Notas iniciais
Ninguém? Ok... :(

Quando acordamos, nosso primeiro sentido a retornar é o tato. E quando acordou, ainda sem ouvir um ruído sequer, não ousou abrir os olhos. Tateou meramente a cama ao redor de si, encontrando finalmente a parede de músculos que prontamente o envolveu no calor dos braços.

Suspirou, aconchegou-se nos braços quentes que emanavam um perfume almiscarado e finalmente, permitiu-se ouvir atentamente o som da respiração que ousava fazer pequenos arrepios transpassarem seu esguio corpo.

Ainda sem abrir os olhos, imaginou como o dia estaria fora daquele escuro que era seu quarto. Suspirou pesadamente ao constatar que o dono aqueles braços firmes e quentes, voltara para o mundo dos sonhos. Restava agora aguardar a sensação de inércia que impedia seu corpo de se mover, desaparecer, para assim, iniciar seu dia de folga.

Por fim, adormeceu de novo. Sonhou com mais um dos seus dias perfeitos. Sonhou com o sorriso que o fazia suspirar. Sonhou com os latidos dos cachorros que eram quase da família. Sonhou com o jantar em família, em que sua mãe apenas sorria pra si, recatada por estar entre dois amantes da medicina. Sonhou com o espelho, que refletia o seu mais glorioso olhar, embevecido e ainda indomável. Quando, finalmente, acordou com o suspiro quente em sua orelha, sorrio abertamente, acalentando seu corpo com o corpo do outro.

Suas manhãs de folga eram sempre as mesmas, clichês, porém, o moreno querubim finalmente aprendeu que o clichê é realmente muito bom. Muito melhor do que sair do calor do corpo, apenas para sair da rotina.

Gostava de observar a respiração do dono dos braços mais bem-feitos do país – em sua opinião, é claro. Gostava também, de quanto o seu níveo o olhava com os olhos brilhantes e franzia a testa, sinal de que estava o contemplando.

Sentindo as mãos grandes e macias passarem por suas costas, lembrou, num relance, do tempo em que não o tinha. Do tempo que sua vida era quase amargura.

Aquele tempo que só pedia aos céus por um sinal, por uma mera luz... e então, esse tempo pareceu distante. Tão distante, que sentiu a sensação de devajú.

Parecia que fora tudo em outra vida. Uma vida fria, amargurada, triste e de poucos sorrisos. Uma vida completamente diferente da vida que vivia.

É tudo uma questão de momento, não de tempo. O não passa, como dizem. Quem passa, somos nós...

E o querubim passou. Passou toda aquela insegurança e tristeza, deixando todos os negativos em sua vida num latão de lixo.

Lembrava perfeitamente do momento em que conheceu seu despertar. Parecia que uma luz ultrapassou o céu coberto por estrelas, no instante em que seus olhos avelã fixaram aqueles olhos cinzas benevolentes.

Era madrugada, estava frio. O ar quente saia por sua boca aveludada, não tendo contraste com as névoas que limitavam sua visão. Fechou os braços em torno de si mesmo, abraçando e esquentando seu tórax, enquanto fechava ligeiramente os olhos, que ardiam. Num instante, estava quente, no minuto seguinte, sentiu um suspiro frio e lento ultrapassar o cachecol, chocando-se com a pele quente e morena. Antes de abrir os olhos, apreciou o arrepio que ultrapassava seu corpo, desde os joelhos, que por um instante quase cederam, até a nuca, que tinha todos os pelos eriçados.

Tomou coragem e abriu os olhos, não esperando ver um arcanjo. O maroto querubim sorriu, pedindo mil perdões por ser tão distraído...

E aconteceu o feitiço dos céus.

O maroto querubim apenas sorria, vendo os olhos cinzas se tornarem duas luas novas. E foi naquele momento, na madrugada fria de fim de inverno, que se acharam.

O querubim finalmente achou a metade da lua que minguava dentro de si. E o benevolente arcanjo achou o primeiro e único.

Acharam-se e completaram-se, num puro e repentino amor.

Amor! Finalmente, amor! Seja bem-vindo, seja o mais intenso.

No frio da madrugada, depois que se completaram, fizeram o tempo parar. E o tempo fez acontecer, fez tudo no mais puro e breve existir.

E ainda eu, como uma mera e inocente expectadora, observei os céus romperem num furtivo sorriso. Os céus sorriam e abençoavam o querubim e o arcanjo que, num momento qualquer, sentiram o mesmo arrepio. Num momento qualquer, povoaram um a mente do outro.

Num momento qualquer, a vida se acertou, o coração finalmente bateu, e a alma... ah, alma! A alma do querubim, enfim, soube o que era sorrir.

Notas finais
É com orgulho - mesmo sem nenhum comentário -, que termino de postar Despertar!
Você chegou ao fim do livro. Parabéns!