Notas iniciais
Roda o cap.

“Teu nome apenas é meu inimigo. Tu não és um Montecchio, és tu mesmo... Ó! Se algum outro nome! O que há num nome? O que chamamos uma rosa teria o mesmo perfume...”

O barulho estridente do sinal interrompeu a leitura do professor de literatura, que ergueu seus olhos por cima de seus óculos, decepcionado. Ele suspirou, enquanto fechava o livro já desgastado e de capa dura, marcando a página na qual havia parado.

— Shakespeare que me perdoe... – Comentou massageando suas têmporas. – Mas quem estava quase dormindo era eu.

Alguns dos alunos, que ainda não tinham sido vencidos pelo sono, soltaram risadas abafadas. Os outros empenharam-se em arrumar o cabelo amassado, após o longo cochilo. Érick riu brevemente. Apesar de sentir que o professor poderia ter facilmente continuado a leitura por mais algumas horas.

— Peço que terminem a leitura do capítulo em suas casas. No nosso próximo encontro poderemos fazer uma breve reflexão sobre o que tiverem achado mais interessante. – Ele juntou seu material em cima da mesa e pôs sua bolsa sobre os ombros. – E... jovem Érick, pode me acompanhar por favor?

— É claro. – Respondeu Érick, apressando-se em se levantar para acompanhar o professor que já alcançava a porta. Atrás de si, Louis resmungava alguma coisa sobre intervalos e comida, no momento em que acabara de despertar.

Érick lançou um último olhar para o garoto que havia sentado na sua frente antes de alcançar a saída da sala, mas o capuz de seu casaco havia voltado a cobrir seu rosto, impedindo-o de analisar melhor o novo colega de classe.

O professor John Michel o aguardava ao lado da saída. Vasculhando alguma coisa em sua bolsa enquanto murmurava sozinho com si mesmo.

— Oh! Érick Tanaka. – Exclamou.

— O senhor precisa de alguma coisa? – Érick questionou, torcendo para que o mais velho não tivesse percebido que ele passara parte da aula jogando no celular.

— Preciso de um pequeno favor, meu jovem. O diretor me pediu para apresentar a escola ao jovem Adrien. Mas... bom. Tenho um compromisso inadiável. Gostaria que fizesse isso em meu lugar, após o termino das aulas.

Érick refletiu rapidamente. Não sentia a mínima vontade de voltar para casa e ter de ver sua mãe novamente. Era perfeito.

— Tudo bem, posso fazer isso.

— Ótimo! – O senhor Reed já se distanciava, mas voltou o olhar para Érick, como se subitamente houvesse lembrado de algo. – Faça isso e deixarei passar sua falta de atenção em minha aula.

Érick riu envergonhado no momento em que seu professor virou no corredor mais próximo e desapareceu de sua vista. Voltou para dentro da sala de aula, onde a maioria dos colegas ainda se espreguiçavam, antes que se levantassem e deixassem a sala para aproveitar alguns minutos de intervalo.

— Oh sim! Então você veio da Saint Nicolas? – A voz animada de Louis acabou chamando a atenção de Érick assim que ele passou pela porta. Ele havia sentado em seu lugar e iniciado uma conversa com o novato. Além de estar comendo algo que, com toda certeza, não lhe pertencia. – Eu tenho uma prima que estuda lá.

Érick aproximou-se, curioso. Adrien havia se virado para poder conversar melhor, mas ainda matinha a cabeça baixa, destacando ainda mais os óculos de armações exageradamente grandes. Os olhos de Louis voltaram-se na direção do amigo no momento em que ele tomou o croissant que ele comia de suas mãos.

– Ai! – Louis resmungou quando o maior deu uma tapa leve em sua cabeça.

— Não coma o meu lanche. Idiota!

— Viu só, Adrien? – Louis murmurou, indignado. – Esse é o tipo de amizade que você tem que evitar.

— Aquela que come a sua comida? Com toda certeza. – Érick retrucou, antes de se virar para o novato e ver o pequeno sorriso que havia se formado em seus lábios. Ele deu a primeira mordida em seu lanche e fechou os olhos, satisfeito.

— Tão bom.

Se houvesse prazer maior na vida do que experimentar uma boa comida, até aquele momento, Érick a desconhecia. O croissant que comprara já havia esfriado, mas mesmo assim ainda preservava todo o sabor amanteigado que a massa devia ter. E o melhor, não tinha aquele gosto forte de farinha crua que era fácil de se encontrar nesse tipo de alimento. Era praticamente perfeito.

Estava prestes a comentar com Adrien o quanto sua mãe era talentosa, quando a voz de Louis o arrancou de seus devaneios sobre farinha, ovos e açúcar.

— Mas o que é que o senhor John queria com você?

Sua mente se iluminou como uma lâmpada. Havia esquecido de avisar ao novo colega que apresentaria o colégio a ele, após o fim das aulas.

