Desire Obsolete
67 Epílogo
Notas iniciais

Eu sinto a névoa de lavanda rastejando em mim
Surreal
Eu estaria condenada se ligasse
Para o que as pessoas dizem de mim
Lavender Haze – Taylor Swift
Eu odiei meu reflexo por anos e anos.
No fim, ninguém está pronto para dizer adeus, e eu nunca gostei de despedidas. Mas esta é sem dúvidas a mais dolorosa de todas. E a última que farei.
Houve resistência, lutas, mortes e uma grande quantidade de ódio. A calma não veio após a tempestade como as pessoas costumam dizer. Aurores, alunos, professores, civis, ninguém ficou neutro. Lados foram escolhidos, vidas foram perdidas. Se eu me arrependo de algo? Provavelmente. Se eu me arrependo do resultado final? Não. É a coisa mais egoísta que já admiti, mas é a verdade.
E estou em paz com minha consciência há anos.
— Você ainda não soltou meu rosto, mamãe. – Diz uma vozinha irritada, ligeiramente abafada por eu estar pressionando suas bochechas com força.
Um pequeno sorriso se forma em meus lábios. Agora, sorrisos são raros em meus lábios, mas tão verdadeiros quanto o amor em meu coração.
— É porque você é muito fofo. – Ele odeia termos carinhos, o que só torna sua cara emburrada ainda mais cômica. – E eu te amo demais.
Saio de meu estado ajoelhado, voltando a endireitar minha postura. Damon massageia suas bochechas avermelhadas. Seus cabelos negros são cortados mais baixo nas laterais, ligeiramente jogados para a esquerda de forma bagunçada.
— Também te amo, mãe. Mas não precisa me amassar para provar seu amor. – Argumenta, incomodado. – Não sou um pão, ou bichinho de pelúcia.
Apenas alargo meu sorriso.
Quase uma cópia do pai, não deixo de pensar.
— Onde está a sua irmã?
Ele é um menino alto para sua idade, logo me alcançará em altura e, posteriormente, ultrapassará. Sua irmã, por outro lado, é bons 5cm mais baixa, o que o faz implicar com ela constantemente. As paredes da mansão quase vão abaixo quando eles resolvem se desentender, o que frequentemente me faz agir como apaziguadora.
— Biblioteca. – Fala, jogando-se na poltrona. Ele gira sua varinha de núcleo de Coração de Dragão entre os dedos, encarando o objeto com interesse. – Estou impaciente.
— E isso seria uma novidade por quê?
Ele sorri, a cópia fiel do sorriso sarcástico de Tom.
— Touché, mamãe.
Pisco para ele, suprimindo minha risada. Às vezes, é difícil saber o que se passa em sua mente, mas na maioria dos casos só me basta acreditar que há o melhor de mim e de Tom dentro dele.
— Vá chamar Alya, querido. – Peço, caminhando até o aparador da grande sala, pegando minha carteira de mão. – Se nos atrasarmos seu pai ficará irritado.
Resmungando, ele faz como pedido.
Mesmo sendo uma mini cópia de Tom na aparência, e incluindo a personalidade taciturna, fria e ligeiramente manipuladora, Damon é brincalhão, carinho e muito protetor. Eu diria que ele é uma mistura realmente empolgante de Tom e eu. Ao contrário de Alya, que tende a ser menos sociável que o irmão. Ela herdou os olhos de Tom e sua palidez, mas os cabelos achocolatados e o formato do rosto e nariz são meus. Sua personalidade pode ser explosiva quando contrariada, mas ela é reservada o suficiente para não deixar transparecer. Assim como seu irmão, é uma garota protetora e muito carinhosa com quem ama. E igualmente manipuladora e sarcástica. Não tenho dúvidas para qual casa irão.
Os dois herdaram nossa paixão por livros, sendo Alya a mais inclinada há se enterrar na leitura por dias à fio do que seu irmão. No entanto, o interessante e o gosto por esportes que Damon adquiriu desde os 6 anos por esportes ainda não entendemos de quem ele herdou, mas a verdade é que ele prefere atividades ao ar livre mais do que qualquer um em nossa casa. Isso sempre me intrigou.
