Notas iniciais
Por favor, tenha um desfibrilador ao seu lado, pois prevejo muitos ataques cardíacos com esse capitulo. Desculpem qualquer eventual erro ortográfico. Enjoy.

Uma fumaça espessa e esbranquiçada deixa minha boca quando solto minha respiração por ela. A temperatura ao meu redor despenca, fazendo com que me encolha mais ainda sob seu olhar acusador. Nem mesmo a neve no chão poderia estar tão fria quanto suas íris azuladas.

Seus lábios rosados estão firmemente pressionados um no outro, demonstrando sua irritação. Seu cabelo está preso em um coque perfeito e o vestido preto de mangas compridas que usa vai até abaixo de seus joelhos, sendo de um tecido grosso e quentinho. Elegante e simples.

Suprimo meu impulso de envolver meu estômago com as mãos.

— Narcisa... – Paro, perdendo-me em seu olhar.

Mentir? Não mentir? Engulo minha saliva com dificuldade, endireitando minha postura para ficar mais ereta. Três pares de olhos me encaram de perto, sendo dois com curiosidade e um com uma descrença mal disfarçada.

— Responda-me – Ordena baixinho, seus olhos envoltos em agonia – Você está grávida? – Seu sussurro é baixo o suficiente apenas para que eu escute, mas isso não me impede de olhar para Draco e Snape alarmada.

Algo dentro de mim se retorce e grita para que eu corra, fuja de sua pergunta. Mas me obrigo a permanecer imóvel.

— Não. – Consigo sussurrar, a mentira deixando meus lábios com dificuldade – É claro que não estou.

Ela balança a cabeça em descrença, seus olhos se arregalando.

Tenho vontade de vomitar com a mentira que rola para fora dos meus lábios. Meus bebês se tornaram o centro do meu mundo tão rápido que mal consigo me imaginar sem eles mais. Mentir sobre sua existência é doloroso.

— Você está mentindo – Dispara, chocada. Seus olhos esquadrilham meu corpo com atenção demasiada – Eu sou uma medibruxa, criança. Você não pode me enganar. Sua pele está diferente e seu vomito não foi normal.

Demoro mais do que gostaria para filtra suas palavras cortantes.

Merlin!

— Você está enganada – Consigo sussurrar, meio tonta – Eu não... Estou um pouco gripada, é por isso...

Ela me corta gesticulando com a mão livre, ainda atônita.

— Poupe-me das suas mentiras – Murmura, passando a mão pelo cabelo, despenteando alguns fios. Ela olha a nossa volta, demorando-se em nossos expectadores próximos – Isso é um assunto para outro momento – Fala mais para si do que para mim, piscando freneticamente.

Sinto meu rosto perde a cor, assim como minhas mãos tremerem violentamente. Meu cérebro grita para mim comandos que meu corpo ignora, entorpecido de surpresa.

Pense, Hermione. Pense!

Fecho meus olhos por breves segundos, sentindo seu aperto se intensificar.

— Hermione... – Sua voz some quando Severo e Draco movem-se para o nosso lado, bloqueando a vendedora de unhas humanas que ainda balançava seu infame pote ao nosso lado, sorrindo macabramente para quem passasse por perto.

— O que você está fazendo aqui, Granger? – A voz rude de Draco me tira de meu estupor.

Olho-o.

— Como? – Pisco para clarear meus pensamentos – Ah, bom... Eu me perdi – Encaro o beco decadente à nossa volta – Eu estava indo embora e... Acredito que me distrai e acabei aqui sem querer – Explico, encolhendo os ombros.

Ele revira os olhos, se aproximando mais de sua mãe com as mãos nos bolsos da calça.

Percebo, em uma rápida varredura do local, que os poucos expectadores que tínhamos sumiram. E logo vejo Snape enxotar a vendedora para longe também.

— Não seja tola – Grunhe ele, impaciente – Não estou falando de aqui na Travessa do Tranco. E sim em Hogsmeada. Você estuda em Salem agora – Seu tom é meio acusador, meio zombador – Então, o que está fazendo aqui?

— Isso não é da sua conta – É tudo o que digo, dando de ombros.

Ele estreita os olhos para mim, irritado.

— Senhorita Granger – Cumprimenta-me meu antigo professor, me encarando – Está longe de Salem. Sentiu saudades de Hogsmeade? Não vejo seus amiguinhos por aqui – Seu tom é exatamente igual ao que me lembro, rouco e desdenhoso.

Não sei se fico feliz por isso ou não. Snape nunca foi alguém que consegui decifrar. Seus modos brutos, ar arrogante e atitudes dúbias nunca me passaram confiança. A verdade é que, olhando para ele agora, percebo não saber de que lado ele realmente está.

— Professor Snape – Dou-lhe um aceno, mas minha atenção ainda é sombreada por Narcisa, que volta a intensificar seu aberto em meu braço me fazendo ainda mais consciente de sua presença – Apenas decidi revisitar alguns lugares conhecidos. O acervo de Hogsmeade ainda é um dos melhores que conheço.

Ele assente, perscrutando-me com seus olhos injetados de desconfiança. Seu olhar é duro, muito atento.

Deixo meus olhos vagarem para Draco, vestido impecavelmente em cores escuras, predominando o preto e com o mesmo ar superior de sempre. Mas, as olheiras em seus olhos e palidez anormal desmistificam aos meus olhos sua vida perfeita.

Seus olhos cinzas se cravam na mão de sua mãe em meu braço. Vejo sua postura altiva ser abalada por confusão. Quando me volto para Severo, percebo que o mesmo também encara a mão de Narcisa em mim, olhando de mim para ela com curiosidade.

Não sei se era sua intenção, mas agora ela acabara de lhes dá uma confirmação para a pergunta que eles não tinham se feito ainda.

Sim, nós nos conhecemos. É o que seu ato grita.

— Vocês se conhecem? – Snape questiona, encarando Narcisa com as sobrancelhas arqueadas.