— Oh. Ele pediu que apresentasse a escola a Adrien, assim que acabarem as aulas. Tudo bem por você? – Questionou ao garoto que havia voltado a encarar seus dedos, como se fossem a coisa mais interessante do mundo.

— Se não for um incômodo pra você... eu agradeceria muito. – Ele ergueu a cabeça mais uma vez. E, mais uma vez, alguns fios de cabelo branco escaparam pelo capuz de seu casado. Érick teve que segurar o ímpeto de livrá-lo daquele capuz para poder observá-lo melhor. Mas não precisou fazer isso por muito tempo, já que quando ia responder o garoto, o capuz foi subitamente puxado para trás.

— Opa, caras!

Thierry Renault era o irmão gêmeo de Elaine. Tão popular e bonito quanto ela, apesar de suas personalidades serem totalmente opostas. Tinha a pele cor de chocolate, um pouco mais escura que a de sua irmã. O cabelo preto era curto nas laterais, destacando os cachos mais definidos no centro, e seus olhos cor de âmbar eram idênticos aos da irmã.

Talvez por sempre ser o centro das atenções, Thierry não tenha dado muita importância quando a sala irrompeu em burburinhos. Não, não até que Louis e Érick ignorassem seu cumprimento, ocupados demais admirando o garoto que estava sentado na cadeira da frente.

Adrien tinha longos fios de cabelo. Brancos como a neve que caia no inverno. Sua pele, se fosse possível, parecia ser ainda mais branca que seu cabelo, de uma maneira que não era difícil de enxergar alguns dos pequenos vasos sanguíneos que circulavam ao redor da lente de seus óculos. Ele mordeu o lábio inferior, minimamente rosado, parecia inquieto. Então puxou o capuz novamente por cima da cabeça, segurando o tecido velho com força, como se para ter certeza de que ele ainda estava lá.

Uma luz ascendeu de repente na mente de Érick, quando finalmente os pontos começaram a se ligar.

— Você é um albino!

Adrien levantou a cabeça e acenou positivamente. Os burburinhos aumentaram. Ele não parecia muito confortável. Seus dedos agora entrelaçavam-se com força uns nos outros.

Provavelmente Érick faria algum comentário sobre a condição do novo colega, já que discrição nunca fora seu forte. No entanto, Louis se adiantou e deu-lhe uma cotovelada indiscreta que tirou todo o ar de seus pulmões. Numa situação normal, o amigo o teria devolvido o favor, mas quando o encarou, Louis estava ocupado demais lançando o melhor olhar de reprovação que podia para Thierry.

— Ehr... Adrien, não é? – Ele começou constrangido, coçando a parte de trás de sua cabeça. – Me desculpe por isso. Eu não tinha ideia que... bem, não achei que fosse... então, você sabe que... ah! Espero que me desculpe, certo?

Outra cotovelada foi desferida contra a bacia de Érick. Agora, Louis mirava seu olhar de reprovação para si. E, só então ele se deu conta, enquanto seu rosto atingia tons de vermelho que ele pensara até então ser fisiologicamente impossível de alcançar.

— Peço desculpas também. Fui rude e inconveniente.

Demorou um pouco para que Adrien respondesse. E um silêncio um tanto desconfortável se instaurou por alguns segundos.

— Está tudo bem. – Ele inspirou fundo, então voltou o rosto para Thierry. – Não é como se todos não fossem ficar sabendo mais cedo ou mais tarde. Eu... eu só fiquei surpreso por um momento, não se preocupem.

O clima de tensão pareceu começar a se dissolver aos poucos. Até mesmo os burburinhos e olhares voltados na direção dos garotos cessaram. Louis suspirou, aliviado. E então voltou seus olhos para Thierry, com uma das sobrancelhas erguidas.

— E então? O que você ia falar?

— Ah, sim! – Thierry balançou a cabeça, desviando o olhar de Adrien. Parecia ter acabado de sair de algum tipo de transe. – O treinador disse que precisava falar com você. Alguma coisa sobre uma reunião urgente amanhã à tarde.

— O que?! – Louis bradou, indignado. – Mas amanhã é a festa na casa da Elaine!

— Bom, a festa na nossa casa será à noite. Você tem tempo o suficiente.

O rosto de Louis se converteu numa careta, no mesmo momento em que Érick começou a rir descaradamente do amigo.

— Acredite, Thierry. Ele definitivamente vai chegar atrasado. Não sei se você sabe, mas da última vez que conv...

— Certo! Não precisamos desse detalhe, seu idiota. – Louis rosnou, o rosto começando a ficar rosado. – Érick vai passar na minha casa para irmos juntos, então não vai ter atraso nenhum.

— Ei! Eu ainda nem decidi se vou ou não...

— Calado! Já disse que você vai.

