à Bella me fazía sentir diferente. O dia em que ele a trouxe para casa a primeira vez.
Passei cuidadosamente por cada lembrança, me atendo às emoções que vivenciava para que ele compreendesse que eu não percebí o que estava crescendo dentro de mim.
Edward parecía inquieto, me encarando com o olhar profundo, atento a cada memória que eu lhe mostrava e reagindo quietamente a cada uma delas.
À medida em que me aproximei do momento decisivo, do meu ataque a Bella em seu aniversário, Edward foi ficando mais inseguro, e menos confuso. E então eu notei, quando lembrei de minha realização, de meu entendimento quanto ao que estava sentindo realmente por Bella, que talvez ele apreendesse o sentido daquilo melhor que eu.
Seus olhos se arregalaram, e entendimento fluíu num jorro por ele. Com isso sua expressão mudou, e ele parecía aterrorizado com alguma coisa. Esse receio extremo, que eu não entendía a razão de ser, aumentou quando eu recordei o dia em que Bella começou a sentir minhas emoções sem que eu estivesse projetando.
Ele arfou algumas vezes, mágoa vibrando em ondas quando rememorei os momentos mais recentes entre eu e Bella, nossa cumplicidade, a maneira como estávamos envolvidos, como passamos a nos comunicar um com o outro, os quase beijos e, finalmente, nosso primeiro beijo em seu carro, minutos antes.
Edward abaixou a cabeça e virou de costas pra mim, uma dor cortante emanando dele e contaminando o ambiente. Negação se misturava à mágoa, e eu estava completamente confuso.
– Você sabe o que tudo isso significa? – ele perguntou num murmúrio, alguma coisa, que eu não conseguí definir, implícita em sua voz grave.
– Que eu a amo... – respondi num tom de obviedade – Como nunca amei qualquer outra pessoa.
Ele se virou pra mim e seu semblante era desolado. Algo estava encoberto em seu olhar, algo que ele parecía saber e eu não.
– O quê? – indaguei, sabendo que ele estava escondendo alguma coisa.
Edward suspirou e negou com a cabeça.
– Vai lutar por ela... – não foi uma pergunta.
– Eu vou esperar que ela decida. – afirmei – Eu sei o que ela sente por você, e sei o que você sente por ela. – expirei nervoso – Ela conhece meus sentimentos também, melhor do que qualquer outra pessoa possa ser capaz. Então tudo depende dela. E eu vou aceitar e respeitar a vontade de Bella, ainda que isso me machuque. Então não me enxergue como um inimigo, Edward. Eu não vou interferir de forma alguma.
– Eu sei. – ele disse seguro – Eu posso ver que tudo que te importa é a felicidade dela... E, acredite, é assim pra mim também. E eu agirei da mesma forma se ela decidir que é com você que quer ficar.
Eu suspirei aliviado apesar de nunca ter duvidado que ele agiría dessa forma. Eu o conhecía bem para ter certeza de que ele colocaría Bella em primeiro lugar, como eu.
Nos olhamos por mais alguns minutos, em silêncio.
Ela me pediu pra busca-la depois da aula. Comentei em pensamento. Quer conversar.
Ele anuiu e sua insegurança estava lá, em todo lugar novamente.
Suspirei e me direcionei às escadas, fugindo da emoção que imitava a minha. Acúmulo de sentimentos não estava sendo o meu forte últimamente, e eu já estava sensibilizado demais. Me isolei em meu quarto, tentando não pensar no que o futuro me reservava.
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Quando saí da casa pra pegar Bella, Edward não estava em lugar algum por perto, e eu agradeci aos céus. Corri com mais pressa do que o normal, ansioso. Ela estava encostada na porta do carona quando me viu, e o sorriso brilhante que se espalhou por seus lábios provocaram o meu, e por alguns segundos estava em paz.
Parei há uma distância segura, sem saber bem como agir, e ela estranhou minha atitude.
Seu semblante demonstrou o desgosto que ela sentiu, mas Bella não disse nada.
– Ainda quer conversar? – perguntei vacilante.
Ela assentiu e me entregou as chaves do carro.
– Podemos ir pro nosso canto...? – sua voz era incerta, e seus olhos exibiram sua mágoa.
Eu anui e abri sua porta para que ela entrasse. Depois dei a volta e me acomodei no banco do motorista com naturalidade. Ela sempre me deixava dirigir.
