Destinados à Payre
1 PARTE I - Terra ou Mundo Humano
Notas iniciais
O garoto não conseguia acreditar no que estava acontecendo. Sua face doía, seu estômago e — porra! — até respirar era difícil! Observou ao seu redor, percebeu olhares de choque, incredulidade, mas para seu desgosto a maior parte era de zombaria. Estava sendo ridicularizado por todos os seus colegas pela situação absurda em que se encontrava.
Os alunos haviam formado um círculo e ninguém ousava se aproximar para ajudar. “Graças a Deus!” pensou Ren, já era bem humilhante apanhar daquela forma, mas ter que ser resgatado seria ainda pior… Bem, talvez não fosse tão ruim, gemeu sentindo as costelas doerem quando se mexeu.
Ele tentou se erguer e sentiu a raiva crescer ao ouvir aquela voz. Infelizmente era a voz feminina mais linda que ele já tinha escutado.
–- Então ainda consegue se mover? — A garota riu de forma suave.
Ren, realmente pensou em desistir, era o momento de admitir que sua situação poderia se tornar ainda pior se ele voltasse a reagir. Mas… ele não podia. E se aquele cara descobrisse? Seu orgulho não iria suportar. Se bem que bater em uma garota não ia ser lá de grande ajuda também. No mínimo ele seria considerado um covarde por isso. Ren riu diante da ideia, o que só lhe provocou mais dor, afinal, do jeito que estava a situação o provável é que ele apanhasse mais. Quem diabos ela aquela criatura afinal?
A garota deu uma última olhada nele e começou a se afastar, todos os alunos, sem uma única exceção, foram abrindo passagem. Burro tinha sido de ele por não ter feito o mesmo, graças ao seu jeito descuidado estava naquela situação. Jogado no chão, sujo com terra e grama, o lábio inferior cortado, espancado por uma garota. Ou algo que poderia ser uma garota.
Subitamente as vozes cessaram e no caminho pelo qual a garota seguia surgiu outro rapaz. Ren o reconheceu imediatamente, mesmo com os olhos semicerrados por causa do suor e do sangue que lhe escorria pela face.
–- Puta merda — resmungou Ren. Seu orgulho estava prestes a mergulhar em um abismo realmente profundo. Maldita imprudência sua!
***
Alexis observou a multidão se afastando à sua passagem. Não era algo novo para ele, fosse pelo nome da sua família, por sua aparência ou pela aura de confiança que possuía, estava acostumado com as pessoas agindo daquela maneira. Uma obediência instintiva. Mesmo em um ambiente como aquele, uma instituição de ensino particular onde os filhos das pessoas mais ricas e influentes do mundo iam para aprender coisas normais ensinadas em outras escolas, mas também algumas peculiaridades especificas a futuros líderes. E isso incluía, eventualmente, embora não fizesse parte do currículo oficial, algumas demonstrações abusivas de poder, de status e alianças políticas e econômicas que deixavam os pais muito satisfeitos. Ou muito irritados.
Ele esteve durante as últimas horas em uma reunião com a Diretoria da escola e alguns dos conselheiros sobre as regras da Alpha, sim a instituição tinha esse nome sugestivo. Até que foi avisado por Eric, um dos representantes disciplinares, que uma situação bastante complicada estava acontecendo na entrada do prédio principal do Campus Escolar. Alexis considerou estranha a atitude de Eric, ele geralmente resolvia os mais diversos problemas criados pelos alunos, mas preferiu não questionar. Talvez algum dos envolvidos fosse alguém “difícil”. Levando em conta o público da Alpha, poderia ser o futuro rei de alguma nação. E Alexis tinha um jeito muito especial de tratar a realeza. O último ainda estava tremendo diante da possibilidade de ter passado de segundo para décimo na linha de sucessão ao trono. E esse era um dos principais motivos pelos quais o chamavam para resolver casos “complicados”. Uma outra pessoa qualquer, como um funcionário, seria facilmente intimidado pelo poder daqueles que deveria repreender. Já bastavam as dificuldades passadas pelos professores.
Alexis prestou atenção na situação à sua frente e quando a multidão de alunos possibilitou que visse o centro, uma única pessoa permaneceu no seu caminho. Ele analisou a figura atentamente, aquela aparência era completamente destoante dos demais alunos. A pessoa usava calça jeans que certamente já tinha tido dias melhores, pois estava rasgada na altura de um dos joelhos e não tinha barra, arrastava-se no chão por cima de tênis cinzas. Um moletom verde escuro quase até a altura dos joelhos cobria o resto do corpo, com um capuz puxado sobre a cabeça impedindo uma visão do rosto.
