Desire Obsolete
63 Exposição
Notas iniciais

Estamos a sós com nossas mudanças de ideias
Nos apaixonamos até doer ou sangrar
Ou desaparecer com o tempo
— Taylor Swift (State of Grace)
O cheiro adocicado de talco e colônia de bebê me cercam, acalmando meus nervos e induzindo meus neurônios a um merecido entorpecimento. Não é o suficiente para me fazer esquecer às últimas horas, mas me agarro a essa distração bem-vinda com força.
Inspiro e expiro profundamente o ar, recebendo os cheiros cítricos das notas do perfume, uma mistura cativante de hortelã, verbena, geleia de ruibarbo, flor de laranja, lírio do vale, jasmim, baunilha e musgo de carvalho. Um presente extravagante de Narcisa para os gêmeos, alguns meses atrás.
Fecho meus olhos, inclino minha cabeça contra a cabeceira da cama e aconchego Damon junto ao meu peito, ajustando o ângulo de seu corpo para que ele fiquei ainda mais confortável enquanto mama. Deixo minha mão cair vagarosamente em cima da cabecinha de Alya, e acaricio seus fios negros com cuidado, ouvindo os sons rítmicos de sua respiração suave aquecer meu coração.
Tirá-los de seu quarto e os trazer para minha suíte foi minha primeira ação ao regressar à mansão, e a única que fiz visando algo emocional. Não um dos vários atos meramente mecânicos que venho fazendo desde então, como respirar e piscar.
Passo a língua por meus lábios secos, sabendo que tenho muitas coisas em que pensar.
As relíquias da morte são reais, pondero, mergulhando minha mente em tudo o que descobri ao longo do dia. Harry tem a capa da invisibilidade.
Brinco com os dedinhos fechados em punho de Alya, sentindo-a se agitar em seu sono profundo. Sua tez está tão relaxada, que é impossível não perceber sua calmaria.
Merlin, ele dividiu a própria alma!
Mordo minha bochecha, mergulhando no momento em que descobrir mais um de seus segredos.
“- Não entendo... Horcruxes?
Harry solta meu braço e dá um passo para trás, ficando ao lado de Rony.
— São objetos feitos com pedaços da alma dele – Diz, soando enojado – Voldemort é imortal até que todos os objetos, que não sabemos quantos são, sejam destruídos. A maldição da morte que ele lançou em mim quando bebê ricochetou de volta para ele e não o matou justamente por isso.
— Até que todos os pedaços de sua alma sejam destruídos, aquele monstro é invencível – Ronald completa.
— Como... Como... – Respiro fundo, buscando me controlar – Como uma horcruxes é feita?
— Magia das trevas, e matando um ser humano – Harry responde, sucinto.
Agarro o corrimão da escada com força, tentando segurar-me em pé.”
É absurdo imaginar que alguém possa escolher dividir a alma em fragmentos como se ela não representasse nada. Não é um simples ato de maldade, é um sacrilégio contra a própria ordem natural das coisas. O extremo em que Tom chega para conseguir poder é chocante.
“- Ele deve realizar algum ritual macabro que não quero nem saber como é – Ron prossegue, nenhum pouco abalado – Mas, temos a espada de Godric Gryffindor agora – Revela, animado.”
Inspiro profundamente, conseguindo entender suas palavras só agora.
Se Ronald ficou animado por terem a espada, isso só pode significar que ela consegue, de alguma forma, destruir as horcruxes, constato, com um mal estar furtivo se alojando em meu peito. Como posso...? Merlin, o que farei agora?
Damon produz um grunhido baixo, tirando-me de meus pensamentos atormentados. Acaricio seu rosto, vendo-o abrir seus olhinhos azuis e me encarar. Um nó esmagador surge em minha garganta, obstruindo minha respiração.
— Merda! – Tusso, respirando fundo enquanto sinto meu coração disparar.
Coloco minha mão na boca, tossindo mais um pouco. Damon agita-se em meus braços, por isso, preciso balançá-lo um pouco para que ele volte a se aquietar. Por minha visão periférica, vejo que Alya permanece adormecida.
Pisco um pouco, tentando não me prender ao desespero que arde em mim com meus pensamentos deprimentes. O rosto de Luna surge em minha mente.
Respiro fundo.
E mesmo contra todos os meus esforços, minha mente me transporta para longe dos meus filhos contra a minha vontade, retirando minha paz recém adquirida.
“Nossa aparatação dura pouco mais que um piscar de olhos, e logo nos vemos em frente à casa de Luna. Mal nos firmamos em terra e a mudança de temperatura nos agride. Estremecemos quase em sincronia, encolhendo nossos corpos pelo frio.
Luna se afasta de mim para esfregar seus braços, em busca de calor. Encolho-me dentro de minhas vestes.
— Minha filha!
O sr. Lovegood levanta-se em um salto dos degraus da entrada de sua casa e corre até nós, puxa Luna para seus braços, agarrando-a em um abraço de urso. Seu rosto se enterra em seus cabelos emaranhados, com seus soluços ruidosos preenchendo o ambiente. Seu corpo está coberto por flocos de neve devido ao tempo em que ele permaneceu nos esperando.
Ouço ela tentar lhe acalmar com palavras amorosas baixinhas, mas não me permito ouvir, sentindo-me deslocada e invasiva. Dou um passo para trás, afastando-me deles enquanto desvio minha atenção para os arredores do lugar. A neve cobre o chão, formando um tapete espeço e esbranquiçado. Mesmo com o frio que agride meu corpo, não me importo em ficar imóvel na neve.
O teto da casa já está completamente tomado pelo branco do inverno, assim como as plantas que crescem em volta do lugar. É um espetáculo tranquilizante, assim como solitário.
— Você foi ferida? Tem fome? Sede? Como se sente? – Xenofílio lhe bombardeia de perguntas, não deixando Luna lhe responder nenhuma, percebo – Aqueles malditos te machucaram? Onde você esteve?
— Pai, eu estou...
— Quero que me diga, lhe machucaram? – Não consigo não olhar para eles após ouvir a preocupação aflitiva do homem.
Ele avalia Luna minunciosamente, buscando ferimentos.
— Não, pai, eu estou bem – Tranquiliza-o. – Eu não fui ferida.
Ele balança a cabeça em negativa, agarrando seu rosto com ambas as mãos. Deitando sua testa na dela, ele começa a falar baixinho novamente, expondo seus medos enquanto lhe acaricia as bochechas.
Palavras sussurradas são trocadas entre eles por vários minutos; lamúrias, perguntas, desculpas, uma enxurrada de palavras que demonstram o afeto e a preocupação que sentem um pelo outro.
Vejo as lágrimas brilharem em suas bochechas ao passo que escorrem desenfreadas. Luna captura cada uma das lágrimas do seu pai, limpando-as com as mangas da blusa.
Seguro minhas próprias lágrimas, não querendo estragar o momento deles.
— Podemos conversar outro dia? – Luna pergunta, voltando-se para mim limpando os olhos.
Pisco, não compreendendo de imediato que ela está falando comigo.
— Quero descansar um pouco antes de conversarmos sobre... Bom, seus motivos – Ela hesita no final, duvidosa – Algo me diz que será uma longa conversa, e preciso descansar.
Seus braços rodeiam a cintura de seu pai, enquanto ele lhe embala com lágrimas nos olhos. Existe tanta ternura em seus movimentos, que é difícil para mim continuar olhando. É um momento íntimo que merece privacidade e respeito.
Engulo minhas emoções, ciente de que não estou pronta para essa conversa com ela.
— E está tarde – Se intromete o sr. Lovegood – Já passa das 18hrs.
— Sim, é claro – Digo, forçando um sorriso tranquilizador – Você precisa descansar.
Ela acena, com seus olhos nunca me abandonando.
— Está frio! Precisamos entrar, minha querida – Ele fala para ela, afastando-se um pouco para analisar seus rosto, tentando gravar sua fisionomia em sua mente.
Por sua escolha de palavras, percebo que ele não estar disposto a me incluir. Isso não me desagrada, é compreensível. Não quero estragar seu reencontro.
— Podemos nos encontrar amanhã? – Pergunto, temendo a resposta.
Xenofílio pigarreia, clareando a garganta.
— Acredito que é cedo demais – Diz, encarando-me sem demonstrar aversão alguma, tampouco simpatia – E é natal, temos uma rotina própria e tradicional que seguimos rigorosamente – Explica.
Balanço a cabeça mecanicamente.
— Entendo...
Luna não lhe contradiz, e isso é o bastante para que eu entenda que ela quer tardar nossa conversa tanto quanto ele. E eu.
— Então, eu acho que já vou indo... – Quero me desculpar, implorar por seu perdão, mas também quero lhe dá espaço para absolver as coisas – Eu sinto muito por tudo – Murmuro, dando-lhe as costas.
— Hermione – Luna me chama.
Viro minha cabeça para trás, vendo-a afastar-se de seu pai com relutância e vir em minha direção.