Draco cruza os braços, uma carranca se formando em seu rosto.

— De onde você conhece a sangue-ruim, mamãe? – Sua pergunta é ignorada, assim como a de Severo. Narcisa está muito focada em mim para presta atenção neles.

Seu rosto está pálido, seus olhos ligeiramente arregalados e sua boca franzida.

Respiro fundo, encarando seus olhos azuis.

— Tenho que ir – Digo, fazendo seu nariz se enrugar – Foi um prazer ver vocês – Não consigo esconder o sarcasmo que escorre de mim ao dizer isso.

Puxo meu braço de sua mão, mas ela não solta.

Estreito os olhos.

— Solte-me – Peço, trincando os dentes – Preciso ir embora.

Ela balança a cabeça em negativa.

— Precisamos conversar – Declara, ignorando meu pedido – Você não pode fugir mais – Seu rosto assume uma bela máscara imperturbável, mas seus olhos queimam como brasa – Ele sabe tudo agora – Afirma derrotada – Você não precisa mais fugi.

Passo minha língua por meus lábios, sentindo-os subitamente secos.

— Não entendo – Murmuro.

Meu coração falha algumas batidas enquanto minhas pernas viram gelatina. Sou atingida por sua afirmação tão fortemente que não percebo quando a mesma me solta.

— Ele sabe, Hermione – A urgência em sua voz me alarma, assim como o fato dela elevar sua voz, fazendo com que Draco e Severo escutem suas palavras – Ele sabe da verdade.

Tudo gira à minha volta, suas palavras cavando fundo em meu cérebro. Demoro para decifrar sua afirmação, um pouco desnorteada.

A verdade... Que... Um grito estrangulado fica preso em minha garganta. Bellatrix e eu.

— Do que a senhora está falando, mãe? – A voz de Draco não passa de um zumbido em meus tímpanos – Que verdade? Quem é ele?

Cambaleio com dificuldade para trás, não tropeçando na calçada coberta de neve por ser segurada pela mesma.

— Quem... – Minha boca seca, não sobrando saliva para que eu possa engolir o gosto amargo que atinge meu paladar – Como ele descobriu?

— Bella.

Encaro o começo do beco sem realmente vê-lo, deixando meus pensamentos vagarem pelas palavras de Morgana em uma tentativa fraca de não me perder no desespero.

“- Se isso der terrivelmente errado, não diga que não te avisei – E com isso, ela sai do quarto da mesma forma que entrou, como um tornado cheio de raiva e apreensão.”

Os acontecimentos do dia cobram seu preço de uma vez só. Subitamente esgotada e completamente quebrada, deixo minhas lágrimas escorrerem livremente, não me importando com o quão patética pareço.

— Mãe...

— Não, Draco! – Sua voz se eleva um pouco, mas estou cansada demais para me importar – Não agora. – Ela agarra meus ombros, obrigando-me a lhe encarar – Venha comigo, Hermione. Eu posso... Podemos achar uma solução para isso tudo. Apenas, venha comigo.

Limpo minhas lágrimas com as costas das mãos.

— Não posso lidar com isso agora – Falo, com a voz embargada pelo choro mal contido – Preciso ir embora – Respiro fundo, meu estômago se revirando – Tem alguém me esperando...

— Precisamos conversar – Repete, afastando-se de mim, passando as mãos pelos cabelos – Mas, tudo está mais difícil agora.

Ela encara minha barriga por alguns segundo, franzindo a testa e depois suspirando exasperada. Sua mente trabalha freneticamente, posso perceber.

Antes que eu possa pensar em algo para dizer, sinto meu corpo flutuar, leve como uma pluma. E então, tudo muda. Só tenho tempo de ver seus rostos me encarando com descrença, antes de desaparecer completamente de suas vistas.

***

A luz do sol cega-me por alguns segundos assim que abro meus olhos. Deparo-me com a praia de Avalon e uma Morgana preocupada parada à minha frente. O contraste de onde eu estava, em uma vila fria e branca pela neve para onde estou agora, em uma praia quente e úmida é gritante.

Desoriento-me mais.

— Era pra você me encontrar nos arredores da Casa dos Gritos – Diz, mordendo o lábio inferior – Quando você demorou a aparecer eu fui ao seu encontro, pensando que algo pudesse ter acontecido – Revela, suspirando – Se eu tivesse ido a sua procura mais cedo, poderia ter evitado seu encontro com Narcisa.

Balanço a cabeça.

— Não foi sua culpa.

Retiro meu cachecol e o sobretudo, jogando-os na areia e me sentando em cima. Trago meus joelhos para junto do meu corpo, abraçando minhas pernas e enterrando meu rosto ali. Choro baixinho, deixando a avalanche de sentimentos me enterrarem.

Os braços de Morgana me rodeiam, ela beija o topo da minha cabeça e descansa sua bochecha ali. Ficamos assim por vários minutos, perdidas em nossos próprios pensamentos.

— Eu deveria ter te escutado – Consigo dizer, fungando em seguida – Não foi uma boa ideia ir encontrá-lo.

Ela deixa de me abraçar e começa a afagar meus cabelos.

— Como foi, querida?

Levanto a cabeça, encarando as ondas quebrarem nas pedras.

— Harry está com raiva, pensa que o abandonei porque quis e provavelmente não confia mais em mim. E quem pode julgá-lo, não é mesmo? Eu dormi com seu maior inimigo repetidas vezes, de todas as formas possíveis e gostei de cada uma. Foi consensual tanto fisicamente quanto emocionalmente. Eu o trai, Morgana. Trai à todos – Divago.

Ela segura minha mão, apertando de leve.

— Você se apaixonou, não se culpe por isso – Ela enxuga minhas lágrimas com um pequeno lenço de linho branco – E você não traiu ninguém, querida. Seu namoro com Tom não prejudicou ninguém.

Suspiro.

