Destinados à Payre

37 Além das portas fechadas


Notas iniciais
Oiiisss!! Vejam só se não sou eu de volta - e puxa vida! - nem demorei quase um mês dessa vez!! kkkkk Já vou avisando. Está meio "gordinho" o capítulo. Vamos dizer que foi a saudade que senti de escrever que me levou a isso eheheheh Bem, espero que apesar do tamanho, curtam o capítulo que tem um montão de coisas acontecendo!! ^^

Morte. Sentia o cheiro da morte.

Estava coberta por ela. Preenchida por ela.

Não deveria ser assim. Não tinha nascido para isso, para tirar a vida.

Tinha nascido para... para o quê mesmo?

Tentou lembrar. O esforço machucava, mas continuou mesmo assim. A dor aumentou. Viu um céu azul, montanhas e... Morte.

A morte dela.

Esqueça e durma, minha princesa. Esqueça.

E ela obedeceu.

Não havia escolha, ainda não.

***

Enquanto Angel se recuperava, algo que levou quase um mês, a reunião com os Duques dos reinos aliados foi realizada. Eles finalmente puderam conhecer os personagens da Profecia e a partir disso, planos foram traçados.

De acordo com o que tinham comprovado até o momento, o Predestinado e os Escolhidos precisavam do sangue dos Reis, pois isso os deixaria fortes o bastante para combater Khor e seu exército Deiroon. Mas havia um problema. Como eles fariam isso sem que os Humanos se tornassem alvos dos ataques do Rei Deiroon? Não podiam chamar o Rei Oberoh e os Reis Eiffs para irem ao palácio de Sylesth, considerando que, sem a proteção que a presença deles conferia aos seus reinos, Nagtar e Cylles ficariam vulneráveis a possíveis ataques.

Assim, a alternativa que restava era enviar os Humanos, com a proteção dos Guardiões, para encontrar os Reis. Então, depois de compartilharem o sangue dos aliados, e ficarem mais fortes graças a isso, poderiam investir em planos mais ousados, como entrar nos territórios inimigos para atacar diretamente os Reis Meiruus e Darkanos. Tudo isso sem chamar a atenção de Khor. Essa, na verdade, era a parte mais importante de todo o processo.

Os Duques receberam a missão de passar as informações aos seus soberanos, e retornarem com a confirmação de apoio. Em menos de três dias todos estavam alinhados ao que seria realizado. Os Reis já tinham se organizado para receber os enviados de Sylesth e para, literalmente, darem o próprio sague pela causa.

Iriam começar por Cylles. Uma nave seria usada, e a tripulação contaria apenas com os Guardiões e os Humanos, já que poucos payreanos estavam cientes do que acontecia em seu mundo. Apenas algumas pessoas essenciais para o desenvolvimento da Profecia sabiam que a Lenda dos Três Deuses já não era mais um mero conto acabado sobre Deuses mortos, mas sim o prólogo de uma história que ninguém sabia ainda qual seria o fim.

***

― Pega leve, nanica. Eu ainda não me recuperei do susto de vê-la desmanchar feito um boneco de neve no sol. Um bem macabro, aliás.

Se fosse qualquer outra pessoa a lhe dizer aquilo, Angel consideraria de uma insensibilidade sem igual. Mas era Choi, e ele não passava de idiota com uma boca enorme, por isso apenas retrucou.

― Sei como é. Ainda tenho dificuldade para dormir quando recordo do Montinho Monstruoso. Lembra dele?

Ignorando o que mais ele tivesse para dizer a ela, a garota voltou a se concentrar e a produzir adagas, arremessando-as com precisão nos alvos que apareciam aleatoriamente no cenário criado virtualmente na parede do Centro de Cura. Eram aves em diversos tamanhos, que sobrevoavam as árvores de uma floresta escura, o que dificultava o processo, mas não impedia que Angel acertasse todas com precisão.

Disseram que ela deveria dormir mais, pois antes do amanhecer eles estariam viajando para o reino de Cylles. Só que Angel já estava cheia do saco de descansar. E para o cúmulo de sua irritação, Alexis, aquele sujeito com complexo de Deus, quando não estava do seu lado, quase a amarrando na cama, e não de um jeito sexy e sacana, deixava Choi ou Lali como guardas que garantiam o seu sono de beleza. Quer dizer, mais ou menos.

Certo, entendia, também estaria meio neurótica se visse Alexis do jeito que ela tinha ficado. Mal pudera olhar para o próprio rosto. Parecia um personagem saído de algum filme de zumbi vencedor do Oscar de melhor maquiagem. E ouviu dizer que estava bem comparado a como estava antes.