Engulo em seco, preparando-me para o pior.
— Não sei o que te levou a ficar com ele – Começa, cruzando os braços a frente do corpo – Mas, eu quero entender... Quero te entender.
Fungo.
— Luna...
— Dois dias – Fala, dando um passo para frente – Eu te peço apenas dois dias para absolver tudo o que aconteceu.
As palavras ficam presas em minha garganta, e por isso, aceno. É a única coisa que consigo fazer. E, então, sinto seus braços me rodeando. Seu calor me aquece, infiltrando-se em minha pele fria.
Demoro a entender seu ato, mas quando o faço, quebro em seus braços. Choro compulsivamente, agarrando-me a ela.
— Eu sinto muito, sinto muito... – Respiro fundo, sendo soterrada por minhas emoções – Desculpe-me, Luna. Por tudo. Eu não queria... Realmente sinto muito.
Ela me aperta contra seu corpo.
— Eu sei... Não foi sua culpa.
Tenho dúvidas disso, mas não a contradigo, permitindo-me chorar tudo o que segurei para mim.”
Volto a aconchegar Damon junto a mim, ajeitando sua cabecinha para que não penda de meus braços enquanto lhe alimento. Suas sucções são famintas, rápidas e fortes, mas mal noto-as.
Alya produz pequenos e ininteligíveis barulhinhos dormindo em cima do travesseiro que depositei ao meu lado, completamente saciada. É uma combinação fantástica, o calor de seu corpo, os barulhinhos dela e os cheiros familiares de seus produtos de bebês me cercando. Tudo isso transforma minha aura carregada em limpa. É revigorante até certo ponto.
Ao deixar Luna em sua casa, tive que pedir a Mirdy para me buscar, pois não consegui ultrapassar as barreiras impostas por Tom na casa, e devido ao meu cansaço, não forcei uma invasão.
Fixo minha atenção no Erumpente de retalhos ao lado do travesseiro onde Alya descansa, abandonado após vários minutos em que ela dedicou sua atenção a ele. Lágrimas se formam em meus olhos enquanto lembro do carinho com o qual Luna confeccionou o brinquedo para meus filhos.
Sua reação ao descobrir meu envolvimento com Tom foi mais suave do que eu poderia imaginar, e ao mesmo tempo densa. Mesmo sem que ela houvesse falado nada, sua hesitação foi um grande indicador da tensão que a descoberta proporcionou.
Por um lado, ela quer me entender, quer compreender meus motivos, ouvir minha história. Por outro, odeia tudo sobre ele, não entende como pude me relacionar com Tom e tem medo de minhas ações. Não é difícil imaginar qual dessas duas versões irá ganhar. E, por isso, me permito chorar.
Minhas lágrimas caem silenciosas, com o peso de todo o meu sofrimento nivelando suas quedas.
É o fim...
***
Você chega e a armadura cai
Atravessa o quarto como uma bala de canhão
Agora tudo que sabemos é não soltar
Estamos sozinhos, só você e eu
— Taylor Swift (State of Grace)
Movo-me com lentidão, sendo as minhas pisadas no chão frio o único som audível. Estou no piloto automático, presa em uma maré de pensamentos conturbados. Todo o meu corpo está tenso, por isso, giro meus ombros simultaneamente, tentando aliviar a pressão dos meus músculos. Pelas janelas, mesmo com uma fina camada de gelo embaçando o vidro, noto que a noite reina lá fora.
Escuridão e silêncio me cercam.
Coloco minha mão na barriga, sentindo o oco da mesma começar a me incomodar.
Ignorei todas as tentativas de Mirdy em me fazer comer, enlouquecendo a mesma de preocupação, o que me trouxe ainda mais tristeza. E, mesmo não sabendo por quanto tempo fiquei em nosso quarto, embalando meus filhos com meus braços e amor, a escuridão do lado de fora é o suficiente para que eu entenda que já passou da hora em que normalmente eu durmo.
Suspiro, deixando minha mão cair ao lado do meu corpo.
É tudo minha culpa? Eu realmente mergulhei no inferno e dancei com o diabo?
Não existe lágrimas em meus olhos, não mais. Há apenas conformidade, e a triste e amarga verdade.
Eu sabia que você era problema, e mesmo assim me deixei levar... Agora, estou afundando.
Algo atinge meus pés com força, estanco no lugar de imediato.
Olho para o chão.
— Bichento! – Ralho, vendo suas patinhas agarrarem-se ao meu jeans.
Ele tenta escalar por minha perna, em sua versão distorcida de brincadeira. Abaixo-me e agarro seu corpo, o trazendo para meus braços.
— Você já deveria estar dormindo, mocinho – Falo, aconchegando-o em meu ombro, deitando minha bochecha no topo de sua cabecinha. Ele mia alto, manhoso – O que? Nagini não quer mais brincar com você?
Seu ronronado começa de imediato enquanto ele esfrega seu rosto em mim, miando com mais intensidade.
Sorrio minimamente.
Há maior parte do tempo, Bichento persegue Nagini pela casa, fascinado com seu jeito esnobe e, muitas vezes, agressivo. É realmente impressionante que até agora o grande réptil não tenha perdido a paciência e tentado estrangular meu gato. Tirando as ocasionais tentativas de estrangulamento que ela faz em Bichento, a convivência deles é pacífica.
Nagini é uma serpente com temperamento estranho, na verdade. Gosta de solidão, mas suportar ter Bichento seguindo seus passos sem tentar matá-lo de verdade. É realmente algo que nunca vou compreender. Mas, é uma amizade que me agrada.
— Pensei que você já estaria dormindo – Ouço sua voz profunda indagar, fazendo meus músculos travarem na mesma hora – Mas, é bom que não esteja.
Olho para de onde sua voz vem, deparando-me com ele a poucos passos de mim. Não escutei sua aproximação, o que não me surpreende. Tom consegue se mover como um felino quando quer.
Bichento se agita em meus braços, respondendo ao som de sua voz. Suas patinhas começam a espernearem para que eu o coloque no chão.
— Vejo que você ainda continua furtivo – Falo, encarando seu rosto esculpido em seriedade, apertando meu felino ainda mais contra meu corpo – E um exímio mentiroso – Completo.
Ele sabe do que estou falando, por isso, nenhuma reação de confusão é expressada.
— Não menti, apenas omiti que eu sabia o paradeiro dela – Diz, aproximando-se com lentidão – Você causou uma verdadeira comoção hoje. Estou impressionado.
Suas vestes negras estão impecáveis, assim como seus cabelos. Mas, existe algo incomum em sua aparência, que demoro a distinguir.
À primeira vista, não existe nada fora do lugar. Os mesmo olhos intensos e misteriosos, a mesma boca rosada e convidativa, a mesma mandíbula forte e bem construída. Tudo perfeitamente desenhado, alinhado. Então, após alguns segundos de contemplação, percebo sua palidez anormal e a rigidez de cada movimento seu. É como se mínimo movimento de seu corpo lhe causasse desconforto. Sua imagem sempre perfeitamente controlada me enervava, mas não sei se estou pronta para ver-lhe fraco.
— Seu senso de moralidade é realmente divertido – Ironizo, deixando Bichento escorrer de meus braços para o chão, ciente de que é isso que ele quer – Precisamos conversar, Tom.
Ele para à minha frente, cruzando os braços a frente do corpo. Meu gato se enroscar em suas penas, esfregando-se carinhosamente enquanto ronrona. Tom ignora-o, parecendo nem ao menos sentir Bichento tentar atrair sua atenção.
Um pequeno traidor de quatro patas, é isso que você é.
Com nossa aproximação, distingo pequenos vínculos nos cantos de seus olhos, desmistificando ainda mais minha crença de que ele não está sendo afetado pelos recentes acontecimentos.
— Sim, nós precisamos – Concorda, acenando com a cabeça lentamente – Você não deveria ter ido à casa dos Lovegood’s – Sua mandíbula trava assim que as palavras saem de sua boca – A exposição, a quase luta... No que você estava pensando? Desprotegida e sozinha, dois malditos erros colossais.
Reprimo um gemido de frustração, sentindo o impacto da sua presença afetar meus nervos.
— Luna é minha amiga, a única que tenho que me conectar com quem eu fui. Que me aceita! Como você esperava que eu agisse com o seu sumiço? Ficasse sentada esperando ela surgi magicamente? Não seja bobo. – Coloco uma mexa de cabelo atrás da orelha, percebendo o tremor de minha mão – Você a trancafiou, Tom.
— Por um erro que não pude desfazer – Diz, suspirando em seguida. Por um breve momento, vejo todo o seu cansaço tomar conta de seu rosto – As ordens eram claras, mas os imprestáveis dos Carrow’s são estúpidos até mesmo para executar ordens simples – Sua mandíbula cerrada demonstra sua irritação – Quando tive conhecimento do que aconteceu, horas já tinham se passado. Reverter a merda deles só me traria ainda mais dor de cabeça.
— Você deveria ter a soltado assim que descobriu o erro, era o certo a se fazer.
