Despertados
1 Chekov
─ Está em repouso e sob observação há dois dias ─ disse uma voz abstrata ao longe. A fala veio seguida de passos amolados e ficava mais alta com sua aproximação.
─ Ele ficará bem? ─ indagou uma segunda voz, esta delicada e suave, como se estivesse ao lado do coitado nos dias que ficara paralisado em sua maca. ─ Este tipo de coisa... Nunca acontecera antes ─ argumentou a voz.
De fato, o acontecimento era inédito naquele colégio.
Era uma segunda-feira nublada, como se um novo ciclo em sua vida tivesse terminado e outro começado. Despedira-se dos pais na Estação Luminosa, estes que não ficaram muito arrasados com sua partida, como é o caso de muitos. Ao contrário destes, eles o entendiam. O filho acabara de provar o que antigos livros já constatavam: “[...] Herdará parte de seu poder o unigênito dos Despertados.”.
Deu um último abraço, por fim, em sua mãe, e sentira o aroma do perfume do campo cravado à sua pele. Não estava triste, pelo contrário, muito ansioso pelo encontro de novas pessoas e de uma nova educação. Um novo estilo de vida. Já tinha tudo estruturado em sua mente e previu o que aconteceria até pisar os pés sob o piso férreo do trem. Era isso o que fazia: adivinhar as coisas, ver com antecipação. Um nobre dom herdado de seus pais, que não o utilizavam com frequência. Tinham aprendido a controlá-lo, e era para isso que Chekov estava partindo. Para O Controle.
Alguns de seus vizinhos, moradores de casas e casebres que se estendiam ao lado da grande casa dos Chekov, clamaram por boa sorte. Chamavam-no de “Anton Chekov, O Menino Sonhador”, pois surpreendia na criatividade e argumentação em debates políticos e no auxílio na criação de ferramentas de marcenaria no trabalho dos tios; outros, o praguejaram. O amaldiçoaram e denominava “aberração” aquilo que achavam ser “A Possessão do Mal” no corpo do menino. Eram grandes nobres a serviço da Igreja local e não escondiam o desprezo pela família. Em resposta, não se deixavam abalar e ignoravam total a existência daqueles que achavam ser pobres seres buscando a razão da Vida.
Olhou de relance para o rosto de realização dos seus pais e quis gravar aquela imagem na sua memória. Os ventos do norte sopraram seu cabelo curto definhado e aquilo lhe deu impulso para embarcar. Seus braços magros e pálidos agarraram o gancho da porta do trem, e finalmente saltou em direção ao chão do vagão.
Sentiu o ar quente invadir seu corpo e suas bochechas coraram. Não havia muitas pessoas embarcadas. Meia dúzia foi o que aos olhos captaram. Não se importou muito com isso e fez questão de se sentar no último assento da última fileira, junto à janela, para que durante a viagem pudesse apreciar a paisagem, e teria certeza de que era a última coisa que veria antes de se internar por três anos.
Após aproximadamente duas horas de viagem e já cochilando com a cabeça encostada na janela, O Menino Sonhador sentiu um pequeno desconforto com o balançar do trem. Ao abrir os olhos, a paisagem que assistia já não mudara, estava monótona como antes: vastos campos cobertos por gramado simples e colinas que se erguiam até atingir uma pequena névoa, que fazia com que não visse nada além.
Passaram-se frações de segundo e o balbucio do trem nos trilhos não parou. Muito pelo contrário, aumentava cada vez mais e uma pequena preocupação já gotejava na mente do menino. A tremedeira fez alguns livros e malas cair sob o chão do vagão e não hesitou em pegá-los; ainda tinha o equilíbrio diante da situação. Ao voltar para o assento, olhou de relance para a janela e teve um enorme pavor. A paisagem sumira, o campo deixou de existir e o verde foi tomado pela escuridão fria fazendo com que o topo do vidro trincasse.
Um zumbido atordoante veio à mente do garoto, que tapou seus ouvidos como estímulo natural de defesa. O ruído não parou e isso serviu de pretexto para uma série de eventos desconhecidos que se tomaria início.
Primeiramente, ouviu-se um estrondo vindo do último vagão, e mesmo que estivesse no primeiro, nem a chaminé do trem abafaria o som. Sentiu que havia sido descarrilhado e pôde ter a sensação de que o vagão foi lançado no ar. Não demorou muito e no segundo, a mesma coisa. O próximo era o seu, e teve um comportamento anormal de sua personalidade: entrou em pânico. Sua visão escureceu e começou a ficar desnorteado, o grito dos passageiros próximos não eram compreendidos. Teve náuseas, sentiu uma coceira nas narinas e após isso, sangue sob seus lábios que foram escorregando até o peito. A boca estava adormecida. Salivava e espumava sem parar.