Mas já se sentia mais do que recuperada, os próprios Curadores disseram que estava em perfeitas condições para iniciarem a missão. Então, por que tinha que ficar presa ali dentro por uma quantidade absurda de horas, enquanto todos os outros passavam esse tempo treinando e se preparando para o que estava por vir?

Sua Mestra, aquela inútil, simplesmente concordara com Alexis quando ele tinha dito que deveriam mantê-la mais tempo sob observação. “Angel já possui uma capacidade de combate acima dos demais, portanto, no caso dela, um descanso maior seria o mais aconselhável”, dissera a Mestra traidora, com seu doce e enjoativo sorriso. “Claro, querendo puxar o saco do filhinho”, Angel pensou deixando que seu lado perverso viesse à tona, enquanto lançava mais facas nos alvos. Não foi por mero acaso que no lugar das estranhas aves que Angel estava abatendo com tamanha vontade até então, surgiram várias miniaturas da Rainha Syka com asinhas de fada, soltando risadinhas irritantes.

Choi gargalhou do seu lado e Angel seguiu o ignorando, agora um pouco mais animada com a brincadeira.

― Que tipo de punição é dada para quem tem ideias levemente homicidas envolvendo a soberana do reino?

Angel já tinha percebido a aproximação de Alexis antes mesmo do seu comentário irônico.

― Bem, não deve ser pior do que ser torturada impiedosamente pelo tédio por horas a fio. – antes que Alexis pudesse responder, ela continuou. – Sim, é para o meu próprio bem e blábláblá. Poupe seu fôlego, Alteza.

Limpando a garganta para chamar a atenção, Choi comentou:

― Ok, vou lá pessoal, para que vocês possam, sabe, brigar em paz. Não que eu não goste de assistir, na verdade é até divertido ver você, Alexis, fingindo que manda enquanto tenta manter a pose e a Angel esperneando, parecendo até, fiquem chocados, uma garota!

Dois pares de olhos zangados voltaram-se para o coreano, que ergueu a mão, dando um tchauzinho. Enquanto saia pela porta, ainda acrescentou:

― Se perguntarem por mim, estarei treinando no simulador. Por horas!

― Vai, seu panaca!! Quem sabe assim finalmente consiga matar a porra da galinha!!

A porta já estava fechada, mas Angel tinha certeza que ele ouvira seus gritos, o que já era alguma coisa. Fumegando de raiva, virou-se para Alexis.

― Como conseguia ser amigo dele?!

― O ignorando completamente.

― Não tenho todo esse autocontrole.

― E você não se divertiria tanto.

Aquilo a surpreendeu.

― Sempre me perguntei porque permitia que ele ficasse por perto, já que você é tão, hum, pouco sociável. Então era isso, mesmo não interagindo com Choi, você realmente gosta dele.

Alexis sentou-se na cama, ao lado dela.

― Mantenha isso em segredo. Ele ficaria ainda mais insuportável se soubesse.

Ela riu, apesar de ainda estar irritada tanto com Choi quanto com Alexis. Mas logo voltou a fechar a cara. Cruzou os braços e o olhou, zangada.

― Eu podia ir ao menos treinar até a hora de partirmos, não é?

Alexis manteve a expressão relaxada, sem se alterar apesar de quase poder sentir a ira que emanava da pequena garota.

― Falei com o Curador Falki quando vinha pra cá. Ele disse que os exames feitos hoje mostraram resultados muito bons de recuperação. – os olhos violetas praticamente o cegavam com seu brilho animado. – Portanto poderá treinar...

­― Isso!...

­― Por duas horas.

― Isso é ridículo, seu Príncipe dos Infernos!! – com o dedo em riste, ela golpeou o nariz de Alexis, que manteve o semblante tranquilo, o que só a deixava mais louca. – Todos, ouviu bem? Todos! ficaram em trapos depois da luta e não precisaram de tanto tempo de recuperação!

― Primeiro: nem todos. Eu não tive problemas. – ele conseguiu desviar a cabeça no exato instante em que ela tentou atingí-lo. – Segundo: não tem como comparar alguns ossos quebrados com o que você passou. Em alguns pontos do seu corpo nem havia ossos!

Angel respirou fundo uma vez. Respirou fundo de novo. E de novo.

Então deu as costas ao namorado e foi em direção à saída.

Para suas duas horas de liberdade. Antes que esganasse Alexis e tivesse que lidar com as implicações de matar o querido Predestinado de Payre.

***

Noor viu pela expressão de Esan que a conversa que ele tivera com Erak não tinha sido muito produtiva. O que para ela era excelente.

― O Rei Erak quer ficar sozinho, Noor.

Apesar do tom nem um pouco amigável de Esan, algo bastante raro, Noor sorriu.

― Mas ele vai querer ficar sozinho, Esan. Ao meu lado.

― Deixe-o em paz. Ele não está com cabeça para seus jogos. Já deve ter notado que faz algum tempo ele não a procura para... Se distrair.