Quem tinha deixado aquele indivíduo entrar? Como ele havia passado pela equipe mais do que perfeita de seguranças da Alpha? Além disso, a escola ficava em uma ilha e contava com uma proteção de causar inveja a algumas fortalezas reais.
–- Quem é você? — Alexis perguntou.
O capuz suspirou e para seu assombro uma voz melodiosa com sotaque inglês resmungou:
–- Sou apenas uma aluna. — Ela simplesmente voltou a andar em sua direção, passando ao seu lado para ir embora.
Instintivamente e surpreso com aquela atitude, antes que ela passasse, Alexis estendeu a mão e a segurou pelo braço. A partir disso tudo aconteceu muito rápido. A garota dobrou o braço de uma forma inesperada e quase conseguiu escapar, Alexis se recuperou rapidamente a tempo de bloquear a tentativa de fuga. No fim, ela permaneceu presa, só que pelo outro braço. Mas então, para assombro do rapaz, ela inclinou o corpo e com um impulso chutou a sua perna. O impacto foi tão inesperadamente forte que ele perdeu o equilíbrio, mas diferentemente do que provavelmente esperava a garota, não a soltou. Os dois caíram de lado, juntos. Em um movimento súbito, Alexis ficou sobre ela, prendendo os dois braços da garota junto ao seu corpo. Ela tentou escapar, mas Alexis a puxou mais firmemente, até mesmo passando uma de suas pernas sobre as dela para que não tentasse algo inesperado.
–- Mas que inferno pensa que está fazendo?! — A garota gritou, indignada.
–- Você estava tentando escapar e me agrediu — respondeu friamente Alexis. — Agora me responda: quem é você? Qual é o seu nome?
Enfurecida ela tentou escapar, mas a força de Alexis a impediu. Parando de se mexer, a desconhecida retrucou:
–- Quem é você?! Com que direito me questiona? Pelo que posso ver não passa de um aluno, não tenho motivo algum para dar satisfação a um pirralho qualquer!
Dizendo isso ela virou a cabeça e mordeu com força a parte do braço de Alexis que conseguiu alcançar. A dor o fez recuar tempo suficiente para que ela pudesse erguer a parte superior do corpo, mas ainda não foi o bastante para escapar.
Irritado, Alexis a empurrou contra a grama e sem se importar com os alunos que assistiam a cena absolutamente chocados, colocou todo seu corpo sobre o dela, pernas contra pernas e as duas mãos erguendo os braços da garota para o alto, ficando de quatro sobre ela. Tomou cuidado de se manter afastado dos dentes afiados.
A situação o incomodava mais do que qualquer coisa que pudesse listar naquele momento. Seu braço ferido latejava, sentia-se um idiota lutando daquela forma com uma pessoa tão pequena, diante de uma plateia formada por quase todos os alunos do Campus Escolar da Alpha. E o mais desconfortável era o fato de estar irritado. Ele não era assim. Quem era aquela maldita garota?
Analisando a culpada por ele estar naquela situação reparou que ainda não tinha visto o rosto dela. Apenas a boca, o queixo e parte do nariz estavam visíveis sob o capuz. E por algum motivo a boca lhe chamou a atenção. Era naturalmente rosada, sem batom, algo incomum por ali, e carnuda, os lábios inferiores formavam um conjunto harmonioso com o queixo pequeno e delicado que exibia uma leve covinha.
Quando os dentes dela, em um ato de pura raiva, morderam os lábios que ele observava, Alexis sentiu um incomodo arrepio cruzar seu corpo e que o fez ciente de outros detalhes. A pele delicada e macia dos pulsos que ele segurava cobertos por faixas pretas, as pernas entrelaçadas com as suas, que não eram longas, mas eram bem torneadas e firmes. E sentiu seu perfume. Era um cheiro de Jasmim. Como uma garota daquelas cheirava como uma flor exótica? E principalmente, como era capaz de fazê-lo sentir aquelas coisas?
Ele era honesto o suficiente para admitir que se sentia atraído, não havia outra forma de descrever as reações do seu corpo, mas não se deixaria dominar por algo tão sem sentido. Não sabia o seu nome, não conhecia o seu rosto, sabia apenas que era violenta e brigona. E embora apenas aquela proximidade entre eles fosse o bastante para causar aquelas sensações assustadoras nele, tinha certeza que logo superaria aquele incômodo.
–- S-sai de cima de mim!- A garota ordenou em uma voz de comando, mas levemente sem fôlego.
