Desespero
4 Consciência Dividida
Notas iniciais
Consciência Dividida
Para encontrar a esperança é necessário ir além do desespero. Quando chegamos ao fim da noite, encontramos a aurora do amanhecer.
(Orion)
Suas pálpebras abriram-se simultaneamente.
A claridade transbordante inundou-os e cegou sua vista, fazendo-a piscar repetidas vezes a fim de ajustá-los ao ambiente. Puxou o ar para dentro de seus pulmões e percebeu o cheiro da terra úmida e da relva. Instintivamente, suas mãos tatearam o solo abaixo de si, surpreendendo-se com a maciez do terreno sob seu corpo.
Havia cantos de pássaros ao seu redor, espalhando-se pela mata, o som acalmava gradativamente os seus sentidos, lentamente regulando a intensidade das batidas do seu coração. Uma brisa suave deixava uma sensação fresca e agradável em sua pele, mas Sakura ainda sim tentava imaginar como havia ido parar ali. A última coisa da qual se recordava ... Bem, ela não conseguia se lembrar. A garota focou seus olhos no que estava acima de si e viu as copas das imensas árvores, os galhos que se intercalavam, construindo uma teia de um verde exuberante onde o vento farfalhava as folhas graciosamente.
A luz diurna infiltrava-se por todas as frestas que conseguia achar, timidamente descobrindo sua pele e aquecendo-a com um calor relaxante. Ela espreguiçou-se sobre a relva, tornando a fechar os olhos. Tudo ali parecia nostálgico e bom.
Roçou os dedos sobre o tecido confortável que revestia seu corpo, mas surpreendeu-se com a textura que ela conhecia muito bem. Sakura abriu os olhos em um rompante, dedilhando a vestimenta com cuidado enquanto semi-sentava sobre a mata, observando o lindo e delicado vestido vermelho que recobria seu corpo.
O mesmo que sempre costumou usar no inicio de sua vida shinobi.
A garota sentiu de súbito um estalar em sua mente. Olhou ao redor desesperadamente em busca de qualquer superfície que pudesse refletir, avistou uma poça não muito distante de onde estava e correu até ela. O horror preencheu seu mais profundo intimo no momento em que ela vislumbrou o reflexo diante de si, as lembranças invadiram sua mente e ela compreendeu o que estava acontecendo, mas nem por um misero segundo seu desespero diminuiu após sua conclusão.
Ela estava presa. Presa dentro de seu próprio corpo, mais precisamente, no da época de quando tinha doze anos. Suas memórias misturavam-se entre passado e presente, seus pensamentos, seu tamanho... Ela parecia ter voltado no tempo. Era como se tudo o que, até então, tivesse vivido antes de cair de supetão naquela sala cheia de portas não passasse de um sonho. De uma pagina arrancada pela metade. De uma neblina esbranquiçada. Uma folha mal apagada.
O som de pássaros sacudindo suas asas e alçando voo para longe a despertou de seus pensamentosu. Ela levantou-se do solo terroso enquanto que as mãos retiravam a sujeira que havia impregnado em sua roupa.
Sakura olhou em derredor, das árvores aos arbustos espinhosos, do solo de uma terra úmida e escura ao céu límpido, protegendo os olhos da luz radiante que dançava através das copas.
Foi então que, por um momento, os ouvidos de Sakura capturaram um som diferente, algo semelhante a passos, lentos e abafados, que surgiam do meio da mata. A Haruno, aturdida, se atrapalhou um pouco para encontrar um esconderijo, mas rapidamente tratou de se apressar. A árvore que escolhera era um carvalho aparentemente antigo e com muitas folhagens, que logo proporcionaram uma boa camuflagem para a Kunoichi.
Agora, estando devidamente acaçapada, Sakura tentou de alguma forma reconhecer o chakra do individuo que se aproximava tão deliberadamente. Mas não obteve sucesso, pois algo, ou alguém, dava ares de está-la bloqueando.
Os passos, no entanto não cessaram durante seu período de reflexão, e se aproximavam cada vez mais. Por puro extinto, Sakura buscou por uma kunai na bolsa que, geralmente, ficava na lateral de sua cocha, ela precisava admitir que não esperava realmente encontrar algo ali, também se preparou com três shurikens e alguns papeis-bombas. Não sabia qual tipo de inimigo teria que enfrentar... Então deveria estar preparada para tudo.
Claro, ela jazia ciente de que não era uma eximia ninja na arte das armas, principalmente estando naquele corpo, mas se esforçaria para conseguir ao menos uma boa surpresa para quem quer fosse.
E ele estava perto.
Muito perto.
Um arbusto atrás de si se mexeu, e ela virou-se prontamente na direção do barulho, já preparada para dar inicio a luta.
Mas seus membros congelaram subitamente.
