São seis e meia da manha, o sol já resplendece nas pequenas janelas do meu quarto, digo pequenas, porque são minúsculas. A casa pode ser bem grande, mas, eu, Gabriel, infelizmente fiquei com o quarto pequeno. Moro com meus pais e minha irmãzinha em uma fazendo no interior de são Paulo. Tenho 16 anos, sou bem novo ainda, mas já sou tratado como gente grande, ainda bem. Eu, infelizmente, perdi minha voz com 7 anos, os médicos não chegaram a concluir o porque da mudez, então, como minha família não tem dinheiro para pagar um medico particular, ficou por isso mesmo.

Minha mãe, Denise, é uma mulher batalhadora, sempre quer trabalhar mais e mais para dar tudo de bom para seus filhos, que no caso sou eu e minha Irma de 8 anos, Clarisse. Mamãe pode ser muito legal, ela me ensinou a “ falar” com as pessoas, mesmo sendo mudo. Mas ela pode ser vista por muitas pessoas por “louca”, desde que começou a freqüentar uma igreja no centro da cidade onde moramos, mamãe vem ficando diferente. Passa horas e horas ajoelhada orando, tudo bem, não é estranho orar, cada um tem a sua religião, mas ela chega a ser fanática, tudo é coisa do Diabo. Até a terrível doença que meu pai tem. Carlinhos, se assim quiser chamá-lo, não anda mais, assim que Clarisse nasceu , ele sofreu um acidente de carro, e teve que amputar as duas pernas, desde então, não trabalha fora de casa, apenas cuida dos custos do nosso milharal e gado. Mamãe o ajuda bastante, mas ela sempre vem com uma história de que “ você entregou sua alma ao demônio, por isso não pode andar, você tem que se converter, Jesus não quer você assim, o Capeta quer ver você no chão se rastejando igual uma cobra”.

Eu acho que isso acaba deixando ele magoado, m as tenta ser feliz ao lado de sua mulher. Bom, caso você ainda não tenha percebido, eu moro em uma fazenda, sem vizinhos, nem nada, apenas nós. Então, já sabe né, hora de trabalhar !

Desço as escadas em pulos, mas acabo esbarrando na Clarisse:

-Ei, olha por onde anda né, imagina se o Ponilso cai no chão e morre, você ia ter que fazer ele voltar a viver.

Eu faço um aceno com a cabeça indicando desculpas. Minha Irma sabe conversar comigo, mesmo eu sendo mudo ela faz linguagem de sinais, ou sabe traduzir as minhas. Ponilso é seu ursinho de estimação, na verdade é um pônei marrom do tamanho uma almofada, ela ganhou no seu aniversario de três anos, de uma senhora que freqüenta a igreja da mamãe. Desde então, ela vive paparicando o tal, leva-o de um lado para o outro.

Entro na cozinha, mamãe esta preparando um omelete delicioso, sempre assim, papai esta sentado na cadeira improvisada, tipo uma onde os bebes sentam, eu não tenho mais dó dele, pois aprendi que ele é igual a todos os homens, brincalhão, trabalhador e carinhoso. Sento do seu lado e acaricio sua mão:

-Bom dia, filho, dormiu bem ?

Aceno com a cabeça que sim.

-ainda bem, amor vai demorar a terminar de fazer as omeletes ?

Clarisse senta do outro lado.

-Mamãe, você ta fazendo omelete ?- coloca o Ponilso na cadeira ao seu lado.

-Sim querida, e não querido, não vai demorar nada.

Mame coloca uma bandeja na mesa com torradas, omelete e bacon. Pega uma lata de suco de laranja da geladeira e Põem nos copos.

-Amor, o cheiro esta maravilhoso.

-Hum, ta.

Ela as vezes é fria demais. Depois de tomar café, me levanto e vou cuidar do milharal.

Oito e quarenta e cinco. É difícil cuidar do milho, você tem que saber onde plantar, pro sol não queimar. Pego a pá grande e tiro do chão os restos de milhos que os urubus deixam, eu havia construído um espantalho no ano passado, mas não sei onde ele foi parar, Clarisse diz que ele ganhou vida e saiu andando, Mamãe é claro, deu uma bronca nela e disse que coisas inumanas não ganham vida. Bom, então eu tenho que regar, tirar, pisar, e fazer tudo na área do milho.

O sol esta bem quente. É difícil enxergar a casa da onde estou, os grande milhos cobrem a vista. Continuo a cavar um buraco no chão, ate que ouço um barulho, parecem passos.

Eles chegam mais perto. Essa é a parte ruim de ser mudo, você não consegue chamar ninguém, então a única coisa que faço é levantar a pá ate a altura do meu braço, pronto para atacar. Os passos aumentam, pisando nas folhas secas...Mais passos...Mais perto....Mais medo.

Até que...não é ninguém,alguns urubus voam em direção a casa. Limpo meu suor da cara, e volto a cavar.

No momento não percebi, ate ver algo duro no chão, não podia ser de pedra, mas estava coberto de areia. Jogo a pá no chão e cavo com as mãos. É largo, marrom, é um livro.

Tiro do chão e limpo a capa e as folhas que estão totalmente sujas de terra. Limpo a capa, mesmo suja ainda consigo ler o que esta escrito:

“O livro de satã”

Rapidamente jogo o livro no chão. De repente, as folhas começam a avançar sozinhas, de pagina pra pagina, mas não há vento algum. Ate parar em uma pagina onde há a foto de algo grande e cheio de folhas ao lado, e bem difícil de ler pois o livro é bem antigo, ma dá para perceber o que é. Um milho, e em baixo, em letras bem pequenas esta escrito.

“o fruto da sua casa será queimado pelas chamas do inferno, e aquele que tu mais amas será lançado no lago de fogo, este alguém fala como leão, age como um louco, mas na verdade é meu filho”

Antes que tento decifrar o que esta escrito, ouço algo que me apavora e faz com que feche o livro rapidamente. Saio correndo do milharal. Minha mãe esta em cima do telhado da casa, segura em suas costas uma grande cruz de madeira, seus cabelos loiros estão sujos de sangue, totalmente tingidos de sangue, sua pele esta toda suja de terra, e ela grita, grita, grita, e então, se joga de cima do telhado.

Este é o último capítulo disponível... por enquanto! A história ainda não acabou.