— Amanda McCreary não concorda com isso – Brinco, tentando mudar a atmosfera da conversa, mas falhando miseravelmente ao capturar com os dedos uma das lágrimas que me escapam – O mais engraçado é que, eu sinto que perdi minha amizade com Harry e sinto que perdi o meu Tom – Sorrio por entre as lágrimas – Estou perdida, completamente perdida. E agora que Narcisa sabe que estou grávida, ela poderá contar ao Tom e... – Soluço, minhas mãos tremem quando cubro minha boca – Eu não queria que ele soubesse... Não agora e não assim. Não por outra pessoa.

Fecho os olhos, respirando fundo diversas vezes.

— Não quero que ele me odeie mais do que já o faz – Confesso baixinho. Volto-me por completo para ela, virando meu corpo para o seu lado – E se... E se ele não quiser ser pai? – Tento não soar histérica e temerosa – E se ele odiar meus bebês, Morgana? Como... Como vou... Não posso suportar isso. Tudo, menos isso.

— Hermione, respire – Pede, agarrando meus braços – Você está ficando histérica, respire fundo – Seus olhos me prendem. Faço o que ela pede – Isso, muito bem. Continue assim.

Tomo algumas respirações profundas antes de conseguir me acalmar. Escuto meu coração retumbar em meus ouvidos. Tun, tun, tun. Engulo minha saliva com dificuldade, meu corpo ficando dormente.

— Só tem uma forma do Tom não descobrir que você está gravida através da Narcisa – Diz, passando a mão pelo meu rosto, limpando os resquícios de lágrimas – E assim você evitaria mais raiva e conflitos desnecessários.

Seus olhos estão neutros e minha mente está enevoada pelos acontecimentos de mais cedo, por isso, não acompanho seu raciocínio.

— Como...?

— Se ao invés de Narcisa contar, você contasse para ele.

[...]

Jogando seu casaco em cima da poltrona, Draco Malfoy cruza os braços, encarando sua mãe acusadoramente, enquanto Severo Snape acende com sua varinha à lareira de sua sala de estar.

— Então? Vai me contar ou não? – Pergunta o jovem, irritado – Já estamos em um local privado, já pode começar a falar.

Suspirando, Narcisa senta-se na poltrona próxima a lareira, sendo estudada não só por seu filho.

Mesmo sendo um grande aliado e padrinho de seu filho, Snape não era estupido a ponto de pressionar a bruxa por informações, sabendo que a melhor forma de conseguir algo de Narcisa era esperando o momento certo para manipular suas respostas à seu favor. Coisa que o impaciente herdeiro Malfoy não aprendera ainda.

— De onde você conhece a Granger? – Pressiona o loiro, passando as mãos pelos cabelos – E desde quando você a chama pelo primeiro nome? E quem é ele?

Presa em seus pensamentos, Narcisa não filtra o que acontece ao seu redor.

— Deixe sua mãe respirar, Draco – Ordena, com o mesmo tom que usa para repreender seus alunos em Hogwarts.

Resmungando algumas palavras ininteligíveis, Draco se aproxima de sua mãe e se ajoelha à sua frente.

— Mãe – Sua voz rouca traz à bruxa de volta ao presente, fazendo-a franzi a testa ao perceber seu filho de joelhos – Eu não gosto de segredos entre nós. Não entre nós.

Ela sorri quando lágrimas se formam em seus olhos, pegando os dois de surpresa.

— Mãe...

Narcisa agarra o rosto do filho com delicadeza, acariciando suas bochechas no processo.

— Eu sinto muito, querido – Sussurra, beijando sua bochecha esquerda com carinho – Seu pai e eu não somos bons pais. Nossos erros se refletem em você e eu me odeio todos os dias por isso.

Engolindo o nó que se forma em sua garganta, Draco apenas coloca sua mão em cima da dela em seu rosto, não sabendo o que falar. Seu coração, mesmo muitos falando que o mesmo não tinha um, só bate por duas mulheres. Sendo sua mãe a principal, a única pessoa por quem ele daria a vida sem pestanejar.

— Ela é sua prima – Revela, para o espanto dos dois – Hermione é filha de Bellatrix e Sirius Black. Ela é sua prima e eu fiz seu parto.

Um silencio desajeitado se instala no ambiente, com Draco perplexo demais para falar e um Severo preso em divagações.

— O que? – Se pronuncia o loiro, sua voz não passando de um murmuro complexado – É impossível.

Movendo-se até seu armário de bebidas, o professor de Hogwarts serve dois copos de Whisky de fogo. Ele tenta entregar um dos copos para a mulher, mas ela o recusa. Severo toma seu líquido em uma única golada, sentindo a queimação da bebida trazer clareza para sua mente. Ele bebe o líquido do outro copo após alguns instantes de meditação, deixando os dois objetos de vidro em cima de sua mesa de centro.

Ainda imóvel e sem acreditar, Draco pisca uma, duas, três vezes, saindo de seu estupor com lentidão.

— Imagino que você se referia ao Lord quando disse que ele tinha descoberto tudo – Snape quebra o silêncio, sentando-se no sofá de dois lugares da sala. Ele não espera uma confirmação – Isso explica a forma como Milord vem tratando vocês.

Empertigando-se, Draco corre os olhos de sua mãe para seu padrinho.

— Que forma? Como assim?

— Não é nada, querido. Não se preocupe com isso – Tranquiliza, deslizando uma das mãos para o cabelo loiro sedoso.

Ele balança a cabeça em descrença, seus olhos não se focando em nada nem ninguém.

— Ela não pode ser minha prima.

É tudo em que ele consegue pensar, preso em negação.

[...] Dois Meses Depois [...]

Acordo com a cabeça doendo e o estômago embrulhado. O sol de início de manhã entra pela frecha da cortina, aquecendo o quarto. Pisco repetidas vezes para espantar o sono. Fico alguns minutos deitada, encarando o teto do quarto até minha bexiga protestar.