Um homem de cabelos negros trajando um manto com nuvens vermelhas saiu de dentro da mata. Os fios de sua cumprida cabeleira estavam devidamente presos em um rabo de cavalo baixo, sua mão esquerda repousava para fora daquele tipo de capa relaxadamente, seu rosto possuía duas grandes marcas abaixo dos olhos e, por de baixo de sua espeça franja, Sakura pode visualizar a bandana da vila a qual ele pertencia. Tamanha foi a sua surpresa ao notar que era o símbolo da Folha talhado na placa de metal brilhante.
E, como se isso já não bastasse, por que sempre existe algo mais nesse tipo de gente, havia um grande e nítido risco na bandana, o que evidentemente declarava aquele homem como um Nukenin.
As íris verdes da rosada se fixavam em toda e qualquer minudência que estava apregoada nele. Ela o analisava de todas as formas, curiosa para descobrir mais sobre aquele tão estranho homem. Sakura acompanhava cada um de seus movimentos, até mesmo o leve piscar de suas longas pestanas, e o mover de seu peito conforme ele respirava.
Seus olhos estavam praticamente pregados na figura esguia, e a cada vez que ele se movimentava ela se sentia acuada, encurralada, literalmente contra a parede.
No entanto, inesperadamente ele parou, elevou sua cabeça para o alto e encarou os olhos esmeraldinos da Haruno.
Por um milésimo de segundos pude ver que seu coração havia estagnado e todos os membros de seu corpo ficaram completamente petrificados. Sakura não tinha a mínima ideia do que fazer agora que seu esconderijo havia sido descoberto e um possível assassino a tinha pego no flagra, estragando toda e qualquer possibilidade de um ataque surpresa.
Ambos, a rosado e o moreno emblemático, se encaram por longos segundos até que ele sorriu, revelando duas profundas covinhas que fizeram Sakura corar.
—Não precisa ter medo – Ele disse – Não vou te machucar.
A menina permaneceu no galho da árvore analisando as feições do Nukenin. Ele trazia uma vaga lembrança de alguém que ela conhecia, mas por algum motivo ela não conseguia se lembrar de quem especificamente, sua mente estava confusa, quanto mais o temp passava, mais suas lembranças se misturavam..
Lenta e cuidadosamente, Sakura guardou suas armas e desceu do carvalho, aproximando-se com receio da figura que agora parecia ainda mais alta e intimidadora.
Mais uma vez seus olhares se encontram e a única coisa que a jovem descobriu dentro das obsidianas negras de seu companheiro foi algo que a surpreendeu no mesmo instante.
Ela descobriu o absoluto vazio.
— Quem é você? – Questionou com o cenho franzido.
— Meu nome é Itachi – Ele sorriu – E o seu pequena?
— Não sou pequena... – Ela respondeu emburrada, cruzando os braços finos na altura de seu busto. Imediatamente a voz em sua cabeça praguejou "Porque raios estou falando como uma menininha?".
—Não vai me dizer seu nome?
— ... é Sakura — Suspirou, precisava manter o foco.
Por um breve momento Itachi se calou, aproveitando o momento para analisar melhor a delicada criaturinha que conversava consigo – Sakura... Como as flores de cerejeira... – Constatou – Se me permite, você realmente faz jus ao nome que carrega.
Ela tentou disfarçar sua vergonha lhe respondendo com outra pergunta – Diga-me logo o que quer aqui, sim!?
O homem suspirou vencido. Mas sua pergunta foi direta e clara — Você conhece Sasuke Uchiha?
Os olhos de Sakura se arregalaram em surpresa – O que você quer com o Sasuke-kun?! – Indagou um tanto alterada, a lembrança de seu companheiro de time surgiu em sua mente, porém, por mais que tentasse puxar a imagem do garoto quase homem, ela só alcançava a visão do garoto, e aquilo a estava deixando ainda mais confusa e preocupada. O que estava acontecendo com ela?
—Então, você conhece o Sasuke... Interessante – Ele constatou enquanto a encarava de forma brincalhona.
Instantaneamente as bochechas dela voltaram a ficar coradas – Er... Si-sim! E-ele é do meu time — Decidiu entrar na conversa e tentar descobrir mais sobre aquele homem.
Abruptamente as feições de Itachi se tornaram sérias. Ele se aproximou alguns passou da menina, ficando a menos de um metro dela – O que você sente por ele?
—Na-nani?!
Sakura institivamente recuou alguns passos, acabando por se chocar no tronco de uma árvore e permanecendo ali acuada. Os olhos negros como a noite a encaravam tão profundamente que ela sentia que ele podia ver através de sua alma.
—O que sente pelo Sasuke? – Perguntou novamente.