Ele descruza os braços e passa a mão pelo cabelo, despenteando-o. Um gesto que sei que é movimento por impaciência e irritação.
— Deveria? E o que eu iria dizer? Ah, vejam só, não posso manter a Lovegood aqui porque minha noiva é sua amiga, que pena! – Sarcasmo escorre de sua boca, inflamando minha raiva – O certo a se fazer não é o caminho dos vencedores.
— Você é o maldito Lord das Trevas, não deve satisfações para ninguém – Rosno, alterando minha voz – Apenas deveria tê-la libertado – Minhas mãos se fecham em punhos.
Uma risada sombria e sem humor escapa de sua boca.
— Você é tão ingênua ao ponto de achar que minha ações não são comentadas por meus comensais? Acha mesmo que tudo o que eu faço, que afeta diretamente nossa batalha, não deve ter um motivo benéfico para nós? Se eu a liberta-se, haveria questionamentos... Por que ela é especial? Por que Voldemort está sendo bondoso com ela? Ela é uma aliada? Se sim, por que não possui a marca? Ou por que nunca esteve presente em nenhuma das reuniões? – Ele troca o peso dos pés – Ela mesmo se perguntaria o porquê de ser libertada quando tantos outros eram mantidos presos. Não sou estúpido, Hermione. Confie em mim quando digo que mantê-la presa foi a melhor coisa para todos.
Seus argumentos não são ruins, mas também não me convencem por completo.
— Não, não foi. Não para mim, e com certeza, não para Luna. Inocentes não merecem ser trancafiados em celas malditas como um criminosos.
Tom aperta a mandíbula e me encara com os olhos um pouco atormentados. Sei que algo lhe incomoda, e quero perguntar o que é. Entretanto, sei que se o fizer, o foco da conversa mudará e poderá acabar não voltando.
— Ela foi muito bem tratada, não tem do que reclamar – Diz entre dentes – E, definitivamente, seu sentimentalismo me irrita as vezes.
— Você não entende, Tom. O que você fez...
— Não, eu não fiz nada além de garantir que meus comensais não tivessem motivos para questionar minha autoridade e métodos. Não se ganha uma guerra com misericórdia e bondade, Hermione. Erros precisam ser contornados da melhor forma possível para todos – Grunhe, para em seguida rosnar como um animal acuado.
De frente um para o outro, com Bichento zanzando entre nós, percebo o quão distantes estamos um do outro. E machuca, realmente machuca. É como se um milhão de abelhas picassem meu coração simultaneamente.
— Você ter a tirado de lá sem uma luta me impressionou – Fala secamente, pegando-me de surpresa – Contornar uma ordem direta minha não é aceitável... Mas, o fato de ser minha noiva te dá regalias, não é mesmo? Fico feliz por estar começando a usá-las.
— Não entendo por que você ficou impressionado, eu nunca deixaria minha amiga apodrecer em uma sala maldita sabendo onde ela está – Tento controlar minha raiva.
Seus olhos se conectam aos meus por vários segundos, mas nenhuma palavra sai. Ele desvia seu olhar para a janela ao nosso lado, escarando a escuridão noturna com pesar. Por estar de perfil, consigo ver o contorno todinho de sua mandíbula sendo apertada força, provavelmente tentando controlar a raiva.
— Não estou impressionado pela sua lealdade ao indefesos – Diz, voltando-se para mim. Um sorriso lateral desponta em seus lábios, mas não chega aos seus olhos – Mas, ter conseguido burlado uma ordem direta minha sem um duelo? É surpreendente, querida. Você é mais ardilosa do que se considera.
— Não ardilosa o suficiente para descobrir suas omissões – Sou ríspida.
Ele não me contradiz.
Dou um largo passo para frente, invadindo seu espaço. Tom abaixa seu rosto, quase tocando nossos nariz. Sua respiração quente se choca contra meu rosto, fecho os olhos. Inspiro seu cheiro profundamente.
— Como pode, Tom? Com tudo o que já passamos, como pode me enganar dessa forma? – Minha voz quebra no final.
Engulo em seco, com meu coração esmigalhado no peito.
— Hermione...
— Não, não quero saber – Passo a língua pelos lábios – Seriam mais mentiras, de qualquer forma.
Abro os olhos, vendo suas íris escurecem, tornando-se quase negras.
— É estúpido, mas eu sempre fico impressionado com o quão rápido você me crucifica – Diz, balançando a cabeça em indignação – Às vezes, chego a pensar que nosso relacionamento é formado por uma eterna competição para ver quem se fere mais – Escuto traços fortes de vulnerabilidade em sua voz.
Boquiaberta, praguejo baixinho algumas maldições.
Uma grande pontada de tristeza me atinge por causa de suas palavras sinceras. Respiro fundo diversas vezes para me acalmar. Mas, logo aterro a tristeza junto com todos os outros sentimentos impertinentes que querem vir à superfície.
— Minhas reações são reflexos das suas ações, Tom – Troco o peso dos pés, engolindo minha saliva ruidosamente – Não ouse tentar me fazer sentir culpa por abominar ações que me machucam.
Puxo as mangas da minha blusa para baixo, tentando cobrir as palmas de minhas mãos, sentindo a parte interna delas doerem por tê-las machucado com minhas unhas ao fechar as mãos em punhos.
— Meu dia foi uma merda, Hermione – Diz, girando o pescoço para os lados, tentando dissipar um pouco da tensão que emana de seu corpo – Preciso dormir.
— Você e Bellatrix continuam se vendo? – Pergunto de súbito, ignorando suas palavras propositalmente.
Ele enruga o nariz, confusão brilha em seus olhos pela mudança brusca de assunto.
— Não mais do que eu vejo qualquer um dos meus subordinados.
— Ela orquestrou um ataque a casa dos Lovegood’s – Digo, não escondendo minha raiva – Foi por ordens suas o ataque?
O lampejo de irritação é imediato.
— Não.
Travo minha atenção em seu rosto, buscando qualquer sinal de mentira. Ele permanece inalterável. É difícil dizer se estar mentindo ou não, mas decido lhe dar um voto de confiança.
— Então, ao que parece, burlar suas ordens é mais fácil do que você pensa – Digo de forma maldosa.
Seus olhos se estreitam e um vínculo se forma entre suas sobrancelhas. Atingi um ponto realmente pesado em sua armadura.
— O fato de não ter partido de você a ordem não me deixa aliviada – Olho para Bichento, vendo-o lamber sua calda peluda, alheio a nossa conversa – Ela é um problema, Tom, e me odeia mais do que tudo.
Suas mãos voam até meu rosto, segurando-o com delicadeza. Encaro seus olhos, nenhum pouco intimidada.
— Ela teve o que mereceu está noite.
— O que você quer dizer com isso?
Ele nada diz, apenas acaricia meu rosto com suavidade. Meu corpo corresponde ao seu toque inesperado de imediato. Sinto minhas pernas afracarem e meu coração disparar. Minha respiração falha, mas me obrigo a não fechar os olhos e me deixar levar.
— Tom, o que você...
— Ela ainda está viva, e é só isso que irei dizer, Hermione – Ele me dá um rápido beijo na testa e solta meu rosto, afastando-se.
Volto a fechar meus olhos, tentando encontrar um ponto em meus pensamentos que não tenha sido consumido por nossa conversa, por sua presença. Nada. Tudo em mim é sobre nós, ele, nossos filhos, nosso relacionamento, nosso futuro. Tudo é sobre nós.
Existe um nós?
— Eu sei sobre as horcruxes – Murmuro, sem saber ao certo por quê.
Minhas palavras o acertam com a mesma precisão de uma bala em linha reta. Mesmo de olhos fechados, percebo a mudança na atmosfera que nos cerca. Sua respiração se torna audível.
— O que? – Sua voz é confusa, urgente.
Abro os olhos, vendo-o se afastar ainda mais, cauteloso. Seu rosto é uma máscara mal disfarçada de incredulidade e dúvida.
— Do que você está falando?
É minha vez de desviar o olhar e encarar a escuridão da noite através da janela embaçada. Reprimo a vontade de revirar os olhos.
— Não minta, Tom – Aproximo meu corpo do vidro, colocando minha mão tremula nele, sentindo sua frieza mórbida contrastar com meu coração – Eu sei sobre as horcruxes.
Ouço seu corpo se mover com rapidez, e logo ele está ao meu lado. Sua postura é tensa, defensiva.
Volto-me para ele, esperando o confronto inevitável.
— Quem te contou? – A dureza em sua voz me irrita.
— Isso não importa – Não existe chance alguma de que eu conte sobre meu encontro com os meninos para ele – Por que dividir sua alma? Matar pessoas... Eu realmente não me surpreendo com isto vindo de você, mas... Sua alma? Tom, no que você estava pensando? Dividir a alma é uma atrocidade contra si mesmo.
— Sacrifícios devem ser feitos para se atingir os fins certos – Rebate de imediato, seus olhos presos em mim – Quem te contou, Hermione?
