Notas iniciais
O capítulo bônus, hahaha.
O foco desse bônus é: o Luke, como ele conheceu a Annabeth e o começo do relacionamento da Rachel com a Reyna. Ah, e tenham em mente que as duas "histórias" não se passam ao mesmo tempo: a narrativa da Rachel acontece alguns meses antes de "Posso te pagar um sorvete?" e a do Luke, vários anos antes.
Espero que gostem!

Luke não tinha culpa. Tinha?

O dr. Seja-lá-qual-fosse-o-nome afirmava que não, mas ele tinha dificuldades em acreditar. Relacionamentos são complicados, Luke, ele dizia, naquela voz macia e bem-ensaiada, enquanto apertava incessantemente o botão de sua estúpida caneta e rabiscava algo na prancheta. Ele usava roupas bonitas, impecáveis sem amassados e sapatos perfeitamente lustrados. Luke ia às sessões em bermudas velhas e camisetas que lhe eram grandes ou pequenas demais — porque May nunca parecia ser capaz de lembrar-se da idade certa do filho.

Luke acenava, concordava e murmurava. Não apenas no consultório. As crianças de sua escola fundamental tratavam-no normalmente — até que alguém mencionasse a palavra “família” e os cochichos começassem. Era como uma fagulha, e apagar a fogueira depois demandava dos professores responsáveis uma dedicação e energia que eles muitas vezes não possuíam.

Luke, qual a profissão do seu pai?

Ele engolia em seco, gaguejava, os olhos procurando alguma — qualquer — rota de fuga.

Ei, shh, não fala isso. O Luke não tem pai.

Como assim não tem? Todo mundo...

Luke desenvolvera a impressionante habilidade de bloquear completamente comentários desagradáveis. Ao menos, fingia que o fazia. Ele ouvia, mastigava e então cuspia tudo em acessos de raiva que o deixavam com os punhos vermelhos e o coração palpitante. May nunca os escutava — chapada ou bêbada demais, ele nunca era capaz de discernir.

Não surpreendentemente, Luke fez algumas decisões erradas.

[...]

A primeira vez que a Rachel a avistou, ela não ficou impressionada. Reyna era basicamente o que Percy seria se ele fosse uma garota (Rachel ainda não sabia o quão horrivelmente enganada ela estava com essa suposição): impressionante, atlética, ridiculamente atrativa e com um ar de superioridade arrogância que ela provavelmente sequer percebia em si mesma. E Rachel achava que um Percy em sua vida era o suficiente.

Ela estava jogando beisebol com Jason, o amigo alto e loiro de Percy, no gramado, durante o intervalo de almoço, enquanto Rachel comia seu sanduíche nada saudável na arquibancada. Jason arremessou uma bola com tanta força que a garota arregalou os olhos: se aquilo acertasse a batedora, provavelmente...

Não houve “provavelmente”, porque a tal batedora rebateu o arremesso com tamanha destreza e força que a bola saiu voando para fora do gramado.

— Ei — uma voz conhecida surgiu ao seu lado, e só então Rachel desviou o olhar. — O que você está fazendo?

— Te esperando — ela respondeu, não particularmente entusiástica. — Por que demorou tanto?

Percy fez uma careta.

— Meu professor de botânica.

— O cara dos mocassins cor-de-rosa?

— Esse mesmo — Percy jogou a mochila no assento debaixo e caiu sentado ao lado dela.

Eles trocaram um olhar.

— Idiota — concordaram, em uníssono.

Quando Jason e a outra garota julgaram já terem entretido os telespectadores de sua pequena demonstração de agilidade e força atlética o suficiente, eles caminharam arquibancada acima: exatamente no mesmo momento em que a namorada de Jason, Piper, chegou. Eles cumprimentaram-se com um beijo breve, e Jason bateu o punho fechado no de Percy — após acenar educadamente para Rachel.

Jason era sempre tão agradável e educado, que era consideravelmente difícil acreditar que ele era irmão de Thalia Grace.

A vida era simplesmente estranha, Rachel concluiu.

— Ah, Rachel — ele pareceu lembrar-se de algo. Gesticulou para a garota parada ao lado dele rapidamente. — Essa é Reyna. Ela é muito amiga do Nico, e faz Direito também. Reyna, essa é a Rachel, melhor amiga do Percy.

