Destinados à Payre
47 Especialista em (sobre)viver
Notas iniciais
Angel já esteve à beira da morte antes. E não apenas uma vez. Nem duas. Suas experiências foram tantas e tão diversificadas (para não dizer bizarras) que poderia ser tipo aquelas pessoas contratadas para dar palestras sobre temas que dominam com maestria. Ou poderia escrever um livro com suas histórias incríveis, tomando o cuidado para dar todo um ar de superação, recheando com muitas frases de efeito. Ia ganhar uma bela grana. Claro, o que nem seria assim tão interessante, afinal, era muito rica. Mas poderia ser legal como a J.K. Rowling e doar tudo a quem precisasse, poderia criar uma ONG para pessoas que tinham passado por situações como a sua…
Cara, quanta bobagem! Ela nem estava mais na Terra. E duvidava que alguém em Payre ficaria impressionado com a história de uma jovem suicida, detestada pela família, com uma doença fatal, que um belo dia acabou encontrando um Príncipe… Pensando bem, que clichezaço era aquela história? Nem a pior fic tinha tanta falta de criatividade. Credo, definitivamente seria zoada loucamente por sequer cogitar possibilidades com material tão pobre e desinteressante.
E, claro, além da falta de talento do “roteirista da sua vida”, também pesava bastante em sua decisão de não levar adiante a nova carreira de escritora bestseller/palestrante/filantropa, o fato de estar prestes a morrer. De novo.
Que era precisamente o motivo que a levou a toda aquela reflexão sobre um futuro. O fato de não ter um futuro. Morte era realmente algo complexo. E podia apostar que não ia voltar a acordar em outro mundo, isso é, se ela não estivesse errada e realmente existisse vida além da morte.
Falando em morte, aquele brilho era o famoso citado para acontecer naqueles momentos específicos?
Bem, não. Era a luz ofuscante de Khor, que parecia cegá-la e fazer seu estômago sensibilizado gelar. Seu corpo tentava a lembrar de forma decididamente desagradável a situação em que se encontrava.
Pensando bem, era, sim, a luz da morte. Pois mesmo com toda a sua citada experiência no assunto, Angel não pôde conter o horror que a assolou. Mesmo sua tentativa de controlar o pânico buscando uma espécie de escape mental, imaginando um monte de baboseiras sem sentido, reduziu-se a nada com a aproximação de Khor. E ele parecia não ter a mínima pressa em terminar com aquilo, não importando a forma que fosse. Após, com um mero erguer elegante de sua mão, dispensar todos da sala em que estavam, ficou apenas a encarando.
A sala circular, vazia e escura, apenas com uma leve iluminação amarelada exatamente no centro, bem sobre ela e a Princesa morta, que deixava parte de Khor nas sombras, contribuia para aquele cenário dramático. Dramático e macabro.
Um palco perfeito da morte.
Se Khor tivesse tido um rompante de raiva por ter sido privado de sua “refeição”, Angel talvez conseguisse lidar com aquilo. Seria rápido e nem lhe daria tempo para sentir qualquer coisa. Mas não. O Rei Deiroon a olhava, já a algum tempo, com curiosidade. E se não estivesse enganada, até com um pouco de frustração, como se ela tivesse, com sua atitude, lhe criado uma situação inconveniente.
De alguma forma, aquele olhar lhe trouxe lembranças. Olhos cinzas e frios. Frustrados, impregnados com rancor pelo que Angel era. Pelo que ela representava. Desconforto por ter que sujar as mão com aquilo. Ela.
Medo. Dor. Solidão. Emaranhados e entranhados dentro de si de forma tão detestavelmente familiares.
Angel, no fundo, tinha em algum momento achado que havia superado seus problemas na Terra, mas pelo visto, na pior hora, ali estavam todos eles bem na sua cara.
A expressão do seu avô misturava-se à exibida por Khor diante de seus olhos atônitos. Mas não era isso que lhe causava aquele pânico. Não, claro que não. Aquele payreano que exalava morte por cada poro de sua pele dourada e perfeita era o único responsável por isso. Era ele que tornava sua respiração mais rápida e dolorosa. Seus membros pareciam dormentes e pesados por causa dele. As lágrimas contidas a muito esforço no canto de seus olhos eram pelo que estava por vir. Pelo que ele lhe faria.
Mas as lembranças, aquelas malditas lembranças sem controle, deixavam seu coração em pedaços. Por culpa do seu avô. Por se sentir como uma criança sozinha e vulnerável. E por se sentir dessa forma, custava-lhe cada fôlego não pensar nele. Em Alexis. O lindo Príncipe que encontrou em um belo dia em sua vida clichê.
Ela não era uma donzela que precisava ser salva.
Ela não era.
Mas era amada e amava.
Não era uma criança abandonada.
Não era.
Era uma mulher forte que se amava.