A única frase que foi possível ser compreendida veio ao fundo, e esta dizia:“Ele está tendo uma convulsão! Ajudem-no!”.
Não viu mais nada. Só podia sentir. Sentiu-se arremessado no ar e teve a sensação de que estava voando, mas não era uma boa sensação. Teve suas costas bruscamente arrastadas sobre os trilhos e o fez rolar de costas, raspando-lhe as roupas e a pele. Agora já não sentia mais nada: estava inconsciente. Talvez no Mundo dos Sonhos.
Uma forte inspiração encheu-lhe os pulmões e como num choque entre dois mundos, soltara um berro que pôde ser ouvido por toda enfermaria.
─ Acordou! Acordou! O garoto acordou! ─ extravasava uma voz feminina próxima. ─ O garoto acordou!
Aos poucos, o campo de visão de Chekov tomou forma e foi possível ver o local onde estava.
Paredes brancas e suaves, sem sinalizações ou quaisquer tipos de anúncios. Um pequeno armário a uns dois metros de distância de sua cama, contendo antibióticos, vasilhas, pilões, frascos e outros instrumentos de enfermagem e medicina. Ao longo da sala que mais aparentava um vasto corredor, outras camas, porém estas vazias. Talvez à espera de sortudos como ele. No final, uma porta de saída e mais algumas mesas contendo ervas medicinais.
Ao lado, sentada em um banquinho que não chegava à altura da cama, avistava traços femininos de uma meiga garota. Era magricela, com ombros simétricos. O rosto era delineado e encolhido por um longo cabelo negro e uma franja que tapava a testa. Desceu o olhar mais uma vez e chegou à parte que mais chamava atenção: os olhos. Eram de um azul cintilante que penetrava a alma. Calmo como os rios de sua Terra Natal, de uma safira pulsante e lapidada. A boca rosada, fina como uma agulha de tecer e um nariz empinado. Era como uma princesa dos contos que Chekov ouvia. Estava encantado com o charme da garota.
Mesmo que já soubesse o lugar onde estava, não hesitou em perguntar:
─ O que houve? Onde estou? ─ questionou de forma autoritária. ─ Que lugar é este? ─ complementou.
Sob um gracejo e tapando a boca soltando uma risadinha, a garota o respondeu:
─ Oras...“O que houve?”...? Não se lembra de nada? ─ fez uma pequena pausa e prosseguiu ─ Deixe-me lhe adiantar. Você chegou ao Instituto Hüdwin. Consegue se lembrar agora? ─ finalizou com um tom de convencida.
Chekov tentou se explicar, mas foi interrompido pela fala da garota que ainda não tinha terminado.
─ Ora, ora... Peço perdão pelos meus modos. Deixe-me apresentar-te. Meu nome é Ally. E ─ soltou um risinho incontrolável ─ eu sei de tudo. Sim, tudo. Tudo mesmo. Tudinho! ─ este último soou com um tom psicopata.
Mais uma vez, Chekov tentou dizer alguma coisa, mas acabou soluçando e Ally continuou a falar.
─ Nós ficamos assustados com o que houve com você. Fraturou ossos e um pouco da cabeça. Vai se sentir ineficaz por um tempo. É uma pena não gozar dos prazeres que o início do ano letivo oferece aos primeiros anos ─ lamentou.
A voz foi interrompida pela voz de uma das enfermeiras, que vestia cetim branco e um manto de seda muito delicado e aparentava estar em idade avançada:
─ Ally, minha querida. Vai assustar o garoto ─ advertiu. ─ Não acha que é hora de descansar? Está há muito tempo aí. Eu fico muito grata pela sua preocupação com os mais novos, mas agora é tempo de ir.
Madame Cewyn era de uma personalidade muito gentil. Todos a adoravam. Era a mais velha da equipe das enfermeiras e tinha muita experiência, seja ofertando ajuda aos mais necessitados em tempos de guerra, seja em casas de feridos.
─ Despeça-se do garoto. Você precisa ir agora. ─ declarou.
Anuindo com a cabeça e concordando com as palavras da Senhora, Ally se preparou para se retirar.
─ Nos encontramos por aí, Che... Chekov. ─ teve dificuldade em pronunciar o nome estrangeiro do menino. Fez um gesto como se fosse o abraçar, mas lembrou de que estava ferido e que seria esforço demais.“Pobre garoto” pensou.
Trocaram um sorriso e a menina saiu com um semblante feliz junto ao rosto. Após um tempo, depois que Ally cruzou a porta, houve um praguejo da Senhora:
“Garota estúpida.” ─ disse com os lábios secos e retorcidos.
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