Jogo minhas pernas para fora da cama e caminho até o banheiro com a mão na minha barriga. Meus pés estão inchados e minha coluna dói, quase não me deixando descansar direito.

Meu reflexo no espelho é penoso, não me demoro olhando. Com meus olhos fundos e rosto pálido, rivalizo com o estereótipo da morte. Abaixo minha calcinha e solto o líquido preso, me sentindo aliviada de imediato.

Me limpo, recoloco minha calcinha no lugar, aliso o tecido de minha camisola preta e lavo minhas mãos com lentidão, ignorando o espelho à minha frente. Algo que eu vinha fazendo com frequência ultimamente.

Quando a primeira ânsia de vômito me atinge, deixo o líquido do meu estômago sair, não contendo o impulso enjoativo. Vômito na privada até meu estômago está vazio. Assim que termino, escuto Morgana entrar no quarto.

Escovo meus dentes, me demorando em tirar o gosto amargo da minha língua e saio do banheiro.

Encontro-a colocando uma bandeja abarrotada de comida em minha cama. Gemo, sentindo o cheiro do pão recém saído do forno embrulhar minha barriga.

— Chá? – Pergunta, elevando a xícara.

— Sim, por favor – Aceito com prontidão, sabendo que a bebida acalmaria minha barriga por completo.

O ritmo de meus enjoos diminuiu gradativamente com o passar dos dias, quase não existindo agora. Mas mesmo com quatro meses e duas semanas (20 semanas) de gestação, ainda tenho alguns dias difíceis. Sendo o chá gelado que Morgana faz para mim a única coisa que me impede de vomitar meus órgãos quando esses dias batem à porta.

Bebo o chá em goladas generosas, sentindo quase de imediato meu estômago se aquietar. Coloco a xícara de volta na bandeja e pego um dos pães do cesto pequeno, passando geleia de framboesa nele logo em seguida.

— Como eles estão? – Pergunto antes de morde o pão, sentindo uma gostosa explosão de sabores em minha boca.

— Mesmo com a vigilância constante, nenhum comensal se aproximou deles. Acredito que as ordens sejam apenas vigiar e não se envolver com eles – Revela, sentando-se ao meu lado – Seus pais estão bem. Sentem saudades de sua tia Agatha e olham para o seu antigo quarto com pesar, mesmo não sabendo o porquê disso – Ela suspira – Você sabe que precisarei induzi-los a irem embora, não é? É perigoso demais para eles. A cada dia que passa, a guerra fica mais intensa e Voldemort mais impaciente. Ele não manterá essa cordialidade em relação aos seus pais por muito tempo.

Balanço a cabeça em concordância.

— Acredito que devo agradecer à Narcisa por não contar a ele que estou grávida – Digo, limpando o canto da minha boca com um guardanapo.

Ela acena positivamente.

— Se só em saber que ela te encontrou e não te levou para ele, Tom surtou, não quero nem imaginar o que ele teria lhe feito ao descobrir que Narcisa te deixou escapar você estando grávida – Fala, retorcendo o boca em desgosto – Foi uma tortura épica.

Estremeço só em lembrar dos detalhes que Morgana me contara sobre o acesso de raiva que Tom tivera ao saber que Narcisa me encontrou e não me obrigou a ir com ela.

— Ele não deveria ter a torturado daquela forma – Consigo sussurrar, mordendo meu lábio inferior com força.

Morgana levanta-se e vai até minha penteadeira.

— Não devemos ficar tão confortáveis com isso – Diz, pegando minha escova de cabelo e penteando as pontas de suas madeixas negras – Mesmo que já tenha se passado dois meses, Narcisa ainda pode vir a comentar que você está grávida. E sendo intencional ou não, isso se refletirá principalmente em seus pais. Voldemort sempre escolherá machucar os elos mais fracos quando irritado – Ela se aproxima da cama movendo a escova em seus cabelos – Você precisa decidir se prefere que seja você a portadora da notícia ou outra pessoa, Hermione. De uma forma ou de outra, não será fácil. Ou bonito.

— Eu não acho que tenho coragem para contar – Expresso minha maior fraqueza com a garganta comprimida de tristeza – Não sou tão forte quanto pensam.

Ela deitada a cabeça para o lado, sorrindo com ironia.

— Duvido muito que você precise expressar verbalmente que está gravida – Seu tom é divertido e levemente zombador – Só em te ver, acredito que ele pode deduzir isto sozinho.

Solto uma risadinha nervosa, piscando lentamente ao encarar minha barriga avantajada.

— É muito obvio, não é? – Gesticulo com as mãos o volume abaixo dos meus seios.

— Sim, querida. É bem obvio.

Rimos por alguns segundos, dissipando a tensão que ficara.

— Você já localizou uma casa para mim? – Mudo de assunto, voltando ao tema que discutimos incansavelmente durante várias semanas – Preciso me mudar antes de completar o sexto mês, Morgana.

— Não é fácil encontrar casas desocupadas na localidade que você quer – Resmunga – Se ao menos eu pudesse escolher...

— Não – Corto-a, cansada de seus palpites – O local já está determinado. Será em uma daquelas quadras e pronto.

A mesma contrai os músculos faciais, realmente irritada. E então, ela sai do quarto sem dizer mais nada, me deixando sozinha com meus pensamentos.

Minha decisão de não ter meus filhos em Avalon foi baseada principalmente na fatídica história de Mérope. E também, nas Leis da ilha. Mesmo sem saber se algum ou ambos dos meus filhos é menino, eu não iria arriscar suas vidas ou repetir a trágica história da mãe de Tom.

Acaricio minha barriga por cima do tecido macio da camisola, sentindo pequenas ondulações em meu ventre. Sorrio, já acostumada com isso.

No início, foi como se pequenas bolhas estivessem estourando em minha barriga. Depois que fui me acostumando com essas sensações, sabendo que eram meus bebês se movendo dentro de mim, um sorriso se abre em meus lábios quando isso acontecia. E agora, mesmo ainda não tendo sentindo nenhum chute ou movimentação mais brusca, mal posso me conter de ansiedade ao esperar sentir seus primeiros chutes.