Era enlouquecedor enfrentar a morte sabendo dessas coisas. Morrer quando nada importava era fácil. A dor vinha antes, era causada por viver. Mas a morte, quando havia tanto a perder, essa era difícil. Angel descobriu que não sabia lidar com ela desse jeito. Pensar em Alexis a faria desmoronar completamente, por isso se concentrou unicamente em Khor.
A dor física não seria mais destrutiva do que a que tentava escapar lentamente por cada rachadura de seu coração. Assim ela, a inexperiente em estar à beira da morte não desejada, imaginava.
― Sabe, Humana — a voz de Khor, calma e gentil, conseguia ser pior do que se ele manifestasse toda a sua fúria através dela, mas era o suficiente para trazer parte de sua imponência opressiva. — Eu realmente estou curioso sobre você. — Lentamente ele foi se aproximando, pisando despreocupadamente sobre o sangue da Princesa morta, chegou até mesmo a fazer uma parada para dar uma leve empurrada com os pés em uma parte da Oberoh que estava no caminho, como quem chuta uma pedra incômoda por mero capricho. — Apenas estou aqui pensando até que ponto minha vontade de devorar até seu último pedacinho é maior do que a vontade de descobrir mais sobre quem você é.
Quando parou na frente de Angel, Khor abaixou-se, apoiando-se sobre um joelho. Ela notou que a roupa branca dele estava respingada de sangue, e não pôde evitar imaginar de que maneira o seu próprio sangue estaria misturado àquele. E que não havia qualquer forma de escape. Jamais sairia ilesa, assim como a Oberoh, que após ter sofrido de maneiras que nem conseguia cogitar, tinha sido morta de forma tão horrível. Sem despedidas ou últimas palavras. Ela simplesmente se foi pela lâmina da espada de uma estranha, que na verdade nada mais era do que uma arma usada pelo próprio pai. Ou seja, no fim, foi morta por aquele que lhe deu a vida.
Quão doloroso tinha sido para aquela alma que se desfez?
O quão doloroso seria o seu próprio fim?
Pensar nas consequências daquele encontro final com Khor, a falta de qualquer perspectiva de futuro, no que deixaria para trás, a fez agir como uma suicida, afinal, isso era algo que estava familiarizada e a ajudava a afastar pensamentos relacionados às perdas inevitáveis que lhe esperavam.
Angel ergueu a cabeça e ficou cara a cara com Khor. O aspirante a Deus. O Demônio.
O Demônio de Payre.
E ele sorriu, exibindo seus dentes brancos e perfeitos. Nada de pontas ameaçadoras, nada de manchas de sangue. Tão humano. Tão enganadoramente normal. E seria fácil se deixar levar por essa aparência, se não fosse aquela coisa que saía dele, inexplicável, ainda que tão presente. Como tentáculos invisíveis que a apertavam em um horrendo abraço de frio e de medo, sugando sua energia, mexendo com sua cabeça. Enquanto seus pensamentos giravam em uma velocidade louca, preso aquele poder, seu corpo não sabia fazer outra coisa que não ficar rígido, trêmulo e gelado.
― Como estou nesse dilema — Khor, indiferente a tudo que despertava nela, inclinou a cabeça para o lado, aproximando ainda mais o rosto da garota que permanecia sentada no chão, imóvel — aceito sugestões. Como eu deveria reagir a isso? — Sem desviar sua atenção dela, fez um gesto vago com uma das mãos indicando o caos da morte ao redor deles.
A coragem dos sem esperança, a coragem dos que precisam esquecer para não enlouquecer, mesmo que de forma tão tola, fez com que Angel conseguisse responder, em tom fraco e baixo, uma sombra de si mesma, seu coração batendo em sua garganta:
― Já que está pedindo a minha opinião, creio que deveria optar por uma alimentação mais saudável. Carne e sangue parece que tem forte influência no desenvolvimento de alguns distúrbios de personalidade, como “Síndrome do Vilão” e “Eu Sou o Deus do Universo”... E também faz mal para a pele, claro. Foi o que ouvi dizer.
Ah, porque eu sou essa idiota?
Porque preciso ser.
Khor arqueou as duas sobrancelhas claras. Seu riso no início foi meio estrangulado, como se rir de verdade não fosse algo a que estivesse acostumado. Então ele ergueu a cabeça e gargalhou, uma risada longa que sacudiu o peito largo e fez com que o Rei Deiroon parecesse… parecesse… menos Demônio.
― Gosto desse humor, garota. De verdade. — Khor, ainda com uma sombra de sorriso nos lábios, passou a mão no rosto de Angel, limpando delicadamente o sangue sobre a bochecha lisa. — Sabe quando foi a última vez que alguém me divertiu assim? — Ele provou o líquido vermelho vivo, já frio, que tirou da pele dela. — Foi quando eu conheci uma jovem de sangue ainda mais doce do que o da nossa falecida Princesa Tarany. A igualmente falecida Raine, uma Serine. Além de corajosa era muito… interessante.
Angel estava surpresa, não conseguia imaginar Khor mostrando qualquer traço de simpatia por ninguém, muito menos por um Serine.