—Por- por que quer tanto saber ?! — Sakura perguntava-se internamente o motivo de estar agindo assim. De onde veio toda essa vergonha? Porque parecia tanto com a garota que a muito tempo deixou de ser? Mesmo que tentasse tomar o controle do seu corpo de volta, era inútil. Sua consciência estava dividida com a sua eu do passado.
—Bem... – Itachi desviou os olhos por breves instantes, mas logo os voltando novamente para a figura pequenina diante de si – É o que irmãos mais velhos fazem... não é?
Por um curto período de tempo ela permaneceu muda. Pasmada pela revelação que havia acabado de ser despejada em suas mãos.
A realidade, definitivamente a tinha alcançou como um raio em meio a uma tempestade devastadora, lhe trazendo uma constatação que fez todos os seus ossos gelarem: Sakura não estava diante de um Nukenin qualquer, mas sim daquele que era o centro dos anseios de sua paixão particular, aquele que o menino a qual ela tanto amava ansiava infamemente tirar a vida. O querido e odiado irmão mais velho.
—Então – O Uchiha voltou a falar – O que você sente pelo meu otouto?
Ela não sabia o porquê de ainda estar conversando com aquele estranho, e assassino, perigoso. – E-eu... bem – A Haruno poderia muito bem ter saído correndo dali na primeira oportunidade que teve... Mas não, ela ficou, e adianto que não foi por falta de oportunidades. Não, isso não. Havia algo dentro de seu peito. Algo que lhe dizia que era o certo a se fazer, não só no peito da Sakura mais nova, mas no da Sakura do presente também – E-eu o amo! – Revelou envergonhada – Amo mais do que eu posso suportar... E faria qualquer coisa para ajuda-lo no que fosse preciso. Eu daria minha vida por ele!
Logo que as palavras deixaram a boca da pequena Haruno, Itachi voltou a suavizar suas feições – E... Se eu lhe dissesse que há uma forma de ajudar o meu irmãozinho?
Rapidamente ela elevou sua fronte e mais uma vez seus olhos se encontraram com os do Uchiha mais velho.
—Irei te contar algo, mas tudo o que eu disser ficará guardado dentro da sua mente. – Ele revelou enquanto tocava a testa de Sakura com o seu dedo médio e indicador – Você não se lembrará de nada. Mas quando chegar o momento certo, suas lembranças irão voltar, e assim, você poderá ajudar a proteger o Sasuke – ele disse calmo enquanto a encarava ternamente – o que acha?
—Você pode fazer isso?
—Sim, eu posso.
Ela então parou por um momento e pensou um pouco a respeito. Ele, aquele cara, poderia estar mentindo. Afinal, estamos falando de um Nukenin da vila da folha, o mesmo homem que matou todo o seu clã sem um motivo aparente. O único, e incontestável, Itachi Uchiha. Ele poderia fazer algo que a fizesse machucar seu companheiro de time, talvez até mesmo se tratasse de um dos capangas do Orochimaru... Mas, por outro lado, poderia ser o oposto. Ele poderia, realmente, ajuda-la a ajudar seu amado.
Sua outra eu do presente também sentia-se inquieta. A única coisa da qual sabia era que Sasuke havia matado Itachi. Itachi era um homem poderoso, naquela forma não conseguiria bater de frente contra ele, porém, dentro do seu coração, ela não desejava lutar. E sabia que ele também não. Olhou-o profundamente, questionando se isso fazia parte de uma lembrança perdida, ou se não passava de um sonho absolutamente insano.
Lenta e vagarosamente a Haruno afirmou com a cabeça, dando a autorização necessária para que ele fizesse o que quer que fosse necessário.
Agora, com a permissão dela, Itachi repousou suas duas mãos sobre os ombros da pequena, seus olhos se tingiram de carmim e depois adquiriram os tão notórios desenhos negros.
Em um piscar de olhos Sakura foi tragada para o mundo dos sonhos, enquanto que ele a amparava em seus braços.
...|I*I|...
Os lábios rosados se partiram, e Sakura despertou dentro de um cenário negro. Ela encontrava-se de pé, no meio do nada. Suas pernas estavam bambas, molengas e quase a traíram. Entretanto, ela voltou a congelar seu corpo ao ouvir aquela voz:
— Sakura.
Fitou a escuridão, e assustou-se ao testemunhar quando a elegante e inabalável figura de Itachi se mostrou, com o seu semblante sério e os olhos impossíveis de serem lidos.
— I-Itachi...? – chamou-o apavorada.
— Não precisa temer. – Ele gesticulou – Está tudo bem.
Sakura encarou-o.
— O que você vai fazer? – Perguntou, surpreendendo-se por sua voz ter soado tão firme e corajosa, quando na realidade ela tremia até os ossos por dentro.
Itachi cerrou os olhos calmamente, e por fim ele se manifestou mais uma vez:
— Desejo lhe contar toda a verdade.