Érick provavelmente continuaria a protestar, mas o sinal voltou a tocar, indicando o final do intervalo. E, como se planejado, o professor de matemática cruzou a porta da sala, exigindo que todos voltassem aos seus lugares imediatamente. Ele era um sujeito careca, baixo e com uma barriga proeminente. Tinha a ponta do nariz avermelhada, como se sempre estivesse doente. Não era um sujeito muito fácil de se lidar, segundo alguns boatos “ignorância” era seu nome do meio.

Antes que desse meia volta e retornasse para seu lugar, Thierry lançou um último olhar para Adrien. O garoto o encarou de volta e ele sorriu com o canto da boca, seus olhos brilhavam como se uma ótima ideia tivesse atravessado sua mente.

— Sabe, Adrien. Seria ótimo se você pudesse ir para a minha casa amanhã. Se enturmar, conhecer o pessoal...

Louis pareceu indignado.

— E todo aquele papo de nossa casa?

Érick o ignorou. Queria saber o que o outro responderia.

— Eu... ehr... – Até mesmo Adrien ficou surpreso com o convite. Não sabia o que responder e começou a se embolar com as próprias palavras. – Eu... eu vou pensar?

O sorriso de Thierry aumentou.

— Que ótimo! Espero te ver lá.

— Thierry Renault! – O professor rosnou irritado, assim que se virou e se deparou com o único estudante que insistia em não obedecer suar ordens. – Sente-se, já! A não ser que pretenda ministrar a aula em meu lugar.

Thierry encarou o homem com um falso olhar de culpa no rosto. Ele trincou os dentes, a mancha vermelha de seu nariz começando a tomar conta de suas bochechas. Então Thierry deu meia volta e sentou.

O homem o fuzilou com os olhos por alguns segundos, então respirou fundo três vezes e mandou que todos abrissem o livro de álgebra no capítulo de inequações logarítmicas. Érick até tentou prestar atenção nas explicações que o mais velho dava, ou nos gráficos que ele fazia questão de desenhar no quadro, mas não conseguia deixar de pensar no súbito interesse do amigo em Adrien. O que também não fazia o mínimo sentido, afinal, não era da sua conta.

Esses pensamentos permearam sua mente durante toda a aula, até que o sinal retumbasse em seus ouvidos mais uma vez. Até mesmo o professor pareceu indignado, já que estava no meio de um sermão sobre jovens inúteis e sem educação que insistiam em brincar com o celular no meio de suas aulas.

— Esperem! Um momento. – O mais velho exigiu, assim que algumas pessoas começaram a se levantar. – A professora Curie pediu para avisar que a sua aula prática de hoje será cancelada devido ao suposto acidente que vocês causaram no laboratório. Então, por hoje, estão dispensados.

No fundo da sala, alguns alunos comemoraram, enquanto outros tentaram conter o riso. A professora Curie ganharia facilmente uma competição de funcionário mais querido da escola. Então quando ela acidentalmente derrubou um pacote de balas num tubo repleto de cloreto de potássio, explodindo vários equipamentos de vidro do laboratório, não foi tão difícil assumir a culpa em seu lugar.

— Érick. – Louis já estava de pé. Sua bolsa pendia sobre um de seus ombros. Um bando de garotos passou correndo por trás dele, como uma manada de elefantes fugindo de um predador. – Preciso passar em casa e pegar algumas coisas para o treino de hoje. Vai almoçar por aqui?

— Sim. Não quero voltar lá em casa nem tão cedo. E também tenho que apresentar a escola para o Adri... ei! Cadê ele?

Os olhos de Érick varreram a sala em busca do albino, mas ele parecia já ter saído.

— Ele acabou de sair com o Thierry. – Louis deu de ombros. Não parecia muito preocupado. – Acho que ele se interessou pelo novato.

Como se sentisse que o assunto da conversa era ele, Adrien atravessou a porta da sala de aula, agora quase completamente vazia. Nas suas mãos tinha um pequeno pedaço de papel amassado, com alguns números riscados, que ele rapidamente fez questão de enfiar em um dos bolsos de seu casaco absurdamente grande. Mas não rápido o suficiente para que Louis e Érick não percebessem do que se tratava.

Um número de celular. O número de Thierry.

Louis tentou conter a risada, mas não deixou de revirar os olhos. Thierry Renault definitivamente não deixava uma oportunidade passar. Érick sabia disso. Sabia da orientação sexual do amigo, aliás, o colégio todo sabia. Nunca fora nenhum problema.

Mas... por que ele sentia que o amigo o havia deixado para trás?

— Vamos, Adrien. – Erick forçou um sorriso no rosto enquanto Louis cruzava a saída, logo depois de se despedir. – Vamos iniciar nosso tour!

Notas finais
E então?
Este é o último capítulo disponível... por enquanto! A história ainda não acabou.