Ele notou o espanto em sua expressão, pois comentou com seu jeito desconcertantemente descontraído:
― Ah, não se engane por tudo que dizem de mim por aí. Sou um sujeito que gosta de boa companhia. E embora os Serines sejam normalmente criaturas irritantemente presunçosas e cheias de si, Raine não era assim. Uma pena ela ter morrido. De verdade. — Em seus olhos Angel notou algo muito próximo a… pesar. Mas era difícil ter certeza, Khor era uma mistura perturbadora de poder que ultrapassava o físico. Sua mente parecia meio estática e, por isso, seus sentidos falhavam em passar ao cérebro informações confiáveis sobre ele. — Afinal, você deve imaginar, não é tão fácil agir naturalmente em minha presença. — Um novo sorriso — Foi o que ouvi dizer.
Ah, disso ela não duvidava. Fora as pessoas perturbadas, como ela aparentemente era, que outro tipo de gente brincaria com um cara daqueles?
Quem precisa esquecer de si mesmo.
Quem está para morrer.
― Agora que estabelecemos essa relação tão amigável, perdi um pouco a vontade de matá-la. Por hora. — Khor levou a mão até a cabeça dela, e começou a tirar pedaços de coisas que Angel preferiu não tentar identificar. — Gosta dessa ideia, garotinha? Viver?
Ela não sabia o que responder. Em outra época e, literalmente, em outro mundo, sua resposta seria apenas uma: não. Ela não gostaria da ideia de viver.
Não havia sentido em viver para morrer. Ainda que todos tivessem esse mesmo destino, ela não via, naquele tempo, motivos para existir dessa forma.
Por que sofrer, sentir dor, ser ferida de todas as formas possíveis, para no fim chegar ao nada?
Ainda que o caminho tivesse passado por alterações, o destino não havia se modificado. Lá estava o nada a esperando. Cada respirar a deixando mais próxima desse final. Mas já não havia a ansiedade de chegar a ele, queria aproveitar cada pequena parte do trajeto.
Cada maldita pequena e minúscula parte dele.
E não seria um Demônio qualquer que iria tirar essa vontade tão duramente conquistada.
― Sim. Gosto da ideia de viver. — Sua voz ainda estava baixa, mas exibia certa dose de segurança, o que a surpreendeu e a acalmou. Angel sentiu orgulho de si mesma naquele momento. — Você não? — Sua língua, pelo visto, era o único órgão capaz de reagir, apesar de tudo, pois seguiu em frente: — Você ainda entende o significado de viver?
Dessa vez não houve dúvida quanto a expressão exibida por Khor. Era choque que se vislumbrava naquele rosto tão belo quanto seria o de qualquer Deus.
Após alguns instantes de silêncio, os olhos dourados se estreitaram, analisando a figura a sua frente. Havia mais do que curiosidade ou mesmo a indiferença de antes, enquanto parecia fazer uma minuciosa busca por algo. O choque inicial havia cedido lugar a uma crescente incerteza em seu olhar. Nada de disfarces, ele não parecia preocupado com isso. Na verdade, Angel suspeitava que ele sequer percebia como estava reagindo.
― Sabe, eu já cheguei a pensar que entendia. Fui ingênuo ao imaginar que simplesmente existir era a maior e melhor parte. — Ele pousou a mão sobre a lateral do rosto da garota, mantendo os olhos dourados fixos nos dela, sua expressão mudando para algo que ela não conseguiu interpretar. — Mas isso, eu descobri, é apenas o que eles querem que todos pensemos. Felizes e patéticos seres agradecendo por dias que são apenas migalhas oferecidas por Deuses tão ilusoriamente benevolentes. Até que fiquem entediados. Até que mudem de ideia.
Angel estava confusa e assustada com o rumo daquela interação. Era óbvio o rancor sentido pelos Deuses de Payre, mas ela não compreendia tal reação, já que, aparentemente, Khor tinha Deon como uma espécie de “mentor”.
Por algum motivo, sentia mais perigo por sua existência naquele instante do que em todo o tempo, até então. Pois pressentia que de alguma forma havia tocado em um ponto que ia além da sua compreensão das disputas que aconteciam em Payre.
― Por isso você está aqui? — Khor finalmente mostrou sua face enfurecida. — Por que os Deuses mudaram de ideia e resolveram me testar novamente? Trazendo o sabor dela. Raine.
Angel encarou aqueles olhos assustadores, dessa vez ela em choque. Era esse o gosto que Khor sentia nela? O de uma Serine morta?
Como?
Como ela podia ter o mesmo sabor de uma Serine e o cheiro de um Deiroon?
E não de qualquer um. O do Demônio.
De repente o medo misturou-se a mais confusão. Que resultaram em temor pelas possíveis respostas.
Quem ou o que ela poderia ser, de fato?
Angel não era apenas uma humana? Enviada a um planeta para lutar em uma guerra que na verdade não despertava o menor interesse nela?