— Toda... A verdade? – Repetiu, aturdida – Que verdade?
A resposta soou firme, sem vacilo ou oscilação.
— A verdade sobre o massacre do clã Uchiha.
Os olhos da garota se arregalaram.
Itachi, por outro lado aproximou-se um pouco mais de Sakura, e ela recuou um passo sem saber o porquê de está-lo fazendo. Inspirou profundamente quando percebeu que estivera prendendo a respiração até aquele momento.
— Eu contarei a verdade, toda a verdade. Tudo o que aconteceu naquela noite, mas devo adverti-la de possíveis riscos.
Mais uma vez, Itachi soou sincero no que dizia, e principalmente, ele parecia convicto, o que, claro, somente agravava o estado de nervos de Sakura.
— Que tipo de riscos? — Perguntou a ele, completamente entorpecida. E mais uma vez, Itachi respondeu-a sem rodeios, sem dúvidas, sem meias certezas.
— Você pode morrer durante o processo.
E o silêncio se aprofundou entre eles, inquestionavelmente assustador.
Sakura não sabia o que responder; estava silenciada. Mortalmente silenciada.
Ela piscou atônita, custando a assimilar corretamente as palavras suspensas no ar. Recuou um passo, dois passos, três passos. O chão parecia esponjoso sob seus pés. Ela cerrou os olhos quando a dor de cabeça quase a fez vacilar mais uma vez enquanto que seus medos assomavam-se dentro de sua alma.
Tocando a testa com os dedos gelados e trêmulos, tentou reassumir o controle sobre si mesma. Suprimindo as fraquezas e seus maiores receios, trancando-os bem fundo dentro de seu coração.
Engoliu em seco, consciente dos olhos intensos que tinha sobre sua figura. Inspirou profundamente, e então, finalmente, conseguiu se manifestar:
— Você poderia ter dito isso antes. – Disse, em uma tentativa de soar indiferente..
Itachi aquiesceu quase que imperceptivelmente, seus olhos, negros como as sombras que ali pairavam, desviaram-se tão logo o som de seus passos fazia-se presente naquele local.
— Mesmo que soubesse, tenho a certeza de que você não pensaria duas vezes em ajudar meu irmãozinho tolo. – O Uchiha conjecturou, e quando percebeu que ela fora pega de surpresa, voltou a se aproximar de Sakura, em passos lentos, cautelosos, com os olhos profundos medindo cada reação dela.
— Gomen ne, Itachi... – Sussurrou encabulada, cruzando seus braços e esfregando os dedos sobre o tecido de sua roupa. E então tornou a fitá-lo. Entretanto, ao contrário do que esperava, ele continuava a ostentar a mesma expressão neutra, amável e inabalável, como se a atitude da Haruno fosse simplesmente... Irrelevante.
— E-Eu não... – Ela começou, mas ele a interrompeu com um gesto.
— Entendo seu ponto, e sei que posso não ser a pessoa mais confiável desse mundo, mas compreenda que está enganada, Sakura, na realidade todos estão, e o que estou prestes a lhe contar nem mesmo Sasuke o sabe.
Ela arfou. Seu coração acelerou no peito após essa súbita e inesperada revelação. Itachi iria contar algo que nem mesmo seu amado sabia...? Relutante e com os nervos à flor da pele, ela obrigou-se a prestar atenção.
Ela seria forte, não importa as consequências.
Seria forte até o fim.
Precisava ser.
Itachi continuou aproximando-se da figura de Sakura a, os olhos negros jamais abandonando o semblante da Haruno. Quando estavam suficientemente próximos, as obsidianas do Uchiha se pintaram mais uma vez de carmim, para logo em seguida Sakura cair estatelada no chão, incapaz de se manter em pé. Ela permaneceu ali, cotovelos sobre o piso nu, sustentando seu tronco enquanto a garganta fechava-se, impedindo-a de respirar.
Ela se encontrava completamente apavorada naquele momento, talvez como nunca tivesse estado até então.
Sombras vivas fecharam-se como toldos sobre seus olhos, nublando sua visão e levando-a a verdadeiramente se desesperar. Tentou puxar o oxigênio, mas parecia impossível, era como se houvesse uma corrente em torno de seu pescoço, impossibilitando-a de tragar o ar para dentro de seus pulmões.
Lágrimas quentes escorreram de seus olhos, aquecendo seu rosto e deixando rastros molhados em suas bochechas.
O homem de pé, a poucos passos da figura caída de Sakura, aproximou-se cauteloso, logo se abaixando e fitando-a com olhos piedosos.
—Boa sorte pequena Haruno.
Eu os encarei lívido.
A calmaria apossou-se dela instantaneamente, a tortura findou e seus olhos cerraram-se em paz. Ela enfim havia afundado em sua inconsciência.
Estava acabado.
...|I*I|...
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