Noor ficou realmente surpresa com a frieza do Guardião. Sabia que ele não gostava dela, pois não era exatamente um segredo que a Oberoh dividia a cama com o Rei. Assim como era de conhecimento geral o relacionamento próximo entre os primos. Então, mesmo Esan sendo normalmente um homem gentil e educado, em alguns momentos deixava transparecer o incômodo que lhe provocava a intimidade que Noor compartilhava com o soberano. Algo que ele próprio almejava, porém sem qualquer esperança de conseguir. Mas ainda assim, nunca tinha testemunhado uma reação por parte dele tão abertamente desaprovadora. E até ofensiva.

― Já pensou que talvez seja eu quem não o procurei mais, Protetor? – havia desdém na voz dela, além de uma pitada de despeito.

Fazia já alguns meses que Erak a mantinha afastada. Não que Noor não fosse capaz de buscar outros homens sedutores para afogar suas frustações com a situação do Príncipe, muito pelo contrário. Mas Erak era diferente. Ele, além de ser o Rei, era o irmão daquele por quem de fato ela tanto ansiava, o que o tornava muito mais interessante e desafiador.

Ainda lembrava-se da última vez que o havia procurado e fora sumariamente recusada. Quando flagrara Alexis com Angel em clara antecipação do ato sexual. Sua raiva não havia encontrado limites na época ao ouvir de Erak que estava ocupado demais com os planejamentos das próximas batalhas para perder tempo com ela.

Perder tempo! Aquele arrogante. Agora ela sabia bem o que tinha acontecido.

― Nunca a imaginei como uma mulher ingênua, Noor. Estou surpreso.

Ela estreitou seus olhos azul-acinzentados. Claro. Esan era a pessoa que melhor conhecia o Rei, talvez mais do que a própria Rainha. E fora o gesto dele ao segurar Erak que chamara sua atenção para a expressão do Rei naquele dia. Se Noor não tivesse achado estranho o Guardião puxar Erak e prendê-lo firmemente consigo, ela não teria notado o desespero revelador impresso nos olhos cinzentos do Rei. E nem a forma ansiosa com que ele seguira os Curadores que levaram uma Angel muito ferida.

A partir daquele dia ela relembrou alguns pontos que antes tinham lhe passado despercebidos. Os sorrisos incomuns que Erak exibia à Humana. Sua tolerância aos modos grosseiros dela. A forma como a olhava constantemente, que Noor antes associara a sua condição estranha naquela missão, mas agora via de outra forma. Além disso, ele era visto com certa frequência nos treinamentos da garota durante as simulações. Ele não se dava ao trabalho de assistir ao treino de nenhum outro, nem mesmo aos do Predestinado, o que seria mais lógico.

E, Noor voltou ainda mais em suas lembranças, quando os Humanos chegaram em Payre, ela estava tão focada no Príncipe, que não deu importância a um fato na época. Enquanto ela acompanhava a recuperação do Príncipe e seus sonhos quando ficou consciente — as odiosas cenas da garota Humana -, Erak também era visto na Sala de Recuperação, principalmente durante as madrugadas. Silenciosamente ele ficava parado no centro da Sala, de frente para os seis Humanos. Pensando agora, não fora apenas uma vez que ela o observara se afastar do cilindro no qual estava a garota, assim que entrara na sala. Ele sempre passava reto por ela nessas horas, sem fazer qualquer gesto que indicasse a consciência da presença dela. Como se estivesse em um mundo à parte.

Como não tinha notado isso antes? Que tola!

Claro, estava ocupada sentindo raiva e ciúmes da criaturinha frágil com o Príncipe. Como teria reparado que ela também tinha o Rei em suas mãos?

Sem se dignar a dizer qualquer outra coisa a Esan, passou por ele e entrou nos aposentos do Rei, batendo a porta atrás de si.

Erak estava sentado em uma poltrona de frente para a janela, observando as luas no céu, como era o seu hábito. E também o de sua mãe. Noor entendia. O dela, por muitos anos, tinha sido observar o espelho, o único vínculo com a Terra. No fim, os três faziam coisas distintas, mas com o mesmo objetivo, sentirem-se próximos de alguém que estava longe.

Noor sorriu com tamanha tristeza e dor que alguém que a conhecia jamais associaria a ela. Seus pensamentos foram em direção a ironia cruel das circunstâncias. Havia dor maior do que aquela causada pela distância de alguém que estava próximo? A Rainha sonhara com o filho que mal pudera segurar em seus braços. Agora ele era um estranho. Erak havia se ressentido de um irmão que não conhecera, mas que aprendera a respeitar por honra a seus pais e pela paz que desejava para Payre. Agora se via em uma guerra de vontades com alguém que não ligava para tudo aquilo que ele acreditava.