Cruzo os braços.
— Alguém que julgou que eu deveria saber – Empino o queixo.
Ouço o ranger de seus dentes, assim como vejo um lampejo vermelho atravessar seus olhos.
— Minha mente está indo por um caminho perigoso, Hermione – Ele rosna, abaixando sua cabeça, ficando com seu rosto quase colocado ao meu – Diga-me quem te disse. É uma ordem!
É minha vez de rir sem humor, transparecendo toda a minha indignação. Não me importo com o quão intrigada sobre o que lhe incomoda eu possa estar, suas palavras despertam o pior de mim.
— Você só pode estar brincando – É tudo o que digo, dando um passo para trás – Eu não ouvi isso, Tom.
Seus olhos se estreitam.
— Hermione.
Balanço a cabeça, desdenhando de seu tom autoritário.
— Irei dormir com meus filhos hoje – Comunico enquanto continuo a me afastar, andando para trás sem desviar minha atenção dele – Não voltaremos a ter está conversa até que você tenha entendido que eu não sou um de seus comensais. – Ele abre a boca para contestar, mas paro-o levantando minha mão em advertência – Você não manda em mim, Tom. E nunca mandará.
Dou-lhe as costas, deixando um Tom furioso e um Bichento completamente alheio ao que o cerca para trás.
[...] Dois Dias Depois [...]
Tamborilo meus dedos na superfície da mesa nervosamente, produzindo um som rítmico e impaciente. Com minhas pernas cruzadas na altura do tornozelo, balanço meu pé esquerdo de um lado para outro. É mais um indicativo de minha impaciência, mas também um tique nervoso.
Ainda não consigo acreditar que o sr. Lovegood me deixou entrar em sua casa sem nenhuma resistência, ou hostilidade. Quando bati em sua porta, com meu coração na boca, ele abriu uma pequena frecha, arregalou um pouco seus olhos e me deu passagem, após fechar a porta e destrancar várias fechaduras.
Suas roupas são uma mistura de tecidos grossos e leves muito interessante, com tons claros e quentes. Seu cabelo loiro platinado estar solto e emaranhado nas pontas. Sua aparência é cansada, mas não existe irritação com minha presença em suas feições. Surpresa sim, aversão não.
— Luna está limpando a neve de algumas mudas de ameixas dirigíveis, nos fundos da casa – Diz, à guia de explicação, fechando a porta vagarosamente enquanto esquadrilha o perímetro no lado de fora – Fico aliviado por você ter vindo sozinha.
Abro a boca, mas volto a fechá-la. Sem saber o que falar.
— Err, bom... Sou só eu.
Encolho meus ombros, me achando estúpida.
— Irei chamá-la – Ele encara-me atenção, medindo minhas feições – Você pode esperar lá em cima, na sala – Fala, após alguns segundos de um silêncio desconfortável.
— O-obrigada.
Xenofílio me dá as costas e vai embora sem dizer mais nada, sumindo por entre as várias quinquilharias que estão espalhadas pelos cantos. Me demoro alguns minutos, vendo os móveis curvados se encaixarem nos espaços circulares da casa peculiar.
Inspiro e expiro profundamente, e então, sigo pelos degraus da escada em caracol torcendo as mangas do meu cardigan preto.
E, aqui estou, esperando Luna nervosamente à mais de 10min.
Minha vinda foi planejada por mim, mas não comunicada a Tom. Não por receio dele tentar me impedir, e sim porque estamos nos evitando. Ele quer uma resposta para quem me contará sobre as horcruxes, e eu quero uma explicação para a criação delas. Uma explicação realmente digna.
Imortalidade? É isso? As mortes, a guerra, seu preconceito... Tudo se resume a sua ganância em ser eterno?
Com a chegada de seu aniversário, sei que não poderei permanecer o evitando por muito mais tempo. Não se eu não quiser deixar a data passar em branco.
Esfrego minhas têmporas com as pontas de meus dedos, sentindo o cansaço dos dois que se passaram sem que eu conseguisse dormir, cobrarem o seu preço. Um poderosa dor de cabeça dá sinais de que irá me acometer.
O barulho estridente da chaleira fervendo no primeiro andar é seguido por passos subindo a escada. Logo, Luna surge, usando seus brincos de asas de besouros e um vestido floral meio escondido por seu sobretudo azul marinho. Luvas grossas de couro de dragão vestem suas mãos.
— Hermione – Sua voz é acolhedora.
Levanto-me, unindo minhas mãos à frente do corpo.
— Oi, Luna – Murmuro sem jeito.
Luna retira as luvas de couro, jogando-as em cima de uma das poltronas da sala e vem em minha direção. Seus braços me encarceram assim que ela está a centímetros de mim.
Retribuo seu abraço com força, sentindo diversos cheiros florais, amadeirados e cítricos impregnados em seu corpo.
— Desculpe vim sem avisar, eu apenas pensei... – Respiro fundo quando nos afastamos, encarando seu rosto com apreensão – Bom, já se passaram dois dias.
Luna acena, abrindo um amplo sorriso.
— Fico feliz por você ter vindo – Diz, apontando para a poltrona onde antes eu estava sentada.
Volto a deixar meu corpo cair nela, aliviada. Um sorriso tímido, mas sincero desponta em meus lábios.
Sua aparência está saudável, com suas bochechas coradas pelo frio. Seus cabelos, mesmo soltos e um pouco bagunçados, estão sedosos e comportados. Seu peso ainda não foi reestabelecido por completo, mas ela não aparenta fragilidade.
— Fiquei com medo de você não me receber – Confesso, deixando minhas mãos caírem em meu colo.
— E por que eu faria isso? – Pergunta, movendo-se para longe de mim.
Luna retira o sobretudo e o deixa pendurado em um cabide de madeira preso a uma armação plástica na extremidade oposta de onde estou sentada. Ela torce seus fios dourados em um coque frouxe e os prende com uma liga que capturou de dentro da escrivaninha de seu pai.
— Bom, você sabe... Eu es-estou... Tom e eu, nós... Quero dizer, Voldemort e eu estive-estamos juntos – Corrijo-me, completamente desconcertada – Eu sinto tanto...
— Você precisa parar de se desculpar, Hermione – Me interrompe, suavemente – Não foi sua culpa.
Ela senta-se na poltrona de frente para mim, nenhum pouco abalada por minhas palavras atrapalhadas.
— Meu pai me disse que você veio me procurar quando desapareci – Comenta, com sua voz transbordando serenidade – Foi muito gentil da sua parte. Obrigada, Hermione.
Sorrio minimamente.
— Era o mínimo, Luna. E você não precisa agradecer – Passo a mão pelo rosto, mas logo volto a colocá-la em sua posição inicial – Bom, não tem como eu não me culpar. Sinto que seu sequestro foi, de alguma forma, minha culpa.
Ela balança a cabeça em negativa.
— Na verdade, eu não deveria estar lá, ao que parece – Fala, parecendo divagar um pouco – O que é irônico e estranho, mas... Bom, tudo na minha vida é.
Não é minha intenção fazê-la reviver seu sequestro, mas, minha curiosidade fala mais alto que meu bom senso.
— Por que você acha isso?
Ela encolhe um pouco os ombros, desviando sua atenção para o jarro ornamental de cerâmica em cima de uma estante de livros à nossa esquerda. Uma expressão perdida se instala em seu rosto, causando-me angústia.
— Se você não quiser, não precisa falar sobre isso – Apresso-me em dizer, sentindo-me horrível por trazer está expressão ao seu rosto – Não quero que você reviva o inferno que passou, Luna. Não foi para isso que vim, não é a minha intenção. Eu sinto...
Ela levanta a mão, pedindo silêncio.
— Quando fui levada, acordei em uma cela fria, úmida e mal iluminada – Começa, usando um tom apático que nunca ouvi sair de sua boca – Completamente sozinha, com apenas minha própria companhia para conversar – Ela pisca um pouco, parecendo tentar lembrar do máximo de detalhes possíveis – Não entendi muito bem o que tinha acontecido comigo... Até os gritos começarem.
Empertigo-me, sentindo minhas mãos começarem a suar.
— Não durou muito tempo até que Lucius Malfoy viesse me buscar – Revela, cruzando as pernas – Seu ar arrogante me lembrou muito Draco em meus primeiros anos em Hogwarts.
Meu coração dá um solavanco de imediato.
— Você foi torturada? – Minha voz sai baixa, temerosa.
Não, não, não.
— Não, eu não fui – Seus olhos vagam de volta para mim. Existe um quê de tristeza em suas íris, mas também uma grande determinação – Quando me levaram até o térreo, me deparei com dois comensais no chão sendo brutamente torturados pelo próprio Lord das Trevas. Os mesmo comensais que me capturaram no trem, Amico e Aleto Carrow – Ela volta a fitar o jarro, dessa vez franzindo a testa – O mais engraçado de tudo é que, meu primeiro pensamento vendo aquela cena foi: se ele tortura seus aliados dessa forma, o que fará comigo deverá ser duas vezes pior.
