Desejo Egoísta.

1 Desejo Egoísta.


Notas iniciais
Espero que gostem.

Não há maior desonra do que tirar a própria vida.
Mas ao mesmo tempo não há maior miséria do que uma vida amarga.
No fim das contas, você perde tudo.

(...)

A culpa do sobrevivente não era algo que ela esperava passar. Não nesta vida pelo menos, como poderia? Desde sempre ela estava acostumada a ver tudo e todos morrerem ao seu redor e por tanto tempo ela pensou veementemente que seus sentimentos em relação a quem vive e quem estavam entorpecidos, ela podia gostar, podia se afeiçoar...

Mas ninguém lhe disse que ela ainda podia se sentir tão culpada por estar respirando, essa culpa e esse desejo desesperado de encontrar um encerramento lhe davam arrepios desde o dia em que Falco a deixou com palavras meio doces e meias verdades. Ela poderia contar com a ajuda dele se ela estivesse desamparada, David lhe fez jurar que dividiria o dinheiro com ela, e o homem honrou os últimos pedidos do amante dela, ela ainda tinha um ódio ilógico e descomunal pelo homem.

Poucas semanas depois ela encontrou em contato com Falco, não para pedir ajuda veja bem, tampouco para verificar como o homem estava depois de todo aquele inferno. Ela ligou apenas pra achar uma válvula de escape para todo o seu ódio e recém descoberta auto aversão. Ela xingou e desejou que o homem encontrasse a morte dentro do carro em que ele a tirou de lá, por pedido de David. Ela perdeu o controle e amaldiçoou a existência de Falco e de sua moralidade.

Ela estava sendo idiota, mesmo enquanto ela dizia que iria matar Falco e fazê-lo sofrer a pior das mortes por não ter voltado para salvar David ela reconhecia a falta de lógica em suas palavras, não havia pensamento profundo por trás de sua raiva. Só havia dor e sentimentos reprimidos que ela queria deixar vazar, não se importando com o quão tóxica ela podia ser. Foi uma visão patética ainda mais quando ela se lembrava disso.

Falco não fez nada para impedi-la de agredi-lo verbalmente, ele até mesmo ousou provocá-la para ela derramar ainda mais o ódio de sua alma. O homem tinha um coração generoso mesmo pra uma mulher patética e amarga que ela havia se tornado. Ela deveria se sentir grata, ela deveria encontrar propósito em continuar existindo, toda sua antiga tripulação havia sido morta e os camaradas que ela mais havia passado o tempo e passado a valorizar, todos mortos.

Rebecca no fim de sua vida encontrou a paz, na vida após a morte ela poderia estar com David, e ela... Ainda estava respirando. Esse foi sempre o seu problema, incapaz de dizer as palavras e muito ruim em expressar como deveria se sentir. Se ela tivesse sido mais honesta, se ela não tivesse sido uma vadia inútil e tivesse tomado escolhas diferentes, ela não estaria assim. David estaria com ela, em seus braços e eles poderia ter encontrado um propósito diferente.

Poderia até se dizer que ela ousou sonhar com isso todas as noites antes de realmente dormir, ela ousou se perder nas possibilidades. Nos famosos '' E se '' Era quase digno de pena, mas ela passou da piedade fazia tempo.

— '' Preparando-se para o desembarque, atenção passageiros, preparando-se para... '' — a voz automatizada do módulo fez pouco para tirar a atenção de Lucy da própria cabeça, e apenas serviu para dar a mulher uma nova onda de auto aversão.

Aqui estava ela, realizando o sonho que ela havia desnudado em sua alma para o seu amante, seu pequeno garoto nervoso que escondia sua timidez em bravura, ela ousou esboçar um pequeno sorriso com a lembrança daquele tempo feliz, a memória dele era a única coisa que a fazia se embebedar alegremente na nostalgia.

A porta de saída do módulo se abriu, ela tampouco fez questão de se mover. A memória do sorriso de David a atravessou como uma bala de alta velocidade e não havia o porquê dela se esquivar desse tiro agridoce. Quando percebeu que todos os outros passageiros estavam fora, ela se movimentou e caminhou lentamente, quase solene pelo módulo. O corpo dela sentia-se muito mais leve do que ela lembrava.

Quando ela finalmente pousou seus pés na lua, quando finalmente ela se viu sendo capaz de realizar o sonho que ela abrigou dentro de si mesma, ela esperava se sentir realizada, grata, profundamente grata mesmo. Porém não foi isso que ela sentiu quando viu as pessoas alegremente começando a saltar e descobrir os limites ou não limitações da gravidade daquele lugar.

O que ela estava sentindo era apenas lamúria, era apenas uma dor arraigada que ela deixou se enraizar dentro de si mesma, não havia gratidão como ela DEVERIA sentir, não havia reconhecimento pelas mortes dos companheiros para que ela tivesse a honra de pisar na lua como sempre quis, tudo era vazio, o espaço não preencheu nada dentro de si mesma, era uma imensidão que nada que ela tivesse a oferecer a ajudaria a encontrar propósito.

Não havia necessidade de se enganar, ela se tornou vazia e acolheu isso. Esses eram os pensamentos de Lucy enquanto se movia pela lua finalmente, arriscando seus primeiros passos e pequenos saltos.

— Nem uma neuro-dança especializada pode se comparar com a realidade. — ela recitou para si mesmo enquanto ignorava qualquer pessoa e começava a se afastar do grupo de turismo, não dando a mínima se alguém a havia notado, ela apostava que não.

Sua mente já havia tomado uma decisão, era uma decisão que sua alma aclamava para que ela tomasse, não haveria mais volta depois disso e ela estava satisfeita com isso, ela faria as pazes com todo mundo.

Ela jurou que faria.