Quando saíamos da escola notei que éramos observados. Pelo retrovisor reconhecí a silhueta sob a sombra das árvores na lateral de um dos prédios. Edward estava lá, parado, rígido, dor evidente em sua expressão.
Ele soube que eu o percebí, e uma onda de remorso me alcançou. Ele estava se desculpando.
Eu entendo... Pensei, ciente de que ele podería me ouvir. Ele assentiu e correu para dentro da mata, sem olhar pra trás.
– O que foi? – Bella me questionou ao notar minha apreensão.
– Nada... – murmurei sem lhe olhar os olhos, e seguimos em silêncio.
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O carro havia ficado numa via secundária, como sempre, e a corrida com Bella em minhas costas, pela primeira vez, foi desconfortável.
Nossas emoções se confundíam, e eram intensas e confusas demais, me deixando nervoso, o que a deixou ainda mais tensa.
Quando sentamos na grama, dessa vez lado a lado, o sol estava se pondo no horizonte, e ela me encarou com os olhos rasos de lágrimas.
– A luz do crepúsculo faz seus olhos brilharem diferente... – sua voz embargada enviou vibrações dolorosas de tristeza por meu corpo.
– Não é a luz, Bella... – Afirmei, minha própria voz trêmula. Suspirei, desviando meu olhar – Eu estaría chorando, se isso fosse possível.
Ela respirou fundo, sentindo o que eu sentía, e nossa dor se multiplicou.
Bella começou a chorar silenciosamente, e eu a abracei, deitando sua cabeça em meu ombro.
– Você já tem uma decisão... – Perguntei, mas soou como uma afirmação.
Ela negou sem falar.
– Mas tem ideia do que vai decidir, não é...?
Ela se afastou um pouco, enxugou as lágrimas com as costas das mãos e me encarou, tentando se mostrar forte.
– Como nós ficaríamos se... Se eu... – ela soluçou, incapaz de terminar a frase.
– Eu vou aceitar a posição que você me permitir ter em sua vida, Bella... – assegurei, certo do que ela quería saber – Se me quiser aqui em Forks, eu ficarei. Se quiser que eu vá embora, eu irei. Vou aceitar sua decisão, seja ela qual for.
– Jasper, eu não quero perder você... – estava chorando novamente – Eu não consigo imaginar minha vida sem você...
– Mas não consegue imaginar sua vida sem ele também...
Ela se calou, e culpa a preencheu.
– Não se sinta culpada pelo que sente, Bella... Eu sempre soube o que ligava vocês, isso não é uma surpresa pra mim...
– Eu não tenho certeza, mas também não quero te prender pra depois magoar você ainda mais...
Eu expirei, um pouco impaciente.
– Vamos dar um passo de cada vez, ok? – ela assentiu – Você quería me contar sobre a conversa. E eu tenho que te contar algo também. Então, vamos apenas nos concentrar nisso por agora.
Ela inspirou, tentando se acalmar, e eu a ajudei, projetando tranquilidade. Nos encaramos por um momento, e então ela começou a falar.
– Ele me explicou que quería me proteger... Do mundo de vocês, mas também dele mesmo, da influência dele em minha vida... Me pediu perdão pela dor que me causou, por ter sido sempre tão intransigente quanto ao que eu quería, por ter sido autoritário o tempo todo, por não ter me permitido assumir os riscos que eu quería e me sentía propensa a correr por ele... – Ela suspirou, e eu sentí que ela havía se surpreendido e adimirado a atitude de Edward – Ele falou que se sentía mal por não ter me enxergado como eu sou realmente... Afirmou que eu era forte, madura, consciente, e que se ele tivesse outra chance não agiría de forma tão inflexível... – ela suspirou outra vez, torcendo os dedos das mãos sem me olhar, nervosa – Ele falou e falou, se justificou e eu só ouvi tudo em silêncio, tentando encontrar em mim o que eu realmente sentía em relação àquilo... E então ele... Ele segurou meu rosto nas mãos... E me olhou com uma intensidade tão... – ela expirou, e meu peito se contraíu – Ele me pediu, me implorou pra aceita-lo de volta... E eu não pude dizer não... Mas também não sabía se quería dizer sim... Então pedi que ele voltasse pra casa e te pedisse pra vir, que eu precisava conversar com você.
Sentí um certo alívio por eles não terem se beijado. Era só uma questão de tempo, eu tinha ciencia, mas, por ora, estava grato por isso.