Contorço-me no assento, estarrecida por sua revelação.
— Luna, eu...
Ela se levanta, anda até a estante e capturando o jarro, trazendo-o para junto de seu corpo.
— Minha mãe fez este jarro pouco tempo antes de morrer – Declara, girando-o nas mãos – Sempre gostei dele.
— É lindo.
— Sim, muito lindo – Concorda.
Ela prende sua atenção nos detalhes florais do jarro, traçando com os dedos os contornos das flores desenhadas à mão com suavidade. É nítida sua veneração pelo objeto.
Minutos se passam como horas, nenhuma outra palavra é trocada.
— Ele é intimidante – Fala de surpresa, para minha total confusão.
— Perdão?
— E feroz também – Continua, voltando para a poltrona a passos lentos – Não só a aparência ofídica lhe confere ferocidade, mas também a forma como ele se comporta e olha para você... Fiquei aterrorizada com a presença dele. Sua aura sombria e imponente é sufocante – Ela se senta ereta, com o jarro apoiado em seu joelho direito – Bom, a cena em que nos encontrávamos também não ajudou em nada está primeira impressão.
Abro a boca, mas volto a fechá-la.
Tom, ela está falando de Tom.
— Quando percebeu minha presença, a tortura foi cessada – Continua, com a calma que só Luna demonstra ter – Ele me observou por um tempo, creio que debatendo se deveria me matar ou não – Ela dá de ombros – Essa foi a impressão que seus olhos vermelhos me davam enquanto ele me encarava. Sem misericórdia ou raiva, apenas um estranho vazio.
Não sei o que dizer, ou fazer. Tão simples quanto suas revelações estavam sendo, nenhum pedido de desculpas seria suficientemente simples para aplacar o inferno que sua captura proporcionara.
— Depois de se decidir por me deixar viva, ele se voltou para os comensais no chão e disse: este é o primeiro e último erro de vocês. Se houver uma próxima vez, não serei tão misericordioso.
Um repuxar em seus lábios me diz que ela não considerava a tortura um ato de misericórdia.
— E então, mandou Lucius me colocar na cela mais afastada das demais, sem nenhum contato com os outros presos. Os detalhes da minha estadia lá não foram discutidos na minha frente, apenas o local onde eu ficaria – Luna coloca o jarro no chão, ao lado de sua perna direita. Por uma fração de segundo, capturo um tremor em suas mãos – Não demorou muito para que eu percebesse que tinha um tratamento diferenciado dos demais. Comida três vezes ao dia, travesseiros e lençóis limpos para os dias frios, uma quantidade absurda de silêncio e muita, muita paz.
Encaro minhas mãos entrelaçadas em meu colo, percebendo só agora o quão brancas elas estavam pela forma como eu apertava-as uma na outra.
— Não estou falando isso para que se sinta culpada, Hermione – Diz, me fazendo ergue a cabeça para lhe encarar – Só quero que entenda que, tirando a presença esmagadora dele em meu primeiro dia lá, meu cárcere não foi tão ruim quanto os dos outros prisioneiros. Na verdade, os Carrow’s sofreram mais que eu – Ela tenta me tranquilizar com um sorriso afetado – Não que isso me alegre, mas... Poderia ter sido pior, sabe.
Sinto-me confusa e chocada pela forma como Luna tenta amenizar seu sequestro para mim. É como se ela não quisesse que eu me aborrecesse com a situação, sendo que quem deveria estar lhe confortando era eu. Quão louca e inacreditável a situação é?
— O mundo não te merece, Luna – Murmuro, fazendo-a unir as sobrancelhas – Você é boa demais para toda essa merda.
Boa demais para ser minha amiga, completo em pensamentos.
Uma risada suave escapa de seus lábios.
— Não é para tanto, Hermione.
Seus olhos demonstram conformidade, mas seu rosto ainda apresenta certos traços de seu cárcere. Como suas bochechas levemente fundas pela perca de peso, as olheiras suaves abaixo dos seus olhos e a palidez não tão acentuada agora.
— Me diga algumas coisas, por favor – Seu corpo se move para frente, como se o que ela fosse perguntar fosse um grande segredo.
Balanço a cabeça em concordância e me inclino em sua direção.
— Ele é o pai dos seus filhos, certo?
Aceno positivamente, sabendo que nunca conseguiria mentir a respeito disso. Se existe algo que nunca questionarei a Tom, é seu amor por nossos filhos. É mais que nítido.
— Você o ama? – Pergunta sem rodeios.
Não preciso pensar em uma resposta, é automático e indiscutível.
— Sim.
Ela não esboça nenhuma reação.
— Venho pensando muito em tudo que descobrir nos últimos dois dias – Revela, encarando-me fixamente, sem piscar – Quero entender suas motivações, Hermione. Não quero ser aquela que apenas julga os outros sem lhes dá a chance de se defender. Por favor, conte-me sua história.
É exatamente isso que faço.
E, pela primeira vez em muito tempo, conto a história completa. Sem rodeios ou mentiras, despejo tudo sobre seus ombros. Liberto-me dos segredos que há muito tempo acúmulo.
***
Deslizo pelo chão em uma coreografia desajeitada, me balançando para os lados e rindo como uma boba. Alya e Damon estão confortavelmente semissentados em um amontoado de almofadas no chão à minha frente, presos em um cercadinho improvisado. Vários ursinhos de pelúcia flutuando ao seu redor, simulando planetas rodopiando na orbita do sol, proporcionando uma diversão à parte. Nos poucos que se encontram nas almofadas, estão os dois Erumpentes que Luna fez.
Os dois seguem todos os meus movimentos com avidez, o que só me motiva a continuar com meu pequeno show particular. Rodopio com a graça de uma gazela manga, mas isso só me proporciona ainda mais felicidade.
Rio de minha própria falta de jeito para dançar.
Meu encontro com Luna foi esclarecedor e sincero, e a partir disso prometemos continuar nos comunicando por cartas, mesmo que não tão frequentemente como antes. Meu coração se encheu de uma esperança gostosa e aconchegante no momento em que sai de sua casa, poucas horas atrás.
— Au clair de la lune, mon ami Pierrot, Prête-moi ta plume, pour écrire un mot – Começo a cantar, um pouco fora do tom.
Vejo Alya balança suas perninhas e mãos no ritmo da música enquanto Damon segue meus movimentos desajeitados com a sombra de um sorriso no rosto.
— Ma chandelle est morte, je n'ai plus de feu. Ouvre-moi ta porte, pour l'amour de Dieu – Prossigo, um pouco tentada a rir de suas expressões admiradas, mas me sentindo muito orgulhosa de mim mesma por isso – Au clair de la lune, Pierrot répondit: Je n'ai pas de plume, je suis dans mon lit.
Eles se agitam, soltando barulhos que se assemelham a risadinhas. Seus olhos não se desgrudam de mim em nenhum momento.
— Va chez la voisine, je crois qu'elle y est, Car dans sa cuisine, on bat le briquet – Jogo meus cabelos por cima do ombro direito, rindo baixinho – Au clair de la lune, s'en fut Arlequin Frapper chez la brune. Elle répond soudain, Qui frappe de la sorte? Il dit à son tour: Ouvrez votre porte, pour le Dieu d'Amour!
O barulho de aparatação atrás de mim chega aos meus ouvidos, quebrando minha empolgação com o momento. Viro-me depressa, um pouco ofegante, só para contemplar Narcisa e Draco parados a poucos metros de mim.
Franzo a testa.
— Desculpe não termos anunciado nossa vinda – Narcisa apressasse em dizer, vindo em minha direção com Draco ao seu lado.
Ao se dar conta de que não estou sozinha na sala de estar, Narcisa estanca no lugar, enquanto Draco prossegue para mais perto de mim até perceber meus filhos. Seus olhos se arregalam de imediato e ele para. Rapidamente, Narcisa está ao seu lado.
— Merlin, isso são bebês!? – Pergunta, assombrado.
Reviro os olhos.
— “Isso” são meus filhos, e eu exijo respeito, Malfoy – Faço aspas com as mãos, demonstrando meu descontentamento.
— Draco, não seja indelicado – Repreende-lhe Narcisa.
— Seus filhos? – Sua incredulidade é verdadeira, e muito desconfortante – Merlin, então... Milord é o pai!?
Balanço a cabeça, confirmando.
Ele nada diz um por um tempo, apenas fica olhando de mim para os bebês, a testa franzida e a boca ligeiramente aberta.
Um assobio baixinho escapa de sua boca.
— Quem diria, hein! – Solta, dando de ombros com um sorrisinho zombador no rosto.
Meu primeiro instinto é lhe estuporar, mas antes que eu possa fazer isso, Narcisa toma à frente da situação.
— Hermione, nossa presença aqui não é para te irritar, e peço desculpas pelo comportamento infantil do meu filho – Ela lhe lança um olhar enviesado.
— Mãe!
— Calado, Draco.
Ele suspira, cruzando os braços.
