Alexis não soube definir o que viu nos olhos violetas. A expressão de Angel, pela primeira vez, não deixava transparecer nada. Nenhuma emoção. Nem mesmo a raiva que ele já antecipava.

Com firmeza ele continuou:

–- Creio que só conseguirei superar totalmente, seja lá o que for isso, se a mantiver por perto, caso contrário correrei o risco de mesmo daqui a alguns anos ainda sentir algo por você. Ou imaginar isso.

–- A maioria das pessoas pensa de forma contrária. O que os olhos não vêm o coração não sente e tudo o mais – Angel falou com voz monótona.

–- Percebo que esse não é o melhor método. As pessoas tem a tendência a romantizar esse tipo de situação, com o tempo passam até a questionar se não seriam mais felizes se tivessem feito outras escolhas. “E se eu estivesse com ela agora? E se todos os meus problemas começaram porque não fiquei com ela?” – Alexis refletia sobre o assunto. — Sonhos e desejos frustrados podem ser ainda mais poderosos do que o que realmente sentem uns pelos outros na realidade.

Angel deu dois passos para trás e encostou-se na mesa que tinha as suas costas. Ainda o encarando placidamente, questionou:

–- Está dizendo que me quer ao seu lado como uma espécie de antidoto para as emoções que sente por mim? Acredita que a convivência o fará, de alguma forma, perceber que sou apenas mais uma garota neste vasto mundão de Meu Deus?

Ele balançou a cabeça vagarosamente em concordância.

–- Isso mesmo. – Alexis a analisou dos pés a cabeça, ainda refletindo. – Não sei o que exatamente em você me atraiu. É bonita, mas isso não é tão significativo assim. Vivo cercado por garotas igualmente lindas. Já chegamos a conclusão que seus modos não são nada atraentes. É violenta e nada sociável. Ofende-me e humilha em todas as oportunidades que encontra. – Ele franziu a testa por um momento. – Isso me intriga e me frustra ao mesmo tempo.

–- Tem ideia do quanto você está soando arrogante e mais desagradável do que o normal agora?

–- Além disso, provoca reações que apenas me deixam irritado. Então por que você? — ele continuou como se nem ouvisse as palavras da garota, tão perdido estava em seus pensamentos.

Angel bufou e revirou os olhos.

Alexis observou aquela pequena figura a sua frente. Sim, ele tinha dito apenas verdades, sobre as dúvidas e a frustração que o tomava, mas ele não havia dito tudo. Não admitiu que normalmente não falava tanto com as pessoas, que não ria como fazia ao lado dela, que nem sabia possuir um senso de humor até conhecê-la. Que lutar com ela havia sido uma das coisas mais divertidas que já fizera na vida. Talvez a mais. Que discutir com Angel era algo reconfortante, pois ninguém, além dela, teria essa coragem. E principalmente, no fundo, sentir todas aquelas coisas havia feito com que se percebesse mais vivo. E com medo. E também mais vivo e humano por isso.

Era disso que seu pai falava? Seria essa sensação de vida e de prazer que deveria evitar, pois poderia levá-lo a ruína caso a perdesse? E era disso que vinha o medo? De perdê-la em algum momento? E será que essa mudança de atitude, querer que ela ficasse ali, não era uma mera desculpa, pois já não podia deixar que Angel se afastasse dele?

Não, ele tentava ser prático, era disso que buscava se convencer, tinha falado a verdade, queria que ela ficasse ao seu lado como uma forma de fazê-lo entender que aquilo tudo era uma tolice e, assim como acontecia com tantos outros adolescentes, logo iria passar e ele continuaria com a sua vida. Mas e se aquilo não fosse tudo? Como saberia? Chega! Não estava em condições de analisar nada mais aprofundadamente.

–- Acho que chegamos a um acordo. Você fica e eu farei com que se sinta à vontade na Alpha. – Alexis lançou um olhar indagador na direção da garota.

–- Só pode estar brincando!

Ele viu a raiva finalmente surgir. Quase sorriu diante da imagem, mas se conteve, afinal estava muito perto e prezava seus dentes.

Angel ergueu o queixo, indignada.

–- Eu não vou ficar aqui. Eu não vou fazer parte dessa loucura que está propondo!

–- De que loucura exatamente estamos falando?

–- Me manipular? Prender? Superar? Vai me colocar em uma maldita sala e ficar algumas horas por dia ao meu lado até se tornar imune a minha presença? Como se eu fosse uma espécie de vírus? Ou quem sabe, para tornar a coisa mais humana, isso tudo vai ser no seu quarto, até para um efeito mais rápido?! É isso, seu cretino?!?

Alexis ergueu as duas sobrancelhas escuras.

–- Na verdade não havia pensado em nada do gênero. Mas as duas sugestões são bem interessantes. Principalmente a segunda. – Vendo o belo rosto ficar vermelho, de fúria ou de constrangimento, o rapaz, apesar do perigo, sorriu. – Mas prevejo problemas com essas duas excelentes sugestões. Você poderia tentar me matar, o que seria bem ruim. Ou – seus olhos azuis brilharam sedutores – você acabaria tão louca por mim que poderia tentar me convencer a mantê-la ao meu lado para sempre, o que seria igualmente ruim, principalmente para você. — O belo sorriso com covinhas era frio e arrogante. – Pois isso não aconteceria. Jamais.

