Destinados à Payre
38 Terra de tittum
Notas iniciais
A viagem foi mais rápida do que esperava. Quer dizer, ao usarem uma nave daquele porte, meio que já imaginava uma viagem intergaláctica para outra dimensão, durante a qual aproveitaria para apreciar as estrelas e o universo. Mas não. Foi apenas como ir de um estado a outro em um país qualquer, ainda que soubesse, através dos dados mostrados pelos incontáveis equipamentos, que a distância percorrida tinha sido considerável, algo como a distância entre o Brasil e o Japão.
Bem, apesar do tempo que já estava em Payre, não tinha se acostumado completamente com as coisas práticas daquele mundo. Como ir de um reino para outro em poucas horas. Só lamentava por não ter conseguido apreciar tudo como gostaria, pois olhar para fora na nave apenas tinha lhe provocado enjoo tamanha velocidade em que se deslocavam. Sem falar que tudo o que havia do outro lado da janela era o céu azul e as nuvens brancas e fofas. Decepcionantemente parecida com a vista proporcionada por qualquer avião na Terra.
A AL-62 mal começou a descer e logo estavam aterrissando. Era estranho não sentir nada com aquele movimento, seu corpo não notava os efeitos da gravidade. Nada de ouvidos entupidos ou do característico aperto na cabeça e no estômago. Foi difícil apenas acompanhar através das janelas e dos monitores, o céu azul ser substituído em velocidade vertiginosa por uma imensidão de cinza.
Cylles, à primeira vista, mostrou um contraste gritante com Sylesth. Nada de céu límpido e coloridas plantas, além do verde exuberante. O céu daquele reino era diferente, parecia encoberto, mas não como se estivesse prestes a chover, pois havia um leve toque de azul nas nuvens que impediam a passagem da luz solar. Quando saíram da nave, Angel logo notou que estavam em algum ponto alto do que deveria ser o Palácio de Tittum, pois um vento suave empurrou seus cabelos presos em um rabo de cavalo para frente e ao retirá-lo dos seus olhos, encarou a cidade que formava a capital de Cylles.
― Esse deve ser o efeito do poder do Rei Melkor, quando destruiu praticamente todo o reino para matar o exército inimigo.
Lali comentou ao seu lado, também observando a imensidão de construções metálicas que despontavam como lâminas afiadas ao longo de uma terra escura sob um céu quase sem luz. Para compensar a ausência da luminosidade natural, os prédios eram todos lindamente iluminados nas mais diversas cores, deixando a aparência da cidade longe de ser sombria. Era como observar uma elegante caixa de joias recoberta por veludo negro dentro da qual as mais belas e perfeitas peças de prata cintilavam as cores do arco-íris.
― Os Ducados de Gelb e Iak, que ficam ao sul, foram os mais prejudicados. – comentou Zafy, ao se aproximar delas. – Mesmo com nossa tecnologia e passados mais de vinte anos, ainda estamos sob os efeitos da Segunda Grande Batalha. – ela olhou para o céu, seus estranhos olhos de cobra exibindo uma mistura de sentimentos: pesar, melancolia, resignação, logo encobertos pelo costumeiro otimismo da animada Eiff – Mas tudo bem. Cylles nunca foi um primor da natureza – Zafy riu – Eram tantas montanhas pedregosas que apenas dificultavam a extração do tittum.
Angel sabia que o tittum era um mineral com uma variedade de cores, resistência, flexibilidade e peso, abundante naquele reino. Cada região de Cylles possuía um tipo especifico desse mineral e, por isso, tudo ali usava tittum como matéria prima. Graças à tecnologia dos Eiffs, ao contrário do que acontecia com as riquezas da Terra, ele era reaproveitado cem por cento e por isso não corriam o risco de que ele chegasse a se tornar escasso.
Aliás, uma particularidade de Cylles era que, diferente de todos os outros reinos de Payre, que usavam o sol como fonte de energia — facilitado pelo fato de possuírem três deles, cada um a uma distância daquele planeta — os Eiffs usavam energia gravitacional, gerada a partir do movimento dos mares que cercavam o reino e ampliadas graças à incrível tecnologia desenvolvida pelos Criadores Eiffs.
