Desrealização

1 Desrealização: Falsos Delírios


Existia um caminho, descendo pelas montanhas, que levava até uma estrada recém asfaltada. Essas montanhas em questão serviam de abrigo para um lugar parado no tempo, escondido em meio à… Grandes mistérios. Mas, falando de forma mais objetiva, levava para um ponto de ônibus. Quem olhasse de longe, jamais pensaria nada de anormal sobre as pessoas que esperavam naquele banco, cuja única companhia era a de uma placa indicando que ali era travessia de transporte público.

Duas figuras, muito diferentes uma da outra, aguardavam a próxima rota que os deixariam no centro da capital.

- Então... Ele fez de novo, ou o quê? — Indagou o rapaz de cabelos penteados para trás. Pelo seu sotaque e expressividade, poderíamos dizer que era de origem italiana.

- Não sei dizer. O Grande Mestre apenas disse que seria melhor ficarmos de olho nele. Visitá-lo é apenas uma fachada. Você entende, não? — Respondeu o outro, pálido como uma peça de porcelana.

- Resumindo, vamos bancar as babás de novo. Saco...

Máscara da Morte, como era conhecido, não era muito chegado a fazer favores para os outros. Mesmo para quem ele considerasse um "bom amigo", pois aprendera que no mundo era cada um por si. Por outro lado, Aphrodite, seu colega de banco, era um pouco mais solícito. Restava saber se era para com seus companheiros, genuinamente, ou apenas porque "O Mestre mandou".

Sem muita demora, o ônibus, dirigido por um simpático senhor turco, chegou no horário exato e a dupla seguiu com a tarefa que lhes foi incumbida.


***


Vasculhavam as prateleiras da primeira farmácia que encontraram, em busca de coisas como seringas descartáveis, ataduras, gases, analgésicos genéricos (vários deles) e, claro, morfina.

— Como você consegue passar tudo isso no caixa sem causar estranhezas? — Perguntou Máscara da Morte, de braços cruzados e fazendo uma carranca que somente ele conseguia.

— Eu apresento documentos que confirmam que sou estudante de enfermagem, tudo falso, claro. Além de ter receitas prescritas por um médico de verdade… Veja. — Aphrodite mostrou com certo orgulho uma carteirinha de estudante verde — É fácil, quando você mesmo acredita na sua mentira mais crível você é.

— Ah, claro. E você usa seu nome de batismo nos documentos falsos? Que falta de criatividade! — Sim, todos os documentos que os Cavaleiros portavam consigo eram falsos, até mesmo os que constavam seus nomes verdadeiros pois, nenhum deles existiam oficialmente para o governo de lugar nenhum. — De todo o modo, vou levar esses salgadinhos vagabundos... Aposto que ele esqueceu de comer também.

— Você reclama tanto, mas gosta quando vamos vê-lo.

— Bom... Depois daquilo, ele só tem a gente, né?

— É.


***


A Casa de Capricórnio, parecia uma mansão mal-assombrada. Seu residente, sempre bastante reservado, não era dado a muita socialização. Mas nunca negligente com nada. Muito menos limpeza… Agora, porém, a Décima Casa estava "ganhando cogumelos" em suas fendas.

Ele não lembrava como havia ido parar em sua cama. Nem como essa dor nauseante de cabeça começara. Doía mais do que todo o resto de seu corpo. Parecia que ia explodir em mil pedaços, mal podia deixar os olhos abertos, respirar era doloroso e sentia os membros tremendo, os músculos repuxando e o estômago embrulhado. Tinha a sensação de que foi arremessado com tudo contra chãos e paredes e de ter perdido alguns dentes de trás. Se perguntava se seria tão ruim assim, então, rachar a própria cabeça com sua Excalibur.

Com muita dificuldade, sentou-se na cama e tentou observar melhor o estado de seu quarto. Surpreendentemente, melhor do que ele. Mas era estranho, como se alguém tivesse feito alguma faxina ali e recente. Pensava assim pois não era como ele costumava arrumar suas coisas. Mas francamente? Pouco estava se importando com isso nos últimos dias…

Quando tinha seus momentos a sós, os pensamentos que circulavam por sua mente não eram os melhores. Dúvidas, arrependimentos, solidão, angústia… Era sufocante. Diferentemente da dor física que uma hora ou outra passa, a emocional não tem data de validade.