Saltando pelas pequenas crateras, procurando criar distância entre ela e qualquer outro humano na lua, ela decidiu pelo menos desfrutar do calor poderoso do sol sobre o pequeno corpo e pela proteção de seu traje, ela decidiu que em seus últimos momentos ela gostaria de desfrutar daquilo antes que sua vida fosse engolida pelo peso de seus sentimentos.

— O fardo dos vivos é forte pra uma alma fraca, eu li isso em algum lugar. — ela decidiu falar consigo mesmo, não queria esquecer a própria voz. Viver sozinha e se comunicar com a própria memória a havia tornado quase muda. — Você vai me perdoar pelo que quero fazer, não vai David?

Quando saltou no meio de uma outra cratera rasa, quando percebeu que nenhuma voz e nenhuma alegria contagiante ressoava em seus ouvidos, ela se permitiu respirar profundamente.

Ela ergueu sua visão para o sol, colocando o rosto na frente do visor ela jurou por tudo que era mais sagrado nesse universo que ela viu o amor de sua vida lhe olhando com alegria e um sorriso bobo em seu rosto, mas não era apenas ele que estava lá.

Os mesmos rostos de seus camaradas estavam lá, todos aquele que já estavam perdidos estavam lá durante aquele precioso segundo. E então a visão dela focou sobre a luz do sol e tudo se foi. Era sua mente pregando peças nela, seus desejos de vê-los novamente eram tão poderosos que ela já sabia que alucinava. Mais um pouco, apenas um pouco mais e ela poderia estar com eles.

— Eu sei que você está me ouvindo agora David. — ela começou a expressar seus pensamentos para o vazio do espaço, o sol era seu testemunho. — Eu sei que você esperava que eu pudesse viver uma vida plena e sem arrependimentos, eu sei... Mas em Night City os finais felizes não se realizam, lugar errado e pessoas erradas, é o ditado.

Havia um toque quase solene nas batidas do coração dela, ela podia no entanto sentir-se tudo menos calma e composta, ela estava uma bagunça. Respirando novamente ela prosseguiu.

— Eu tentei eu juro que tentei dar propósito ao seu sacrifício, amor. — Lucy sentiu a pressão de sua escolha no momento que ela começou a falar, mas não havia mais volta agora, agora era apenas ela e a lua. — Eu falhei miseravelmente em viver feliz, eu falhei em encontrar valor na minha própria existência, eu falhei com você e falhei com todo os que morreram por mim, eu sinto muito...

Sempre foi difícil se expressar como deveria. Ela sabia que ela sempre foi uma mulher horrível pra essas coisas, mas pelo menos uma vez e uma última vez em sua vida ela podia crescer em si mesma.

— Os últimos meses foram difíceis e eu não tentei superar nenhum obstáculo que eu mesma coloquei na minha cabeça. — ela riu enquanto deixava as lágrimas de autopiedade rolarem sobre a face, as mesmas que ela tentava se convencer que ela já havia superado, mentiras e mentiras. — Eu fui bem fraca, nem mesmo eu me reconheço mais a essa altura, sonhar com você era a única alegria que eu encontrei e ainda sim isso não foi suficiente pra que eu quisesse viver até o fim.

Sua mão direita se moveu para uma parte acoplava que servia tanto como trava de segurança do capacete do seu traje como o removedor. Ela deixou sua mão pousar sobre isso enquanto respirava dessa vez quase sem vontade.

— Eu não queria viver se isso significasse perder você, naquela noite quando Maine e Dorio morreram eu queria ter tido a coragem de dizer que naquele ponto eu só me importava que você sobrevivesse comigo. Só você era importante àquela altura, mas eu fui covarde e mantive esse pensamento, essa certeza pra mim e deixei você viver pelo sonhos dos outros, deixei você viver e morrer por uma mulher que não queria existir se você não existisse comigo.

Ela solidificou seus dedos sobre o pequeno engate. — Mas agora eu vou te encontrar, porque uma vida solitária e amarga não é o jeito de um Cyberpunk ir dessa para melhor, eu sinto muito David pelo que eu estou prestes a fazer, eu juro que vou te compensar quando eu te ver na nossa próxima vida, eu juro por nós dois.

Tomada pelo êxtase e pelo ainda não surpreende medo ela retirou o plug e puxou seu capacete em uma movido tão rápido que ela ficou surpreso com o desespero de suas ações. No exato segundo ela sentiu uma profunda pressão a gerenciar para baixo, suas mãos se moveram quase que por instinto em sua garganta, tentando aliviar o aperto, ela sabia que havia escolhido isso mas a sensação horrível de sufocar de uma maneira tão poderosa e incapacitante ativou o instinto de sobrevivência nela.

O brilho do sol ardeu seu rosto e seu pulmão colapsou, a dor que ela estava passando nesses segundos agonizantes, ela merecia essa dor. Essa miséria era sua porta de entrada para David, ela aceitou isso. Virando-se para encarar o sol ela deixou seu último pensamento consciente fosse o suspiro de prazer dele, o corpo quente a confiança em sua voz que lhe prometeu uma vida juntos, ela faria isso acontecer agora.

Lucy realizou seu desejo egoísta na mesma proporção que realizou seu sonho, ela foi até a lua como disse quer faria, ela honrou como podia o sacrifício daqueles que já não estavam mais vivos, ela honrou a memória de cada um deles, a próxima aventura a recebeu com uma escuridão tão infinita quanto a do cosmo e ela não sentiu mais nada.

O desejo mais forte de uma mulher na lua foi feito e as únicas testemunha eram os espíritos e o sol.

Notas finais
Foi uma das versões que me veio a cabeça, e minha imaginação levou o melhor de mim e quando eu percebi eu tinha que dar meu próprio centavo no universo da obra.
Você chegou ao fim do livro. Parabéns!