Desespero
6 Medo, não mais.
Notas iniciais
Medo, não mais.
Essa frieza que está em meus olhos é o reflexo de minha alma vazia.
A sombra que sempre anda ao meu lado é a solidão.
Os barulhos que perturbam minha mente são as vozes causticantes.
Essas mesmas olheiras são resultados das minhas noites de choro e pranto.
Eu sei o que sou.
E sei o que devo fazer
Mas o medo me dominou.
Eu não tenho para onde correr.
(Orion)
A visão encerrou-se como um filme que acabara de chegar ao seu término no projetor.
O som da chuva foi substituído pelo silêncio profundo e permanente. A sensação de solidão embrenhou-se em seu subconsciente e deu-a a certeza de que não estava mais presa ao genjutsu que Itachi a tinha envolvido, entretanto também não havia retornado a floresta junto ao Uchiha.
Olhou em derredor, respirando o ar pesado e frio e sentindo-o a sufocar lentamente, comprimindo seus pulmões contra sua caixa torácica. Uma sensação estranha percorreu todo o seu corpo, entorpecendo momentaneamente as pontas de seus dedos.
Entreabriu os lábios e ofegou enquanto olha em derredor.
— Itachi? – Chamou-o, sua voz ecoando no nada por tantas vezes que ela podia facilmente confundir os ecos com uma resposta – Itachi, você está aí?
Moveu-se um passo à frente, o coração acelerando em seu peito. Olhou os próprios pés e notou que não estava mais na sua forma chunnin. Perguntas e mais perguntas rondavam seus pensamentos, podia ouvir cada uma delas, mas a garota não permitiu-se ficar parada por muito tempo. Seus olhos não despregavam da porta ao fim do estreito corredor branco a qual ela se encontrava.
Ela continuou a se mover, pelo menos até o instante em que uma voz doce e jovial a deteve:
— Você é igual a mim...
Voltou-se de repente para trás, encontrando uma jovem garota envolta em uma roupa verde, sua eu criança de algumas visões antigas, o cabelo dela era curto e sedoso e seus olhos verdes brilhavam mais que a grama húmida depois de uma noite de chuva. Não sabia por que, mas Sakura não podia desviar seus olhos do semblante amável e curioso, que parecia buscar a resposta, ou talvez ajuda, para alguma coisa. Dos seus lábios, dois botões cor-de-rosa, se desabrocharam em um suave sorriso.
— Eles não entendem... Por favor, faça-os entender... – Suplicou a menina com suavidade.
Instintivamente Sakura deu um passo até ela, e quando se deu conta do que fazia, freou, contendo-se para não se aproximar muito da sua eu mais jovem. Afinal, da última vez que se viram, as coisas que aconteceram não foram nem um pouco agradáveis. Os olhinhos verdes a encaravam insistentes, ela queria algo.
— Eu não quero que me chamem de inútil – A menina confessou e seu semblante enrugou-se abruptamente, uma carranca de angustia substituía sua face antes angelical — Por favor, diga a eles para pararem!
A menina estendeu os braços na direção de Sakura que só então notou várias crianças sem rosto ao derredor da pequena. Ela arfou enquanto testemunhava chocada a menina derramar lágrimas de pura agonia e manter os braços estendidos para si, pedindo socorro. O corredor parecia ter se alargado de forma ainda mais repentina, mas o cenário branco, com uma única porta na extremidade de sua conciência, continuava ali.
“-Inútil!”
“-Testuda!”
"-Garotinha chorona."
Movida por seu instinto, Sakura aproximou-se da menina em agonia, horrorizada pela forma como as vozes cresciam cada vez mais no tom e em quantidade. As crianças sem rosto cercavam a Haruno mais nova como se ela fosse um pobre animal preso numa cela, uma oferenda para satisfazer seus bel-prazeres cruéis.
— Por favor, peça para que parem! Isso me machuca tanto... Não posso suportar... Não mais!