Ainda que Zafy tivesse mostrado certo desprendimento com o que havia se tornado a terra de sua raça, Angel imaginava que não deveria ser tão simples de encarar a mudança brusca pela qual passaram. Cylles tinha sido formada por montanhas, não tão altas quanto as que existiam em Oyst, mas igualmente majestosas. Todas as construções mesclavam-se a essa forma da natureza, assim como acontecia com Sylesth e suas florestas, então, quando Melkor praticamente explodiu tudo para eliminar o exército de Khor, Cylles se tornou apenas um deserto de terra escura e céu sem sol, lua ou estrelas.
Mas o mais importante é que as pessoas tinham sobrevivido. Os Eiffs, graças ao sacrifício do Rei Alicano, não foram dizimados e puderam retornar para seu reino, para reconstrui-lo e torná-lo algo tão magnifico como fora em outrora. Era notável a intenção deles ao construir seus prédios naquele formato vertical, com bases mais largas e pontas que pareciam tocar as nuvens. Tratava-se de uma homenagem às suas montanhas e aos inúmeros Eiffs que sucumbiram sob elas na terrível batalha.
― Vamos lá, garotas. Está na hora de conhecerem o Rei Ekor e a Rainha Aramitha. – lançando um braço sobre os ombros de Lali, Zafy começou a conduzi-las para onde o resto do grupo já se encaminhava. – Vocês vão achar ele um fofo. Mas tentem não demonstrar isso, pois o ciúme da nossa soberana é lendário. E ela é bem maluca. Sério.
Angel observou um rubor adorável cobrir as bochechas de Lali com a proximidade da Mestra, perceptível mesmo com o tom dourado escuro da pele da garota indiana. Lali era muito amorosa e tinha uma natureza sociável, então era no mínimo curioso seu constrangimento diante do gesto familiar de Zafy.
Os pensamentos de Angel foram cortados quando seus olhos cruzaram com outros, azuis e atentos, que deslizavam por seu corpo, se demorando em cada parte dele. Isso soaria lisonjeador em qualquer outra situação, ainda mais quando o dono desse par de olhos incríveis era um sujeito perturbadoramente lindo. Mas naquele momento era apenas irritante. Não havia qualquer interesse romântico ou intenções pecaminosas, parecia que estava sob a análise dos seus cardiologistas da Terra, ou dos incansáveis Curadores de Payre.
Alexis procurava, obviamente, checar se estava tudo certo com ela. Tipo, se não tinha deixado nenhum pedacinho seu para trás depois do tamanho esforço que havia feito desde que saíram de Sylesth. Sabe, podia ser extremamente perigoso para a saúde de uma frágil senhorita como ela, ficar um pouco mais de duas horas com a bunda colada em um assento macio e confortável de uma nave que nem mesmo tinha dado uma mísera sacudida ao longo de uma viagem ridiculamente curta. Angel trincou os dentes e o ignorou abertamente. Cara, como era possível amar tanto uma pessoa e ainda assim sentir uma vontade quase incontrolável de torcer o pescoço dessa mesma criatura com as próprias mãos?
Da mesma forma que tinha ocorrido no palácio Alirini, neste também não havia a presença de qualquer pessoa no longo percurso que percorreram ao encontro dos reis. Quem seguia a frente do grupo era Zaffar e com seu jeitão displicente, apenas apontava com a cabeça quando precisavam dobrar em alguma direção. Angel não sabia bem o que esperar de uma situação como aquela, mas dada a importância de tudo aquilo, tinha tido a impressão que uma espécie de comitiva estaria à espera deles. Porém nada estava mais longe disso. Eram apenas eles e os Guardiões a caminhar silenciosamente por um trajeto claramente fora do uso normal, pois eram corredores escuros, iluminados apenas quando passavam, voltando a escurecer imediatamente. Eram estreitos e sem janelas, com paredes cobertas por estranhas linhas verdes que também se cruzavam no chão. Quando a luminosidade permitia, Angel reparou em pequenos feixes de energia, também verde, percorrendo essas linhas.