E ela, Noor, vislumbrara de diversas formas a vinda do Predestinado, a possibilidade de fazê-lo perceber a importância do seu papel na Profecia e a apoiá-lo para realizar os grandes feitos aos quais ele estava destinado. Mas, no fim, já havia alguém ao seu lado e Noor se tornou apenas mais uma criatura estranha naquele mundo que só despertava a sua indiferença. A missão nada mais era do que a possibilidade de retornar para o lugar que ele considerava o seu verdadeiro lar.

Libertando-se aos poucos de seus pensamentos sombrios, Noor voltou a atenção para Erak. Ele nem sequer havia notado a sua presença. Sem deixar que isso a abalasse, aproximou-se até ficar na frente dele, bloqueando totalmente a visão do céu estrelado e o obrigando a olhá-la. Ficou evidente o quanto tal ato deixou-o impaciente.

― Não estou com disposição para lidar com você agora, Noor.

― Imagino que não. – ela inclinou-se para frente, apoiando uma mão em cada joelho do Rei, ficando com o rosto muito próximo do dele. – Eu sei que está triste. Frustrado. Irritado. – os olhos dela, se tornaram mais escuros, profundos. – Sei disso porque reconheço os sentimentos, Majestade. Eu os sinto diariamente. Há muito mais tempo.

― Do que esta falando? – apesar da rispidez das palavras, havia... ansiedade.

― Eu quero lhe dar um presente. Um presente que fará com que parte de tudo isso seja superado. Ao menos por um tempo.

Mostrando-se cansado, Erak suspirou.

― Reconheço que é uma mulher linda e que já me fez esquecer muitas coisas desagradáveis com seus talentos. Mas não hoje, não nesse momento. Sinto muito, Noor.

― Certo. Vamos fazer o seguinte, eu lhe darei o presente e caso não o queira, o pegarei de volta e irei embora.

Claramente tentando livrar-se dela da forma mais rápida, Erak consentiu.

― Tudo bem.

Noor tirou as mãos dos joelhos do Rei e as colocou, com delicadeza, em torno da cabeça dele.

― Deixe-me entrar, Erak.

Ela notou a hesitação em seus olhos. O Rei era poderoso demais para que Noor pudesse entrar em sua mente sem que ele consentisse. E não era fácil para Erak aceitar esse tipo de intromissão, por outro lado ele permitiria apenas porque seria muito fácil, caso ela fizesse qualquer coisa que o desagradasse, jogá-la para fora.

Ela percebeu quando sua entrada foi permitida, mas ainda assim, apenas por alguns caminhos predeterminados. Não tinha importância, sua intenção não era vasculhar algo ali dentro e sim inserir algo. Ou melhor, alguém.

Com os olhos cravados nos dele, logo notou sua reação ao que aconteceu. E foi muito, muito revelador.

Por algum motivo, doeu.

***

Olhos violetas o fitaram. Ele sabia que não eram os dela, não realmente, mas estava tão perturbado por tudo – suas dúvidas, seus anseios — que aceitou a situação. Aceitou como os olhos verdadeiros. Sem o brilho desafiador, mas carregado por malícia.

― Esse é o meu presente, Erak.

Por Erow, até mesmo a voz doce era igual.

Quando ela se afastou, ficando em pé a sua frente, Erak não pode afastar os olhos, ou ordenar que terminasse com aquela brincadeira. Ficou ali, calado, observando a pequena garota soltar os longos cabelos platinados, até que eles caíssem em ondas lindas e brilhantes por sua figura delicada. Prendeu a respiração quando, com gestos lentos e sorriso atrevido – ele reconheceu aquela expressão e qualquer chance de escapar daquela farsa foi esmagada por seus desejos reprimidos – ela soltou as alças do vestido verde-escuro que usava. O tecido leve caiu por seu corpo pálido, detendo-se nos seios redondos, revelando-os com tortuosa lentidão.

Erak não conseguiu conter o desejo que o tomou. Súbito, traiçoeiro e imperdoável. Vê-la em sua beleza etérea, ainda que uma cópia, uma ilusão, foi o bastante para enchê-lo de culpa, mas também de tentação.

Ela não era real, seu lado lógico gritava, mas também sussurrava que aquela imagem era uma reprodução perfeita criada pela magia Oberoh.

Ela era a amante de outro — sua honra resmungava, insatisfeita. Ele não se importava — o lado egoísta, o homem reprimido em seu interior, que jamais tinha a oportunidade de se manifestar — brandiu em resposta.

Ela era uma Humana — o guerreiro, o altivo Alicano ofendeu-se. Seus pais tinham se amado, ainda que pertencessem a duas raças inimigas — justificou um lado seu que nem sequer sabia existir.

