Desencontros
1 Capítulo Único
Notas iniciais
Heloísa corria. Não sabia para onde estava indo, as lágrimas já obscureciam sua visão. Estava em uma rua movimentada e o grande relógio da cidade informava-lhe que já se passava da meia noite. Em sua corrida desesperada, casualmente esbarrava em algum passante. Estes a xingavam ou se afastavam olhando feio, temendo que a garota fosse alguma assaltante.
Heloísa não se importava com os xingamentos e tampouco com os olhares. Sua única preocupação era correr. Não podia parar de fugir. Não aguentaria voltar para aquele lugar. O lugar que destruía todos os seus sonhos. O maldito lugar que falava que Abelardo não existia.
Não, pensou ela. Abe tinha que existir. Ela sabia.
Ela iria se encontrar com ele agora. Seu plano seria bater na casa número 4, na rua das Acácias, esquina com a rua Ipê. Era esse endereço que ele tinha lhe passado em uma de suas milhares de conversas.
Eu o amo, pensou enquanto ainda corria. Ele não podia ser uma ilusão de sua cabeça, como aquele lugar tanto insistia em lhe falar.
Mas para chegar naquele endereço, onde morava o garoto de 15 anos, dono de cabelos castanhos rebeldes e olhos mais verdes que o mar, ela tinha que saber como chegar lá.
Aliás, pensando agora, ela não sabia onde se encontrava. Será que foi mais de uma das lembranças que aquele lugar que tanto odiava tinha lhe roubado?
— Senhor, você poderia me informar onde estou? –Perguntou a um homem que passava, parando sua fuga pela primeira vez. Porém, o homem se limitou a apenas olhá-la com desprezo e voltar à caminhada, ignorando-a. Será que ela estava tão feia assim? Sabia que sua camisola deveria estar suja e rasgada depois de tantos tombos, mas isto não justificada a atitude grosseira do homem.
— Senhora, poderia me informar onde é a rua das Acácias? – Reformulou a pergunta, olhando nervosamente para trás. Pensou ter ouvido seu nome ser gritado.
A mulher também não respondeu sua pergunta e, retirando apressadamente a mão da garota de seu braço, afastou-se depressa.
Heloísa, que agora com certeza ouviu seu nome ser gritado, correu mais depressa. Encontrou refugio entre grandes latas de lixo na calçada. Sentou-se, quieta, e esperou.
Passado um ou mais minutos, ela ouviu seu nome ser gritados mais algumas vezes, agora mais altos. Fechou seus olhos depressa, como se isso pudesse deixa-la invisível. Contudo, quando os abriu novamente, viu duas mãos femininas levantando-a de seu precário esconderijo.
— Graças a Deus. Estávamos tão preocupados com você, Heloísa. – Falou a mulher enfermeira Bete, colocando-a em seu colo como se não pesasse nada. De fato, para uma garota de 15 anos, Heloisa era muito magra para sua idade. Bete então virou-se, voltando em sentido contrario ao da garota anteriormente. Heloísa sabia que estava voltando para aquele lugar e começou a chorar.
— Eu não quero voltar para lá. O Abe está me esperando. Nós nos amamos. – Suplicou, enquanto ainda no colo da enfermeira e atravessavam a rua. Já via a grande construção branca, agora faltando poucos metros para chegar lá. Talvez não tinha se afastado muito do lugar como imaginara antes.
— Eu sei, meu amor. Mas já está passando da hora de você dormir. Amanhã o doutor Rogério te ajudará encontrar o Abelardo. – Reconfortava a enfermeira, enquanto chegava na frente da enorme casa. Pegou as chaves e abriu o portão de ferro. Heloísa então parou de chorar depois de ouvir as palavras da mulher.
— Então a gente vai encontra-lo amanhã. Abe está ansioso para me conhecer na vida real. Ele me ama demais, sabia? É amor verdadeiro.
— Sim, querida. Sei que é. – Finalizou a mulher, enquanto cruzava a soleira da porta. Heloísa, depois de poucos minutos, voltará ao Hospital Psiquiátrico de Porto das Ostras. Heloísa agora estava segura para sonhar novamente com Abelardo, sem saber que ele nunca existiu.
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