E se não fosse apenas isso?
Ela pensou em Alexis, a imagem que procurava evitar com desespero em meio àquele pesadelo, o humano que descobriu não ser de fato humano. Ele tinha sua origem em Payre, filho de um Rei Alicano e de uma Rainha Nerini. Poderia ela também ser algo mais?
Seu estômago voltou a revirar, pois no caso dela, sua ligação estava com aquele ser desprezível que buscava nada além da morte e do sofrimento.
Seus pensamentos tortuosos foram interrompidos pela voz que parecia tomada por estranhas nuances. Raiva. Pesar. Rancor.
A lembrança da tal Raine, sem dúvida, tinha algum sentido muito forte para ele, pois ainda que estivesse abalada além do que poderia definir, Angel notava pouco a pouco Khor perdendo a postura fria.
Ele não parecia um Demônio.
Ou um Deus.
Nem sequer um Rei.
― Eu deveria ser mais do que isso. — Khor falava para ela, mas sua atenção não parecia estar nela. Nem naquele lugar ou momento. — Eu deveria ser mais forte do que isso. — Ele colou o rosto ao de Angel, sussurrando em seu ouvido. — Foram os malditos Deuses que a enviaram? Uma nova linha para me prender e me manipular para a mera diversão deles? — A língua fria e estranhamente áspera tocou sua bochecha. — Mesmo depois de todos esses anos, mesmo depois de tudo, ainda acham que podem me usar? Malditos!
Ele a empurrou subitamente, ficando em pé tão rápido que Angel não pôde acompanhar seu movimento, apenas sentiu o sangue pegajoso da Oberoh morta quando caiu de costas no chão.
Angel respirava rápido, seu coração provavelmente poderia ser ouvido por ele mesmo que não tivesse uma audição sobrenatural. Como um animal prestes a ser engolido, ela estava completamente inerte, aguardando seu próximo movimento. O bote final.
Mas, novamente, tudo mudou.
Khor sorriu.
Como um Demônio.
― Talvez não possamos ser amigos, afinal. — Ele exibiu suas presas, que até então tinha mantido escondidas. — Não é nada pessoal, mas há muito tempo aprendi algo bastante valioso. É muito fácil ter o poder sobre alguém. Basta fazê-lo acreditar que o que você faz por ele é aquilo o que ele quer. O que precisa. E que você se importa com isso, que existe um plano por trás de suas ações, por mais duvidosas que elas sejam. A esse processo alguns chamam de Destino. Eu chamo de “Jogo dos Deuses”. Um jogo no qual os Deuses controlam cada peça ridícula, simplesmente porque não se importam, mas, como parte do jogo, fingem o contrário. Então, para não ser apenas mais um peão descartável nesse tabuleiro preciso me livrar das distrações que eles colocam tão inutilmente no meu caminho. — Os olhos de Khor ficaram mais claros e Angel pode sentir a mudança sutil na atmosfera. — Minha mãe. — Ele deu um passo à frente. Seu terror inicial pareceu apenas o susto em comparação ao que a tomou de assalto. — Meu pai. — Mais um passo. Ela podia sentir os ossos gelados sob a pele fria. — Minha doce e inocente Raine. — Sua respiração parou. — Porque, garotinha, esse é o “Jogo do Deus Khor”.
Sua mente ficou tão fora de controle que aquilo que mais procurava ignorar se expandiu por cada canto dela. Uma imagem tão clara e dolorosamente amada que a levou às lágrimas.
Angel não tinha certeza, mas antes de Khor avançar sobre ela, gritou:
Alexis.
***
E mais uma vez, ela escapou da morte. De fato, uma especialista no assunto.
Foi salva, ironicamente, por um Deiroon. Ele entrou na sala repentinamente e quase foi a vítima no lugar dela.
― Espero que esteja aqui por um bom motivo. — Khor nem se virou para o soldado, continuou com o olhar firme sobre Angel. Sua voz mostrava novamente o controle de antes, como se sua ira fosse algo que pudesse ligar e desligar facilmente. Mas Angel tinha uma vaga noção de que não era assim tão simples.
Apesar de claramente assustado, o Deiroon não recuou. Devia estar acostumado com o jeito bastante razoável do “chefe”.
― Recebemos informações do nosso contato. Os inimigos estão enviando seus exércitos para a fronteira de Nagtar. — Mais nervoso ainda diante da atenção total recebida de Khor após ouvir suas palavras, ele acrescentou rapidamente: — Nós confirmamos. Eles estão prontos para uma Guerra.
As sobrancelhas de Khor se arquearam. Ele pareceu francamente admirado com a notícia. Quase para si mesmo, comentou:
― Já fazem centenas de anos que eles não tem coragem de sair dos seus malditos buracos. Desde a Segunda Grande Batalha. O que os motivou a fazer isso agora?
O soldado Deiroon virou-se para Angel. Khor também.
O Rei Deiroon se aproximou dela, não mais com com o ar assassino de antes. O que não prejudicou em nada seu efeito assustador.