Consequentemente, acabou criando um péssimo hábito.

Shura, como era conhecido, era muito similar a um gato de rua. Não era todo mundo que se aproximava dele, ou melhor, que ele deixava se aproximar. A última pessoa que conseguiu ultrapassar essas barreiras, ironicamente, tinha um espírito animado como o de um golden retriever.

Levantou, tentando fazer alongamentos e pôde ouvir seus ossos estalando, ou voltando para o lugar, quem sabe… Cavaleiros costumavam ser fisicamente mais resistentes que as pessoas normais, mas isso não significava que não houvesse sequelas.

Antes mesmo de ousar abrir a porta, ouviu barulho subindo a escada e mal se preparou para o que viria a seguir.

— EI, ESPANHOL!

— Ah, não... Ele não... — Disse consigo mesmo.

De todas as pessoas, o Cavaleiro de Câncer era o último que gostaria de ter ali em sua casa no momento. Um italiano boca suja e fanfarrão não era a pessoa mais adequada para conversar no momento.

Mesmo assim, a maçaneta da porta começou a girar, totalmente desregulada, como se uma criança estivesse mexendo nela.

— E AI, TÁ PELADO OU VESTIDO? SE TIVER PELADO JÁ ERA, VAMO ENTRAR.

Shura respirou fundo, bem fundo, sentando de volta na beira da cama.

— Entra...

Aphrodite estava com ele, como de costume. Não sabia se sentia alívio ou não com isso. Os dois sempre andavam grudados e Shura não saberia dizer quando, nem como, esses dois acabaram por "adotá-lo". Talvez fossem os mais próximos de uma amizade que ele teria atualmente.

— Uau, parece que te jogaram de um penhasco três vezes seguidas. — Disse Aphrodite, levantando uma das sobrancelhas de uma forma não tão sutil como gostaria. — Você já consegue sair da cama?

Cê tá horrível, hein? — Sinceridade podia arder tanto quanto sal em ferida aberta. — Aposto que tá de estômago vazio também. Pega aí — Máscara, sem delicadeza alguma, jogou um pacote de salgadinhos. Que atingiu a cara catártica do Cavaleiro de Capricórnio.

— Máscara da Morte, eu não acho que essas besteiras sejam as mais indicadas para comer agora. Ele ficou desacordado por quase 5 dias.

Cinco dias? Ele ouviu bem? Engoliu seco, mas não tocou no assunto.

— O que fazem aqui?

— O Grande Mestre pediu.

O espanhol franziu o cenho. Tinha a vaga sensação de que teria ido ao Salão do Grande Mestre… Ontem? Anteontem? Há dias? Não lembrava se realmente foi, ou se ainda iria. Quando pensava demais nisso, a dor que vinha dilacerando seu cérebro piorava.

— Que seja. Eu não aguento mais essa dor de cabeça. — Sua voz saía fraca, rouca — Se trouxeram remédios eu agradeço, deixem e vão embora.

— Primeiro você come, toma banho e depois… — Peixes fez uma pausa de leve — Você recebe os medicamentos adequadamente. Essa tendência sua de exagerar nos analgésicos… Tenho certeza que vai desenvolver dependência em breve… Se é que já não tem.

Era mais fácil deixar eles fazerem o que queriam ali. Praguejou, mas não adiantaria de qualquer jeito.

Mesmo sem apetite, mordiscou os salgados velhos que o italiano trouxera. Se esforçou. Mas a sensação de embrulho no estômago era muito incômoda. Não aguentou muito tempo e devolveu o saco para ele.

— Eu acho… Que prefiro vomitar antes. — Levantou em direção ao que era o banheiro da Casa de Capricórnio.

Não foi agradável de se ouvir.

— Será que ele morre engasgado assim? — Perguntou Máscara da Morte enfiando a mão no pacote de salgados. Se Shura não ia comer, ele comeria.