Fecho os olhos, sorrindo.

Existe amor dentro de mim o suficiente para nós três.

***

Retiro meu vestido azul, ficando apenas de sutiã e calcinha. Minha barriga avantajada já me impossibilitava de ver minha vagina quando eu estava em pé ou sentada e minhas costas constantemente doíam pelo peso extra. Mas nada disso importa diante da alegria que me abate ao me deitar no divã da sala que Morgana preparara para mim.

— Prepare-se, querida – Fala, mal escondendo sua excitação – Veremos os sexos desses anjinhos hoje.

Não contenho meu sorriso, mostrando todos os meus dentes no processo.

Morgana se volta para a mesinha repleta de poções, pomadas e ervas, pegando uma poção de coloração azulada. Ela destampa o frasco e espalha o líquido viscoso nas mãos como de habitual. A maior diferença desta vez, é o fato de que com meus quatros meses de gestação, eu poderia saber finalmente os sexos dos meus bebês.

Não me retraio como na primeira vez quando ela espalha o gel azul pela minha barriga. Seus olhos me encontram e ela sorri. Mantenho meu sorriso de orelha a orelha no rosto, apenas piscando para ela.

A mesma acende quatro incensos à minha volta e enche uma pequena jarra de vidro com a água e as ervas que colhi mais cedo com sua ajuda.

— Pronta?

— Sim. – Não disfarço minha agitação.

Ela solta uma breve risada e começa a murmurar um feitiço baixinho, elevando a jarra acima da minha barriga para em seguida começar a derramar o líquido bem em cima de meu umbigo.

Arrepio-me.

A água morna escorre por toda a minha pele exposta junto com as ervas cortadas em pedaços. Mas não caem pelos lados como é o esperado, ficam retidos em minha barriga, formando uma camada protetora transparente e cheia de pequenos pontos verdes.

Ampliado pela água e pelo feitiço ali contido, logo meu som preferido no mundo começa a soar. Tun, tun, tun, tun.

Sorrio, escutando os batimentos cardíacos dos meus anjinhos preencherem o espaço a nossa volta.

— Fortes e saudáveis – Fala, colocando a jarra na mesinha de madeira – E pela coloração das ervas, eles estão nutridos e pesando o ideal.

Limpo uma lágrima que escorre do meu olho.

— Eu fico tão feliz em escutar isso.

Seus olhos transbordam alívio e felicidade, estando exatamente iguais ao meus.

Suas mãos se movem para dentro da camada de água e ervas, chegando até minha pele. Ela espalma minha barriga com suavidade e fecha os olhos, murmurando outro feitiço, dessa vez mais em formato de cantiga. Demora menos que 50 segundos sua inspeção.

Morgana abre os olhos marejados para mim, dando-me o mais amplo sorriso que eu já vira na mesma.

— São um casal, querida – Consegue falar, a voz saindo embargada de emoções – Você terá um menino e uma menina.

Meu coração se amplia tanto de felicidade e amor que penso que vai explodir. Lágrimas de contentamento escorrem por meu rosto, mas não apagam meu sorriso gigante. Quero gritar, rir, chorar, tudo ao mesmo tempo. Sou uma completa avalanche de sentimentos.

Agarro minha barriga não me importando com a viscosidade dela, sentindo que vou transbordar de alegria a qualquer momento.

Uma menina e um menino. Um casal. Terei um casal de gêmeos.

Embebedando-me ainda mais de felicidade, sinto o primeiro chute da minha gestação atingir a lateral da minha barriga. Levo alguns segundos para processar o ato, mas quando o faço, me desmancho por completo. Risos, lágrimas e murmúrios felizes preenchem o cômodo.

[...] Um Mês depois [...]

— Está piorando mais rápido do que eu previa – Snape revela para Dumbledore, encarando sua mão tomada pela maldição de Voldemort.

O bruxo de barbas brancas apenas acena, não se importando com suas palavras. Foi um erro tolo e sentimental ter colocado o anel de Servolo Gaunt no dedo, mesmo tendo conhecimento de que estava protegido por uma maldição. Mas a Pedra da Ressureição, uma das três Relíquias da Morte, inspirou em si uma chama de esperança à qual nunca se permitiu sentir. E por isso, estava pagando o preço agora.

Iria morrer. Não era mais um “e se eu morrer” que governava sua vida, mas sim um “quando eu morrer...”. E não que o bruxo esperasse ou almejasse ser imortal. Não. Na verdade, para Dumbledore a morte era só o ato final da vida. Mas, o que lhe inquietava era ter que morrer em meio à uma guerra que nem atingira seu pico ainda.

— Já era de se esperar, meu caro – Ele recolhe a mão estendida para a examinação rotineira de Severo e deixa-a cair ao lado do corpo – É graças a muito esforço e suas habilidades que ainda estou vivo.

Guardando sua varinha no cinto da calça, o professor de poções se afasta de seu amigo. Inquieto, começa a andar pelo escritório do diretor.

— O que te incomoda, Severo?

O homem não para, apenas diminui suas passadas pelo cômodo, indo mais lentamente de um lado para outro.

— São tantas coisas... – Dispara friamente, parando para fitar o outro bruxo – Você irá contar a história de Voldemort para Harry, mas deixará a garota de fora. Como isso pode ser sensato? Ela é a chave para essa guerra. Voldemort está tão desesperado em encontrar essa garota que tem mais de dez comensais rondando sua casa, o túmulo de sua tia-avó e o trabalho de seus pais. Fora as ordens explicitas de que Malfoy, Parkinson e Zabini fiquem de olho em qualquer contato que ela possa fazer com seus amigos.

Sem se alterar, Alvo ajeita seus óculos meia-lua no rosto.