Angel estava tão curiosa com o novo cenário que nem se incomodou em ficar irritada com Alexis, que bancava o guarda-costas. Ele, sem dúvida desconfiava da situação toda, por isso estava bem atrás dela, seus olhos não perdendo nenhum movimento, principalmente dos Guardiões. Em certo momento, ela ficou tentada a dar um passo em falso só para pisar no pé dele com a sola da bota curta que usava. Estava se preparando para isso quando Zaffar interrompeu sua caminhada, fazendo o grupo todo parar. Droga, que desmancha-prazeres.
― Adoráveis turistas Humanos e membros da superequipe Guardiões – Zaffar com seu senso de humor duvidoso, chamou a atenção de todos –, atrás dessa porta estão os reis dessa bela terra de metal, assim, tenho apenas um aviso: comportem-se. Não esqueçam que viemos aqui para pegar o sangue deles, então, vamos pelo menos tentar ser educados para que não seja o nosso sangue a ser derramado hoje.
Assim dizendo, ele se aproximou da porta que se abriu instantaneamente, permitindo a passagem deles.
Angel se viu em um amplo salão de paredes escuras em preto e azul, repleta das mesmas linhas dos corredores, só que compostas por mais cores, que se uniam em algo que parecia um círculo de energia bem no centro do lugar. Nesse círculo, pequenos picos de luz trilhavam caminhos em espiral, formando diferentes símbolos que se dissolviam em algo líquido tal qual uma fonte multicolorida.
Ainda imersa no deslumbramento provocado pelo que tinha ao seu redor, Angel foi cercada por paredes humanas, subitamente. Lali a sua esquerda, Choi a sua direita e Alexis já estava a sua frente, impedindo a visão do que se desenrolava com o restante do grupo. Era mesmo um saco ser uma nanica de um metro e meio. Não iria se rebaixar dando pulinhos para enxergar sobre os ombros dele — até por que provavelmente não seria o suficiente -, por isso inclinou o corpo levemente para a esquerda e assim foi capaz de reparar nas cinco pessoas paradas ao lado da “fonte”. Não era para ser apenas duas?
A voz de Esan se fez ouvir, dura e irada, o que por si só foi surpreendente.
― O acordo foi quebrado. Deveriam estar presentes apenas os soberanos de Cylles. O que os Sentinelas estão fazendo nesse encontro?
Angel reparou que Noor também estava tensa ao lado de Esan, e Zafy, embora permanecesse com expressão tranquila, tinha se posicionado do outro lado do Protetor, na frente de Lali e Ren.
― Não se preocupe com eles, meu caro Guardião – aquele que Angel supôs ser o Rei Ekor, se pronunciou com extrema calma. – Eles estão aqui apenas para proteger a todos nós. Soubemos há pouco de um problema no sul.
― O que está acontecendo por lá? – Esan manteve a postura defensiva, bem como suas palavras seguindo o mesmo tom.
― O Duque de Iak está em meio a um conflito com os Darkanos. Não sabemos exatamente o que aconteceu, foi um ataque repentino. Suspeitamos que tenham descoberto sobre as tropas que o Duque nos enviou as escondidas para proteger o palácio enquanto estivessem aqui, e aproveitaram para atacar o Ducado.
Uma risada se fez ouvir. E, para assombro de Angel, veio do mesmo sujeito que os tinha alertado sobre serem educados com os reis do lugar. Belo Mestre aquele, podia até considerar que ele e Ren tinham nascido um para o outro. Assim que terminou sua curta gargalhada bem despropositada, Zaffar questionou sem qualquer intenção de esconder o sarcasmo:
― Deixe-me ver se entendi. Essa deveria ser uma reunião ultrassecreta na qual apenas um pouco mais de meia dúzia de pessoas deveriam estar presentes, mas vocês mandaram chamar um exército? Uau. Ainda bem que não queríamos chamar a atenção, não é mesmo?
― Não seja insolente! – a Rainha Aramitha não parecia ter a mesma fleuma do marido a julgar pela forma com que vociferou com o Guardião pelo comentário muito pertinente, na opinião de Angel. – Não tomaríamos uma atitude dessas se não tivéssemos motivos justos! – ela se aproximou do grupo, seu vestido vermelho-vinho colado ao corpo voluptuoso deixava muito pouco à imaginação, tanto que Noor em suas roupinhas sensuais parecia até uma moça recatada em comparação. – Tivemos notícias de que Kaill está em Cylles – ela concluiu, olhando fixamente para Zaffar.