Os dois podem ser diferentes em alguns aspectos, mas são muito unidos. Eles costumam dizer que por serem gêmeos, tem uma ligação especial. Isso sempre aquece meu coração. E foi meu amor por eles que não me permitiu desistir em nenhum momento.
Os pesadelos com a morte de Bellatrix ainda me assombram de vez em quando, mas não o suficiente para que haja arrependimento. Não mais, pelo menos. Eu acredito no poder do amor, acredito no quão forte uma família unida é, e por isso, eu agi como agi. Dou minha vida pelo que hoje tenho. Não busco o perdão de ninguém mais, ou a compreensão. Apenas tento manter a salvo a pequena luz que sei que ainda possuo da jovem criança que andou pelos corredores de Hogwarts. É difícil, alguns dias mais que outros, mas faço o meu melhor.
Olhando para trás, percebo que fui uma grande peça em um emaranhado de erros. Não meus, e não de Tom, mas sim de terceiros. Estou onde estou por escolha sim, isso não posso negar. Mas, minhas escolhas foram geradas através de atitudes dependentes de ocasiões orquestradas por Morgana. Sei que sou julgada por egoísmo, e isto não me incomoda. Não mais, pelo menos. Este é o meu adeus, o fim da minha jornada.
Se deseja saber como tudo acaba, é por sua conta e risco. Apenas um spoiler, caro leitor:
Meu Desejo Obsoleto por Tom não nos deu um conto de fadas.
[...] 2 de maio de 1998 [...]
Eu morri todos os dias esperando você
Querida não tenha medo
Eu te amei por mil anos
Eu te amarei por mais mil
A Thousand Years – Christina Perri
Desaparatamos próximos ao Lago Negro, distantes o suficiente do caos. Feitiços ricocheteiam à nossa frente, destruindo tudo que se colocasse em seu caminho. Fumaça, sangue, gritos e destruição é tudo que consigo ver. Minha garganta se aperta, comprimida pela dor do que estou presenciando.
Hogwarts, meu lar por tantos anos, rebaixada há um campo de guerra...
— Precisamos ser rápidos, não era para estarmos aqui. – A voz urgente de Draco me desperta de meu estado estarrecido. – Temos que achá-la logo.
Balanço a cabeça mecanicamente em concordância.
Luna, estamos aqui por Luna.
— Por onde começamos? – Ele me pergunta, encarando o caos à nossa volta com seus olhos cinzentos arregalados. – Merda! – Solta, me fazendo encará-lo com uma das sobrancelhas erguidas.
— Você não pode ser reconhecida, Hermione. – Draco garante, realmente preocupado. – Você é valiosa demais! Se a pessoa errada te reconhecer e capturar, você se tornará uma moeda de troca, e eu um cadáver! Milord me mataria antes mesmo que eu pudesse explicar a situação.
Reviro meus olhos, mas em parte concordo com ele.
— Fique ao meu lado, quieto e não se distraia, Draco. – Uso meu melhor tom mandão. Pego minha varinha de meu coldre na cintura. – Cave inimicum. Protego Horribilis. Protego Totalum. Protego Maxima. Protego Duo. Salvio hexia
Coloco minhas mãos em conchas, fecho meus olhos e trago a imagem de Luna à minha mente. Seus cabelos longos e loiros, seus olhos azuis cristalinos e sua voz calma e tranquilizadora. Os barulhos, cheiros e gritos me desconcentram, mas trabalho minha mente como Morgana me ensinou. Concentração. Visualização. Atenção.
— Hermione...
Imagens borradas começam a se forma. Silhuetas. Três pessoas, uma parece está sentada. O lugar é escuro, mas distingo formas.
Parecem cadeiras, ou seriam mesas?
Fecho meus olhos com ainda mais força, tentando descobrir o local. A veia em minha testa começa a pulsar. Consigo perceber janelas altas e também uma sacada. Não posso escutar o que dizem, mas consigo distinguir as posturas agressivas contra a pessoa sentada.
Vamos lá, vamos lá... Funciona!
Sinto algo escorrer do meu nariz quando a pulsação em minha veia se espalha por toda a minha fronte. Sangue.
— Hermione, o que...?
— Silêncio, Draco.
Travo minha mandíbula à medida que a dor aumenta.
— Merlin, Milord vai me matar! – Ouço seu sussurro amedrontado. – Acho melhor...
