Notas iniciais
Olá! Bem-vindx! Você vai notar que está um pouco confuso no começo, mas é pós-novela, então aos poucos você vai entender onde e quando isso tudo vai se passar. - Fê (@criatulra)

Não sei dizer ao certo quando este pesadelo começou. Na verdade, essa situação poderia ser comparada a uma brisa fria de inverno, que preenche a sala por uma fresta na janela e, antes que perceba, o faz tremer da cabeça aos pés. Comigo foi mais ou menos assim, só notei as rachaduras quando não era mais possível consertá-las, e então todas as noites em claro discutindo, ou mesmo aquelas que passáramos fazendo as pazes, tiveram seu sentido desconstruído a minha frente.

De qualquer forma, se tivesse que apontar um momento em que os pilares de nossa relação começaram a corroer, responderia aquele dia em que Niko provara ser uma rainha do drama.

Os momentos seguintes ao falecimento de meu pai ainda formam um grande borrão em minha mente, isso porque mesmo dois anos depois, ainda não tive a capacidade de processá-los. Tudo o que me lembro é de entrar no quarto dele como fazia todas as manhãs e encontrá-lo inerte, os olhos fechados, o peito estático. Dormindo de uma vez por todas.

Não consigo, por exemplo, recordar o que fiz depois. Segundo Niko, ao chegar a casa com as crianças, ele me encontrou sentado ao lado da cama de meu pai, abraçado aos meus joelhos, o olhar vagando pelo vazio. Seu corpo continuava na mesma posição, não me atrevera a tocá-lo, e eu sussurrava palavras incompreensíveis mescladas ao seu nome e a pedidos insistentes de desculpas.

Faltei ao enterro. Meu pai fora um grande homem, apesar de seus erros, e sua morte repentina me fizera remoer. Perdemos quase todo o nosso tempo juntos, só nos restando um ano e meio após o episódio da praia, onde ele admitira sentir por mim algum tipo de afeto. Quando olhava para isso, para tudo o que deixáramos de viver, traçava, involuntariamente, um paralelo com Jonathan. Quantas vezes eu o desprezara, humilhara, e o fizera sentir a mesma dor que me era tão familiar, a rejeição. Aquela avalanche de arrependimentos fizera com que eu me retraísse e passasse incontáveis horas sozinho, até que a voz e as palavras doces de Niko fizeram com que voltasse a me erguer.

O tempo passou, as feriadas começaram a cicatrizar e tudo parecia estar voltando para os eixos. Niko sugerira que nos mudássemos para uma nova casa, mais próxima ao centro da cidade, para que nos afastássemos das lembranças que ainda faziam daquele cenário um trauma a meus olhos. “Nova casa, novas memórias”, eu repetia mentalmente meu mais novo mantra.

Porém foi em uma de nossas primeiras conversas nas cadeiras de madeira da varanda de nossa nova morada que o universo – ou o que quer que coordene as nossas vidas – fez questão de me lembrar de que não estava jogando no meu time.

“Isso vai ser bom para todos nós, principalmente para as crianças” Niko insistia em tentar me consolar, ainda não conseguira convencê-lo de que estava feliz, embora no início tivesse relutado com a mudança “E, também, quando nos casarmos...”

“Casar? Quem aqui falou em casar, criatura?” confesso que minha reação foi um pouco mais ríspida do que o necessário, mas em minha defesa, ele me pegara desprevenido.

“Ai, Félix...” suas mãos saíram de seu colo e alcançaram as minhas do outro lado da mesa “Por que não? Não que eu esteja te pedindo em casamento, mas... Por que não?”

“Niko, nós já somos praticamente casados, moramos juntos e tudo mais... Não tem necessidade” tentei encontrar um bom argumento que fosse surtir algum efeito, porém sabia que não obteria sucesso.

A realidade é que a ideia de compromisso ainda me assustava. Quando as coisas atingiam tal grau de seriedade entre nós, eu procurava me esquivar trocando de assunto. Mesmo sabendo que isso o incomodava, eu não tinha escolha. Quando olhava para o homem que fora há três anos, me sentia acenando para um estranho. Naquele tempo, eu nunca imaginaria ter uma família ao menos durante uma pequena eternidade. Sentia como se tivesse cortado o cordão umbilical comigo mesmo – não da forma que cortara com o vilão, mas de uma forma um tanto precipitada, talvez até ruim. Era uma queda grande demais me perder dentro de mim mesmo.

“Não tem necessidade? Você não casaria comigo, é isso?” agora ele recolhera seus dedos e soltara um riso um tanto sarcástico que encobriu sua voz embargada e gelou meu estômago.

“Para com isso, Carneirinho” com minha melhor expressão de indignação, meu objetivo era fazer com que ele enxergasse o quão tolo estava soando.

E então o que veio fez com que eu quisesse puxar cada um daqueles cachinhos loiros. Niko discorrera sobre a época em que ele fora o único a estar ao meu lado. Quando todos me viraram as costas, quando tudo desabou, ele estava lá. E ele abriu sua família para mim, além de me entregar seu coração quase que em uma bandeja. Ele jogaria tão baixo a ponto de me chantagear? Por favor. “Eu pensei que nós fossemos para sempre.”

E sim, nós éramos e justamente por termos nas mãos o infinito, qual era o objetivo em nos apressar?

Nada do que eu disse o dissuadiu. Se levantando, ele foi para o quarto e me deixou encarando o assento vazio, antes de direcionar minha atenção para as imagens que pareciam se formar em meu copo de café.

Ao contrário de mim, Niko não era de se trancar em cômodos. Pior, ele se fechava dentro de si. Foram dois dias sem sequer nos cumprimentarmos, cada um em seu canto da cama. Por mais que ele tentasse disfarçar, eu conseguia ouvir sua respiração acelerada e ver seus ombros balançando quando ele chorava durante a madrugada. E eu só podia esperar que ele não notasse quando era eu quem derramava algumas lágrimas.

É fato que acabamos nos resolvendo. Beijos apaixonados, segundas e terceiras intenções a parte, nunca chegamos a resolver o assunto. Eu sabia que, por isso, aquela discussão ainda renderia muito. Só não tinha noção de que tamanha bola de neve estava prestes a se formar.

“Alô? Edith?” mordisquei o lábio inferior enquanto esperava a resposta do outro lado da linha “Edith, preciso da sua ajuda. Preciso de um lugar para passar a noite.”

Notas finais
Obrigada por ler! Se possível, deixe uma review com sugestões, teorias, críticas, elogios, ou só um oi mesmo. O importante é marcar presença. - Fê (@criatulra)