― Quem é você, capaz de provocar a Terceira Grande Batalha em Payre? — Ele segurou o rosto da garota, novamente buscando por informações que ela era tão incapaz de dar quanto ele . — Talvez eu realmente deva mostrar a minha força de uma outra forma. Matá-la seria tão simples, e eles, os malditos Deuses, obviamente sabem disso. Se me subestimaram a esse ponto, é porque a morte de Raine não bastou para entenderem que não podem me manipular. Eu sou um deles, afinal.
Com o toque de pura arrogância em sua fala, afastou-se de Angel, indo em direção a saída.
― A coloquem na nave, vamos partir imediatamente para o Palácio. — Enquanto se afastava com passos largos e seguros, avisou: — Se uma gota do sangue dela for derramada, os responsáveis alimentarão o nosso exército. Em partes iguais para cada soldado, pois sabem como sou um Rei justo.
Assim que Khor saiu do lugar, acompanhado pelo sujeito que foi lhe dar a informação, dois Deiroons entraram na sala e se posicionaram um de cada lado dela. Angel imediatamente se viu dentro de um círculo de luz no chão. Era o inibidor de poder dos Deiroons, uma espécie de “algema mágica”. Pelo visto, depois de ter mostrado que não era uma criatura tão inofensiva, tinham decidido que não era seguro mantê-la livre durante o trajeto. Não haviam lhe dado qualquer possibilidade de fuga.
Em silêncio, a levaram por corredores vazios e escuros. Tão escuros que se não tivesse desenvolvido uma visão privilegiada, provavelmente não seria capaz de enxergar um palmo à sua frente. E mesmo em meio aquela escuridão, eles caminhavam sem qualquer hesitação. Angel tinha aprendido que os Deiroons eram bastante peculiares quanto a exposição à claridade. Viviam em desertos, completamente a mercê do mais inclemente sol, no entanto, se adaptavam maravilhosamente bem ao escuro. Eram basicamente animais noturnos, ainda que não tivessem maiores problemas em sobreviver por dias sob o sol sem uma gota de água. A pele grossa deles era uma espécie de armadura natural contra os efeitos dos raios solares e as marcas que possuíam, que pareciam tatuagens, além de servirem para o uso de seus poderes, absorviam a umidade do ar e mantinham seus corpos com temperatura sempre estável. Além disso, seus olhos mudavam de forma a enxergar tão bem no mais absoluto breu quanto sob a luz mais clara. Eles nem piscariam se uma luz, em qualquer intensidade, fosse lançada sobre eles naquele momento.
Basicamente, feras mortais, com armas naturais para usar contra seus inimigos. Mas, analisando sob essa perspectiva, de uma forma ou de outra, as demais raças de Payre também eram. Cada um adaptado ao seu território, com variadas possibilidades de defesa e ataque. Era estranho para Angel perceber que ela, e os demais que vieram com ela, estavam pouco a pouco tornando-se tão letais quanto todos os payreanos. Alexis, na verdade, havia superado em muito o poder deles. Contra Khor, por exemplo, talvez ele ainda não fosse páreo, mas certamente não seria apenas uma criatura trêmula e inútil como ela. Pensar nisso a fez acordar para a realidade que a cercava.
Ela iria morrer, certo? Levando em conta onde e como estava, era meio que óbvia a resposta. Ok. Então, o que poderia perder se tentasse se salvar, mesmo que através do método mais suicida possível? A vida? Isso ela já sabia, era um fato, mas já não podia ficar apática diante disso. Não depois de descobrir que Alexis estava indo atrás dela. Porque não tinha dúvidas quanto ao que estava acontecendo em Payre. Alexis, em sua determinação (para não chamar de suprema arrogância, afinal ela o amava e ele estava meio que arriscando o próprio pescoço por ela), certamente tinha negociado (porque “ameaçado” ou “chantageado” também não podia ser usado nessa situação, obviamente, afinal, ele estava indo resgatá-la e coisa e tal) com Erak e os demais Reis para salvá-la de Khor.
E o que ela estava fazendo nesse meio tempo? Agindo como uma detestável princesa em perigo! Sério, pensando em seu comportamento desde que acordou na frente de Khor, tinha vontade de chutar a própria bunda por ser tão sonsa. Se Choi pudesse ver como ela estava, certamente perderia o direito de zoar com ele sobre o caso da galinha, e isso não poderia acontecer de forma alguma.
Angel observou cuidadosamente os dois Deiroons que a guarneciam. Eram grandes, como todos de sua raça, e pareciam muito capacitados, afinal, estavam em postos que os mantinham próximos do Rei. Para ter uma chance de fuga, precisaria sair daquele círculo que inibia seus poderes, pois fisicamente não teria chances contra eles juntos. Pensava nas possibilidades quando se aproximou deles um Deiroon ainda mais grandalhão, com tantos símbolos em seu corpo que mal se via sua pele. Pela maneira com que os soldados pararam subitamente e inclinaram a cabeça, deveria ser alguém com um cargo bem importante. O que não era nada bom para seus planos. Posto mais alto implicava em maior poder, e não estava se referindo apenas a influências.