E, como num piscar de olhos, num clarão de luz ofuscante, a garotinhas desapareceu e Sakura se viu dentro do circulo, que agora não tinha mais crianças, mas sim homens e mulheres, todos igualmente sem rosto. As vozes também estavam ali, elas na verdade pareciam ainda mais altas do que antes.
“-Você é e sempre foi uma inútil!”
“-Nem impedir o Sasuke-kun ela conseguiu!”
“-Como espera ser uma boa Kunoichi se não consegue alcançar os seus companheiros?”
“-Você é um fardo! Sempre foi!”
“-Ela só sabe chorar! É a única coisa que sabe fazer realmente bem!”
"Vai lá! Vá atrás de um homem louco e consumido pelo ódio! Depois não reclame se acabar morta."
Sakura procurou desesperadamente por uma brecha, uma válvula de escape, qualquer coisa que a tirasse dali, mas não havia nada! Mãos repugnantes e mortas tentavam traga-la de todas as formas possíveis, rasgando sua roupa ninja e enchendo-a de hematomas. Quanto mais eles a atacavam mais suas forças se esvaiam, deixando-a tão vulnerável e fraca quanto uma criança doente.
Todavia, no instante posterior, as paredes ao seu redor racharam. Fendas brotavam em todas as direções, escombros espatifavam-se no assoalho branco, um atrás do outro, e uma espécie de raiz negra e viva surgia das fendas, espalhando-se ao redor do corpo da ninja como cipós traiçoeiros.
Lágrimas quentes ainda se derramavam sobre o seu rosto, contudo, o fim não havia chegado. Não ainda.
Ela constatou, petrificada pelo horror e pelo medo que as pessoas que outrora tentavam traga-la, agora eram fundidas junto às raízes sombrias e vivas, não somente nas raízes, mas também nas paredes ao seu redor. Os rostos deformados surgiam e a encaravam. Seus traços delineados pelas paredes brancas, agora rachadas, eram disformes, monstruosos, e que se mexiam como se quisessem se libertar mais uma vez da superfície instável onde estavam aprisionados.
Vozes desordenadas e roucas passaram a se pronunciar desde então. Mas o coro agora era caótico demais para que se pudesse entendê-lo. Desesperada, Sakura foi ao chão, caindo sobre as próprias pernas, chorando desconsoladamente enquanto que os cipós continuavam a aperta-la cada vez mais.
Embora o pânico estivesse conquistando cada centímetro de si, ela sabia que não poderia se apavorar, não agora, não depois de ter enfrentado tudo que enfrentou. Desespero não a ajudaria a sair daquele caos. Então cerrou os olhos com força, travando seu maxilar e gritando com todas as forças por ajuda.
Seus punhos cerraram-se, as unhas mergulhando sem piedade na carne da palma de sua mão, rasgando-a e fazendo o sangue fluir através dos cortes.
Recusou-se a desistir, enterrando-se no fundo de sua mente novamente, buscando fervorosa e incansavelmente pela saída.
Ela não aguentava mais todo aquele pesadelo.
Não mais.
Quando enfim reconheceu um feixe de luz pálida, não hesitou em seguir por ele, abrindo os olhos e lançando-se sem o menor temor naquele vórtex de cores vibrantes e cintilantes. Os machucados em seu corpo ardiam. Sua cabeça girava e o sangue de suas mãos continuava a manchar o cenário branco gelo. Mas, ela se recusou a parar, forçava suas pernas ao máximo para que não falhassem e nem diminuíssem o ritmo, determinada a se livrar dos cipós, ela corria em direção à porta.
Ela, por um momento, tinha se esquecido de quem era.
Mas, agora não.
Sua mente gritava incessantemente:
Você é uma guerreira! Seja uma guerreira!
Chega de ter medo.
Então, quando finalmente alcançou a porta de madeira, ela a abriu, retornando com um forte e violento solavanco a realidade, ou ao menos, o que ela achava ser a realidade que tanto almejava encontrar.
Ela não sabia o que estava vindo a seguir. Mas estava na hora de terminar com aquilo.
De uma vez por todas.
...|I*I|...
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