Eram as raças mais poderosas de Payre — zombou o guerreiro.

A Rainha era a mais promissora Nerini — lembrou-lhe o Alicano.

Ela era uma Humana. Uma criatura efêmera que talvez nem sobrevivesse ao fim daquela jornada. Seu pai, tão poderoso, sucumbira. O que restava a ela?

A cópia, a farsa, aproximou-se mais. As luas tornavam sua beleza quase irreal. Tão irreal quanto o que ela de fato era.

A voz suave quebrou o silêncio.

― Sim, Erak. Eu não vou sobreviver. Em alguma das inúmeras batalhas que está por vir, serei morta. Virarei apenas uma lembrança. Um fantasma a assombrá-lo por sua covardia, por seus arrependimentos.

Ela tocou-lhe o rosto e o calor de sua pele o surpreendeu, pois até então a via apenas como uma mera imagem de sua cabeça, não como algo sólido, palpável. Quando os lábios da garota buscaram os seus, ele não se moveu. Sentiu seu calor e sua doçura. Ela envolveu sua cabeça com os braços e Erak não teve forças para evitar que os seus próprios braços se erguessem e enlaçassem a cintura fina e nua.

Ao tocar a pele macia e sedosa, algo dentro dele se acendeu. Suas dúvidas caíram por terra, seus temores foram jogados para um lugar escuro e distante, inalcançável. Estava tão desesperado que seus escudos se quebraram em mil pedaços e com isso, sem que ele soubesse, Noor foi mais fundo em sua mente, tão profundamente que quando Erak se ergueu trazendo a garota consigo, a Angel em seus braços se tornou real.

Passando as mãos em afoitos afagos pelos cabelos dela, Erak aprofundou o beijo. Eram quase um único ser. As mãos enormes a prenderam pelos quadris, fundindo seus corpos. Com ela no ar em seus braços, Erak cegamente foi em direção a cama. Deitou-a com delicadeza e arrancou as próprias roupas enquanto devorava com os olhos a carne acetinada dos seios rosados e cheios, da cintura marcada e dos quadris arredondados. Quando seus olhos cruzaram com os violetas, sombreados por desejo, seu corpo reagiu com tal violência que ele precisou se conter.

As mãos tremiam na busca por controle, sabia que sua força poderia machucá-la e jamais se perdoaria se fizesse isso. Dessa vez nem mesmo perder um membro, como da última vez, seria o suficiente para cobrir a dor que lhe causara ver o sangue dela derramado por culpa dele. Ele quis puni-la por fazê-lo sentir aquilo tudo, quis provar que não era real, mas que tolo fora, então, pois apenas conseguiu, ao feri-la, provar exatamente o contrário.

Ele desejava Angel. Ansiava tê-la para si.

Não era lógico, apropriado ou honrado.

Mas, — seu coração disparou quando os braços delicados se ergueram em um convite mudo, irresistível – ele era um homem acostumado a viver nas sombras, ainda que exibisse o brilho do poder.

Então ele se deixaria dominar pela loucura naquela noite. No dia seguinte apenas acrescentaria mais isso à sua longa lista de desejos que não poderia jamais realizar por ser quem era.

Por seu destino maldito.

***

Noor observou o Rei adormecido. E a dor voltou. Nunca, em todos aqueles anos em que foram amantes vira Erak tomado por tanta paixão. E por tanto amor. Foi diferente de tudo o que ela já tinha experimentado antes, com ele ou com qualquer outro. Não foram apenas toques de luxúria que passaram por seu corpo, foram gestos de reverência que a fizeram se sentir tão amada, tão frágil, que só conseguiu controle sobre a própria magia por conta da dor.

Quando seus corpos se fundiram, Noor foi tomada por tamanha emoção devido ao calor naqueles olhos cinzentos, que pela primeira vez em sua vida lágrimas de prazer deslizaram por sua face. Doces lágrimas que queimaram como ácido quando, desesperadamente, com voz enrouquecida e irreconhecível, Erak sussurrou aquele nome odioso. Angel.

Angel. Angel. Angel.

Noor agarrou com força o lençol, impedindo-se de gritar em agonia. E raiva. E rancor.

Não sabia se ele tinha consciência de que a Angel com quem ele tinha passado horas sobre aqueles lençóis era, na verdade, Noor. Erak poderia pensar que tinha sido uma mera imagem projetada por sua mente com o uso da magia dela, mas não. Ela havia se transformado na garota que ele desejava, aos olhos dele. Em cada toque, em cada beijo em cada pequeno pedaço de pele, era ela, Noor. Mas para Erak tinha sido a Angel.