Caio de joelhos, segurando minha cabeça com força. A dor é insuportável, me faz querer gritar. Mas a escuridão começa a ficar mais clara, ganhando foco.
— Merlin, Hermione! – Draco agarra meus ombros, tentando me amparar. – O que está acontecendo? Merda, já chega! Vamos embora daqui. Eu voltarei sozinho para procurá-la e a levarei até sua mansão. Se algo te acontecer...
O feitiço que estou usando é complexo, diferente de tudo que já fiz. Foi o último ensinamento de Lefay, e veio com dois grandes avisos: só se pode usar uma vez e apenas em extrema necessidade. Até mesmo a magia celta tem seus limites. E quando eles são ultrapassados, o preço é alto demais.
Com a respiração acelerada, o coração disparado e um forte gosto de sangue na boca, distingo telescópios no lugar onde estão e, então, estantes de livros. O estalo da descoberta é certeiro e me abate em cheio. Todas as cenas borradas entram em foco.
— Ela está na Torre de Astronomia, – Resmungo com dificuldade, respirando fundo. Algo escorre de meu nariz e antes de limpá-lo, sei que é sangue que encontrarei ali. – Gina, Cho, Parvati e Padma estão com ela. – O sabor agridoce da raiva é tão grande que mordo meu lábio inferior.
Draco me ajuda a levantar com seus olhos cinzentos arregalados.
— Eu irei libertá-la, enquanto isso eu prefiro que você volte...
— Não, eu irei. – Corto-o friamente, pegando o mesmo de surpresa. – Ela está lá por minha causa, eu a salvarei.
— Hermione, você não está...
— Vá até Tom e diga a ele onde estou e que nos encontramos quando tudo isso acabar.
Não espero uma resposta sua, simplesmente desapareço como um sopro de ar, usando o mesmo molde de aparatação que já vi Morgana usar tantas e tantas vezes. Como as barreiras de proteção do castelo caíram, minha travessia ao meu destino é rápida.
***
É tão engraçado tentar explicar
Como estou me sentindo, a culpa é do meu orgulho
Porque eu sei que não entendo
Como seu amor pode fazer o que ninguém mais pode
Crazy In Love (Remix) – Beyoncé
Engulo a bile que sobe por minha garganta quando firmo meus pés embaixo da escada que me levaria ao pavimento em que Luna está sendo mantida. Não dei chances de Draco me seguir, pois sei que essa batalha devo travar sozinha. Foram minhas escolhas que me trouxeram aonde estou agora, e serão elas que enceraram esse ciclo da minha vida.
Já não sou quem um dia fui.
E por mais que eu queira me agarrar a garota de bom coração que foi mandada ao passado por Morgana, ela não existe mais. Passo a passo, minhas atitudes e o amor obsoleto – fora de moda, que Tom e eu construímos, matou aquela garota. Hoje, sou mãe, amante, mulher e amiga. E nenhuma das minhas autonominações está feliz com as garotas acima de mim.
— Você tem certeza que ela virá? – Ouço Parvati perguntar, soando apreensiva.
Passos são ouvidos por mim, parecendo apressados em seu vai e vem sem cadência. Poeira cai das brechas das tábuas e quase me fazem espirrar. Separo meus pés, agarro minha varinha, apertando-a com força entre meus dedos e me preparo para o confronto inevitável.
— Sim, ela virá. – É Gina quem responde, usando um tom tão cortante que posso sentir sua ira de onde estou. Arrepio-me. – Quando o noivado foi exposto, tudo fez sentido. Foi como uma luz se iluminando sobre minha cabeça. – Ela diz, a guia de explicação. Claramente vejo em minha mente aonde seus pensamentos a estão levando. – Luna não voltou para Hogwarts após ser pega no trem, e eu soube que seu tratamento na Mansão Malfoy foi diferente dos demais. Seus captores foram repreendidos pelo próprio Voldemort por terem sequestrado ela.
Arfares surpresos são lançados, suas mentes sendo clareadas por uma verdade turva.
Uma tentativa murmurada de palavras chega até mim, e não é preciso muito para que eu entenda que Luna está consciente e impossibilitada de falar. Meu sangue pulsa mais rápido, trazendo raiva as minhas veias. Sei de sua posição sentada diante delas graças ao feitiço que usei antes de aparatar para cá, e isso me dá uma boa vantagem.