O sorrisinho que bailava pela boca do Guia morreu na mesma hora, seus olhos procuraram pelos de Esan, que pareceu mais preocupado do que quando viu os tais Sentinelas presentes.
― Por que esse maldito pirata está em Cylles?
― Está caçando Eiffs. Ou é o que imaginamos. – o Rei respondeu, seus olhos mostrando certa impaciência. – Tivemos relatos de desaparecimentos nos Ducados de Iak e Gelb, todos ao longo da costa. Não deixaram nenhum rastro, e as vítimas são todas civis. Os que ficaram para trás estavam mortos.
― Khor não tem interesse em carne fria. – Zafy murmurou tão baixo que Angel quase não reparou nela se não fosse por Lali, que estendeu a mão para segurar a de sua Mestra, procurando confortá-la. Afinal, era o povo dela que estava sendo tratado como gado.
― Assim, achamos arriscado mantê-los aqui sem nenhuma segurança extra. Por isso solicitamos algumas tropas contendo os melhores dos três Ducados. – o Rei continuou diante do silêncio. – Afinal, não sabemos se é apenas uma coincidência Kaill estar por aqui, ou se esses ataques são meras distrações, pois descobriu algo sobre a Profecia.
Esan finalmente pareceu relaxar, e assim o grupo todo.
― Está bem. Vamos terminar logo com isso, então poderá enviar essas equipes para ajudar na batalha contra os Darkanos. – finalmente deixando sua posição de defesa do grupo, Esan fez uma breve reverência com a cabeça para os Reis enquanto ficava ao lado dos Humanos, sendo seguido pelos demais Guardiões, de forma que Angel, Alexis, Ren, Choi, Mona e Lali ficaram bem no centro deles. – Majestades, estes são os Escolhidos da Deusa Ashy e o Predestinado do Deus Erow.
Angel já estava acostumada com o escrutínio de estranhos, o que era um saco para alguém como ela, que na Terra não saía em público sem estar devidamente coberta para se defender de olhares alheios indesejáveis. Mas em Payre, em meio a tantas criaturas diferentes, em cores, formas e tamanhos, ser uma baixinha de cabelos quase brancos, com pele pálida e olhos de cor estranha era basicamente normal. Só lhe faltava algumas orelhas pontudas e poderia se considerar uma Nerini, por exemplo. Sabia que o maior atrativo deles ali era o fato de serem Humanos, e pelo visto os Reis estavam maravilhados em observar criaturas dessa raça, até então citadas apenas em lendas.
O Rei aproximou-se mais enquanto mantinha as mãos às costas, inclinando a cabeça em diversos ângulos para observá-los melhor. Angel ficou seriamente tentada a abrir a boca e exibir os dentes, como um cavalo premiado sendo avaliado em uma competição. Mas, para o bem de todos, resolveu cooperar, assim, limitou-se a arquear as sobrancelhas claras e estendeu os lábios em um quase sorriso, formando uma expressão que esperava ser o retrato da simpatia. Não pareceu surtir o efeito desejado. Ou melhor, talvez tivesse exagerado, pois em questão de segundos a Jéssica Rabbit de Payre, também conhecida como Aramitha – Deus! Os nomes naquele lugar não paravam de fazê-la conter a vontade rir! – ficou bem na sua frente.
Ela já mencionou como detestava a sua altura? Pois bem, se tivesse nascido e crescido feliz e conformada com esse detalhe da sua anatomia, naquele exato momento isso teria sido repensado. Então como sempre se revoltou contra essa questão, estava realmente puta da vida por ter que erguer a cabeça para encarar a arrogante monarca, e mais, por seus olhos ficarem justamente na altura dos seios absurdamente fartos da mulher-gigante ruiva de olhos lilases. Olhos que faiscavam na sua direção.
― Qual o seu nome, Humana?
― Angel. – tentou sua voz mais doce. Podia ser uma garota legal, ora essa.
