Desespero
1 Capítulo Único
Carrie Ann.
Carrie Ann.
Carrie Ann.
O seu único pecado foi nascer loira e ter cruzado o caminho de Ryan Jacobson.
Conheceu-o em um bar. Ele alegou que precisava usar o telefone, simples e discretamente. Assim que saiu do seu horário de trabalho, ele seguiu-a até o carro, colocando aquele pano com álcool em seu nariz, para que ela desmaiasse.
Quando acordou, estava amarrada em um quarto pequeno e isolado.
— Carrie Ann... — ele disse.
Um psicopata.
— Meu nome não é Carrie Ann — ela tentou argumentar, mas ele fazia ouvidos surdos.
Quando ele aproximou-se dela, segurando duas lentes de contato, ela começou a se debater, tentando escapar. Foi quando percebeu a camisola branca que vestia.
Ela tinha certeza de que morreria.
— Calma! Calma! — Ryan tentou dizer, mas ela não cedeu.
Irritado, ele afastou-se dela, deixando as lentes em um lado, e pegando uma seringa.
Ela debateu-se mais forte, mas a corda era forte demais, e estava machucando-a.
— Isso vai te acalmar! — ele disse, antes de injetar o líquido em seu braço — Você está muito nervosa... Pronto!
Ele acariciou o seu rosto, antes de pegar as lentes novamente.
Sem vontade alguma de mover-se, ela deixou que ele colocasse a droga das lentes em seus olhos. Lentes azuis.
Ela conteve uma risada. A loira dos olhos azuis, o biotipo perfeito americano.
Quando ele colocou aquele vidro em seus olhos, ela sentiu vontade enorme de chorar, aquilo ardia.
— Calma! Calma! — Ryan voltou a sussurrar — Está tudo bem! Vai ficar tudo bem!
Ela demorou dias para entender que o único jeito de permanecer sã era fingindo ser a doce e inocente Carrie Ann, irmã morta do garoto, que jurava que ela ainda estava viva. Um verdadeiro louco.
— Carrie Ann! Você não pode esforçar-se! — ele disse, um dia, quando ela estava de pé, observando o quarto, procurando por uma saída.
A única vantagem daquela situação toda era que não era obrigada a falar com o garoto. Aparentemente, a Carrie Ann era muda.
— Eu só vim aqui para te dar a comida. Não posso ficar muito... Eu bem que queria, mas prometo que volto logo — ele disse, antes de beijar sua testa, e sair, deixando a bandeja.
Ela esperou até ele sair, antes de levantar-se da cama, escutando como a porta era trancada, e o som da chave sumia logo acima da porta.
A chave era escondida em alguma coisa em cima da porta, ela percebeu.
Sabendo que ele logo sairia, e sem saber onde estava, ela esperou por um bom tempo, antes de decidir agir. Comeu rapidamente o que estava na bandeja, e pegou-a, tentando passa-la por baixo do vão da porta, sem sucesso.
Era grossa demais.
Procurando ao redor, viu um criado mudo, e abriu a gaveta, encontrando um pedaço de papelão.
“Serve” pensou, pegando-o.
Apressadamente, empurrou-o por debaixo do vão, e começou a empurrar a porta, com o seu ombro. Sabia que sentiria dor, mas não se importava. Tudo era melhor do que estar presa naquele lugar, sendo drogada. Ela já sentia a loucura de Ryan começando a contaminá-la, o que seria também culpa dos calmantes.
Depois de alguns minutos, ela ouviu um tilintar leve, e puxou rapidamente o papelão, encontrando a pequena chave prateada. Mal podia acreditar em sua sorte. Jogou o papelão para baixo da cama, sem cuidado, e apressou-se a encaixar a chave na fechadura, tremendo de nervosismo.
Ao sair, ela viu um extenso corredor, e passou por ele, rapidamente, pensando que iria jogar a chave em qualquer canto que encontrasse. Tudo para que a próxima vítima não sofresse o mesmo que ela.
Próxima vítima.
Ela decidiu que, assim que escapasse daquela rua (ou melhor, cidade), iria direto para a polícia, reclamar sobre o sequestro. Aquele cara merecia ser preso.
Ela subiu as escadas lentamente, tentando não fazer barulho, e encontrou um alçapão. Empurrou-o lentamente, vendo que um tapete o cobria, esforçou-se para não tossir, pela poeira que o impregnava. Empurrando o tapete e o alçapão para o lado, ela tomou impulso, saindo em uma lavanderia da casa.
Mais escadas, ela sentia um frio de nervosismo imenso em seu estômago. Subiu lentamente as escadas, tentando controlar isso. O nervosismo tornava-se maior, a cada momento.
Abriu lentamente a porta do porão. O fato de estar descalça colaborava para que ela pudesse caminhar, sem ser notada. Olhando rapidamente pela casa, ela não viu a Ryan, o que era bom sinal, mas precisava sair logo dali. Foi rapidamente para uma porta fechada, que descobriu ser o banheiro, e escondeu a chave dentro da caixa acima do vaso sanitário.
Encontrou uma porta dupla de vidro nos fundos, que dava para a floresta. Ela estava destrancada. Ignorando o nervosismo dolorido, ela correu para a floresta, mesmo que fosse sujar os seus pés e machucá-los com a corrida. Ela precisava escapar, não podia continuar vivendo na incerteza de quantos dias tinha. Além do mais, seus pais deviam estar muitos preocupados por ela.
Já impregnada na mata, sem nem saber de qual caminho tinha vindo, ela percebeu que estava sangrando, e não era de agora.
“Droga de menstruação” ela parou em uma árvore, apoiando-se nela.
Assim que decidiu parar para descansar, e xingar a sua natureza feminina, uma mão cobriu a sua boca, e a outra segurou-a pelo tronco. Debateu-se, mas Ryan era mais forte.
— Carrie Ann — ele sussurrou — Você cometeu um erro.
“Sim, o erro de ter deixado um rastro de sangue pelo caminho” ela pensou, consigo.
Decidiu que não iria render-se tão facilmente. Continuou debatendo-se e, quando conseguiu dar uma cotovelada em sua barriga, desvencilhou-se, correndo mais rapidamente para o lado mais fácil da trilha, pulando entre galhos e folhas, sem importar-se.
Chegou na estrada em pouco tempo, e a dor em seus pés parecia anestesiada pela adrenalina da fuga. Ele estava atrás dela, e quase alcançando-a.
Quantas mulheres teria capturado?
Algumas delas teria conseguido fugir?
Sentiram falta delas?
Nunca desconfiaram de Ryan?
Ela olhou para trás, calculando a distância entre eles, o que foi o seu segundo maior erro da noite.
Virando-se novamente para a frente, sentiu um grande impacto em sua barriga, lançando-a por alguns passos. Uma luz forte e branca a cegava. A dor já não era mais da menstruação.
— Ah! Meu Deus! — uma batida de porta, e uma mulher ajoelhou-se ao seu lado — George, ligue para a ambulância!
Ela olhou para trás, vendo como Ryan, desesperado, voltava para a floresta, sem ser percebido pelas duas pessoas.
Se o impacto não tivesse sido profundo, se ela tivesse saído do caminho a tempo, ela teria escapado. Seria a única vítima livre e viva de Ryan Jacobson. Talvez ele fosse atrás dela.
No entanto, ela não resistiu.
Carrie Ann não resistiu.
Dalenna não resistiu.
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