Observo suas aparências aristocráticas por poucos segundos, vendo que suas vestes negras combinam em cor e refinação. Não existe qualquer animosidade em suas posturas desde que, há dois dias atrás, eu tenha ameaçado duelar com Narcisa em sua mansão para libertar Luna.
— Tom não estar – Informo friamente, voltando-me para os bebês, tentando esconder minha surpresa por vê-los ali.
A verdade é que, por essa estar sendo a primeira vez que os vejo desde o ocorrido, não sei bem como nossa relação está. Não que Draco e eu tenhamos uma relação, mas, Narcisa se tornou alguém que estimo, apesar dos pesares.
Abaixa-me para retirar das mãos de Alya alguns fiapos da costura solta de uma almofada próxima à suas mãozinhas nervosas.
— Sabemos disso – Ouço ela dizer tão claramente quanto ouço seus saltos se aproximando de mim – Queríamos falar com você, Hermione.
Draco pigarreia, para em seguida fingir uma tosse.
— Na verdade, Draco gostaria de falar com você – Se corrige, um pouco irritada percebo.
Um pequeno sorriso aparece em meus lábios. Levanto-me, encarando-os com sobriedade.
— O que você quer, Malfoy? – Pergunto, focando minha atenção nele.
Sua postura muda, tornando-se mais apreensiva e tensa.
Seus olhos se desviam para Narcisa, implorando para que ela nos deixe a sós. Com um punhado de palavras murmuradas em desacordo, ela me encara com apreensão.
— Vá em frente, tenho tudo sobre controle – Falo, sabendo que é minha permissão que ela quer.
Não minha permissão, na verdade. Mas sim saber se quero ficar a sós com Draco. Ela nos lança um olhar de advertência que só uma mãe poderia dar, beija rapidamente a testa de Alya e Damon, e sai sem olhar para trás.
— Eles são lindos, mas tem cara de joelho – Diz, assim que a porta é fechada.
Bufo.
— Espere até ter seus próprios filhos, Malfoy – Digo, para em seguida sorrir para os dois pedaços de mim que se entretinham agora com os vários ursinhos a sua volta – Duvido muito que dirá que seus filhos tenham cara de joelho.
Ele solta uma breve risada.
— Isso é verdade.
Me viro totalmente para ele, analisando suas feições. Tirando seu cabelo precisando de um corte, as olheiras profundas e a palidez já características, ele continua o mesmo.
— Por que veio, Draco? – É estranho chamá-lo pelo primeiro nome, mas não quero ser informal.
Ele se aproxima, parando ao meu lado, com sua atenção voltada para meus filhos.
— Foi complicado convencê-la a me trazer – Diz, apontando com o queixo para a porta – Minha mãe é uma mulher difícil de dobrar – Uma risada sem humor lhe escapa – Imagino que ela não quisesse que eu conhecesse seus filhos.
Dou de ombros.
— Não tenho vergonha de ser mãe, meus filhos não são um segredo.
— Mas?
— Tom é super protetor, e eu também sou. Não quero seus comensais envolta dos meus bebês.
Ele balança a cabeça em concordância.
Um silêncio confortável se instala. Logo, percebo que o quê capturou sua atenção em meus filhos não foi propriamente eles, mas sim os Erumpentes de retalhos que Luna fez. Alya está com o seu próximo a si, mas o de Damon jaz próximo à uma das extremidades do cercadinho de almofadas.
— Como ela está? – Pergunta baixinho, em um tom não característico de sua personalidade.
Não é preciso ser um gênio para entender de quem ele está perguntando. Sua paixão por Luna ficou mais que clara para mim.
— Na medida do possível, ela está bem – Respondo, abaixando-me para pegar o Erumpente de Damon – Luna é maravilhosa.
— Sim – Murmura baixinho.
Ele fica quieto, tão imóvel quanto uma estátua.
— Sua paixão por Luna vem de muito tempo?
Seus olhos se arregalam e um leve rubor toma conta de suas bochechas.
— Do que...?
— Não me tome por estúpida, Draco. Eu percebi o jeito como você agiu perto dela – Digo, sem rodeios – E, você vim aqui só para perguntar sobre ela é mais que o suficiente para que eu tenha certeza do que falo.
Ele suspira.
— Eu gostaria que ela fosse tão perspicaz em perceber isso quanto você – Seus ombros se encolhem.
Surpreendo-me com sua honestidade.
Merlin, ele está completamente arrebatado.
— Bom, às vezes, é preciso falar – Bato com meu ombro no dele de leve, atraindo sua atenção para mim – Você não tem uma boa fama, então, não pode culpá-la por não perceber.
— Eu sei, mas... Merlin, não sei como me aproximar, ainda mais depois... – Ele se cala, parecendo perde ainda mais a cor – Eu já fiz coisas horríveis – Confessa em um sussurro – Não tem como ela me aceitar.
— Você ficaria surpreendido se visse o quão incrível Luna é para aceitar pessoas quebradas.
Um brilho esperançoso arde em seus olhos, mas ele desvia sua atenção para a janela à nossa frente.
— Você não o matou.
Seu rosto se vira rapidamente para mim, com sua palidez se acentuando ainda mais e a boca ligeiramente entreaberta. Ele entende do que estou falando, e por isso, sofre.
— Você não queria e não matou Dumbledore, Draco – Falo, amaciando meu tom de voz por saber o quão delicado o assunto é.
Ele fecha sua boca em uma linha rígida e troca o peso dos pés.
— Não, eu não o matei – Diz entre dentes – Mas, fui eu quem o desarmou. Sou tão culpado quanto Severo – Suas mãos se fecham em punhos.
Quanto a isso, não tenho como argumentar.
— Milord não sabe que mamãe me trouxe aqui – Revela, mudando de assunto bruscamente – Eu agradeceria se você não contasse. Não creio que ele iria gostar disso e... – Ele coloca as mãos dentro dos bolsos frontais da calça – Não quero que ele se irrite com minha mãe.
— Não se preocupe, não contarei – Tranquilizo-o.
Minutos se passam e nenhuma palavra à mais é trocada entre nós. Ficamos apenas os dois parados, lado a lado, observando meus filhos brincarem com seus ursinhos.
Vez ou outra, pego Draco observando os Erumpentes com saudosismo, parecendo remoer algo internamente. É o suficiente para que eu saiba que ele reconhece os traços de Luna no brinquedo.
— Vi Luna hoje – Falo, atraindo sua atenção.
Ele me olha, suas íris clareando a ponto de ficarem quase azuis.
— Ela não me julgou por nenhuma das minha ações, apenas ficou lá parada, me escutando – Sorrio para ele, um sorriso pequeno e sincero – Se você realmente sente algo por ela, não se esconda, Draco. Luna é uma garota incrível que merece alguém que a ame. Se você acha que pode aceitá-la e a amar verdadeiramente, não se contenha. Mas, saiba que se você a machucar, eu vou te matar.
Ele tenta sorrir com deboche, mas existe uma grande gama de sentimentos pesados lhe sufocando.
— Obrigado, Hermione – Murmura tão baixo que quase não escuto.
E com isso, a conversa acaba.
[...] Quatro Dias Depois [...]
Então você nunca foi santo
E eu amei em tons errados
Nós aprendemos a viver com a dor
Mosaico de corações partidos
— Taylor Swift (State of Grace)
Olho para o presente embrulhado em papel laminado azul escuro em cima da cama com apreensão, não sabendo se é uma boa ideia lhe dar. Mesmo sendo uma data especial, Tom não é de se importar com seu aniversário, o que dificulta minhas boas intenções. Além do mais, mal nos falamos nos últimos dias.
Desde nossa discursão, não trocamos mais que duas ou três palavras, ficando pouquíssimo tempo no mesmo cômodo quando o outro estar. E, apesar de meu encontro com Luna ter sido esclarecedor e tranquilo, não consigo deixar está história para lá. Tampouco consigo desligar meus sentimentos em relação a ele. Nosso afastamento alto imposto me machuca, a ponto de ser fisicamente doloroso.
Aperto o nó do meu roupão com força, sentindo minha pele recém banhada grudar-se ao tecido. O cheiro dos sais de banho que coloquei na banheira incensam ao meu redor, impregnando meu olfato.
Suspiro, desviando minha atenção do objeto na cama.
Sigo até a penteadeira e pego a escova de cerdas macias, começando a escovar meu cabelo com calma. Logo, abandono o objeto de volto no lugar, seguindo até a closet para pegar minha camisola arrastando meus pés descalços pelo piso frio.
Antes de chegar ao meu destino, a porta de entrada é aberta. Tom passa por ela com rapidez, fechando-a com o pé, quase não notando minha presença. Mas, quando o faz, seu corpo trava no lugar. As bolsas embaixo de seus olhos me dizem que ele não dorme bem há dias.
Ele me avalia como uma peça rara e exótica que acabara de encontrar em um leilão, e um silêncio desconfortável se instala.
— Oi – Digo, sem conseguir me conter.