A Rainha observou-a de cima a baixo, o que, claro, não levou muito tempo, talvez por isso ela tivesse feito o mesmo trajeto com os olhos umas três vezes, foi como Angel tentou se consolar. Mas era evidente que havia outra razão, ainda mais ofensiva.
― Você não parece como alguém que seria uma escolhida de qualquer Deus para vencer uma guerra. – as palavras saíram suaves e por isso mesmo, mais venenosas.
Antes que Angel pudesse reagir, e acabar com a diplomacia que tinha conseguido manter a duras penas, Esan interveio:
― Majestade, uma das pessoas mais poderosas de Payre é a Rainha Syka, e ela aparenta ser talvez ainda mais frágil que a Escolhida da Deusa. – Esan claramente aproveitou para lembrá-la dos riscos em confrontar os protegidos da Rainha Nerini. – Além disso, Angel é a segunda melhor em combate entre os Humanos. Está atrás apenas do Predestinado, o que é compreensível.
Ei! Precisava colocar as coisas daquela forma?
Bufando, Angel encarou Esan com raiva, mas logo a Rainha chamou sua atenção, pois os olhos de cobra – muito apropriados, aliás – estavam analisando, com bem mais interesse Alexis.
Boquiaberta, quase saltou para frente quando a vagabunda real ergueu a mão para tocar no rosto do Príncipe. Ah, claro, ninguém podia sequer olhar para o que era dela, mas a ruivona podia até tocar no que era dos outros?
Mas antes que Aramitha atingisse seu intento, Alexis segurou com firmeza o pulso da soberana de Cylles, sem se preocupar com qualquer delicadeza. Com expressão fria, virou-se para Esan, ignorando a ruiva que ainda mantinha presa:
― Pensei que estávamos com pressa, afinal, enquanto discutimos futilidades, Eiffs estão morrendo sem a ajuda dos seus melhores soldados.
Angel podia estar louca para torcer aquele pescoço arrogante, mas a vontade de beijá-lo por ter conseguido acabar tão efetivamente com a expressão altiva da Rainha foi maior. Se conteve apenas porque foi muito divertido observar Aramitha puxar o braço com violência, enquanto encarava Alexis com furioso despeito. Ele apenas arqueou uma sobrancelha para a Rainha, aguardando a próxima reação dela.
― Claro, tem razão, Predestinado. – Angel não se deixou enganar pelas palavras de concordância, afinal a raiva ainda brilhava nos olhos lilases. – Pelo que soubemos, devemos deixar que bebam nosso sangue, assim completarão uma parte da Profecia. – sorrindo de uma forma que Angel classificaria como nível de malícia avançado, a Rainha aproximou-se mais de Alexis. – Estamos com pressa, como bem lembrou, caro Príncipe. Aqui, tome meu sangue.
Dizendo isso, ela inclinou a cabeça para o lado expondo todo o pescoço e o enorme decote. A pele clara formava um contraste sensual com o vermelho escuro do vestido e as inúmeras sardas no mesmo tom dos olhos dela, que poderiam deixá-la no mínimo menos interessante, mas para o profundo desgosto de Angel, apenas davam um ar exótico a sua figura soberba.
Angel respirou fundo. Ok, não seria justo sentir-se zangada por algo desse tipo. Era parte da coisa toda em que estavam metidos e não podia deixar de lembrar que Alexis aceitara muito tranquilamente quando ela tinha sugado o sangue de Erak, que se aproveitara do momento para torná-la íntima apenas para irritar o irmão indesejado. Era uma situação muito parecida, então lidaria com a mesma indiferença que Alexis demonstrara.
Alexis inclinou a cabeça. Angel fechou os punhos.
A Rainha sorriu triunfante. Angel mordeu os lábios e sentiu seu coração disparar.
Alexis levou os lábios para perto de toda aquela pele disponível.
Aiputaquepariu!! O ciúme se tornou tão forte que já não era apenas um sentimento, era físico, e doía. Doía como o inferno! Mas não conseguia desviar os olhos daquela cena por mais que gritasse para si mesma que fizesse exatamente isso. Então, acompanhou muda todos os detalhes de quando Alexis disse ao ouvido da Rainha, em tom baixo e zombeteiro:
― Desculpe, Majestade. O seu sangue não é o mais poderoso dentre os Eiffs.