— Você se vendeu para o inimigo, Lovegood. – Padma cospe as palavras com asco. – Como pode fazer isso conosco? Sua vadia traidora.
Um som estalado chega até mim, partindo meu coração em mil pedaços.
Ela realmente bateu em Luna... Constato, agoniada e furiosa. Minhas mãos começam a tremer, meu coração a retumbar em meus ouvidos. O gosto amargo da vingança chega ao meu paladar. Sinto calafrios cobrirem meu corpo, os mesmo que me fizeram tirar a vida da mulher que me deu a vida.
— Mas... Por qual motivo? Não faz sentido. – Cho questiona, parecendo incrédula.
— O que te ofereceram para nos trair, hein? Dinheiro? Poder? Uma posição respeitável para aquela revista decadente do seu pai? – Parvati ri em zombaria. – Garota burra, eles não se importam com pessoas como você e seu pai. Vermes tem mais importância para Você Sabe Quem do que vocês.
Luna tenta falar mais uma vez, mas apenas sons desconexos e murmurados escapam do que quer que estejam usando para calá-la.
Ela não merece isso, é tudo o que consigo pensar antes de me materializar ao lado da cadeira que vi em minha visão onde prendiam minha única amiga.
— Você está certa, Cho, não faz sentido. – Minha voz é tão fria e dura que não me reconheço nela. E gosto disso. – Luna não é uma traidora, eu sim.
Gritos são suprimidos, varinhas são erguidas e apontadas para mim. Mantenho minha mão com minha varinha descansando ao lado do meu corpo.
— Sua traidora maldita! – Ginevra grita, lançando o primeiro feitiço da noite sem nem ao menos esperar mais palavras serem trocadas.
Dispenso seu estupefaça com um balançar de mão. Olhá-las, com seus uniformes amarrotados, rostos cansados e empoeirados deveria me deixar mal. Mas, simplesmente não consigo sentir nada.
— Sequestrar a única pessoa que tentou se manter à margem desta guerra foi um golpe baixo. Algo que era esperado de Tom, não de vocês, os politicamente corretos. – Comento, passando meus dedos pelo encosto da cadeira de madeira em que Luna estava sendo mantida.
Inspeciono seus ferimentos, vendo um corte em sua têmpora com sangue já seco sujando metade do lado esquerdo do seu rosto. Existe outro corte em seu lábio também e a parte sem sangue de seu rosto está vermelha pela bofetada que recebeu. Contusões arroxeadas estão visíveis em seu pescoço e nos nós dos seus dedos, assim como arranhões de unhas nas costas de suas mãos aparecem.
Ela lutou para não ser capturada, meu estômago se revira. Vingança rasteja por minha pele, esfriando meus sentimentos. A compaixão foge do meu coração.
Suas mãos estão sendo presas por cordas invisíveis, assim como seus pés. Não vejo mordaça em seus lábios, mas eles estão firmemente pressionados.
Selados por feitiço.
— Como pode nos trair? – Cho pergunta, seu rosto contorcido de raiva e nojo. – Como pode virar as costas para Harry?
Valia a pena explicar? Isso tornaria as coisas mais fáceis? Tonaria minha traição menos dolorosa ou marcante? Essas perguntas passam por minha mente antes que eu fale.
— Eu poderia passar uma vida toda explicando o que me levou há está aqui, mas neste momento eu só consigo ver quatro vadias que machucaram alguém que eu amo. – Um sorriso triste aparece em meus lábios. – E o mais engraçado é que, por mais que eu tenha, em algum momento do meu passado, gostado de vocês, eu simplesmente não vou me importar em lhes machucar. – A mentira é doce como mel, mas arde como fogo em contato com a pele. – Luna é a única pessoa boa aqui, saibam disso se quiserem realmente duelar comigo.
Vejo-as se moverem com rapidez, nos cercando.
Parvati e Padma parecem realmente assustadas com minhas palavras e falta de piedade, já Cho e Gina se inflamam de ódio.
— Eu te considerava minha irmã. – A dor por trás das palavras da Weasley comprimem meu coração ligeiramente.