– Eu acho que ele percebeu que existe alguma coisa entre nós dois... – ela continuou – Ele me olhou tão estranho... Como se alguma coisa tivesse feito sentido de repente...
– Ele já sabe de tudo... – falei numa respiração.
Bella me olhou com surpresa e eu me ative às suas emoções pra ter certeza se a tinha aborrecido, mas tudo que ela emitía era espanto.
– Ele me pediu pra esclarecer as coisas quando voltei mais cedo... – expliquei – Eu permití que ele visse minhas memórias...
– Ele sabe sobre o... Beijo? – ela perguntou corando.
– Sabe. – suspirei – Bella, me desculpe, eu precisava fazê-lo entender que eu não estou entre vocês por capricho, eu quería que ele visse que o que sinto é verdadeiro e que você me corresponde de alguma forma... – me apressei pelas palavras com medo de que ela ficasse chateada comigo.
Ela colocou a mão em meu antebraço.
– Eu sei, Jasper... – falou compreensiva – E eu não correspondo você de alguma forma... – sua voz soou aborrecida – Eu correspondo você. Ponto. E eu iría contar a ele de qualquer jeito. Ele merece saber. Eu não tenho porque esconder isso, não fizemos nada errado.
Eu sorri de leve, satisfeito com sua atitude segura.
– O que você pretende fazer? – indaguei receoso, e com alguma cautela.
Ela deu de ombros e baixou os olhos para as mãos novamente.
– Eu acho que... Eu preciso passar algum tempo com ele... Pra ter certeza sobre como me sinto...
Eu assenti em silêncio, entendendo. Não pude evitar a dor que me engoliu, e logo Bella estava sentada em meu colo, me abraçando, a cabeça afundada em meu ombro, remorso ondulando dela pra mim. Eu a rodeei automaticamente.
– Me desculpe... – sussurrou em meu ouvido.
Eu neguei com a cabeça e a apertei forte contra mim, enterrando meu rosto em seus cabelos.
– Jasper... – ela murmurou em meu ombro – Eu...
– Eu sei... – respondi antes que ela completasse a sentença. Ouvir aquilo naquele momento me feriría mais e eu não tinha certeza se suportaría – Eu também...
Ficamos assim por um longo tempo, até bem depois que a escuridão da noite caiu sobre o lugar.
– Preciso te levar de volta... – falei relutante – Charlie deve estar preocupado.
Ela assentiu e se afastou, mas não se levantou de meu colo.
Suas mãos se fecharam em minha nuca, trêmulas, e suas emoções espelhavam as minhas.
Nos fitamos intensamente, nenhuma palavra necessária ou dita, apenas sentindo o que nos ligava e nos atraía um pro outro.
Eu hesitei um pouco, em dúvida sobre o quanto aquilo nos magoaría depois, mas a vontade de senti-la novamente, ainda que por poucos minutos, superou a incerteza, o medo, e nossos lábios se encontraram no meio do caminho.
O beijo foi como o primeiro, lento, profundo, sério... Saturado de ternura e desejo, de amor, de tristeza... Cheio de palavras não verbalizadas...
Mais uma vez naquele dia eu visualizei os arcos se chocarem tentando se unir. Se agitavam tão intensamente, lutando para se conectarem, para nos envolver, que eu fiquei momentâneamente perplexo. Nunca tinha visto aquela reação entre sentimentos...
Quebrei o beijo relutantemente, porque ela precisava respirar, e colei nossas testas ainda com os olhos fechados, ainda observando a movimentação de nossas emoções.
Quando a olhei ela arfou baixo, e segurou meu rosto perto do seu, o olhar fortemente conectado aos meus olhos.
– Essas cores... – ela murmurou maravilhada – São dos meus sentimentos ou dos seus...?
– Dos nossos... – respondi no mesmo tom.
– São tão intensas... – ela respirou espantada.
– Como o que sentimos...
– Jasper, eu não tive chance de te dizer... – ela comentou – Hoje de manhã... Quando projetou o que sentía por mim... Eu... Eu não tinha noção do quanto...
– Eu sei. Existem coisas que eu ainda não contei a você sobre isso, mas... Não é o momento...
– Vai me falar? Mesmo se... – ela se interrompeu.
– Vou. Mas quando me sentir preparado pra isso. Você pode sentir que não estou em minhas melhores condições agora...
Ela se encolheu minimamente.
– Me desculpe...
Eu levantei seu queixo.
– Pare de pedir desculpas. – pedi com carinho – Eu entendo.
Ela suspirou.