― Khor me encarregou de cuidar da Humana. Voltem.
Sim, definitivamente alguém importante. Além das palavras que não deixavam qualquer margem para questionamento, nenhum dos dois Deiroons sequer hesitou em inclinar novamente a cabeça e voltar pelo corredor em completo silêncio.
― Continue.
Angel tornou a andar, dessa vez seguindo atrás do Deiroon. Bem, poderia se supor que sua condição havia se tornado mais favorável, afinal, já não eram dois inimigos a enfrentar, contudo desanimava perceber que esse era definitivamente mais poderoso do que a dupla junta. Provavelmente até mais. Notável não só pela obediência imediata dos outros, mas pela segurança com que seguia à sua frente, pouco se lixando se ela cogitaria a possibilidade de fazer algo.
― Escute o que vou dizer e não faça qualquer bobagem. Não é o momento de ser precipitada ou nós dois vamos morrer. — As palavras sussurradas do Deiroon a fizeram franzir o cenho, mas permaneceu quieta, apenas o seguindo. — Daqui a pouco vamos dobrar um corredor à esquerda, então haverá uma porta. Lá fora, bem próximo de onde sairmos, estará um exército de Deiroons e alguns Darkanos se preparando para lutar. Teremos apenas alguns minutos para chegar até uma área em que estão as naves pequenas, elas estão sendo preparadas para decolar, então são a nossa melhor chance. Você ouviu bem? Apenas alguns minutos. Talvez menos de cinco. Vamos sair pela porta o mais depressa e discretamente possível. E o mais importante, não se afaste de mim, em hipótese alguma.
Angel estava cada vez mais confusa. Sem parar de andar, o Deiroon olhou para ela, seus olhos muito sérios.
― Entendeu bem? Não. Saia. De. Perto. — Ele voltou a olhar para frente. — Ou eles vão notar que você é a prisioneira e que não deveria estar fugindo em com um Deiroon.
― Fugindo? — Angel sabia que parecia meio imbecil, mas era difícil evitar.
Céus! Que bagunça de situação era aquela?
― Sim, fugindo. É o que estamos fazendo agora. E se não fizer o que digo, vamos morrer. Como, pelo que entendi, você já estava meio sem chances, aliás, só está viva por pura sorte, estou lhe dando a melhor oportunidade que jamais vai ter. Você que escolhe se a aceita ou não. Eu preferiria que decidisse antes de passarmos pela porta, assim poderei seguir meu caminho. Sozinho.
A porta estava chegando perto.
Dobraram o corredor a esquerda.
Lá estava ela, visível mesmo naquela escuridão opressiva.
Ao olhar para o chão, sacudindo a cabeça para clarear as ideias e ter certeza de que aquilo tudo não era uma das loucuras criadas por sua mente sem noção, Angel notou a falta do brilho sob seus pés.
Com olhos arregalados se deu conta de algo ainda mais chocante. Ela não era ela.
Angel estava em um Deiroon. Ou era um.
Que merda é essa?
Erguendo as mãos diante do rosto para observar pasma sua pele escura com símbolos vermelhos e brancos, ela não percebeu que havia parado de andar, até que o seu carcereiro/salvador perguntou, sem esconder a irritação:
― Então? O que vai ser?
Ela ergueu o rosto para ele, e com uma voz que não era mais a sua, respondeu:
― Sabe, eu já estava tendo umas ideias muito boas para escapar. Mas gostei mais da sua.
Ele sorriu, a pele cor de chocolate se esticando sobre os ossos que formavam aquele rosto de ângulos fortes, enquanto voltava a se mover, dessa vez quase correndo:
― Vai ficar desapontada quando descobrir que meus planos só vão até o ponto em que entramos na nave. Depois disso, talvez a morte… Talvez a vida...
Angel passou a correr também para segui-lo:
― Ótimo. Odeio spoilers.
Sem responder, provavelmente por sequer entender o que ela disse, o Deiroon empurrou a porta e a atravessou. Angel o seguiu de perto, não esquecendo a orientação passada por ele, bastante enfaticamente, aliás.
Ela não sabia o que esperar do lado de fora, já que quando passou por ali ao chegar estava desacordada, mas certamente não era dar de cara com o mar. Percebeu que a passagem por onde saíram nada mais era do que um caminho cavado na sólida parede de um rochedo. O que antes imaginou que era um prédio pouco iluminado, tratava-se basicamente de uma caverna gigantesca, cheia de caminhos internos. Do lado de fora havia uma trilha estreita que seguia para cima à sua direita e para baixo a sua esquerda. O barulho do vento forte e frio competia com o das ondas violentas logo abaixo de onde estavam.
― Não se distraia, ande perto de mim e rápido! Esse é o caminho mais seguro para chegar até as naves, pois é o menos usado.