Alexis então reparou que a pulsação dela estava estranha, parecendo fraca. Sem pensar saiu de cima da desconhecida, ainda no chão, a colocou em seus braços e baixou seu capuz. Ele ouviu vagamente as pessoas a sua volta arquejarem, mas estava com a atenção completamente voltada para a garota que o fitava com os mais belos olhos que ele já vira. Eram de uma cor incomum, violeta, que formavam um conjunto lindo com os cílios longos e pretos, em um contraste dramático com a pele muito alva e com os cabelos louros, quase prateados de tão claros. Os cabelos, aliás, assim que o capuz foi puxado caíram como cascatas até o chão em um ondulado suave. Algumas mechas tocavam as mãos de Alexis dando a sensação de que seda deslizava por sua pele. E o cheiro de jasmim se tornou ainda mais inebriante.
Ainda meio desnorteado com a aparência da garota, Alexis notou sua apatia. Até então ela havia tentado escapar de forma incessante, até o mordeu para atingir esse objetivo, mas nesse momento apenas o encarava com os olhos embaçados e lábios entreabertos, com a respiração pesada. Suor corria pela testa e pescoço. Ela não parecia bem.
–- Me solte! — A voz que até então estava forte e cheia de raiva, soou frágil, quase suplicante. — Me deixe ir, droga!
Alexis não tinha dúvidas, ela precisava de ajuda. Em um único movimento se pôs de pé, com ela firmemente protegida em seus braços. Sem olhar para nenhum lado, caminhou apressadamente por entre os colegas que voltaram a abrir caminho para ele passar. Ninguém conseguiu entender o que havia acontecido ali, por isso, cada um espalhou a notícia a sua maneira, de forma que a única informação em comum foi a forma surpreendente com que Alexis tinha agido e que a menina parecia um Anjo.
***
Ren assistiu a cena boquiaberto. Alexis não dera uma única olhada em sua direção. Não pareceu notar mais ninguém desde que a pequena figura surgiu na sua frente. Havia dominado a garota e aceitado insultos que ninguém ali se atreveria a fazer. Ren nunca imaginou que viveria para ver Alexis, literalmente, se embolar no chão com alguém, muito menos com uma menina.
Os alunos a sua volta comentavam o inusitado do que haviam presenciado. Alexis normalmente teria observado a cena, aqueles que faziam parte dela e solicitado que todos que não estivessem envolvidos voltassem para seus afazeres. Então, sem as inúmeras testemunhas, deixaria bem claro as implicações dos atos cometidos, tais como corte em várias regalias, uma maior cobrança por desempenho nas aulas e, o maior medo de todos, o antagonismo e repudio do poderoso príncipe. Isso resultaria em sérios problemas com os pais que sempre ficavam sabendo. Ren, mais do que ninguém sabia bem disso.
Então o que havia acontecido? Ok, a garota também não era lá muito normal, ela havia desafiado abertamente Alexis ao tentar ir embora daquela forma, mas o rapaz, em qualquer outra situação teria deixado a pessoa ir, com uma civilizada ameaça que sem dúvida seria cumprida ao pé da letra na primeira oportunidade. Contudo naquele momento ele a puxou pelo braço, a imobilizou com o próprio corpo e ainda ficou encarando a garota como se não estivessem cercados pela escola inteira!
–- O Babaca Real ficou louco — resmungou Ren para si mesmo, saindo do local, sem saber bem o que iria acontecer com ele. Será que receberia uma advertência novamente? Seria chamado para esclarecer a situação? Como iria dizer que apanhou daquele jeito porque impediu a garota de entrar no prédio ao zoar com a forma como ela estava vestida? Sentindo as costelas doerem, parou para respirar fundo e balançou a cabeça desgostoso. — Putaquepariu! Apanhei daquela coisinha pequenininha?!!
Certo, poderia ainda não saber os resultados que seus atos teriam, mas chegou a uma decisão muito clara. Iria aprender artes marciais sem falta.
***
Angel observou onde estava, sabia que era uma enfermaria, além de ser um local de fácil identificação era muito familiar para ela. Mas não lembrava como tinha ido parar lá e nem por que. Ao se erguer na cama sentiu uma leve tontura, mas procurou ignorá-la, pois ouviu seu nome sendo pronunciado por uma voz com um sotaque francês muito bonito e diferente. A voz, no entanto, serviu para trazer suas lembranças de volta.
Tinha batido em um garoto idiota no pátio e outro arrogante qualquer surgiu, mas como estava muito cansada pelo embate com o outro rapaz, não conseguiu impedir de ser aprisionada pelo moreno com sotaque francês. Ao tentar se soltar só havia agravado a sua situação, o que a levava até onde estava naquele momento.
Sentindo-se mais cansada do que o normal, Angel voltou a deitar na cama e fechou os olhos. Talvez fosse bom aproveitar aquela oportunidade para dormir mais um pouco. Sempre havia a esperança de não acordar dessa vez.
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