Sem perder mais tempo, Alexis se dirigiu ao Rei que, Angel não pode deixar de reparar, trazia um ligeiro sorriso nos lábios. Não vendo razão para questionar ou comentar qualquer coisa, o Rei Ekor estendeu o braço para o Predestinado que o aceitou e logo passou a sugar o sangue necessário.
A Rainha, após alguns minutos, conseguiu se recompor. E, claro, sua ira foi lançada para o alvo mais próximo, Angel. Quando os raivosos brilharam em sua direção, Angel ignorou totalmente o perigo e sorriu alegremente. Mas a ruivona era mais controlada do que sua cor predominante sugeria, pois ela subitamente virou a cabeça na direção do Rei e de Alexis, e apenas terminou de assistir o que acontecia. E assim ficou apenas observando cada um dos Humanos beber o sangue do marido.
Na sua vez, Angel resolveu ser legal e compensá-la pelo bom comportamento. Nada de olhadas sugestivas ou sorrisinhos faceiros. Aramitha deveria ficar muito agradecida, pois foi um esforço tremendo não aproveitar para dar o troco pelo o que a outra tinha tentado fazer antes com Alexis. Mas enfim, tudo pelo bem do mundo e pela paz do universo.
Assim que todos estavam cheios de sangue de Eiff – Eca! –, apesar da pressa, e contrariando a vontade de Esan, os Humanos foram encaminhados para uma sala na qual ficariam por pelo menos duas horas para descansar. Pois foi evidente que o efeito de uma terceira rodada de sangue real desceu mais pesado nos corpos ainda não totalmente preparados deles. Angel mesmo tinha que admitir que seus ouvidos estavam sensíveis demais e sua visão se tornara difícil de focar. Seu senso de espaço mostrava-se uma verdadeira loucura. Tinha a impressão que poderia tocar o teto com uma mão e o chão com a outra, e era bem consciente do quanto seus braços eram curtos para confiar na sua capacidade de uma proeza dessas. E não, não tinha se transformado na versão feminina do Senhor Fantástico. O teste que fez com o dedo, só para ter certeza, confirmou isso. Bem que ia ser bacana poder se esticar feito borracha.
Se não estivesse tão preocupada em manter-se ereta, teria se divertido com a cena deles caminhando tropegamente por mais um corredor escuro. Choi parecia particularmente com um sujeito que passara do ponto na bebedeira, sem nenhuma cerimônia quase se abraçava a Esan para não cair. Angel, apesar de meio zonza, era capaz de se manter sobre as próprias pernas, mas praticamente carregava pelo braço uma Lali não tão firme. Ren se movia lentamente, cabisbaixo, com as mãos deslizando pela parede como forma de apoiar-se e com Zaffar ao seu lado assobiando baixinho, muito alegremente. Já Mona era amparada por Zafy, pois a Mestra da garota ia à frente do grupo, parecendo entediada com a coisa toda. Vaca Azul de Porcelana.
Porém, o que realmente a estava deixando louca era ver com que firmeza e tranquilidade Alexis acompanhava o grupo. Sem exibir qualquer sinal de alteração, com as mãos nos bolsos e mesmo com os olhares zangados que volta e meia lhe lançava, seguia quase colado a ela. E Angel nem podia se dar ao luxo de se afastar bruscamente, pois poderia derrubar a pobre Lali. Era a presença dele, tão evidentemente protetora, que a mantinha mais resoluta em não demonstrar qualquer fraqueza. Não ia dar razão as neuras dele quanto a sua suposta fragilidade. “Veja isso, seu Príncipe infernal” — ela pensou com satisfação, lançando mais um de seus olhares de esguelha — “além de estar bem melhor que os outros, ainda estou praticamente carregando a Lali! Quem é a Humanazinha debilitada aqui, hein?”