Angel obedeceu prontamente, mas com o canto do olho continuou a sondar os arredores, reparando o quanto a subida pela qual seguiram era íngreme e o quanto ia se tornando cada vez mais estreita. Quando uma dupla de soldados passou por eles, automaticamente se encolheu e baixou a cabeça, como se isso pudesse impedi-los de enxergá-la o que, é claro, era absurdo, ainda mais levando em conta seu tamanho considerável naquela forma de Deiroon. Mas não houve qualquer incidente. Todo mundo seguiu seu caminho sem nem mesmo uma troca de cumprimento. Realmente os Deiroons eram as criaturas mais “blasé” de Payre, pois em outros Reinos que esteve sempre havia um leve inclinar de cabeça, algum gesto com as mãos, enfim, algum equivalente ao “oi” terráqueo. Bem, por ela melhor assim, dessa forma não corria o risco de cometer alguma gafe de etiqueta que a entregasse.
Quando ergueu a cabeça novamente, apenas de leve, notou, com um baque, que estava seguindo a pessoa errada. O Deiroon a sua frente, que não era o manda-chuva grandalhão de antes, ainda que mantivesse uma forma relativamente avantajada, parou de andar com uma expressão inegavelmente irritada. Mais uma vez ela nem sequer havia se dado conta de ter parado.
― Que parte do “se ficar afastada nós vamos morrer”, você não entendeu?
Embora até a voz fosse diferente, Angel percebeu que de alguma forma era o mesmo sujeito de antes, aquele que a estava ajudando a escapar. Talvez fosse aquela simpatia notável.
Subitamente uma ideia passou por sua cabeça, e com a voz mais baixa que conseguiu, perguntou, voltando a seguí-lo apressadamente, quando ele simplesmente voltou a dar suas largas e rápidas passadas:
― Você é um Meiruu?
Ele apenas bufou, mantendo sua velocidade os levando cada vez mais para o alto daquela montanha desconhecida.
Angel não precisava de respostas naquele momento, tudo que importava era estar tendo a possibilidade de escapar daquela situação. Se era com a ajuda de um Deiroon ou Meiruu, tanto fazia, os dois eram igualmente inimigos do “seu lado”. Ou seja, ainda era a mesma bizarrice. Sua fuga estava sendo facilitada por alguém que deveria, em teoria, servi-la de bandeja para Khor.
Não sabia quais eram os motivos dele, assim, só lhe restava continuar obedecendo, mas com bastante cautela. Aquelas pessoas de Payre eram dadas a atitudes das mais inesperadas. Por exemplo, quem imaginaria que o Rei Oberoh estaria traindo seus aliados pela segurança da filha que estava nas mãos de Khor? Logo um Oberoh, com toda a devoção que tinham a causa dos Deuses e da Profecia, os principais companheiros dos Nerinis nos séculos de batalhas de Payre. Seria uma comoção quando a verdade fosse descoberta, ainda que ter matado a própria filha para proteger segredos que colocariam tudo em risco talvez mostrasse a sua verdadeira lealdade.
Angel suspirou. Aquele mundo era louco. Quem sabe ela não fosse apenas uma visitante, afinal. Nunca se ajustou na Terra, e isso poderia ser porsua origem estar em outro lugar.
Em Payre.
Deprimente. Se assim fosse, ela e Alexis precisariam fazer muita terapia juntos.
― Chegamos. — O não-Deiroon-talvez-Meiruu interrompeu seus pensamentos. — Essa é a nave mais próxima e o modelo menor, vai ser mais fácil de escaparmos sem nos notarem, e seremos mais rápidos com ela.
Angel ergueu a cabeça e franziu o cenho em dúvida. Inclinou a cabeça mais para o lado, então para o outro. A sua frente tinha uma esfera prata, em tom opaco, lisa, com apenas algumas ranhuras levemente mais claras em formas estranhas. Era, resumidamente, uma bola de metal que para caberem duas pessoas só se elas formassem com seus corpos o símbolo do yin e yang ali dentro. O que seria decididamente indecente. E era aquilo que ele chamava de nave.
O seu companheiro de fuga, óbviamente mais bem instruído sobre as questões práticas daquela empreitada, tocou a esfera em um ponto específico e as linhas claras brilharam seguindo para os desenhos do braço dele. Quando todo o braço brilhou na mesma intensidade, a nave se “desfez”, peças descendo quase na altura do chão, sumindo no ar, revelando seu interior. Que era: nada.
Ele, sem perder tempo entrou no espaço vazio, um mero círculo disposto a alguns centímetros do chão, e virou-se para Angel com a sua usual irritação:
― Venha logo, temos pouco tempo até que notem a sua ausência.