– Precisamos voltar. São quase nove. – eu disse.
Seus olhos se arregalaram em choque e ela deu um pulo, se colocando de pé em um segundo. Eu me levantei devagar e a ajudei a subir em minhas costas, e então estávamos voltando.
A viagem de carro foi silenciosa, mas nossas mãos estavam unidas entre nós, nossos dedos entrelaçados.
Era estranho como aquilo parecía tão certo, tão natural, mas fosse insuficiente para tirar a incerteza de dentro de Bella. Eu compreendía, podía experimentar seus sentimentos ambíguos, sua indecisão, o tumulto de emoções que revolvíam seu âmago enquanto voltávamos.
Suspirei quando paramos na entrada da casa. Descemos e eu a levei até a porta.
Charlie veio me cumprimentar e estranhou meu semblante desolado, que espelhava o de sua filha. Eu me desepedi dela com um beijo singelo na testa, e Bella entrou para a cozinha, me deixando sozinho com seu pai na varanda.
– Aconteceu alguma coisa? – ele perguntou assim que Bella estava fora de nosso alcance.
– Charlie... – eu respirei fundo antes de dizer aquilo.
Tive medo de sua reação e nem tinha pensado sobre como Bella se sentiría sobre eu contar a seu pai o que estava acontecendo, mas ele tinha o direito de saber, e logo sabería de qualquer forma.
– Edward está aqui. – falei com a voz embargada.
A despeito da surpresa e leve indignação que o tomou, Charlie me surpreendeu quando sua mão tocou meu ombro, compreensão e compaixão fluindo dele.
– Sinto muito, filho... – ele suspirou demoradamente – Entendo que é uma situação complicada, mas... O tempo passou. Talvez isso não faça diferença...
Eu neguei em silêncio, sem saber exatamente o que dizer e não querendo me mostrar tão frágil.
– Posso pedir que não comente com Bella que eu falei? – perguntei – Tenho certeza de que ela prefere contar a você da maneira dela... Ela já está bastante mexida com isso.
Ele assentiu, ponderando.
– Esperarei que ela me fale, fique tranquilo.
– Obrigado, Charlie. – falei me afastando – Preciso ir.
Ele me deixou caminhar até o passeio, e então me chamou.
– Jasper! – eu o olhei – Ela tomará a decisão certa, filho... – afirmou, certeza vibrando dele.
Eu assenti, receoso quanto à que decisão sería a certa naquele caso.
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A semana passou torturantemente lenta.
Eu e Bella nos falávamos todos os dias, ela me ligava, eu ligava pra ela, mas mantivemos alguma distância, ela precisava de espaço.
Edward teve a chance que quería, e estava presente na vida dela mais que eu. A levava para a escola e ocupava seus finais de tarde, com a permissão dela.
Até onde sabía ela não tinha contado a Charlie sobre a volta de Edward, e ele estava sendo cauteloso quanto a aparecer em público por enquanto, ainda aguardando a decisão de Bella como eu.
Suas emoções tinham mudado muito pouco. Ele ainda era dominado por insegurança e culpa, mas a esperança ficava mais forte a cada dia.
Nós nos evitávamos. Por motivos óbvios.
Não existía animosidade entre nós, mas era difícil para ambos ficarmos no mesmo ambiente, e quando estávamos, permanecíamos muito pouco, trocando poucas ou nenhuma palavra, o remorso, o leve ressentimento, a insegurança que fluía nos impedindo de mantermos um contato satisfatório. Parecía um acordo velado. E eu só esperava. Tentando ao máximo me manter desligado das emoções de Bella.
Naquela manhã, quando ela me ligou pedindo que fosse busca-la na escola, eu soube que ela tinha sua resolução. Apesar da firmeza em sua voz eu notei a mágoa, e ficou claro que eu estive certo o tempo todo.
Respirei fundo quando nos encontramos na frente da Forks High, me fechando completamente, fazendo um esforço absurdo pra não permitir que suas emoções me alcançássem. Elas me atingíam superficialmente, forçando seu caminho até mim, mas o medo me proveu forças, e com os dentes tricados eu conseguí me proteger quase perfeitamente.
– Oi... – ela falou num sorriso aliviado, saudade e contentamento brilhando em seus olhos.
– Oi. – sorri um sorriso genuíno. Ela sempre me desarmava.
– Estava com saudades... – ela falou um pouco constrangida.
– Eu ainda estou...
Então ela encurtou nossa distância e me abraçou, e meus braços a rodearam espontâneamente.