Esse tinha sido o plano desde o início. Uma vingança infantil por ter sido deixada de lado por ele tão facilmente. E ainda mais por causa dela. E tivera sucesso. Agora tinha certeza dos sentimentos do Rei pela Humana e poderia pensar em formas de aproveitar-se disso. Também fora bem sucedida no propósito de brincar com os desejos de Erak, dar-se prazer por conta das emoções dele. E nesse quesito fora muito além do que tinha imaginado.

Então de onde vinha a dor?

Observando o semblante relaxado de Erak, sentiu a fisgada daquele estranho incômodo.

Então era isso?

Duas grossas e solitárias lágrimas caíram de seus olhos, incontroláveis e desprezíveis.

Ela soube, ao se tornar Angel, como era ser amada.

Amada por Erak. Amada por Alexis, pois o brilho nos olhos cinzentos do Rei ao fitá-la enquanto era outra, lembrou-a do mesmo brilho que vislumbrava frequentemente nos olhos do Predestinado.

E doeu como fogo em seu coração reconhecer que nunca foi amada pelo Rei.

Mas doeu ainda mais, literalmente, experimentar na pele a profundidade do tipo de sentimento que Alexis tinha pela garota Humana.

Não ousava pensar que, na verdade, tinha sido apenas uma pequena proporção do sentimento real, pois isso mataria todas as suas esperanças de um dia ter ele para si.

Pediu perdão aos Deuses, mas em seu coração não conseguiu desejar nada além da morte daquela Escolhida.

A Escolhida que ela, uma das Guardiãs, tinha que proteger.

***

Lali estava nervosa. Era a primeira vez que sairiam da ala na qual estavam confinados no palácio desde que chegaram a Payre. Apesar do seu estado, como era uma pessoa de natureza observadora, não pôde deixar de notar o clima estranho do silencioso grupo que seguia pelos corredores rumo à nave que os aguardava.

Choi evitava o olhar e qualquer contato com Mona, como sempre. Ela, por sua vez, exibia um olhar distante, enquanto caminhava elegantemente ao lado de sua Mestra. Noor parecia um bloco de gelo, sua costumeira sensualidade tinha dado lugar a uma armadura fria e sombria. Nada de olhares lânguidos e sorrisos sugestivos. Bem, talvez fosse seu “Modo Guardiã” em ação.

Ren olhava para tudo a sua volta com indisfarçável curiosidade. Caminhava atrás do grupo, concentrado em cada pequeno detalhe por onde passavam. Provavelmente estava analisando o lugar com suas conhecidas intenções de fuga. Era meio engraçado, até. Já o Mestre dele, Zaffar, olhava atentamente para uma tela em suas mãos, enquanto ouvia o incessante tagarelar sussurrado da irmã, Zafy. A única animada do grupo.

A Rainha Syka, que seguia a frente de todos, apenas trocava algumas rápidas palavras com Jaffar, o líder do Conselho dos Profetas, e com o Curador Falki. Logo atrás dos três estavam Esan e o Rei Erak, lado a lado e em total silêncio. Por ele ser normalmente assustador, era interessante notar certa dose de distração que pairava sobre o Rei. Sua expressão estava tão fria quanto diziam seus olhos cinzentos, mas havia algo diferente nele. Talvez fosse a forma como procurava se isolar das pessoas que o cercavam e do pouco interesse que demonstrava com relação a conversa entre a mãe e os dois principais conselheiros sobre a missão. Ele parecia entregue apenas aos próprios pensamentos.

Já Angel e Alexis estavam em algum tipo de briga de namorados. Lali estava tentando se adaptar aquilo. E pelo visto, Alexis também. No início ele procurou deixá-la de lado com sua cara emburrada, para que ela se acalmasse. Só que isso apenas a irritou mais, então ele tentou puxar conversa sobre a missão, se ela estava se sentindo bem. Péssima escolha de tema. Angel praticamente lançou chispas de fogo por todo o pequeno corpo tenso de raiva. Ele, como um exemplo de coragem, tentou de novo. Perguntou se ela estava curiosa por conhecer aquele mundo. Angel apenas resmungou algo sobre “Príncipes” e “sapos”. Ah, e “costurar a boca”. Levando em conta o suspiro de Alexis, não foi uma resposta muito animadora.

Quando finalmente deixaram o longo corredor, uma porta imensa mostrou-se como a única saída. A Rainha a tocou e imediatamente ela se abriu, da mesma forma que outras portas do palácio abriam — se “desfazendo” no ar do centro para as laterais.

Lali, que sempre viveu em um castelo, cercada por todo tipo de luxos, ainda conseguia ficar surpresa com a grandiosidade do palácio de Alirini, o coração do reino de Sylesth. Entre as informações passadas a eles, estava que aquele palácio havia sido construído pelo Rei Melkor e pela Rainha Syka como símbolo da união dos Alicanos e dos Nerinis.