Dando de ombros, Angel entrou no círculo. Mal teve tempo de estranhar o fato de dois brutamontes como eles se encaixarem ali dentro, quando percebeu que estava sentada no ar. Ou quase isso. Sentiu algo sólido sob o corpo (e, graças a Deus, não era seu companheiro mau-humorado!), mas não conseguia ver onde estava sentada. A sua volta símbolos diversos começaram a se formar, uma mistura de palavras que ela reconheceu como parte do idioma Deiroon. Eram instruções, orientações de localização e várias informações que deixava claro que estava cercada por todos os lados pelo que seria algo como o painel de navegação da nave. E ele se movia em diversas direções, dando a sensação de uma amplitude que jamais imaginaria do lado de fora.
― Trabalho dos Eiffs, obviamente. — O seu (até qualquer mudanças de planos) salvador, resmungou. — Os Deiroons jamais teriam cérebro para criar algo assim.
Depois dessas palavras um tanto irônicas, já que vinham de alguém que “vestia-se” de Deiroon, ele estendeu as mãos para a frente e os símbolos que circulavam no ar se uniram formando um tipo de luva virtual sobre elas. No mesmo momento eles começaram a subir, a princípio lentamente, então, logo em seguida, muito rápido, embora fisicamente Angel não chegasse a sentir os efeitos que seriam esperados daquela aceleração súbita. Salve, salve tecnologia/magia payreana. Afinal, não ia ser nada legal para o estômago, mesmo para alguém como ela com um bastante resistente. Sua experiência com o salto de uma ponte gigantesca (tentativa de suícidio número dois, apenas para constar), tinha, ela suspeitava, alguma relação com o fato.
― Eles nos notaram.
― Como você…?
Ao olhar para trás notou que a pergunta era altamente desnecessária. Várias naves exatamente iguais a que eles usavam, esferas prateadas, erguiam-se do topo dos rochedos que ficavam cada vez menores em velocidade quase vertiginosa.
― Não vamos conseguir escapar, são muitos. Nossa única chance é o mar.
Mar? Como assim mar? Eles estavam na porra de uma nave!
O Não-Deiroon, enquanto concentrava toda sua energia em imprimir cada vez mais distância entre eles e seus perseguidores, informou entre dentes:
― Eu localizei uma nave de Sylesth na fronteira de Nagtar, imagino que sejam os que estão tentando resgatá-la. Você tem cinco segundos para mandar uma mensagem para seus amigos. Agora!
Angel não teve tempo de pensar, seu coração batendo forte contra suas costelas. Os inimigos cada vez mais perto e em quantidade pelo menos três vezes maior que a inicial, enquanto eles lançavam-se em quase uma queda livre contra as ondas do mar escuro. Sem que ela pudesse fazer qualquer coisa.
Exceto pedir socorro.
E Angel só poderia pedir isso a única pessoa que confiava no mundo. Em qualquer um deles.
― Alexis!...
A rapidez com que tudo aconteceu na sequência a fez esquecer todo o resto. O que falou. Se foi o suficiente. Ou se teve qualquer tempo de ir além daquele nome. Pois o que presenciou foi o silêncio que seguiu o som mais ensurdecedor que já ouviu.
Antes da escuridão cobrir tudo.
***
― Alexis, minet! Estamos indo para Nagt…
Alexis ouviu não sabia quantas vezes aquela mensagem enquanto seguiam a toda pressa para a parte mais próxima do Mar da Morte, que era a divisa entre o Reino dos Deiroons e dos Oberohs. Segundo Zafy, o sinal da mensagem vinha daquela região.
Angel estava viva.
Mais uma vez ele percebeu o poder da esperança.
E o desespero em não saber até que ponto ela estava bem. Aquele final abrupto o tinha deixado louco, mas novamente precisou se controlar, ou não teria conseguido deixar claro para todos que não faria nada além de ir diretamente até ela naquele exato momento.
― Como podemos ter certeza que é ela mesmo? — havia questionado Esan, quando a mensagem foi exposta por Zafy a todos.
― Só Angel sabe o quanto detesto ser chamado de minet. E só ela fazia isso o tempo todo, por esse mesmo motivo.
― Minet? — Erak questionou intrigado. — O que isso significa?
Como Alexis não respondeu, Zafy o fez por ele:
― É uma palavra de uma das línguas terráqueas e refere-se a um animal que costuma ser de estimação dos Humanos. — Ela olhou Alexis com o canto do olho antes de acrescentar rapidamente. — Mas nesse contexto provavelmente tem a conotação carinhosa, geralmente definindo alguém como “lindinho”.
O silêncio geral mostrou que todos concordavam: somente Angel ousaria tanto.
Mas Alexis aquela altura não estava preocupado com apelidos, ou qualquer outra coisa do gênero. Seu foco estava em chegar o mais rápido possível ao litoral de Nagtar. Porque ele não estava ouvindo o áudio inúmeras vezes apenas para ter uma parte de Angel ou mesmo um pedaço de esperança. Ele ouvia vezes sem parar, como se estivesse em transe, impactado pela descoberta do medo de Angel.
Alexis ouvia o desespero naquela voz.
O pânico.
Um eco do seu próprio terror.
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