– Sabe pra onde quero ir. – ela disse.
Eu a soltei e entrelacei nossas mãos, ignorando o carro, e caminhamos lentamente para a borda da floresta, sem dizer coisa alguma. Quando estávamos dentro da mata eu a carreguei de frente pra mim, a abraçando com força, e Bella enterrou o rosto em meu peito enquanto eu corría.
Não pude manter minhas contenções, então seus sentimentos me atingiram em cheio antes mesmo que chegássemos, e eu ofeguei, entendendo o que acontecería.
Coloqueia-a no chão quando alcançamos o penhasco, e minha dor sobrepujou minha força, meus joelhos cedendo antes que ela tivesse chance de perceber o que tinha acontecido.
Eu tinha me preparado para aquilo, não tinha? Eu sabía que era o que iría acontecer...
Respirei fundo, meus punhos fincados na terra, e Bella se ajoelhou, já chorando, em minha frente.
– Me perdoe... – ela pediu entre lágrimas e soluços – Me perdoe, Jasper, me perdoe...
Eu a abracei e me deixei levar pelo desalento. Meu peito vibrava o pranto que eu não tinha como colocar pra fora, meus olhos secos ardendo as lágrimas que não me eram permitidas derramar...
– Shhhh... – tentei acalma-la, mas minhas emoções, que influenciavam diretamente as dela estavam sem controle, e nós fomos engolidos por um mar de mágoa que parecía não ter fim.
Ela conseguíu se dominar antes, e se sentou na grama úmida, puxando minha cabeça para seu peito, tentando potencializar a tranquilidade que forçava a si mesma, para me trazer de volta.
Funcionou depois de alguns minutos, e eu me envergonhei por ter me mostrado tão frágil em sua frente. Mas eu não tinha mais poder sobre mim. Ela tinha. Era ela que me guiava, ela era o centro de meu mundo e, mesmo que eu já tivesse entendido isso antes, bem antes, só naquele momento me dei conta do quanto aquilo era real e inescapável, definitivo.
O que eu faría? Parecía que estavam arrancando um pedaço de mim, eu me via afundando na escuridão, me perdendo num buraco sem fundo, numa vida sem sentido...
Ela captou minhas emoções e estremeceu, e então terror tomou conta dela.
– Não, Jasper... – ela murmurou – Não, por favor, não fique assim... Deus!
Eu me forcei a retomar as rédeas sobre mim mesmo. Tremi com o esforço e me sentei, incapaz de olhar em seus olhos.
– Eu nunca sentí uma dor tão... – Desabafei sem perceber, tomando uma respiração profunda em seguida – Eu... Eu estou bem... Posso lidar com isso...
Ela soltou um riso baixo e amargo.
– Está tentando enganar a mim ou a você mesmo? – Bella sussurrou desolada.
Eu suspirei.
– Não posso evitar... – afirmei, minha voz seca – O que quer que eu faça, Bella? Eu nem ao menos posso fingir que não sinto demais por isso, você consegue ver além de mim...
– Eu sei...
– Então o quê? – perguntei com o tom um pouco duro demais – Você fez sua escolha mas não me peça pra não sofrer, você sabe como me sinto.
– Eu não...
– Se está tão ferida com isso, então porque escolheu ficar com ele, e não comigo?
Ela arfou, surpresa por minha irritação, por minha sutil agressividade.
– Me desculpe... – Me apressei, arrependimento me inundando – Eu não... Eu não quería dizer isso, principalmente dessa forma, eu... Eu entendo e aceito, eu...
Ela me calou com seus dedos em meus lábios, e eu finalmente encarei seus olhos.
Eles estavam vermelhos, úmidos e tristes, mas expressavam um certo nível de segurança que me magoou ainda mais.
– Você tem certeza... – constatei, e seus sentimentos me confirmaram.
– Não totalmente... – ela confessou – Mas o suficiente pra decidir. E eu preciso que me deixe explicar meus motivos...
– Você não precisa.
– Sim, eu preciso. Porque essa foi a decisão mais difícil que já tomei, porque eu amo você... – ela expirou e tomou um momento para se refazer antes de continuar – mas eu amo Edward também... Eu não sei dizer se é maior, se é mais forte... É só... Completamente diferente do que o que eu sinto por você. Mas eu e ele temos uma história inacabada. Eu sinto que preciso tentar, preciso dar uma segunda chance pra o que sinto por ele.
