Desertoras
1 Capítulo 1 - F14's P.O.V.
Notas iniciais
F14´s P.O.V.
As paredes brancas do orfanato sempre me assustaram. Queimavam meus olhos. Me faziam sentir como se estivesse presa — na verdade, estava, mas não queria me lembrar disso — naquela droga de lugar.
Mas esse medo não era nada comparado ao de estar na sala da diretora. Enfim.
–Você parece uma Desertora, daquelas que vagam pela floresta sem eira nem beira e que matam umas às outras para se alimentar — a sra. Troggins, dona e diretora do orfanato Troggins, parecia-se demais com uma tartaruga (e, secretamente, era isso o que não me deixava enlouquecer todas as vezes em que ela me passava um de seus típicos sermões “você-se-parece-com-uma-Desertora-do-tipo-mais-selvagem”); feia, enrugada, a cara uma placa cinzenta e distorcida, com olhinhos brilhantes, amarelados e ferinos. — Se quiser ser mesmo assim, vá para aquela floresta imunda, F14. Você terá meu consentimento, tantos foram os distúrbios que causou para nossas regras.
Ao meu lado, a idiota da menina que me atacou me fuzilava com olhinhos apertados e cor de mel. Acho que seu nome era Z12, não consigo me lembrar agora. Ela era muito diferente de mim, completamente. Eu diria até que chegava a ser louca. Tinha cabelo comprido, todo tingido das cores do arco-íris, o que meio que me assustava; era tudo tão brilhante e colorido. Além disso, eu podia esmagar a menina com o meu pé. Ela tinha mais ou menos 1,50m de altura e era dois anos mais nova que eu. Era pálida e forte demais. Como uma anã que veio de Krypto. Era provável que eu lhe tivesse quebrado o nariz, pois uma cascata de sangue escorria dele, sujando o rosto de Z12.
Para quem estranhou os nossos nomes, as crianças que chegaram ao orfanato da sra. Troggins antes de saberem seus nomes são padronizadas, com letras e números. Tínhamos alas nas quais as crianças parecidas se encaixavam e, na ordem de chegada, vinham os números. Então, prazer. F14.
–Não sou uma Desertora, nem pareço com uma — rosnei, crispando os lábios. Queria brigar com a sra. Troggins. Bater nela. Fazê-la compreender que eu não era tão selvagem quanto ela pensava… bem, pode parecer contraditório, mas na marra. -, eu ainda não fugi. Se fugisse, seria uma. A senhora não pode me culpar por ela ter… — apontei para Z12, o volume da minha voz subindo de forma assustadora. Imediatamente, ela retrucou, como se estivesse aguardando ansiosamente por fazê-lo, a voz grave e ríspida.
–Ei, eu não fiz nada, caramba! Foi você quem começou a…
–Você estava me enchendo o saco desde que chegou aqui, estava pedindo para apanhar!
–E você decidiu apelar para a violência, Desertora?
–Cale a boca!
–Cale você!
Acho que passamos uns bons minutos berrando e ficando cada vez mais vermelhas. Quando meninas começam a brigar, não há nada que as pare… bem, só os berros da diretora do orfanato.
–Caladas, as duas! — seu tom de voz me fez estremecer. — Vocês terão um castigo. A partir de hoje até melhorarem sua conduta, F14 e Z12, terão de morar no mesmo quarto… que será o de F14.
Nós duas nos fitamos com a maior quantidade de ódio possível de ser colocada num olhar. Depois, ficamos pálidas.
–A senhora não pode fazer isso — Z12 balbuciou, embasbacada, ainda me olhando com os seus olhos cor de mel misturados com verde. Cara, eu podia jurar que ela era de Krypto.
–Acho que ela pode — retruquei, começando a passar do branco leitoso normal da minha pele para um vermelho vivo. A garota não respondeu, fitou os próprios pés, provavelmente em busca de auxílio da parte deles. — Vem logo e pára de reclamar. — agarrei a manga escura de sua blusa e a arrastei comigo para fora da sala da diretora.
–Me larga!
–Acho que só quando estivermos presas uma na outra…. baixinha.
Ela não parou de resmungar, mas me seguiu, ao menos.
Eu, perto dela, era gigante. Claro que eu já era gigante, mas com ela ao meu lado ficava ainda mais. Cara, eu tinha 1,80m. Eu não resmungaria do lado de uma pessoa irritada com 1,80m nem a pau, mas a escolha era dela.
