Desintegração
1 Capítulo 1
Notas iniciais
Foi numa gelada noite de Inverno que tudo aconteceu. Ainda me dói o coração apenas em pensar nestas tristes memórias.
A sua boca articulou de uma forma tão impiedosa aquela dolorosa frase. Lembro-me como se fosse hoje: os seus grandes lábios pintados de um vermelho forte cuspiram aquilo como se de nada se tratasse.
“A sua filha acabou de falecer” informou-me aquela médica com tal casualidade, que hei-de levar a expressão daquele anjo da morte para a cova.
Todo o meu corpo gelou. Estaquei. Congelei. Não reagi.
Lentamente, encaminhei-me para a sala onde a minha amada filha jazia. Levantei o lençol branco que lhe cobria a face e beijei a sua testa macia. Contemplei o seu rosto uma última vez, e uma lágrima escorregou pelo meu rosto até manchar os seus doces lábios.
Abanei a cabeça na tentativa de eliminar qualquer suposição das suas dolorosas horas finais. O próprio pai a esfaqueara, e horas depois morreu em sofrimento numa cama de hospital rodeada de médicos, tubos, e de dor…
Voltei a cobri-la e encaminhei-me para a praia. Sabia que ele estaria ali, pois conhecia-o desde sempre, e ele sempre se refugiara naquelas rochas nos seus piores momentos. Muito tínhamos vivido juntos: o nosso namoro, o casamento, o nascimento da nossa filha, e tínhamo-la visto crescer até aos 18 anos.
Lá estava ele, encolhido como uma criança, virado para o mar. A faca continuava na sua mão. Silenciosamente, aproximei-me.
- Porque o fizeste? – questionei.
Ele virou-se para me encarar num salto, mas nada respondeu.
Ergui o braço e dei-lhe um tiro certeiro no centro da sua testa. O seu corpo cambaleou e acabou por cair na densa escuridão do mar.
Aproximei a pistola da minha cabeça e contei até três. Já não tinha nada por que viver. Mas não fui capaz, acobardei-me num momento de fraqueza. Foi o maior erro da minha vida. Deixei-me cair, e adormeci nas rochas manchadas do sangue do meu marido.
O resto da minha vida senti saudades deles, mas fui incapaz de suportar a ideia de que se me suicidasse teria que voltar a ver a cara dele.
Fale com o autor