— Em que saber que Hermione namorou Tom beneficiaria Harry? Isso só o devastaria ainda mais, meu amigo. E o segredo não é meu para contar – Diz, coçando o queixo – Ele ainda não se recuperou em saber que ela é filha de Sirius. Existe muita confusão em seu interior, principalmente por não saber da história completa. Lhe revelar mais isso o poria em um estado lamentável. Quero evitar o máximo possível de danos.

Incrédulo, Severo cruza os braços

— Você ouviu algo do que falei? – Pergunta retoricamente – Ela é tão importante, se não mais, do que o Potter para o Lord.

Indo até a janela do ambiente, Dumbledore encara a noite densa perdendo-se em pensamentos. Um silencio desconfortável se apodera do ambiente. Até que o bruxo de longas barbas brancas se volta para o príncipe mestiço.

— Por muito tempo, eu duvidei de que Tom poderia amar alguém – Comenta, pegando o outro de surpresa com o teor de suas palavras – Ele era sempre muito centrado, calado e antissocial. Importando-se apenas com seu próprio benefício pessoal, nunca permitindo que ninguém chegasse perto o suficiente para ter espaço em sua vida – Ele caminha até sua poltrona preferida, ao lado da estante abarrotada de livros – Nem mesmo seu amigo mais fiel, Abraxas Malfoy, tinha tanta importância em sua vida.

Ele senta-se na poltrona e indica para que Severo se sente na outra, em frente a sua. O bruxo segue como indicado e senta-se de frente para o diretor do castelo.

— Quando foi revelado que Hermione estava com ele, eu temi por sua segurança – Prossegue, alisando a barba com a mão boa – Mas com o passar dos dias, fui percebendo uma ligeira mudança em sua postura. Não sei se por fingimento ou por realmente está mais confortável com as situações, mas Tom começou a ser mais sociável com as pessoas. Até mesmo se permitindo assisti uma partida de Quadribol, algo antinatural da sua personalidade.

Snape absorve as informações com cuidado, filtrando cada palavra em seu cérebro.

— Mas, foi no baile de halloween daquele ano que eu tive a certeza de que ele a amava de verdade – Ele repousa a mão em seu colo, suspirando – O tipo de olhar que eles trocaram enquanto valsavam não tinha como fingir. Era amor. Puro e simples – Encarando um ponto fixo na parte atrás de Severo, Dumbledore divaga por alguns instantes – Após a partida de Hermione, Tom se fechou em uma concha por completo, apagando qualquer vestígio de bondade que possa ter nascido em si. Sendo a primeira semana à pior. Nunca o vi tão desnorteado e sem rumo. Nem mesmo fingi que prestava a atenção nas aulas ele fingia mais.

Endireitando a postura, Severo não se permite sentir empatia pelo seu senhor.

— Imagino que aquele amor puro se transformou em uma obsessão doentia – Conclui.

Concordando com a cabeça, o príncipe mestiço permanece em silêncio.

— E respondendo a sua observação; Sim, para Tom, Hermione é mais importante que Harry – Ele se levanta, vendo a hora estipulada para tomar sua poção antídoto se aproximar – Mas isso não significa nada diante desta guerra, Severo. Quem Tom é hoje não parara a matança por ela.

Indo até a gaveta de sua mesa de madeira, ele pega o fraco de líquido transparente e ingere uma golada, devolvendo-o para seu lugar logo em seguida.

— Você acredita que Hermione possa se aliar a ele? – Snape pergunta, deixando a pergunta de um milhão de galeões ser externada – Que ela o ama o suficiente para isso?

Dumbledore toma um tempo para responder à pergunta de seu amigo. E quando o faz, não é a resposta que Severo esperava.

— Eu não sei, meu caro – Diz, por fim – Questões do coração são imprevisíveis.

Mas, o que realmente o mago supremo gostaria de ter falado é que não se preocupa somente com Hermione se aliar ou não a Voldemort, mais também com sua outra aliada não declarada.

Morgana Lefay.

E mesmo não conhecendo seus objetivos, só uma motivação extremamente forte poderia tirar a bruxa atemporal de seu estado de inercia e fazê-la agir a favor de alguém.

Para o azar do mundo bruxo, esse alguém era Tom Riddle.

***

Olhando para a mansão a sua frente, um estranho contentamento se apodera do bruxo das trevas. Ele parabeniza-se internamente por sua escolha bem feita. Tom move seu corpo em linha reta, seguindo ativamente para a entrada de sua moradia.

Uma satisfação de dever comprido aperta seu peito vendo meia dúzia de homens e elfos aparatarem, se despedindo apenas com um aceno de cabeça.

Se ao menos eles soubessem quem eu realmente sou...

Um sorriso mínimo se projeta em sua boca, não chegando aos seus olhos azuis.

— O senhor gostou? – Pergunta um homem de meia idade caminhando ao seu encontro, limpando o suor de sua testa com um lenço de linho – Com certeza foi o trabalho mais minucioso e demorado que já fizemos, mas o resultado aquece meu coração. Sua mansão é simplesmente a mais linda que já vi na minha vida. É uma joia rara.

Revirando os olhos internamente para as palavras melosas do bruxo, Voldemort apenas da de ombros.

— Está aceitável – Diz, murchando o homem que esperava um elogio – Seu trabalho está concluído, então... Pode ir embora. Seu último pagamento já foi entregue.

A restauração da mansão fora demorada e lenta, mas Riddle já pressentia isso. Sendo assim, contratou o melhor bruxo restaurador de casas da Grã Bretanha porque queria um trabalho bem feito, e não rapidez.

— Foi um prazer trabalhar com o senhor, sr. Smith – Ele oferece a mão para Tom, que a aperta por educação – Espero que a sra. Smith aprecie a casa e vocês possam criar seus filhos no melhor ambiente.

— Não temos filhos – Rebate, estreitando os olhos.

Gaguejando um pedido de desculpas, o bruxo restaurador se encolhe.