Meu quarto era pequeno, apertado para o meu tamanho. Eu tinha uma cama minúscula e metade das minhas panturrilhas ficava para fora sempre. Só a parede do meu quarto era diferente da brancura dos demais: eu a cobrira com discos de vinil, que passara séculos escolhendo. Meu único aparelho de som, carregado de músicas do U2 e dos Beatles, ainda me aguardava, parecendo ansioso por ser ligado. Droga, e se ela quisesse colocar músicas estranhas e loucas que nem ela no meu aparelho de CD?
–Você não vai colocar alguma coisa no seu nariz? — perguntei, tentando ser gentil, mas a anã vinda de Krypto não deixava.
–Não — ela deu de ombros, como se não se importasse de ter o nariz sangrando.
–Vai logo e pára de mimimi. Ao menos, volte logo, eu quero dormir e não vou ficar te esperando.
Depois que ela saiu, comecei a pensar em como deveriam ser as regras de sobrevivência da Ala Z. As minhas regras eram rígidas, todas sempre respeitadas pelos integrantes da Ala F:
Se você for castigado por alguma coisa, jamais deve incluir nenhuma pessoa da Ala F nisso. Proteja os seus colegas. Protegeremos o seu couro.
Caso alguém tire sarro de você, não tente retrucar; saia na porrada.
Caso hajam castigos sérios aonde os outros da Ala F não estejam incluídos, como você ter que se reconciliar com quem você brigou, entre outras coisas, a mesa dos Fs não te aceitará entre eles por um mês. Para comer, você deve ir para a mesa de outra Ala. Se não te aceitarem, você se fudeu e vai ter que aprender a jejuar.
Você não dedura ninguém para a sra. Troggins. Ela é sua inimiga.
Z12 abriu a porta com uma coisa que eu não conhecia na cara. Acho que era gaze ou alguma coisa assim. Ela trazia o seu colchão, ainda menor do que o meu, nos braços, e praguejava. Por fim, se atirou nele e fitou o teto branco. — Eu te odeio.
–Eu também não sou a sua maior fã — retorqui, ainda furiosa.
–Por que a sra. Troggins tinha de ser tão rígida e chata? — ah, finalmente, um insulto. Eu poderia dedurá-la para a diretora e ficar de bem com ela. De qualquer forma, Z12 adoraria fazer isso comigo; por que não retribuir o favor? Lembrei-me da última regra da Ala F e suspirei.
–Por que você tinha de ser tão louca? — respondi apenas, bufando. Ela não respondeu, apenas resmungou alguma coisa que eu não entendi. — Você parece meio louca, sinceramente.
–E se eu for mesmo?! — ela rosnou de volta, os olhos cor de mel se enchendo de lágrimas de fúria. — Eu não vou falar com você, saco.
–Só falei isso por causa do cabelo. E por você ser tão pequena e forte — e assustadora, completei na minha mente. Eu era magricela e tinha pernas de aranha, então não era tanto quanto ela. — Não quero brigar mais com você e ser obrigada a quebrar mais o seu nariz.
–Ahn, acho que eu quebraria o seu primeiro.
–Você teria que arranjar meio que uma escada antes disso.
Z12 ficou quieta de novo. De vez em quando ela chegava a ser tão esquisita que simplesmente… parava de falar. Ficava muda. Dava um tilt no cérebro, sei lá.
–Mas o seu cabelo também não é tão normal assim, de qualquer forma. Ele é azul, e está desbotando, só pra sua informação. — ela retorquiu, depois de um bom tempo calada.
–Ei, eu preciso tingir de novo — as manchas loiras, quase brancas, assomavam em meio ao cabelo tingido de azul escuro. — Deixa o meu cabelo em paz, Arco-Íris.
Os cabelos tingidos das duas eram obra do dia em que a sra. Troggins decidiu ser legal e nos deixar sair, ver o mundo, fazer uma tatuagem ou tingir o cabelo e deu um dinheiro para que comprássemos coisas das quais gostássemos (meus CDs do U2 e dos Beatles, os vinis e o aparelho de som cinzento).
–Cala a boca.
–Cala você.
Acho que acabamos dormindo em meio a “cala a boca”s e “eu te odeio”s, porque eu não me lembro de mais nada do que aconteceu a seguir. Só abri os olhos quando a luz dourada de uma manhã surgiu em meio à cortina branca do meu quarto branco em meio à brancura daquela vida sem graça de orfanato.
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