Despertar
1 I
Notas iniciais
Nunca fui testemunha de mistério algum. Esse foi o principal motivo para que eu deixasse de acreditar em qualquer força maior que governasse esse Universo sem fim. Assim, precisei me apegar na ciência e em sua lógica e suas teorias para trazer algum sentido para a minha vida. E sempre deu certo, sempre tudo foi incrivelmente lógico, até quatro horas atrás.
Bom, primeiramente devo me apresentar, seria deselegante se não o fizesse. Sou Peter Davis, um médico intensivista que pensou ter visto de tudo, até... bem, vocês verão. Nasci na belíssima cidade do Rio de Janeiro e muito cedo os meus pais me trouxeram para Dublin para que eu crescesse próximo de minha família paterna.
Mas, bem, essa história não é realmente minha, é sobre essa outra história que cruzou com a minha. E tudo começou há algumas horas, quando recebi um chamado para atender uma família que se envolveu em um acidente de carro. Havia cinco pessoas no veículo, mas somente um garoto de aproximadamente dezoito anos sobreviveu. Infelizmente, casos assim eram comuns, mas era impossível não sentir aquele aperto no peito característico de uma perda toda as vezes que recebia notícias assim.
Corri por todo o hospital e durante o caminho fui bipando para os enfermeiros e enfermeiras que eu mais confiava, pois havia sido informado de que o caso era grave. Cheguei na sala imaculadamente branca do setor intensivo e pedi que trouxessem o menino enquanto eu me preparava para fazer o que tivesse que ser feito para salvar a vida daquele garoto.
Ele chegou e a minha garganta se fechou por alguns segundos. Era doloroso ver alguém tão jovem e tão ferido, lembrava-me de anjos caídos.
Chequei seu corpo e o diagnóstico foi assustador: traumatismo craniano, hemorragia interna e diversos ossos quebrados. Aquele garoto era um lutador por ainda estar vivo. E eu e minha equipe, fizemos a nossa parte para que ele pudesse continuar lutando. Colocamos toda nossa alma para salvá-lo durante horas, contudo, seu coração não resistiu, e quando seus batimentos cessaram, toda equipe suspirou de cansaço e de tristeza, uma vez que era inútil tentar reanimá-lo por causa de seu estado tão frágil.
Procurei o chuveiro mais próximo e deixei que a água quente escorresse por todo o meu rosto e levasse as minhas lágrimas consigo. Há anos eu estava nessa área, mas era inevitável o sentimento de fracasso, mesmo em casos como esse, os quais necessitariam algum tipo de milagre para que fossem contornados. Eu fui um tolo ao pensar que ao longo dos anos esse sentimento fosse embora.
Vesti-me e resolvi dar uma última passada no quarto, antes de ir embora, para olhar mais uma vez para aquele garoto que agora não teria ninguém para chorar por ele. O Universo tem formas muito peculiares de evitar que um coração seja partido, pensei. Porém, ao chegar lá, não havia nenhum corpo na maca, e supus que já teriam levado ele para o necrotério. E então, quando me virei para ir embora, me deparei com um par de olhos verdes gigantes e escancarados, apesar de um cansaço aparente. Dei três passos para trás, derrubando alguns equipamentos e fazendo um estardalhaço.
—Mas, mas, mas... Como? Quando? — Disse eu, com o coração em uma corrida desenfreada, como se quisesse fugir do meu peito e ficar escondido em qualquer outro lugar.
— Do que você está falando? Eu acabei de nascer.
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