Para Cassius Brown, restaurar coisas é a grande paixão de sua vida. Por isso, ao receber em seu escritório quem ele pensa ser Taylor Smith, querendo seus serviços para restaurar sua mansão recém adquirida, ele logo aceitou o trabalho.

Ao ver a imponente construção erguendo-se majestosamente em uma área cercada por vegetações rasteiras, ele se encantou com a beleza do lugar. Sem sombra de dúvidas, ele não mentiu quando falou que esta era a mansão mais linda que já vira.

Mas, em contrapartida a trabalhar na restauração da mansão dos seus sonhos, ter que estar na presença do homem que julga apenas ser um bruxo poderoso é sufocante. Desde que entrara em seu escritório exigindo seus serviços, Cassius se surpreendeu com o quão intimidante seu contratante era. Detendo de uma beleza que fez sua assistente durona gaguejar sem parar, o homem tem uma áurea de perigo que faz todos os seus sentidos de alto preservação entrarem em ação. Seus companheiros o apelidaram de sr. Faça O Que Eu Mando Calado, igualmente intimidados. Sua sorte é que não precisaram se encontrar muitas vezes.

— Foi bom trabalhar com o senhor – Diz, querendo fugir o mais rápido possível dali – Passar bem, sr. Smith.

Após ficar sozinho, Voldemort escara seus arredores, admirando em silencio o trabalho bem feito de paisagismo e restauração do lugar.

Quando comprara a mansão que antes pertenceu à uma família bruxa decadente, só conseguia pensar no quanto Hermione iria gostar do lugar. Sendo calmo, espaçoso e longe o suficiente de qualquer um, era o lugar perfeito para mantê-la para si protegida do mundo externo. E por isso, comprou.

Mas vendo o trabalho bem executado, só conseguia pensar em quão boa fora sua decisão de adquirir o imóvel.

Sorrindo para si, ele adentra a mansão.

[...] Três Meses Depois [...]

A primeira lágrima cai solitariamente por minha bochecha, escorrendo até meu queixo e despencando até meus seios. As outras logo seguem o mesmo percurso.

— Eu não deveria ter te contado – Sussurra ela, entregando-me um lenço de papel.

Seu rosto não expressa pesar e, de alguma forma, isso me irritada.

Desvio meu olhar dela para o papel de parede cor creme revestindo a parede da pequena sala, na casa que aluguei à algumas quadras de distância da residência dos meus pais. O fato de não querer estar longe deles incomodou Morgana, já que mesmo eles vivendo na Austrália há dois meses, ainda tem sua casa sendo vigiada por Comensais.

Mesmo vivendo à quase quatro meses na pequena e aconchegante casa, não consigo sentir qualquer sentimento de pertencimento nela. Só são paredes e um teto pra mim.

— Apenas... Me conte – Peço, limpando meu nariz e tentando conter os soluços – Que-quero saber. Ele... – Soluço contra as costas de minha mão – Ele era importante pra mim.

Morgana suspira pesadamente.

— Olhe o seu estado, querida – Fungo baixinho – Não acho que seja uma boa ideia você saber dos detalhes – Sua voz é suave, cheia de preocupação – Você precisa de tranquilidade, Hermione. Sua gestação já está quase no fim.

— Morgana, por favor – Suplico.

Dando-se por vencida, a mesma me conta o porquê e como Dumbledore morreu, dando ênfase no fato de que Draco não queria lhe matar e muito menos Severo. Mas que sua morte já era garantida desde que Alvo colocou em seu dedo um anel que pertenceu a família Gaunt e estava amaldiçoado.

Choro por horas a fio, sofrendo por perde mais uma pessoa que admirava muito. Não me atenho aos detalhes que culminam em sua morte, principalmente evitando pensar em Tom como o mandante do assassinato. Apenas deixo a tristeza por sua morte me sufocar em lágrimas e soluços, não pensando, só sentindo.

***

Não fui ao seu enterro.

Não por não querer ir, mas por ser perigoso demais para mim tão perto do fim da minha gravidez. Meu único consolo fora em saber que a cerimônia foi linda, com todos os seus amigos, admiradores e aliados presentes.

Endireito minha coluna, sentindo a mesma protestar e caminho a passos de tartaruga para fora da casa. O breu da noite me saúda, assim como a brisa fria da madruga me faz encolher dentro do sobretudo preto.

Dando a volta na casa, saio pela porta do muro que cerca a residência. Uso minha máxima concentração para não fazer barulho ou ser pega em flagrante por Morgana novamente. Nossa última briga por causa de minhas saídas noturnas acabou comigo chorando ruidosamente em meu quarto. Culpa dos hormônios em ebulição.

Atravesso a curta distância até meu destino com duas vezes mais lentidão que o normal, sentindo o peso extra do meu corpo cobrar seu preço.

Como de costume, o lugar só não está complemento deserto porque o senhor grisalho de pouco mais de 60 anos que cuida da limpeza e manutenção dos túmulos passa a noite rondeando o lugar.

Ele sorri para mim assim que me ver. Sua construção óssea é firme para um homem da terceira idade. Imagino que seja por ele já ter servido no Afeganistão.

— Boa noite, senhorita – Saúda.

— Boa noite, Arnold.

Passo por ele e vou direto para o túmulo de tia Agatha. O mesmo me segue com os olhos, mas não diz mais nada.

Nosso ritual é simples, nos cumprimentados, vou para o túmulo desejado e após minhas orações e lágrimas costumeiras, vou embora após me despedir dele. O mesmo nunca me perguntou quem era o pai dos meus bebês ou se eu tinha um marido. Poucas foram as vezes que conversamos. E em apenas uma muito breve conversa pessoal, fora que ele me revelou ter servido no Afeganistão e eu lhe contei os nomes que pretendia dá para meus filhos.

Acaricio sua lápide e sorrio.

“Amada filha, irmã, tia-avó e amiga.

Exemplo de alma pura pertencente aos céus.”