Ele era, além de grandioso, lindo. Suas paredes, que em muitos lugares parecia um tipo de cristal opaco mesclado com mármore branco e dourado, eram encrustadas de pedras coloridas e desenhos lindos de flores e símbolos que ela não reconhecia. Em todos os cômodos o teto era alto e lembrava muito as construções góticas, mas sem o aspecto sombrio associado a esse estilo. Alirini era claro e brilhante, com suas amplas janelas e paredes formadas apenas por colunas entalhadas. Era quase como estar em alguma obra de Tolkien, visitando os castelos dos Elfos. Também havia muitas plantas, muito verde e flores das mais belas nos diferentes jardins internos pelos quais passavam. Nunca tinha visto nada igual.

Também lhe chamou a atenção a falta de pessoas circulando por ali. Em sua casa, na Índia, Lali era constantemente cercada, tanto por parentes que também moravam no palácio, quanto por criados e seguranças. Mas ali, ainda que caminhassem por enormes salões, jardins e corredores sem fim, não encontravam absolutamente ninguém.

Então ela lembrou. A Rainha os avisara que poucos payreanos sabiam da chegada deles em Payre. A existência deles naquele mundo era um segredo revelado apenas a algumas pessoas necessárias para a conclusão do objetivo dos reinos aliados. Por isso eles tinham ficado por tanto tempo isolados. Por segurança. Khor não podia saber que eles estavam ali, e se eles fossem vistos por muitos, algum dos espiões que ele constantemente enviava passaria a informação, o que poderia colocar a missão em perigo. Pois no momento Khor não sabia da existência da Profecia. Ele acreditava apenas na versão Deiroon da Lenda dos Três Deuses, e nela ele era o único enviado, aquele que por direito teria Payre para si.

Lali deixou essas questões de lado quando avistou o que estava atrás da última porta pela qual passaram. Seu queixo caiu e seus olhos ficaram enormes.

Não tinha como descrever aquilo.

― Que foda! Estamos no hangar do Star Treck!!

Choi, em sua animação, praticamente gritou a ninguém em particular. Lali riu da forma como ele, com os olhos brilhantes e um sorriso infantil, quase quicava no chão, olhando para tudo deslumbrado.

― Puta merda. Precisa ser tão nerd, Montinho?

Sem desviar a atenção das maravilhas que via, Choi respondeu a provocação de Angel:

― Deixa esse beicinho de menininha de lado e admita que está louca para andar em uma dessas naves fantásticas!

Lali não sabia a respeito do que eles estavam falando, mas imaginava que seria algo relacionado a ficção cientifica, pois se enquadraria perfeitamente ao que estava à frente deles.

O lugar era amplo, mais do que qualquer outro em que estiveram, até então. E ao contrário da delicadeza dos cristais que formavam as paredes dos lugares pelos quais tinham passado antes, ali predominava o brilho do metal. O piso com marcações nas quais gigantescas naves ocupavam seus respectivos espaços era polido e em alguns pontos substituído por material transparente, permitindo, assim, que o mar abaixo deles fosse visto, bem como a fauna e a flora deslumbrante que ali estavam.

O teto era arredondado, como se eles estivessem em um iglu feito de aço e vidro. As paredes, ou parte do teto, não tinha como definir, era aberta, deixando a visão das águas em verde claro quase tão surpreendentes quanto a tecnologia exposta diante dos olhos deles.

No centro das naves, dispostas ao longo das paredes, havia uma plataforma com uma enorme esfera de energia azulada. Ela brilhava intensamente, iluminando o ambiente que se coloria através da oscilação entre a sua luz azul e a verde refletida pela água.

Lali sabia que sua boca ainda estava aberta, mas não conseguia evitar. Se recompôs um pouco quando a Rainha tomou a palavra, após dar um tempo para que eles se acostumassem ao que viam, se é que isso era possível.

― Esse é o Hangar 2, onde estão as naves de médio porte. A AL-62 os levará até o reino de Cylles, e Zaffar, nosso Guia, será o piloto e o Capitão da tripulação, responsável por levá-los em segurança até o seus destinos. – Syka, através dos seus característicos gestos delicados, abriu o braço apontando a nave indicada por ela.

A AL-62 era linda, em tons prateados e azuis. Inúmeras luzes amareladas e vermelhas piscavam em seu entorno. Seu formado lembrava o de um besouro, sendo a parte referente a cabeça totalmente transparente e mais “pontuda” do que o inseto com quem parecia.

Eles foram orientados a se aproximar da nave. Quando o grupo todo estava próximo, a AL-62 se ascendeu e Lali notou uma estranha luminosidade a cobrir. Espantada a garota ergueu a mão e reparou que o mesmo vermelho luminoso também a estava envolvendo. Pequenas esferas brancas foram se desprendendo da garota com hipnotizante lentidão. Quando ergueu a cabeça, recebeu um novo choque, pois estava dentro da nave.