— Para quê inimigos quando se tem você como amigo, não é mesmo? Eu vou tentar fazer uma sopa para ele enquanto isso. Você bem que poderia me ajudar... Que tal trocar a roupa de cama dele primeiro?

— Como queira, mas o enfermeiro aqui é você. Eu estou mais para coveiro!

— Percebi. Ande logo, que quanto antes o deixarmos em paz, melhor.

Aphrodite improvisou uma sopa com o que tinha naquela dispensa, que não era muita coisa… Batata, cenoura… O básico. Não tinha certeza se os mantimentos estavam acabando ou se o companheiro de patente era negligente com a própria alimentação. Bom, surpresa não seria.

Aphrodite e Máscara da Morte sabiam o que tinha acontecido. Não podiam fazer nada, mas se importavam com Capricórnio, o tanto que ele podia deixar e o quanto eles conseguiam demonstrar. Mesmo que um colocasse o Grande Mestre em um pedestal e o outro tivesse seus próprios interesses.

O Cavaleiro de Câncer, apesar de desbocado, até era um bom ouvinte. Péssimo conselheiro, mas um bom ouvinte. E às vezes o Cavaleiro de Peixes aparecia com alguma comida caseira para eles sem explicação nenhuma. Cuidadoso e de certa forma atencioso. Aphrodite era um ano mais novo que eles, mas parecia um irmão mais velho que fazia suas obrigações. Eram um trio curioso.

Shura lembrava-se de ter tido irmãos mais velhos. De ser o mais novo de uma família pobre em algum lugar da Espanha. Lembrava-se também da fome que sentia… Não sabia o paradeiro de ninguém, nem mãe, nem pai… E assim desejava ficar.

Não eram deles de quem sentia falta.

Antes de deixar o banheiro, olhou seu reflexo no espelho. Um de seus olhos estava com hematoma, assim como parte de seus ombros e onde mais pudesse enxergar. Olheiras, lábios esbranquiçados… Doente.

A enxaqueca deu uma trégua assim que pôs até as tripas para fora, então poderia aguentar mais um pouco a estadia de seus “amigos”.

Não iria admitir, mas Aphrodite tinha uma mão boa para cozinhar. Ou Shura apenas não comia direito há muito tempo. Fato era que a sopa estava realmente deliciosa.

Após comer, fez menção sobre ir tomar banho. Porém Aphrodite o advertiu sobre ainda precisar trocar os curativos e o surpreendeu ao dizer que não era ele, nem Máscara da Morte obviamente, quem estava fazendo a limpeza de suas feridas durante esse tempo.

Quem, além deles, teriam o mínimo de empatia com ele para isso? Ou seria algum servente do Santuário? Pensar nisso fez o estômago embrulhar de novo.

— Logo descobrirá quem é. Até lá, melhor esperar quieto. Assim você pode voltar a descansar e, quem sabe, relaxar de verdade um pouco. Precisamos ir também. — Respondeu Peixes, deixando a sacola dos remédios que comprou em cima da bancada.

— Vê se melhora disso aí. Terei uma missão em breve e quero beber quando voltar! — Máscara da Morte gostava de cantar vitórias antes da hora. Mas sempre tinha êxito.

— Eu escolho o bar desta vez, então. — Respondeu sem direcionar o olhar para os dois — … Obrigado por terem vindo. — “Mesmo que não fosse realmente necessário” pensou.

Aphrodite seguiu seu caminho subindo as escadas passando por Aquário, enquanto Máscara da Morte descia. No caminho cruzou olhares com um ex-aspirante a Cavaleiro, um que veio da Alemanha.

— Indo ver o assassino do seu amigo? — Mesmo podendo ter alguma consideração com Shura, também era um grandíssimo filho da puta dado a provocações.

Não obteve resposta.


Notas finais
* Terá continuação... Só não garanto quando :'D Mas advirto que poderá ser um pouco mais... Pesado. * Estava com saudades de um angst ~ E tive muitas crises de enxaqueca esses tempos que serviram para algo hahaha * Algum palpite de quem é o quarto integrante desta história?
Este é o último capítulo disponível... por enquanto! A história ainda não acabou.