Reyna estendeu uma mão — surpreendentemente livre de suor — e cumprimentou-a cordialmente, quase de forma robótica. Ela tinha um cabelo preto incrivelmente liso e bonito, e um sorriso de dar inveja, mas, ainda assim, Rachel recusou-se a achar qualquer coisa impressionante nela. Ela havia resistido à Percy Jackson, Luke Castellan e Jason Grace — não era qualquer bonitão (ou, nesse caso, bonitona) atlético que a faria perder o fôlego.

Piper puxou Reyna pelo braço e elas começaram a conversar animadamente, ao passo que Jason desceu, para encher a própria garrafa térmica de água no bebedouro. Rachel voltou sua atenção para Percy.

[...]

— Dr. Chase?

Luke contorceu o rosto. A voz do policial era fria, calculada, e soava quase exatamente como a do psicólogo que ele despistara com desculpas esfarrapadas e números trocados tantos anos atrás. Ele estava com os olhos fechados quando um segundo par de pés fez barulho no assoalho da delegacia.

— É ele?

— Sim, doutor. Nós o encontramos tentando pular a cerca de proteção — veio a informação, robótica, e Luke soube que ele estava lendo de algum lugar. — Pela ficha dele, não parece que é a primeira vez que é pego tentando furtar uma residência.

O homem murmurou alguma coisa que Luke não compreendeu. Então:

— Rapaz? Qual o seu nome?

— O delinquente se chama Lu... —

— Com todo o respeito, oficial — o homem o interrompeu. — Eu perguntei dele.

Luke ficou em silêncio por um longo momento, e ninguém mais disse nada. Por um instante, achou que o homem fosse simplesmente prestar queixa e deixa-lo lá para apodrecer, mas:

— Eu me chamo Frederick — disse. — Frederick Chase. Sou doutor em história pela faculdade de Harvard.

Quando enfim abriu os olhos, Luke viu, de onde estava sentado na cadeira e algemado, que o homem havia se abaixado de modo a olhá-lo na altura dos olhos. Era um homem simpático, de cabelo loiro enrolado e pele clara, e usava um anel de ouro brilhante em uma das mãos. O tuxedo e calças marrons o deixavam ao mesmo tempo engraçado e ridículo.

— Luke. Eu me chamo Luke.

Frederick Chase sorriu. Ele pousou uma mão amigavelmente em um dos ombros dele:

— É um prazer conhece-lo, Luke.

[...]

Evitar Reyna era ridiculamente difícil.

Os prédios delas sequer ficavam próximos, então por que, Rachel perguntou-se, ela continuava vendo a garota em todos os lugares daquela faculdade?

— Meu irmão e alguns amigos dele estão em casa — Hazel a avisou, enquanto o elevador subia até o andar onde ficava o apartamento dela. — Espero que não tenha problema.

Rachel reposicionou o colossal bloco de desenho que carregava nos braços e sorriu, balançando a cabeça. Hazel era de fato a pessoa mais adorável daquela faculdade. O primeiro período havia apenas acabado de começar, mas Rachel já sabia que queria ser amiga da garota pelo resto do curso. Sem mencionar que Hazel tinha um talento assombroso com paletas de cores.

— Está tudo bem — ela garantiu. — Ao menos, é melhor do que na minha casa. Nunca tem ninguém lá além dos empregados. Não que eles sejam pessoas ruins, mas não é a mesma coisa que uma família, sabe?

Hazel assentiu, parecendo compreender. Rachel, por um breve momento, perguntou-se como era a situação da família dela — apesar de estarem caminhando para a casa na qual vivia, Hazel em nenhum momento mencionara um pai ou uma mãe, apenas o irmão, algumas vezes.

Rachel sabia que famílias eram coisas complicadas. Percy, por exemplo, vivia com a mãe e o padrasto Paul — que era um cara incrível, aliás — e muito raramente via o pai e o meio-irmão Tyson, porém, mantinham uma relação amigável.