Quando tropeçou, braços fortes cruzaram a sua cintura no mesmo instante. Institivamente Angel abraçou Lali para não deixá-la cair, por isso não pode fazer nada quando Alexis a envolveu com o corpo inteiro, amparando-a com firmeza. Quando ela conseguiu se firmar e fez um movimento para se afastar, Alexis não permitiu. Havia paciência nas palavras dele, mas também grande dose de censura:
― Não é nenhuma fraqueza aceitar ajuda, Angel. Nunca pensei que fosse fraca, mas também não pensava que era tão tola.
Estava prestes a responder a altura quando Lali ergueu a cabeça e seus olhos verdes, estranhamente enevoados, encontraram os seus. Então as palavras de Alexis a tocaram de outra forma. Se aceitar o auxílio dele tornaria ela uma criaturinha frágil, o que era Lali então por estar naquele momento totalmente sob seus cuidados? Poderia mesmo julgá-la sob uma ótica tão cruel e mesquinha? Afinal, Angel sempre viveu brigando e sobrevivendo às adversidades desde sua mais tenra idade, mas Lali não. Ela era uma princesa indiana que vivia no luxo, com uma família amorosa e bem estruturada, e pelo que sabia, tinha até mesmo uma namorada de infância da qual sentia uma imensa falta. Mas em Payre havia se tornado uma guerreira. Como poderia considerá-la menos do que admirável? Ah, saco! Odiava quando ele tinha razão.
Suspirando, deixou-o vencer naquele momento. Ceder não significava perder. Tinha outras formas de demostrar ao Príncipe que seu objetivo era ser sua parceira e não uma donzela em perigo que ele precisava constantemente salvar. Não era tão idiota a ponto de achar que Alexis não a considerava forte, mas sabia que ele carregava traumas, tantos quanto ela, e era contra isso que Angel lutava, não contra ele. O problema é que sua personalidade não a ajudava a ser sutil ou paciente, droga.
― Certo, Alteza, aproveite a promoção. Duas donzelas feridas pelo preço de uma.
Assim, fez com que Alexis segurasse Lali em dos braços e agarrou o que estava livre. Não foi nada casual a forma como seus seios ficaram roçando em Alexis. Aquele cretino a estava mantendo longe desde o episódio em que ela havia se transformado em Carrie, a Estranha. Do jeito que era estressado com tudo relacionado ao seu bem estar, possivelmente tinha achado que poderia quebrá-la em mil pedaços apenas por trocarem alguns amassos. O que só servia para deixá-la ainda mais revoltada. Nunca mais ia zombar das frustações da personagem insossa daquela série de livros de vampiros-fadas, pois poucas coisas eram mais enlouquecedoras do que ter um namorado gato que tentava preservar a sua delicada estrutura física acima de tudo. Por isso, foi incontrolável o sorriso vitorioso quando sentiu os músculos do braço de Alexis ficarem imediatamente tensos em contato com aquela parte especifica da sua anatomia. E o sorriso se ampliou ao notar as mãos masculinas cerrarem-se em punhos quando ela se enroscou ainda mais nele.
Viu, ela tinha outras formas de vencer o altivo Príncipe.
***
Ren despertou com um incomodo apito em sua cabeça. Assim que ele abriu os olhos o barulho cessou. Era o alarme que ele havia programado em seu equipamento. Tinham dado a eles duas horas de descanso, mas Ren dormira por apenas uma hora. Teria que ser o suficiente, pois seus planos precisavam ser colocados em prática antes dos demais acordarem.
Era hora de voltar para casa.
Não restavam mais dúvidas, estava realmente em outro planeta, por mais que quisesse se recusar a acreditar em algo tão absurdo, o trajeto até Cylles havia mostrado o quanto estivera equivocado até então. Vira com os próprios olhos o mundo fora do palácio e aquilo não era uma sala de simulação. Por isso precisava fugir dali, pois não teria qualquer forma de entrar em contato com o pai para ajudá-lo. Seu objetivo era voltar para a Terra e aquela era a oportunidade perfeita.
Tinha percebido a tensão dos aliens quando foi mencionado o tal pirata, e mal tinham sido colocados para dormir, os Guardiões já estavam se organizando para reunirem-se com os reis de Cylles e de Sylesth com o objetivo de traçar planos sobre isso. Apenas dois Sentinelas permaneceriam guardando a porta onde eles estavam descansando.