–- Você tem certeza?

O que era aquela expressão no rosto dela? Alexis ficou preocupado e se preparou para algum ataque repentino. Mas Angel deu um pulinho e sentou-se na mesa em que estivera apoiada até então. Ele relaxou, mas não muito, quando ela voltou a falar.

–- E já pensou se tudo o que conseguir, com essa proposta absurda, é ficar ainda mais caído por mim?

–- Isso não vai acontecer. – Tomara. É o que eu espero. Alexis não podia verbalizar aqueles pensamentos.

–- Tem certeza? – ela repetiu.

–- Cla...

Certo. Ela finalmente conseguiu acertá-lo. Com a boca sobre a dele.

Quando Alexis deu por si, estava empurrando Angel contra a mesa, correspondendo de forma insana o que ela havia iniciado sem qualquer aviso prévio, ao jogar-se contra ele e o beijado.

Angel era doce, mais doce do que ele havia suposto em seus delírios com ela. Alexis admitia que já havia imaginado como seria beijar a garota na primeira vez em que seus olhos pousaram naquela boca rosada. Tinha imaginado milhares e milhares de vezes ao longo daquelas semanas. Até sonhado com isso. Mas a realidade era infinitamente melhor. E pior. Era viciante, embriagador, o cheiro de jasmim entrava por seus poros, suas mãos já não lhe pertenciam e passavam ora pelos cabelos feitos de seda, ora pelo corpo macio, por cima e por baixo da blusa lilás. Percebia, mais por instinto do que por atenção, que ela se arrepiava com o seu toque. Seus músculos ficavam trêmulos e quando acariciou suavemente a lateral do seio feminino, Angel inclinou a cabeça para trás e arqueou o corpo ainda mais contra o dele, como que implorando por uma maior aproximação. E aquilo o deixava, se possível, mais fora de si. Quando sentiu as mãos pequenas tocarem sua pele de forma possessiva, arranhando e apertando, perdeu totalmente o controle.

Sua boca faminta deixou os lábios macios e passou pelo rosto quente, pelo pescoço de pele fina e sedosa, mordiscou e lambeu, enquanto ouvia os gemidos. Seus. Dela. Não sabia de quem e nem se importava, mas era estimulante. Tudo nela o estimulava e o atraía. Perdido em desejo, voltou a beijar os lábios dela, engolindo os gemidos que escapavam deles e abafando os seus próprios num esmagar febril de corpos, de mãos e bocas.

Estava tão embriagado pelas sensações que não percebeu, e nem conseguiu evitar, quando Angel, com sua força surpreendente, o afastou pelos ombros e o acertou com um soco direto no queixo.

A princípio ele não conseguiu definir exatamente de onde veio a dor. Foi de ter sido afastado dela ou resultado do golpe?

Alexis cambaleou para trás enquanto praguejava em uma mistura de francês e árabe. Passou a mão pela face dolorida. Caramba, como alguém tão miúda podia dar um soco daqueles?! Ainda se recuperando do choque, e da dor, encarou a garota. Angel estava sentada na mesa, calmamente o observando com um leve sorriso na face ruborizada. Le petit diabolique!

–- Até que não foi difícil deixar a marca que eu precisava – Angel disse, aumentando o sorriso perverso. – Obrigada por ter me alertado antes. Se eu o deixasse louco o suficiente, conseguiria acertá-lo. Não foi isso o que me disse no nosso segundo encontro?

E nesse momento ele percebeu o tamanho da encrenca em que havia se metido. Pois, embora fosse o primeiro soco que recebera na vida, não estava furioso. Estava ocupado de mais admirando a linda garota que sorria de forma zombeteira com lábios vermelhos e inchados dos beijos trocados entre eles. Os cabelos prateados haviam se soltado totalmente da trança e, revoltos, escondiam de forma sensual partes dos ombros e dos seios, mal cobertos pela blusa puxada para cima e com as alças caídas, revelando a pele alva coberta por marcas rosadas. Marcas deixadas pelas mãos e pela boca dele. Era a imagem mais sexy que ele já tinha visto.

Ele estava ferrado!

Completa, total e indiscutivelmente, ferrado!

Passando as mãos pelos cabelos negros, Alexis virou-se de costas para ela.

–- Não pense que venceu. O que aconteceu foi que eu caí e bati o queixo – ele falou indo em direção a camisa que havia jogado no chão. Era melhor sair logo dali.

Estava terminando de vestir a roupa quando ouviu um baque e um gemido. Assustado olhou na direção da mesa e o que viu foi Angel caída no chão se contorcendo. Correu até ela e a pegou nos braços, a garota tentou se desvencilhar, mas estava tão fraca que foi fácil controlá-la.

–- Mochi... cof... hackk...