— Eu sei. – Minha voz sai mais afetada do que eu gostaria. – Eu te amava como se você fosse do meu próprio sangue Gina.
Com um agitar de varinha, faço os lábios de Luna se desgrudarem. Ela solta um suspiro ruidoso.
— Hermione...
— Então, por quê? – Gina interrompe a Lovegood. Existe desespero em sua pergunta, mas não deixo de notar o movimento calculado que Cho faz em se posicionar estrategicamente entre mim e a sacada que dá para o exterior do castelo.
— Amor. – Digo, fazendo-as pararem seja qual for o plano de me atacarem que estivessem planejando. – 1944 foi o ano que me levou a me apaixonar por Tom. E isso é tudo o que vocês precisam saber. De qualquer forma, suas opiniões não mudaram sobre mim, sabendo ou não da verdade. E eu não estou aqui em busca de perdão ou redenção.
Luna usa um feitiço não verbal, se libertando de suas amarras.
Com dificuldade, percebo Luna tentar se erguer. Seu rosto é tomado por dor, e este é o último resquício de sensatez que fazia eu me segurar. Quando ataco, não vejo seus rostos. Não lembro de nossas histórias juntas, dos momentos compartilhados. Ou da boa garota que um dia fui.
Tudo é um completo borrão.
***
Eu realmente preciso de você esta noite
O eterno vai começar hoje à noite
O eterno vai começar hoje à noite
Total Eclipse Of The Heart – Bonnie Tyler
De onde estamos, conseguimos ver Hagrid caminhando com o corpo de Harry em seus braços. Por minha visão periférica, vejo Luna levar a mão a boca enquanto suas lágrimas caem. Seus soluços são tudo o que meus ouvidos captam, mas meus olhos estão fixos no homem que lidera a marcha da vitória.
Seu rosto está contraído pela raiva, mas existe algo mais. Um vinculo de preocupação entre suas sobrancelhas. Com cautela, vejo-o esquadrilhar todos os expectadores da cena a sua volta. E, quando ele não acha quem procura, seu maxilar se enrijece.
Com as costas de minha mão ferida, limpo a lágrima que sinto escorrer por meus olhos. Encolho meus ombros, me sentindo pior do que quando sai da Torre de Astronomia.
Não mereço chorar, não mereço sentir dor. Eu cavei minha cova, devo me deixar ser soterrada por ela.
Vencer não me fez sentir melhor, não apaziguou o gosto metálico da vingança em minha boca e, enquanto Luna e eu deixávamos a local da luta, nenhuma palavra foi trocada. Um obrigado não era o que eu merecia, e tanto eu quanto ela sabíamos disso.
— Seu pai está te esperando em casa. – Murmuro, evitando olhar para Luna. – Vá até Draco, ele te levará em segurança até o sr. Lovegood. Eu prometo.
Ainda paralisada com a cena à nossa frente, ela demora a acenar com sua cabeça no exato momento que Tom declara a morte de Harry Potter.
— Se um dia, mesmo que seja daqui há alguns anos... – Começo, me afastando do parapeito de onde avistávamos tudo. – Você resolva me perdoar, Luna. – Seus olhos azuis como o céu límpido de verão me encaram cheios de lágrimas. – Eu sempre estarei a sua espera, você sempre será minha amiga.
Ela não diz nada por alguns segundos, me encarando enquanto pisca sem parar.
— O que vai acontecer com elas?
— Eu realmente não sei, mas não vou sentenciá-las à morte. – Digo, dando mais alguns passos para longe dela. – Eu já tenho sangue demais em minhas mãos.
A imagem de Bellatrix me vem à mente.
— Hermione... – Vejo-a engolir em seco. – Faça-o ser bom, por favor.
Um arrepio inesperado atravessa meu corpo.
— Se você conseguiu fazê-lo te amar, consegue o fazer ser bom. – A esperança em sua voz me quebra.
— Luna...
— Apenas tente, é meu único pedido.
Um sorriso triste aparece em meus lábios, e é minha única resposta.
— Você não será perseguida, e muito menos seu pai. – Garanto, antes de desaparecer completamente da sua frente.
O quarto de meus herdeiros me recebe com seu cheirinho característico. Eles estão em seus berços, dormindo como os anjinhos que são. Mirdy não tarda a aparecer, sentindo minha presença.