Meu Deus, como sou patética.
Mudo o peso dos pés e cruzo meus braços embaixo de meus seios, consciente de que estou praticamente nua, a não ser pelo roupão. Sinto minhas bochechas esquentarem.
Tom arqueia uma de suas sobrancelhas e um lado de seus lábios se ergue, achando graça de meu comportamento acanhado.
— Pensei que você estaria com os bebês – Diz, trabalhando nos botões dos punhos de sua caminha social negra, enquanto caminha em direção ao banheiro, sem se dar conta do presente em cima da cama – A meta de nos evitarmos acabou? Ou devemos continuar agindo como estranhos sob o mesmo teto? – Pergunta, parando na soleira do banheiro.
— Hoje é um dia especial – Movo-me com cautela em sua direção – Creio que devemos agir de acordo.
Uma risada baixa escapa de seus lábios.
— Meu aniversário, – Seus olhos transbordam diversão. Assim que termina com sua tarefa em seus punhos, se volta para os botões de sua camisa – Não é uma data especial, Hermione. Nunca foi – Ele é rápido com as mãos, revelando sua pele pálida.
Desvio o olhar, tentando não me focar no fato de que ele está se despindo à minha frente. Eu seria uma grande mentirosa se dissesse que não sinto falta de ter seu corpo grudado ao meu.
— Não penso assim.
Um barulho de discordância escapa de sua garganta.
— O que tem no embrulho? – Pergunta, me fazendo voltar minha atenção para ele.
Sorrio.
— Não é nada tão caro quanto os presentes que você me deu, mas creio que você gostará – Digo, sorrindo abertamente – E, fui eu que fiz!
Corro até a cama e pego o embrulho de tamanho médio, voltando-me para ele a tempo de vê-lo jogar sua caminha em cima de uma das poltronas do quarto. Seus músculos se flexionam com o ato, engulo em seco.
Pigarreio, tentando clarear minhas próprias ideias.
Caminho até o mesmo, segurando o presente junto ao corpo como um escudo. Um sorriso tímido congela em meu rosto.
— Eu realmente espero que você goste – Estendo o embrulho para ele, que o olha com curiosidade
Tom segura-o, mas seus olhos estão focados em mim.
— Vamos, é só desembrulhar – Incentivo.
Seu sorriso sacana aparece de imediato.
— A única coisa que quero desembrulhar é você desse roupão, querida – Fala, cheio de luxuria.
Meu rubor se espalha por todo o meu rosto, descendo pelo meu pescoço. Vejo Tom depositar a caixa em cima do encosto do sofá, voltando-se para mim com determinação brilhando em seus olhos.
— Tom!
Ele ri, aproximando-se predatoriamente. Quero recuar, mas ao menos tempo estou estática no lugar, ansiosa pelo que virá a seguir.
— O que...? Você não vai... – Me calo.
Seus dedos tocam meu rosto, especificamente, minha bochecha vermelha e quente. Ele traz seu rosto para perto do meu, inspirando profundamente meu cheiro. Minhas pernas fraquejam, meu coração dispara e sinto um retorcer gostoso em meu baixo ventre. Sinais claros do quanto o desejo.
— Eu amo quanto você fica assim – Seu hálito quente bate contra minha face, produzindo uma poderosa onda de desejo em meu baixo ventre.
Suprimo um suspiro de apreciação.
— Eu não... Nós não devíamos... Isso é...
— Shii! – Ele coloca um dedo em minha boca, pedindo silêncio – Hoje é meu aniversário, querida. E como manda as leis do universo, nesta dada você deve fazer tudo o que eu quiser – Sua mão escorre para o meu pescoço, aonde ele segura minha nuca e me puxa para mais perto de si.
Sorrio, achando sua audácia engraçada.
— É mesmo? – Murmuro, com a ponta de nossos narizes quase se tocando.
Ele balança a cabeça afirmativamente e então, sua boca cobre a minha.
Envolvo seu pescoço com meus braços, colocando-me na ponta dos pés. Sua língua escorre para dentro de minha boca com facilidade, enroscando-se na minha.
Entrego-me ao beijo mesmo sabendo que é errado, que o momento pede uma abordagem mais dura da minha parte. No entanto, meu corpo não segue meu cérebro. Deixo-me levar pelo amor incurável que sentimos e, acima de tudo, pelo nosso desejo obsoleto: uma emoção que ultrapassou as barreiras do tempo, e que nunca se tornará verdadeiramente antiquada.
[...] Duas Semanas Depois [...]
Isso é um estado de graça
Esta é uma briga que vale a pena
O amor é um jogo cruel
A não ser que você o jogue bem e direito
— Taylor Swift (State of Grace)
Pouco tempo depois das 09hrs da manhã, arregaço as mangas de minha blusa branca de seda, entrando na cozinha sentindo o cheiro adocicado de bolo assando. Encontro Mirdy polvilhando bolinhos de canela com açúcar. Instantaneamente, minha boca se enche de água.
— Que cheiro maravilhoso, Mirdy – Elogio, aproximando-me da grande mesa disposta com vários ingredientes e frutas – Você precisa de ajuda com algo?
Ela sorri para mim enquanto puxo uma cadeira e me sento.
— Mirdy está fazendo várias guloseimas deliciosas para o chá da tarde com a sra. Lovegood – Ela me estende um bolinho, que pego sem pestanejar – E, Mirdy não precisa de auxílio, senhora. Mirdy tem tudo sob controle – Diz, orgulhosa disso.
Meneio a cabeça em concordância.
Quando recebi uma carta de Luna, dois dias atrás, pedindo para vim visitar meus filhos, quase surtei de ansiedade. Mas, agora o que me resta é apenas a mais genuína felicidade.
— Está uma delícia – Digo, após morde o doce e sentir a explosiva combinação de sabores – Você é uma excelente cozinheira, Mirdy. Temos muita sorte em te ter conosco.
Seus olhos marejam quase que instantaneamente.
— Mirdy agradece todos os dias por ter senhores tão bons – Murmura, com sua voz afetada por várias emoções, sendo a maior refletida em seu rosto: gratidão.
Levanto-me, pronta para lhe abraçar. Mas, antes de concluir meu desejo, sons de conversas exaltadas chegam até mim no mesmo instante que barulhos de aparatações é escutado.
Antes que possa pensar, meu corpo está agindo. Corro para onde o som das vozes vem, meu coração disparando no peito.
Entro no escritório de Tom sem bater, encontrando Morgana e Tom parados um de frente para o outro, olhando-se com hostilidade. Quando percebem minha presença, se calam.
— O que está acontecendo? – Pergunto, tendo apenas o silêncio como resposta – Vamos, me digam! – Exijo.
Tom suspira.
— Você não vai querer se envolver nisso – Grunhe, passando as mãos pelos cabelos enquanto segue para o aparador e se serve de uma dose de Whisky de Fogo.
Morgana balança a cabeça em discordância.
— Ela merece saber – Diz, olhando para Tom com determinação.
Caminho até o centro da sala, ficando entre os dois.
— Conte-me, Morgana.
— Não – A ferocidade do rosnado de Tom me assusta – Deixe-a fora disso, Lefay – Seu timbre é de alerta.
Ela joga as mãos para cima, parecendo aceitar a derrota. Morgana dar-nos as costas e caminha até a poltrona mais próxima, jogando-se na mesma.
Caminho até Tom, com meus punhos cerrados.
— Maldição, Tom! – Explodo, enraivecida com seus atos excludentes – Você não cansa de ser um babaca, não é? Um maldito egoísta, que não se importa com nada além de si mesmo – Coloco meu dedo em seu peito, recebendo um olhar mortífero em resposta – Pelo menos, uma vez na sua vida, seja sincero comigo. Uma. Única. Maldita. Vez – Grito.
Ele dá um passo para trás, os olhos queimando em raiva e, sem aviso prévio, joga o copo em suas mãos contra a parede, espatifando-o em centenas de pedacinhos.
— Você quer a verdade, querida? Toda a verdade? – Pergunta, sua voz transbordando descontrole e veneno – A verdade é que seus malditos amiguinhos conseguiram roubar mais uma de minhas horcruxes e estão a um passo de me destruir – Diz, com sua voz alterada.
Pisco, compreendendo suas palavras e implicações.
— Como...?
— E se não bastasse, – Seus olhos se voltam para Morgana, que arqueia uma de suas sobrancelhas – Você me aparece para tripudiar, não é?
Ela se levanta, com elegância e suavidade. Estou tão estarrecida, que minha única reação e observar o que acontece a minha volta como uma espectadora petrificada.
— Na verdade, era exatamente está a minha intenção – Ela sorrir cinicamente, fazendo Tom ranger os dentes em fúria – Eu vim te dizer com toda a minha humildade que, meus conselhos e opiniões devem ser levados a sérios, pois não sou qualquer uma, Riddle. Na escola da vida, você é apenas mais um aluno para mim.
