Despertar
1 O Despertar
Notas iniciais
Abrir os olhos é o primeiro reflexo do corpo humano ao se ter um pesadelo. Os cientistas explicam que a carga de emoções negativas faz o sistema nervoso autonômico pensar que o fato em questão no sonho está acontecendo de verdade, então você abre os olhos para se livrar de tais emoções.
Não foi o que aconteceu naquele momento.
Eu sonhei que tinha morrido, mas ao contrário do que vocês possam pensar, este não foi o pesadelo. Morrer era tranquilo, era pacífico... eu podia sentir a vida lentamente abandonando meu corpo enfraquecido, deixando toda a dor para trás e isso era tão bom... eu via a luz — aquela que todos dizem que vemos ao deixar a vida -, eu via um anjo de cabelos louros e olhos azuis e me sentia pronta. Mas eu não morri. O anjo falava comigo no sonho e dizia que tinha vindo responder ao meu chamado e que eu voltaria à vida. Foi então que eu comecei a me desesperar. Não, não, não, eu não quero voltar, não quero mais sentir dor, ver meu corpo magro e frágil lutar contra a morte, me deixe morrer em paz, por favor... uma confusão de imagens tomou meu cérebro: sangue, presas, um túmulo com meu nome, minha família aos prantos, chuva, o anjo voltando para me tirar de baixo da terra. Escuridão. Se eu tivesse que dar uma definição ao nada, aquela escuridão em que eu me encontrava estaria bem próxima. Mas ainda assim eu não abri os olhos; tinha medo do que eu iria encontrar se o fizesse. Então eu apenas permaneci ali, flutuando naquela escuridão, ouvindo os sons dos insetos, do vento que de vez em quando corria, perdida entre a consciência e a inconsciência. Eu me sentia tão fraca... Fiquei imaginando o que veria ao abrir os olhos. Estaria eu ainda na UTI? Como aquilo tudo se desenvolveu rápido... do diagnóstico até o presente momento foram apenas quatro meses... começou com uns pequenos sangramentos no nariz, uns hematomas misteriosos pelo corpo, perda de peso... eu não dei muita importância a isso, sempre fui muito desastrada e estava constantemente esbarrando nos móveis da casa, então sempre atribuí a isso as manchas arroxeadas. Mas quando a dor começou eu não consegui mais ignorar. Um batalhão de exames se seguiu: hemogramas, ultrassonografias, raios-x e a dolorida punção medular. Incontáveis possibilidades, algumas repetições nos exames e, no final, uma única palavra, seis letras que selaram meu destino: câncer. Leucemia mieloide aguda. Um dos mais agressivos que existe, já em fase avançada, sem tratamento, sem cura. "Nós vamos fazer um tratamento quimioterápico para você poder ter mais alguns meses, mas infelizmente não podemos curá-la". E naquela sala branca e fria da doutora toda a minha vida passou como um filme — por mais cliché que possa soar — pela minha mente, o quanto eu desperdicei momentos preciosos porque estava focada demais em estudar e trabalhar, porque eu queria provar para todo mundo que eu não seria mais uma das adolescentes grávidas e sem futuro que havia em meu bairro, porque eu queria sair de lá como uma pessoa bem sucedida. E eu consegui, eu provei a todos, eu me formei com honras em uma das melhores universidades do país, saindo de lá diretamente para um cargo em uma empresa multinacional. Todas as noites em claro estudando, todas as refeições puladas para ter mais tempo para estudar, todas as saídas com amigos rejeitadas valeram a pena: eu havia conseguido meu propósito. Mas uma coisa puxa outra e logo eu estava atrás de uma promoção. Foram meses de muito trabalho, horas-extras e estresse que culminaram em uma mudança de cargo. Eu havia conseguido novamente e alguns meses depois, conseguiria de novo. Entretanto, todos estes pequenos sacrifícios acabaram me tornando uma pessoa solitária, fria... e ao me aproximar dos trinta anos, eu comecei a questionar minhas decisões e o rumo que eu estava querendo dar à minha vida. Não queria passar por esta existência sem deixar minha marca, sem ter tido certas experiências ainda inéditas, então eu andava todas as noites pela cidade, buscando o que faltava, me perguntando o que era, onde estava, chamando algo ou alguém que eu não sabia o que ou quem era. Era como ver um vulto com o canto do olho e, quando você olha diretamente, ele não está mais lá: eu sabia o que queria, mas não conseguia enxergar o desejo tornando-se realidade.
Porém nada daquilo importava mais, o câncer destruíra meu futuro e logo eu seria apenas uma lembrança. E depois de um tempo nem isso eu seria mais.
O ser humano está fadado ao esquecimento.
Quase imediatamente após meu diagnóstico, seguiram-se as sessões de quimioterapia e o que eu posso dizer sobre isso é que os filmes estão todos certos. A náusea é intensa, quase incapacitante, você "bota tudo pra fora" e só quer morrer para não ter que passar por aquilo novamente. E aí vem a queda de todo o seu cabelo, o golpe mais forte em sua vaidade... e tudo isso para ganhar mais uns poucos meses pisando sobre a Terra. Eu ia ficar horrível no meu funeral.
Eu me sentia miserável a maior parte do tempo, nauseada, dolorida, sem forças para lutar contra aquela coisa que se desenvolvia em mim, entretanto o que mais me perturbava eram as coisas que eu deixaria para trás: meus sonhos, meu trabalho, meus amigos, minha família. Eu nunca havia me apaixonado e nunca iria. Meu coração estava dilacerado... eu passaria por esta existência sem saber o que era amor e esse vazio era insuportável.