— Senhora?
Seus olhinhos se arregalam, provavelmente vendo a minha aparência decadente. Vencer não foi fácil devido a desvantagem de ser quatro contra um e Luna está debilitada demais para se defender. Minhas roupas rasgadas, cabelo embolado, ferimentos e contusões devem provar isso.
— Me prepare um banho, por favor. – Sorrio, é um sorriso que não chega aos meus olhos. – Tudo bem, Mirdy, eu irei sobreviver.
Ela balança a cabeça com lentidão e sai devagarinho do quarto.
O clique da porta sendo fechada é tudo do que preciso para deixar meus joelhos fraquejarem e me levarem ao chão. Enterro meu rosto em minhas mãos e choro, curvando meu corpo de encontro ao chão.
Eu sobrevivi, mas eu não venci.
[...] 13 de agosto de 2000 [...]
Costure meus lábios em sua boca
Por uma eternidade
Porque se você não estiver, ficarei louca
Na escuridão
En La Obscuridad – Belinda
Ele está sério, mas o sorriso de orelha a orelha presente em meus lábios parece lhe divertir de alguma forma.
— Isso é sério? – Pergunto, sentindo meus olhos encherem de lágrimas enquanto amasso o pergaminho entre meus dedos trêmulos.
Tom dá de ombros, fazendo pouco caso.
— Você vigia as leis e todas as decisões tomadas para aquele lugar, mal me deixa aplicar nenhuma das minhas ideias. – Resmunga, fingindo aborrecimento. – Sem contar que, nossos filhos um dia irão para lá. Nada mais plausível que ter a melhor regendo aquele lugar.
Me levanto em um pulo e me jogo em seus braços, selando nossos lábios.
Tom agarra a parte de trás do meu pescoço, aprofundando nosso beijo enquanto me aconchego em seu colo, já sentindo o quão animado ele fica com minha atitude.
— Falar o nome Hogwarts não é um palavrão, sabia. – Murmuro assim que nos separamos.
Ele sorri de lado.
— Que tal subirmos para que você me convença melhor disso.
Reviro meus olhos.
— Não seja sacana, Tom.
Sua mão apalpa minha bunda, me fazendo ficar vermelha.
— Como não ser, – Seus olhos brilham. – Com uma esposa tão gostosa assim?
Rio e ele me acompanha.
Sua risada divertida provoca arrepios gostosos de prazer pela minha espinha. Voltamos a nos beijar, em seguida. Só que dessa vez com suavidade.
— Obrigada, isso é muito importante para mim. – Falo, apontando para o pergaminho amassado em minhas mãos.
Ele suspira e acena, me dando o sorriso especial. Aquele sorriso que apenas eu e nossos filhos podemos ver, o sorriso humano.
— Você será a melhor diretora que Hogwarts já teve, Hermione.
E protegerei melhor os nascidos trouxas do castelo, penso, abrindo um amplo sorriso com suas palavras.
Algo em seus olhos me diz que ele sabe o que pensei, mas não existe reprimenda. Tom e eu raramente discutimos. Ele parece entender melhor do que ninguém todos os meus sacrifícios para me manter ao seu lado, e isso afrouxou seu ódio por aqueles sem sangue mágico nas veias.
No fim, talvez o pedido de Luna possa realmente ser atendido.
Pensar nela me aquece o coração ainda mais. Meses após a vitória de Tom, uma carta sua chegou até mim por intermédio de Draco. Logo, correspondências frequentes foram iniciadas e visitas trocadas. Hoje, ela é uma das pessoas mais importantes e presentes na minha vida.
[...] 02 de Setembro de 2009 [...]
E eu desistiria da eternidade para tocá-la
Pois sei que você me sente de alguma forma
Você é o mais próximo do paraíso que chegarei
E eu não quero ir para casa agora
Iris – Goo Goo Dolls
A estação de trem está lotada, com todos nos lançando bajulações, sorrisos e reverencias. Para Tom, aquilo era a prova de seu poder. Para mim, apenas uma grande chatice. Mas este ano está grande chatice estava me causando um enorme frio na barriga.
Algo diferente de todos os outros anos estava prestes a acontecer, e tanto para nossos expectadores quanto para mim e meu marido aquilo era especial. Com Tom ao meu lado e Alya e Damon à nossa frente, encaramos a locomotiva.