Ren ergueu-se o mais silenciosamente possível e deslizou para fora da sala escura. Foi rápido e fácil, já que tinha propositadamente escolhido o lugar mais próximo da saída. Assim que passou pela porta, foi abordado por um dos Sentinelas, claro que ele já estava preparado para isso.
― Você deve voltar a dormir, Humano, ainda falta uma hora para partirem.
― Eu sei, mas preciso de algo que esqueci na nave.
Ele viu a desconfiança brilhar nos olhos rosados do... bem, Ren não soube definir a princípio se era um homem ou uma mulher. O Sentinela tinha a sua altura, usava roupas cinzentas, uma calça justa que terminava em botas longas na altura do joelho. Vestia uma espécie de bata com uma gola que se enrolava em seu pescoço fino e caia quase até a cintura na qual havia uma cinta fina de metal preto. A figura era esbelta, mas percebia-se que possuía uma musculatura firme, evidenciada pela postura militar. Os cabelos curtos eram de um vermelho muito vivo que ressaltavam ainda mais a tez pálida, quase translúcida. Embora possuísse uma expressão grave, seus lábios carnudos e queixo delicado lhe davam uma suavidade quase infantil, acentuada pela combinação das sardas rosadas localizadas principalmente sobre o nariz e as bochechas.
A única evidencia mais clara sobre seu gênero era a voz. Possuía um timbre grave, mas havia uma rouquidão feminina que Ren, como grande apreciador do sexo oposto, não pode deixar de considerar muito sensual. Ok, era uma mulher.
― Do que se trata? Eu posso buscar enquanto você volta a dormir.
Ren sorriu cheio de confiança.
― Desculpe, gracinha, mas é algo Humano. Você não vai conseguir encontrar.
Ela olhou para ele com ainda mais suspeita, por isso Ren acrescentou prontamente:
― Se achar melhor, pode simplesmente me acompanhar.
A Sentinela hesitou, então lançou um olhar sobre o ombro, para o outro Sentinela que havia permanecido parado ao lado da porta.
― Fique aqui, já volto.
Assim dizendo, ela seguiu na frente dele pelo corredor.
Após vários minutos em silencioso trajeto, chegaram ao local onde estava a nave. Bem, agora viria a parte mais difícil.
― Vou levar apenas um segundo.- ele disse já se encaminhando para a AL-62.
― Eu irei acompanhá-lo.
Irritado, Ren disparou a maior bobagem em que conseguiu pensar para livrar-se da mulher intrometida:
― Tudo bem. Vocês são seres esquisitões mesmo que não se importam em assistir nós Humanos trocarmos nossos acessórios íntimos. – ele arqueou as sobrancelhas loiras, enquanto levava a mão a parte da frente de sua calça em um gesto muito explicito.
Viu a dúvida ser substituída pela confusão. Sim, tinha sido uma grande jogada aproveitar-se da ignorância clara dela a respeito de sua natureza diferente. Quase riu quando os olhos rosados focaram brevemente onde estava sua mão e então se desviaram rapidamente.
― Seja rápido. Tem três minutos.
Ótimo. Seria o bastante.
Ao tocar na nave, Ren logo viu as luzes azuis e então já estava dentro dela. Sem perder tempo, correu até a plataforma onde estava a esfera vermelha e brilhante. Assim como tinha visto Zaffar fazer, enfiou a mão lá dentro e quando ela brilhou, a nave toda se acendeu. Quase aos berros, ordenou:
― Travar a entrada imediatamente e ir para a Terra! Rota: planeta Terra! Agora!
Ele sentiu um solavanco ao mesmo tempo que gritos do lado de fora se fizeram ouvir, mas ele os ignorou, sua atenção estava totalmente voltada para a voz que disse as palavras mais maravilhosas que já ouvira em sua vida:
― Reconhecimento: Rembrandt. Rota: Planeta Terra. Iniciar partida. Ren nem se incomodou em sentar-se nas confortáveis poltronas. Jogou-se no chão e riu enquanto dava adeus aquele mundo maldito.
Estava finalmente voltando para casa!
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