Embasbacada, olhou para os lados. Várias telas projetadas no ar e nas paredes dominavam o lugar. Alguns assentos altos em vermelho escuro estavam dispostos logo atrás do que parecia ser o centro de comando em uma plataforma alta separada do restante por três degraus. O centro de comando possuía uma diversidade de luzes piscando, além de uma esfera localizada no meio do painel de controle, semelhante a azulada do hangar, mas aquela era de um vermelho intenso.

― Agora devem ir – a Rainha voltou a tomar a palavra, interrompendo a tagarelice de Ren e os resmungos de Angel. – Erak, o Curador Falki, Jaffar e eu estaremos o tempo todo em contato, caso precisem da nossa ajuda. Sei o quanto estão cheios de dúvidas e também entendo o receio que sentem sobre tudo que está por vir. Enche-me de temor afastá-los de Sylesth, mas não temos escolha. Confiarei na força dos Guardiões para guiá-los e protegê-los, e na força de cada um de vocês. – ela lançou um rápido olhar para Alexis antes de voltar a se dirigir a todo o grupo. – Lembrem-se: cada decisão que tomarem, cada passo que derem, terá reflexos no destino de Payre e da Terra. É uma responsabilidade imensa, mas acredito que a Deusa os escolheu por algum motivo, pois apesar de sua essência ter passado por milhares de anos, geração após geração, eram vocês, Ren, Mona, Choi, Lali e Angel, que deveriam estar aqui, nesse momento. Pois vocês é que estavam neste tempo da História ao lado do Predestinado. – sorrindo carinhosamente, Skya finalizou — Que Erow e Ashy os protejam, meus queridos.

Logo que terminou, Syka, junto a Erak, Falki e Jaffar foram envoltos na mesma luz vermelha e sumiram.

― Ótimo, agora que passamos por esse lindo discurso motivacional, vamos partir.

Zaffar disse em tom irônico, já caminhando em direção a poltrona alta que ficava em posição de destaque na plataforma de comando. Após se sentar, o Guia girou a cadeira na direção deles e, com um sorriso que Lali considerou um tanto ambíguo, declarou:

― Sorriam, crianças, pois estão todos em minhas mãos a partir desse momento. Vamos ver se estão realmente prontos para sobreviver a essa guerra. Acabou a brincadeira.

***

― Capitão, uma nave suspeita partiu do Palácio Alirini.

― Por que ela seria suspeita? Naves chegam e saem do palácio o tempo todo.

― Eles bloquearam o local de destino.

― Não é como se eles nos deixassem entrar nos sistemas facilmente, isso seria terrivelmente chato.

― Mas dessa vez não conseguimos acessar nada. E eles limparam os poucos dados que conseguimos capturar.

Aquilo chamou a atenção do Meiruu. Apenas um Eiff muito habilidoso seria capaz disso. E se a nave carregava alguém assim, ou a missão era extremamente importante, ou as pessoas que ela transportava eram muito valiosas. Ou melhor ainda. Poderia ser os dois.

O homem conhecido como o maior pirata de Payre, sorriu.

― Vamos ficar de olho na nave. Acho que será mais divertido do que continuar a capturar esses entediantes Eiffs.

Ainda sorrindo, Kaill pensou nas maravilhas que poderia obter do Rei Deiroon caso conseguisse algo bem mais suculento do que Eiffs.

Talvez o poder de ampliar sua magia através do sangue, como os Deiroons?

Quem sabe.



Notas finais
Então?? Chegaram a ficar cansados, ou posso escrever 10k no próximo?? eheueheuheuehueh xD Brincadeira, gente!! Espero tenham gostado!! Consegui descrever a Payre, ou melhor, o palácio direitinho? Ou não fazem nem ideia do que estou falando?? kkkk E o Erak, hein? Que situação! Nem sei quem é o mais amargurado nessa fic, ainda bem que tem o Choi para alegrar esse povo!! kkkkk Bem, aguardarei os comentários (leram isso? COMENTÁRIOS! Isso!, aquilo que as boas almas, as fofas e especiais que não ficam apenas assombrando por ai - eheheeh - fazem logo depois de ler o capítulo!!). ~ poxa, eu escrevi taaaanto dessa vez, quase destruí meus dedos, olha só que dó!! ~mostra os dedinhos cheios de calos ~ podiam ser legais, huuuuummm?? HUUUMMM??? Agradeço os que estão sempre apoiando a história com suas palavras liiindaaas e me motivando a continuar toda alegre e faceira!! E para os que sumiram, eu ainda amo vcs, ok? ~não faço coração aqui pq esse fdp do sistema deleta ~ eheueheuheuh Beijos e até o próximo!!