O crucius que sai de imediato de sua varinha vai em direção à Morgana. Grito em pânico, mas isso só a faz alargar seu sorriso ainda mais. O feitiço passa por seu corpo translucido e atinge a mesa atrás de si, jogando-a contra a parede. Seus pedaços voam pelo cômodo.
— Tom! – Agarro seu braço, colocando meu corpo grudado na lateral do seu, tentando impedir mais movimentos dele. Sinto sua fúria emanar de todos os seus poros – Pelo amor de Merlin, você não pode...
— Não seja estraga prazeres, Hermione – A voz divertida de Morgana chega aos meus ouvidos – Ele está apenas extravasando suas emoções. Não se contenha, Tom. Vamos, ataque-me! Bons meninos não vão para o paraíso. Não o paraíso divertido, pelo menos.
Ela ri de forma maldosa.
— Cale-se, Morgana – Grunho, sabendo que ela só quer provocar e descontrolar Tom ainda mais.
Ele tenta se desvencilhar de meu aperto, mas me mantenho firme.
— Solte-me, Hermione.
— Não.
Sua mandíbula está travada e seus olhos avermelhados. Tudo nele emana perigo e loucura. E sei, mesmo sem que ele fale, que isto é provocado pelo medo de morrer.
— Por favor, Tom – Imploro, buscando entrar em sua armadura – Não ceda as provocações dela, fique comigo.
Seus olhos se prendem aos meus.
Sua boca forma uma linha fina e existe tanta fúria dentro de suas orbes, que tenho dificuldades em lhe alcançar.
— Vocês podem ser bem sem graça quando querem – Ela diz, atraindo nossa atenção para si.
Em um rápido gesto dela, dois objetos aparecem em suas mãos, travando o corpo de Tom. Seus olhos se focam em Morgana como se nunca a tivesse visto antes.
— Como?
Um sorriso zombador aparece em seus lábios.
— É muito simples, meu caro – Morgana deposita os objetos na mesa e volta a se sentar – Instrui Draco a capturar a que estava em Hogwarts e fiz Bellatrix retirar o outro do cofre.
Franzo a testa, encarando o diadema e a taça sem compreender suas palavras.
— Do que vocês estão falando? – Pergunto diretamente para Tom, só me tocando agora que a tensão de seu corpo se dissipou – Tom? – Seu rosto está relaxado, seus olhos voltaram ao azul tempestuoso.
A mudança em sua postura é radical.
— São minhas horcruxes – Fala enquanto caminha até elas, quase me arrastando junto no processo.
Fico parada no lugar, vendo-o depositar sua varinha ao lado dos objetos e os tocar, parecendo fascinado com o que sente ali.
Morgana me lança um olhar encorajador, incentivando-me a me aproximar dos pedaços da alma de Tom. Movida por curiosidade, me deixo levar.
Aproximo a passos lentos até parar ao lado de Tom, ficando entre ele e Morgana. Ele não percebe minha aproximação, absolvido demais com os objetos. Avalio as horcruxes com interesse, não percebendo nada de diferente à princípio. Logo, uma poderosa onda de magia me envolve, puxando-me para perto dos objetos. É poder, é magia negra.
Recuo de imediato, ciente de que se ficar serei tragada para o que quer que seja que a magia cause.
Morgana se afasta, mas antes, aponta discretamente com a cabeça para onde a varinha de Tom repousa. Ele está tão concentrando em suas horcruxes, que não percebe o gesto.
Uno minhas sobrancelhas em confusão, fazendo como o indicado. A primeira percepção me abate como um tornado.
O que...? Essa não é a varinha de Tom.
Sendo de madeira de sabugueiro e com 38cm, definitivamente aquela não é a varinha de Tom. Sua varinha mesmo é feita de teixo, com 34cm e sendo quase como um osso esculpido.
Os detalhes esculpidos na madeira me chamam a atenção, causando-me uma forte sensação de já ter visto aquela varinha antes.
Olho para Morgana em busca de explicação. Ela sorrir de lado, mas não me explica nada.
— Ficarei com as horcruxes a partir de agora, Riddle – Diz, tirando-o do transe – Quando a guerra acabar, te devolverei elas são e salvas, não se preocupe.
Tom se volta para ela, pronto para discordar, mas Morgana simplesmente desaparece, levando consigo as duas horcruxes.
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Seu apoio é fundamental. Torne-se um herói!A série de xingamentos que escapa de sua boca é pesada. Mas não me importo, apenas fico ali parada, encarando a varinha que sei que não é dele em cima da mesa. Quando a resposta estala em minha mente ofego.
Tom me encara, percebendo de imediato que minha atenção está dividida entre ele e a varinha. Sua mente é rápida para se tocar que eu sei que a varinha não é dele. Um vínculo se forma em sua testa.
— Antes que você comece, quero deixar bem claro que a varinha é quase minha agora – Diz, agarrando-a e a colocando no coldre de suas roupas – Dumbledore morreu e, por tanto, a lealdade desta varinha passa para quem o desarmou e assim sucessivamente.
— Você invadiu seu túmulo... – Não é uma pergunta.
Seus olhos não refletem arrependimento, mas isso não me choca por completo. Juntando as informações, algo se sobressai em relação ao meu assombro por minha mais nova descoberta.
— O que você quis dizer com a lealdade passa para quem o desarmou?
Ele caminha até o aparador, servindo-se de mais uma dose de whisky.
— Está é a varinha das varinhas, Hermione.
Minha boca vai ao chão enquanto minha cabeça gira, absolvendo as informações com lentidão.
— O que?
Ele solve o líquido em uma golada só, parecendo tentar adiar está conversa.
— A varinha das varinhas é um dos artefatos mais poderosos que existem – Começa, focando em mim – Ela não pode ser destruída ou quebrada, por isso, sua lealdade é passada para aquele que desarma seu dono em um duelo. De Grindelwald passou para Dumbledore, e de Dumbledore passou para Severo, e agora eu...
— Draco – Corrijo-o automaticamente.
Ele estreita os olhos.
— Como?
Dou de ombros.
— Severo pode ter matado Alvo, mas quem o desarmou foi Draco – Falo, conseguindo não transparecer meu desconforto com o assunto.
Não quero tratar a morte de meu antigo professor como uma trivialidade, mas sei que se demonstrar pesar por ela, Tom pode se desviar do assunto principal.
Em um piscar de olhos, Tom está à minha frente, segurando meus ombros com força.
— Você tem certeza disso? – Pergunta entre dentes, com sua fúria reacendida.
Não percebo meu erro até que seja tarde.
— Morgana estava lá quando... Bom, você sabe – Engulo em seco, não querendo reviver os detalhes que ela me contará sobre a morte dele – Ela viu quando Draco o desarmou.
Ele se afasta de mim tão rápido quanto se aproximara. Uma nova aura de perigo lhe envolve, dessa vez não existe medo junto com ela, apenas o mais completo ódio.
— Filho da puta! – Rosna, pegando-me de surpresa.
Dou um passo para trás.
— Do que...?
A porta é aberta em um rompente, uma Narcisa desgrenhada passa por ela completamente desnorteada e esbaforida. Ela não parece notar Tom na sala, concentrada somente em mim.
— Hermione, eu sinto muito, eu sinto muito – Sua voz é frenética e urgente – Eu não sei como isso aconteceu, realmente não sei. Mas, não foi minha culpa.
— Não entendo... – Pisco, notando que ela amassa entre as mãos uma edição do Profeta Diário.
Tom invade seu campo de visão, parando ao meu lado.
— Do que você está falando, Narcisa? – Pergunta rudemente.
Ela, notando sua presença, faz uma referência rápida e desequilibrada, quase caindo pela perca de equilíbrio.
— Merlin! – Murmura, ajeitando a postura.
Tom e eu nos entreolhamos, ele irritado e eu ansiosa com o que ela tinha a dizer.
— Narcisa, eu não compreendo – Volto a falar – Qual o problema?
Ela estende o Profeta Diário para nós sem dizer uma palavra. Tom pega-o antes de mim, folheando-o com rapidez. Irrito-me com sua falta de educação, mas antes que eu possa verbalizar meu descontentamento, a manchete da capa do jornal atinge-me em cheio.
É como se tivesse me dado um soco no estômago, perco o ar de meus pulmões.
Com as mãos tremulas, agarro o papel por cima das mãos de Tom, trazendo-o para mais perto de meu rosto mesmo com a resistência de suas mãos. Não vejo sua reação ao ver a manchete que estampa a primeira página, mas sei que é tão ruim quanto a minha.
TRAIDORA DO SÉCULO!
Hermione Rosier Black, antigamente conhecida como Hermione Jean Granger, a ex-melhor amiga de Harry Potter, é a filha não perdida de Bellatrix Lestrange e Sirius Black. E se já não bastasse está reviravolta do destino, meus caros leitores, a dita cuja está noiva de ninguém mais, ninguém menos que Lord Voldemort.
Para mais informações, consultar a página 08.
Estas são as mãos do destino, você é meu calcanhar de Aquiles.
— Taylor Swif
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