Eu respirei fundo, tentando me resignar como tinha prometido.
– O que quer que eu faça? – sussurrei.
– Como assim? – ela indagou confusa.
– Quer que eu vá embora? – meu tom saiu frio, distante.
Ela arregalou os olhos e o pânico nos envolveu.
– Não! – ela gritou – Não, eu não quero isso, por favor...
– O que quer, Bella? Que eu fique e assista a felicidade de vocês? – não conseguí impedir a consternação e explodí – Que eu me sente em meu camarote e vivencíe cada momento de realização que experimente com Edward? Sabe que não posso evitar que suas emoções me alcancem...
– Mas você prometeu que não iría... – ela murmurou surpresa por minha reação incomum.
– Eu sei... – Lamentei – Mas não tenho certeza se sou capaz de suportar isso... Você não entende?
A mágoa dela tornou o ambiente pesado, e Bella segurou as lágrimas com força, mordendo os lábios nervosamente.
– E-eu... Eu compreendo... – ela afirmou, mas o medo estava ainda maior.
– Me perdoe, eu não tenho o direito de ser duro com você, eu prometí que aceitaría, mas... É só... Difícil demais... Mais do que eu pensei que sería...
Ela assentiu em silêncio e voltou seu olhar ao chão.
– Eu sei que estou sendo egoísta... Querendo que você fique quando eu... – ela suspirou – eu só não posso...
Sua dor era tão grande quanto a minha e eu não apreendía como ela não estava considerando aquilo como um sinal de que tinha tomado a decisão errada.
Suspirei e segurei suas mãos.
O quão forte eu podería ser? Qual era o meu limite? O quanto mais eu podería coloca-la acima de mim, prioriza-la? Até onde eu iría até que aquilo me destruísse?
Eu tinha de adimitir que não tê-la em minha vida era pior que ter apenas uma parte dela... Ir embora e nunca mais vê-la era pior que vê-la com Edward...
Eu estava perdido... Sem saída.
– Eu posso... – engoli com dificuldade – Posso tentar... – cedi.
Ela me olhou cheia de esperança, mas a incerteza ainda nublava seus olhos.
– Não prometo nada agora, Bella... Só... Só me dê algum tempo... Eu preciso de tempo...
Ela assentiu outra vez, as lágrimas novamente rolando por seu rosto.
Uma questão me assomou subitamente, e eu não conseguí reprimir a pergunta, ainda que soubesse que a resposta podería me ferir mais do que eu estava apto a aguentar naquele momento.
– Vocês... Vocês já... — respirei fundo e perguntei de uma vez — Aconteceu alguma coisa entre vocês?
Ela acenou negativamente com a cabeça e sua sinceridade me alcançou.
– Não... — ela disse — Eu não deixaría que algo acontecesse sem antes conversar com você, deixar tudo resolvido...
O alívio não veio, apesar da adimiração pela lealdade dela ter encontrado espaço em meio ao turbilhão de sensações ruins que me angustiavam.
Eu me levantei e estendi a mão pra ela, tomando tudo de mim para me manter por mais alguns minutos.
Ela me olhou em dúvida e eu respondi à sua pergunta silenciosa.
– Vamos voltar... Agora.
Bella vacilou, mas não contextou minha decisão, ela podía experimentar a agonía que se desenrolava dentro de mim, e entendía que eu precisava me afastar o mais rápido possível.
Eu a deixei na escola, sem trocar qualquer outra palavra.
Antes que ela se afastasse me olhou hesitante.
– Eu... – ela começou, e eu podía sentir o amor vibrando, tentando me atingir.
– Não. – falei com firmeza – Por favor, não agora...
A mágoa ondulou e se misturou à minha, e eu fechei os olhos para quebrar nossa conexão.
Esperei que ela entrasse em seu carro e saísse do estacionamento, arrasada, e voltei pra casa.
Me segurei até a porta, e desistí de entrar quando percebí a presença de Edward. Eu não tinha condição de lidar com ele agora.
Subi na copa da árvore mais próxima e me escorei em um dos galhos, fechando os olhos com força, tentando gerar torpor para mergulhar nele.
Sua compaixão e compreensão me alcançaram antes que eu reconhecesse seu cheiro, e meus olhos se abriram em choque para encarar os olhos dourados brilhantes que me fitavam com tristeza.
– Alice! – arfei para a figura pequena em minha frente.
– Oi Jazz... – ela disse mansamente – Eu soube que precisaría de mim...
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