Retirando do bolso do meu sobretudo um pequeno cacho de boêmias, uma de suas flores favoritas, retiro o cacho seco e coloco as novas. Jogo o cacho murcho dentro de uma lixei móvel que suspeito que Arnold colocou ali para mim.

Desde que a vigília dos Comensais no cemitério acabou e eu me mudei para a pequena casa à alguns metros do cemitério, venho pelo menos três vezes na semana trocar as flores de seu túmulo. Um hábito que enlouquece Morgana e que sei que tenho que parar.

Meu parto está previsto para daqui há dez dias, o que me faz ter ainda mais receio de sair de casa. Por isso, me programo para está ser minha última visita em um longo tempo.

Não me ajoelho para fazer minhas preces por sua alma por saber que não conseguirei me levantar se o fizer. Apenas fecho meus olhos e rezo baixinho.

Assim que termino, faço o sinal da cruz ouvindo os passos de Arnold se aproximando de mim.

— Precisarei ficar um tempo sem vim, Arnold – Começo, acariciando minha barriga enquanto encaro a lápide de mármore uma última vez – Falta apenas 10 dias para eles virem ao mundo – Sorrio, me virando para encará-lo.

Hipnotizantes olhos azuis conhecidos me capturam.

Meu sorriso congela no rosto, meu coração dispara. Perco complemento o ar dos meus pulmões.

— Olá, Hermione – Sua voz aveludada chega até mim causando tremores em meu corpo – Faz um longo tempo desde que nos vimos, pequena traidora – Completa, vidrado em meu rosto enquanto caminha até mim predatório.

Lágrimas se formam nos cantos dos meus olhos. Sua beleza estonteante apenas ficara ainda mais acentuada com o passar do tempo.

Seus cabelos negros estavam penteados e alinhados para o lado esquerdo, seu rosto estava envelhecido, mas sem nenhum linha de expressão. Pecaminosamente bonito. Sendo bons 15 centímetros maior que eu, sua construção óssea está ainda mais forte e intimidadora. E seus olhos... Azuis tempestuosos.

— Tom. – Murmuro, sem realmente acreditar no que meus olhos veem.

— Você não acreditou que conseguiria se esconder de mim para sempre, não é? – Zomba, parando a poucos passos de mim sem desviar sua atenção do meu rosto – Seria realmente decepcionante se você acreditasse nisso, Black.

Um sorriso macabro se desdobra de sua boca, transformando meu sangue em gelo. Em um gesto instintivo, agarro minha barriga com as duas mãos cambaleando para trás.

Meu gesto não escapa de seu radar e pela primeira vez na noite, ele desvia sua atenção do meu rosto para meu corpo, se deparando com minha barriga.

Seu rosto perde a cor tão rápido que não deixo de me questionar se o mesmo irá desmaiar. Seus olhos se arregalam gradativamente a medida que o entendimento da minha situação é processado por seu cérebro. Quando a ficha cai por completo, sua boca forma um pequeno o.

Mordo meu lábio inferior, estudando seu corpo imóvel parado bem à minha frente. Os segundos vão passando e meu coração acelerando mais e mais. Quero uma reação do mesmo, qualquer coisa. Seu silêncio ensurdecedor me mata.

— Você está grávida? – Pergunta roucamente, saindo de sua paralisia.

Balanço a cabeça positivamente, engolindo em seco.

— Responda – Ordena, elevando seu tom.

— Sim – Solto em um fio de voz.

Ele passa as mãos pelo cabelo, despenteando seus fios.

Em um piscar de olhos, Tom está parado bem na minha frente. Ele agarra meus braços e me puxa para perto do seu corpo, minha barriga tocando na sua. Estremeço por nossa aproximação brusca e pelo susto de ser enjaulada por seu corpo.

Um grito agudo fica preso em minha garganta.

— Tom... – Silencio-me, vendo seu rosto vidrado em minha barriga.

Ele se volta para meu rosto lentamente, prendo a respiração.

— Você iria ter um bebê meu e não iria me contar? – Pergunta, trazendo minhas emoções à flor da pele à tona. Sua voz gélida e cortante desbloqueia a torrente de lágrimas que eu vinha prendendo.

— Eu não... Não... – Respiro fundo várias vezes para tentar me acalmar, falhando miseravelmente – São gêmeos. Vamos ter um casalzinho.

Ele estremece, realmente estremece.

— Que porra, Hermione – Rosna, irritado – Você deveria ter ficado comigo no passado – Grita, cuspindo cada uma das palavras com uma fúria assustadora.

Abro a boca para lhe responder, mas soluços dolorosos escapam primeiro. Seus dedos apertam com mais força meus braços, mas não me contenho.

Choro baixinho.

Ele grunhe palavras inteligíveis, me assustando ainda mais. Meu choro se torna mais forte até que algo quente escorre por minhas pernas, paralisando-me.

— Hermione?

Pisco por entre as lágrimas, agarrando seus antebraços com força. Meus olhos buscam os seus e seja lá o que ele vê estampado em meu rosto, o faz franzi a testa em preocupação.

— O que...?

— Minha bolsa estourou.

É tudo o que digo antes de ser assolada por minha primeira contração e gritar escandalosamente de dor, pegando-o completamente desprevenido.

“Amar é reencontrar a própria alma através da alma do amado, quando o amado vai embora, perde-se a alma.”

— Firma Jean

Notas finais
E então... Alguém vivo? Quero dizer a vcs que me entristeceu muito não ter conseguido postar essa capitulo semana passada. Pretendia postá-lo até domingo, mas com o começo das minhas aulas EAD, tudo ficou mais difícil. As invés de facilitar, os professores estão sugando mais ainda nossas vidas. Peço desculpas. Bom, espero que todos tenham gostado do capitulo. Fiz ele com muito amor e empenho pra vocês. Por favor, deixem-me saber se gostaram. ❤️ Leitores fantasma, pronunciem-se ❤️Prometo ser do bem. Beijinhos sabor almas gêmeas!!