Assim, em uma determinada noite, esse mesmo coração não suportou e parou de bater. Eu recebi os primeiros-socorros na ambulância, mas precisei ir direto para a UTI por conta de minha doença e do estado alquebrado em que me encontrava.
Ali, presa a diversos fios acoplados às máquinas que me mantinham viva, eu lutei por alguns dias. Minha consciência ora mergulhava no nada, ora emergia, completamente desorientada, mas eu sentia todas aquelas agulhas e tubos enfiados em minha carne. Nos dias em que eu estava consciente, eu chamava... não sei quem, não sei porquê, mas usava todo o meu precioso tempo para chamar. Até que um dia, o bipe do monitor cardíaco soou continuamente e eu afundei na inconsciência que precede a morte.
Eu pensava em todas essas coisas deitada ali na escuridão, aterrorizada demais para abrir os olhos e encarar seja lá o que estivesse esperando por mim do outro lado de minhas pálpebras. Eu havia morrido na UTI? Mas eu não me sentia morta... quer dizer, eu não sabia como era estar morta, mas eu respirava, eu sentia o sangue correr pelas minhas veias, eu pensava, sentia sede. Às vezes minha garganta queimava por causa dela e eu me agitava querendo acordar, mas o anjo louro vinha, me dava de beber e a sede passava. Eu devia estar ainda muito debilitada para continuar com esses delírios, afinal anjos não existem... mas a medida que o tempo passava, eu me sentia mais forte e lúcida e o medo de abrir os olhos estava começando a dar lugar para a curiosidade. Eu conseguia ouvir os ruídos mais insignificantes: uma aranha tecendo sua teia, formigas andando apressadas em direção à suas casas, uma mosca protestando ao ser pega por seu predador, o crepitar do fogo em diversos pontos daquele local. E passos. Passos tão leves que nem pareciam humanos. E eles aproximavam-se. Eu não sei como, mas sabia que um par de olhos me observava atentamente e eu ouvia a voz de seu dono em minha mente, encorajando-me a levantar. Meu corpo começou a se agitar, como em resposta àquela presença, àquela voz que pedia "acorde, acorde, minha criança, você está pronta".
Meus olhos se abriram por completo, como se aquela frase tivesse algum poder sobre eles e só então eu comecei a ter consciência de mim, de que eu estava viva e que tinha um corpo forte e saudável novamente. Ergui as mãos e elas não mais estavam ossudas, toquei meu rosto e senti que o formato original havia retornado, o mesmo de antes de começar a quimioterapia, não estava mais inchado pelos corticoides, nem tinha os lábios ressecados. E eu tinha cabelo novamente! Corri meus dedos pelas ondas soltas que caíam pelos meus ombros, puxando uma mexa para me certificar de que aquele cabelo estava mesmo nascendo de minha cabeça e não pude deixar de sorrir ao confirmar.
Eu me ergui de meu leito com uma facilidade absurda e olhei ao redor com a curiosidade de um bebê: paredes de pedra escura, algumas velas acesas em bancos de pedra, o teto alto... e eu estava sentada em uma espécie de sarcófago? Em um dos cantos escuros do aposento, eu sentia os olhos dele em mim.
– Isto não é o hospital — eu deixei escapar.
– Boa percepção — ele respondeu, com um toque de sarcasmo na voz.
– Estou morta?
– Não posso dizer que não.
Eu inclinei a cabeça para o lado um pouco confusa com aquela resposta e comecei a me lembrar dos sonhos sobre a morte no hospital, o enterro e toda a profusão de imagens que meu cérebro gerava para tentar entender, racionalizar aquele momento e meu companheiro misterioso devolveu outras imagens. Mais ricas, mais nítidas. Como se ele houvesse estado lá. E havia. Eu vi meu corpo inerte na cama do hospital. Os médicos haviam declarado a minha morte, mas ainda corria um fio de vida por aquele corpo. Assim, ele se aproximou, encostando sua boca em meu pescoço e, perfurando-o, bebeu de meu sangue como se estivesse me purificando para receber seu sangue antigo e poderoso. E eu bebi sofregamente, me agarrando a ele e mudando para sempre minha sorte. Eu ainda me sentia fraca e grogue, mas entendi quando ele ordenou que eu ficasse imóvel, que ele me buscaria após o enterro. E eu assenti, sim, o que você desejar.
Como prometido, ele voltou na noite do meu enterro e me levou à sua casa, me alimentando ora com seu próprio sangue imortal, ora com alguma vítima especialmente escolhida para mim. E assim passaram algumas semanas e eu me recuperava a olhos vistos.
Eu olhei em sua direção, agradecendo mentalmente pelas imagens e por ter feito tudo aquilo por mim e então ele se aproximou de meu sarcófago, a luz das velas revelando aos poucos sua imagem: cabelos louros, olhos azuis um tanto cruéis, um meio-sorriso travesso, o andar como de um felino pronto para atacar. Mas eu não tinha medo, só admiração e interesse. Ele era o anjo dos meus sonhos, mas não havia nada de angelical nele. Ele tomou minhas mãos nas suas e me ajudou a ficar de pé, os brilhantes olhos jamais desviando dos meus.
– Mas quem é você? — eu sussurrei.
Ele sorriu, deixando seus caninos proeminentes aparecerem.
– Eu sou aquele por quem você chamou durante anos, seu destino final. Sou o demônio que roubou sua alma e te trouxe para a vida escura. Eu sou o vampiro Lesdéfier.
FIM.
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