Alexis viu que ela apontava para a mochila jogada ao lado da mesa, então ele estendeu o braço e a trouxe para perto. Com mãos tremulas Angel a agarrou e tirou de dentro um frasco colorido. Vendo que ela não conseguia abri-lo Alexis a ajudou. Leu no rótulo que eram vitaminas. Lembrou, enquanto ela engolia três das pastilhas, que a médica da Alpha tinha dito da outra vez que aquela era uma situação normal, quando acontecia Angel precisava tomar alguns daqueles comprimidos, dormir por algumas horas e se alimentar.

Olhou para a garota em seus braços e notou que ela estava ficando mais calma, a respiração mais tranquila e o corpo começava a relaxar contra o seu peito. Os olhos mal conseguiam permanecer abertos.

–- Me... deixe... aqui... – Angel murmurou antes de fechar os olhos e suspirar, logo caindo no sono.

Alexis olhou para os lados, novamente por culpa dela, se sentindo meio perdido. O que poderia fazer? Como deixá-la naquela sala dormindo desprotegida, por tempo indeterminado, após tomar uma medicação e, ele voltou a observar a garota no seu colo, seus olhos passando pelos cabelos espalhados pelo chão, para a blusa que mal a cobria e para os lábios entreabertos, com aquela aparência de abandono tão perturbadora?

Ok, nem pensar, não tinha a menor possibilidade de deixá-la ali. Ele ia ficar com ela. E preferiu não se questionar sobre algo óbvio: por que não decidiu levá-la logo até a sala médica, como já havia feito anteriormente? Caso refletisse sobre isso, teria que admitir que simplesmente não queria se separar dela. Ainda não.

Alexis puxou a mochila de Angel pela alça e, com a garota nos braços, se ergueu do chão. Passou pela porta, que abriu com o pé, e olhou para os dois lados do corredor. Ninguém a vista. Já passava do horário do almoço, então os alunos provavelmente estariam espalhados pelos restaurantes e lanchonetes do Campus. Rapidamente Alexis foi pelo corredor até a porta onde ficava a escadaria. Estava no quarto andar do prédio e seu plano era levar Angel para sua sala no GEA que ficava no prédio Central.

O Campus Escolar da Alpha era formado por dois Dormitórios, um masculino e o outro feminino, um Prédio de Pesquisa, onde ficavam as bibliotecas e os laboratórios, um Complexo Esportivo, com as piscinas, as quadras, as academias, entre outras estruturas, um Centro de Lazer, com lojas, salão de beleza, spas, mais academias, cinema, teatro e restaurantes, o Prédio Central, onde estavam instaladas as salas administrativas, a Direção, o Conselho, as salas dos Clubes Estudantis, a ala médica e uma infinidade de Salas dos Professores. E Alexis, naquele momento, estava no Complexo Escolar do Ensino Médio, onde ficavam as salas de aula desse nível de ensino. Cada Nível de Ensino da Alpha (Fundamental I e II e Ensino Médio) possuíam um prédio de salas separado. Em cada aula poderia ter, no máximo, dez alunos. Nas semanas de testes eram usadas as salas de provas, com cerca de vinte a trinta lugares.

Para facilitar a circulação pelo Campus, havia carrinhos para uso externo, além de passagens subterrâneas e aéreas entre os prédios. Era uma estrutura realmente impressionante com seus vários prédios modernos e altos, em vidro e metal. Ninguém diria que ali era uma escola.

Pensando sobre qual era o melhor caminho até o Prédio Central, que era o seu destino e ficava ao lado, Alexis começou a descer a escadaria. As passagens subterrâneas não eram as mais populares entre os alunos. E de forma a provar o seu ponto de vista, durante todo o trajeto até o outro lado da passagem silenciosa, que era apenas um longo corredor bem iluminado, o Príncipe não encontrou ninguém. Chegando ao outro prédio, subiu pelas escadas percorrendo oito andares. Assim que passou pela saída das escadas, praticamente correu pelo corredor, dobrou e esquerda e entrou na recepção do GEA. Havia conseguido atingir seu objetivo sem nenhum contratempo.

Já na sua sala, depositou Angel cuidadosamente sobre o sofá de couro preto e macio. Foi até a cadeira próxima a janela e pegou o casaco que costumava deixar pendurado no encosto dela. O dobrou de forma que os botões ficassem para baixo e o usou como travesseiro para a garota adormecida. Percebendo que ela ainda estava com as roupas meio desajeitadas, tirou a camisa que vestia e a cobriu com ela. Ficando satisfeito com o resultado, pois agora ela parecia mais confortável, foi até a sua mesa e ligou o notebook.

Depois de uns quinze minutos tentando desviar os olhos do sofá sem sucesso, desistiu e resolveu ligar pedindo comida. Não sabia o que ela gostaria de comer então pediu por coisas variadas. Enquanto aguardava, suspirou fechando o aparelho e apoiando o queixo nas mãos cruzadas sobre o vidro da mesa. Finalmente se permitiu, sem mais desculpas, admirar dormir a garota que fazia o seu coração aquecer e bater tão alto que o deixava surdo para o medo de deixá-la entrar na sua vida. E tentou pensar em alguma forma de convencê-la a não ir embora.