Elas caminharam por um largo corredor até alcançarem a porta do apartamento de Hazel. Assim que Rachel a seguiu para dentro do aposento, deu de cara com alguns rostos familiares: Jason e, para a surpresa de Rachel, Percy, estavam sentados no sofá, com controles de videogame nas mãos, enquanto Nico, deitado no chão, tinha a cabeça repousada no colo de um garoto loiro, enquanto suas pernas estavam esticadas por cima das pernas de uma garota.... —

... Reyna.

— Rach? — Percy ergueu as sobrancelhas. — O que faz aqui?

— Nós vamos trabalhar em um projeto. — Hazel explicou. — Reyna, Nico, podem pedir para os rapazes não fazerem barulho?

Enquanto andavam em direção ao estúdio de arte de Hazel — Rachel evitou comentar sobre o fato de que a garota tinha um estúdio em casa —, no entanto, ela viu que Reyna a seguia com os olhos.

[...]

Frederick mencionou um possível agendamento com um novo psicólogo, mas não o forçou a nada e Luke aos poucos descobriu que realmente gostava do cara estranho que vestia suéteres de lã. Após uma avalição médica, foi decidido que May Castellan não tinha condições, de fato, de cuidar do filho.

Luke tentou não chorar muito. Frederick Chase arcou com todas as contas do hospital, e levou regularmente para visitar a mãe, até que Luke tivesse certeza que ele não estava sendo, de modo algum, separado ou proibido de vê-la.

Pediram a opinião dele. Luke sentiu-se bem pela primeira vez no que parecia uma eternidade. Entre ser emancipado ou adotado pela família Chase, ele optou pela primeira opção.

As primeiras semanas foram difíceis. Após uma tentativa de abafar os próprios soluços em um travesseiro, Luke ouviu batidas leves na porta. Era a filha de Frederick, a garota do cabelo loiro enrolado com quem Luke não falava muito.

— Vai ficar tudo bem — ela disse, sentando ao lado dele na cama.

Por algum motivo, Luke se deu ao trabalho de perguntar:

— Como você pode saber disso?

— Minha mãe foi embora não muito tempo atrás — ela contou, girando um anel de ouro idêntico ao de Frederick no dedo anelar. — Mas nós vamos ficar bem.

Luke engoliu em seco. Percebeu que Annabeth estava dizendo aquilo tanto para ele quanto para si mesma.

[...]

Algumas semanas depois, Rachel encontrava-se sentada no mesmo lugar da arquibancada, observando a mesma dupla jogando beisebol. Quando eles terminaram e começaram a subir os degraus para o ponto de encontro comum de seu grupinho de amigos, Percy aproximou-se.

— Ei — ele a empurrou no ombro. — O Nico pediu seu número.

Rachel piscou, como se acordasse de um sonho.

— Por que o Nico quereria o meu número?

Percy abriu a boca para responder, mas foi interrompido:

— Não para ele.

Rachel olhou para Reyna mais rápido do que ela gostaria de admitir. E, quando o fez, viu o sorrisinho vitorioso e arrogante que ela tinha quando vencia de Jason em uma partida. Percebeu, derrotada, que talvez não fosse realmente capaz de resistir a todos eles.

Definitivamente, impressionada dessa vez.

[...]

Ao longo dos meses, Luke viu a mãe melhorando gradativamente, e sentiu no peito algo que não experimentara há anos: Esperança.

Daquela vez, quando foi visita-la, trazia mais alguém consigo. Bateu gentilmente na porta do quarto, e foi recebido com um “pode entrar” doce.

— Oi, mãe — ele cumprimentou, e notou, pelo canto do olho, Annabeth sorrindo nervosa ao lado dele.

Luke pegou a mão de May nas dele e as beijou, sentando-se — e sinalizando para que a garota o imitasse — na ponta da cama.

— Oi, meu amor — May sorriu, rosto saudável e iluminado. — Quem é a sua amiga?

Ele pegou uma das mãos de Annabeth — a mão com o anel — e a colocou por cima da de May.

— Mãe — disse, e só então percebeu que a emoção o havia deixado com a garganta meio fechada. — Essa é Annabeth, minha irmã.

Notas finais
Obrigado por lerem até aqui! Comentários são sempre apreciados.
Você chegou ao fim do livro. Parabéns!