— Papai, se o Chapéu Seletor não me colocar na Sonserina, eu posso queimar ele? – Alya pergunta, batendo as pestanas calmamente enquanto Tom dispensa seus seguidores para que tenhamos privacidade.
Seu jeitinho meigo faz com que ela tenha todos os seus caprichos atendidos por Tom. Ele, por sua vez, acaba rindo de sua pergunta. Vejo que todos tentam não nos encarar, mas falham.
— Não, mocinha. – Sou eu quem responde, antes que Tom possa encorajá-la de alguma forma. – Você irá para onde o Chapéu decidir. – Lanço um olhar atravessado para que Tom me apoie.
Ela bufa, fazendo beicinho.
— Não sei por que a preocupação, você é mais sonserina que o próprio Salazar Slytherin. – A voz entediada de Damon me arranca uma pequena risada.
Ela lhe dá uma cotovelada como resposta, o que recebe é apenas um meio sorriso do irmão.
— Não provoque sua irmã, Damon. E Alya, não se comporte assim em público. – Tom ordena, mas não esconde o sorriso. – Vocês dois irão para a Sonserina.
Reviro meus olhos.
— A Grifinória é uma ótima casa. – Digo, apenas para ser ignorada por eles.
Bufo, cruzando meus braços.
— Eu não me importaria de ir para a Corvinal. – Damon nos surpreende com suas palavras.
Logo, a imagem de uma garota um ano mais nova que eles me vêm à mente. Seus longos e lindos cabelos platinados, olhos azuis límpidos como os da mãe e inteligência afiada não deixam dúvida do porquê ele não se importaria em ir para a casa fundada por Rowena.
Tom e eu trocamos um olhar de entendimento.
— Queridos, independentemente de suas casas, amaremos vocês da mesma forma. – Sussurro para que só eles escutem.
Um apito soa ao longe, indicando que a hora da despedida chegou.
Eles beijam meu rosto e abraçam a cintura do pai, recebendo um afago carinhoso na cabeça. É o mais afetuoso que Tom consegue ser em público.
— Ficarei de olho em vocês. – Aviso, só para arrancar risadas travessas deles.
Com um adeus entusiasmado – da parte de Alya –, os dois embarcam no trem, abrindo caminho como os dois príncipes do império que Tom controla que são. Quando a locomotiva começa a partir, um sorriso emocionado desponta em meus lábios.
Logo vemos suas cabecinhas acenando para nós de um dos vagões. Aceno de volta, não me importando se estou sendo amorosa demais para o padrão da família Riddle.
— A primeira semana é sempre a mais difícil para nos vermos, mas não demore a me procurar. Odeio dormir sozinho, me sinto carente. – A voz de Tom ao pé do meu ouvido me faz estremecer.
— Não seja manhoso, Ministro. – Chamo-o formalmente, lhe arrancando um sorriso enviesado. – Como diretora da melhor escola para bruxos da Grã-Bretanha, eu sou uma mulher ocupada. – Passo minha mão por sua cintura e me ponho na ponta dos pés. – Mas, eu sempre irei achar tempo e disposição para manter minha relação com o Ministro da Magia profunda. – Sussurro a última parte em seu ouvido.
— Eu amo nossa relação profunda. – Murmura de volta.
— Eu diria que nosso amor antiquado, obsoleto, nos rendeu muita profundidade.
— Concordo plenamente com você, miss Riddle.
Pisco, mordendo meu lábio inferior.
— Sabe o que acabei de perceber?
Balanço a cabeça em negativa, fascinada com o brilho travesso em seus olhos.
— Eu nunca te fodi em um dos vagões do trem.
Antes que eu possa abrir a boca para rebater suas palavras sujas, sinto o puxão da aparatação. Sem precisar olhar para nada, sinto o correr dos trilhos sob nossos pés. O vagão está vazio, as persianas fechadas.
— E se alguém...
Com um aceno de varinha, sinto a magia nos cercar, bloqueando tudo e todos do lado de fora.
— Tom...
— Hoje, nossa reunião, diretora, será extraoficial.
“Eu só quero que você saiba quem eu sou.”
Iris – Goo Goo Dolls
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