Desejo Duplo

24 Epílogo - Neve


— Como estão as coisas? – Elesis gritou para Sieghart que estava no telhado concertando alguns defeitos, junto com Zero, Ronan e Ryan.

— Estamos quase, chefinha! – Siegh mostrou um dedo positivo para a ruiva, o que quase o fez cair por falta de apoio.

— Bom! Bom! – Ela acenou positivamente e se virou para olhar para o jardim, onde estavam Lire, Arme, Rey e Lass. – As sementes foram o suficiente?

— Sim El! – Arme confirma, enquanto usa magia para fazer algumas flores brotarem, com a ajuda e Rey, que quase não fazia esforço. Lass e Lire estavam regando e plantando as coisas.

Elesis se dirige até o interior do lugar, onde estão Mari, Dio, Amy, Jin, Azin e Holy. – Como estão as salas de treino?

— 70% já foram restauradas. – Mari responde séria, como sempre, enquanto mexe em um painel digital, que cria objetos e reconstrói algumas paredes. – Não vai demorar muito até terminarmos.

— Ótimo! Vocês precisam de algo?

— Tá tranquilo Elesis! – Jin acena para ela. – A Mari e o Dio são os que fazem mais coisas aqui, na verdade. A gente tá só ajudando na decoração.

A ruiva olha para Dio que está flutuando, enquanto usa magia para reconstruir as paredes e mover os objetos. Amy está falando sem parar, dando idéias, não tão boas, de como deveriam ser os objetos das salas. Holy está carregando tijolos em uma área da sala, mas está triste. Elesis se aproxima dela.

— Holy?

— Ah! Oi Elesis! – Holy se assusta e acaba derrubando alguns tijolos. – Ah... Que desajeitada que eu sou, hahaha. – As duas se abaixam para pegarem os tijolos.

— Como você está? – Elesis pergunta e faz Holy travar por um segundo.

— Ah... Bem, na medida do possível...

— Você pode pedir qualquer coisa pra mim, ok? Pra nós. – Elesis faz um gesto que aponta todos na sala. – Você não está sozinha, Holy.

— Obrigada Elesis. – Holy sorri tristemente e se levanta. – Mas, dos três, eu sou a que menos precisa de atenção. – Ambas olham para Azin, que está empilhando os objetos no canto da sala.

— Como ele está?

— Precisa se distrair. Mas vai ficar bem.

— E onde está o Lupus?

Holy abaixa a cabeça.

— Continua lá.

Elesis sai da sala apressada e corre até o portão. Lupus está lá sentado sobre o muro. A garota se aproxima e senta ao seu lado.

— Oi Lupus...

— E aí Elesis. – O garoto a responde sem encará-la. Ele está pensativo olhando o horizonte. – Precisa de alguma coisa?

— Ah, não. Não, obrigada. Só vim ver como você está... — Um silêncio desconfortável domina o ar por alguns segundos. – Bom... Como foi no templo?

— Eles choraram quando viram o corpo dela. Mas agradeceram. – Lupus abaixa a cabeça. – Vão fazer uma cerimônia para enterrá-la. Amanhã à noite.

— Todos nós vamos para lá. Não teria como não irmos.

Ambos encaram o horizonte. O por do sol é vermelho, mas as nuvens possuem um suave tom de rosa.

— Como está lá dentro? – O moreno pergunta.

— A Academia está quase de volta a como era antes. Tem só mais algumas coisas pra ajeitar.

— É melhor você ir, então. Devem estar precisando de você.

— Sim... Sim. – A ruiva desce do muro. – Se precisar... Chame.

A garota começa a se afastar.

— Ela jogou uma pedra em mim.

— Hum? – Elesis se vira confusa.

— Quando nos reencontramos eu estava numa briga idiota com Azin. Eu quase dei um tiro nele, mas ela jogou uma pedra em mim. Eu nunca me senti tão feliz... – O garoto cerra os punhos. – Eu finalmente podia ver o rosto dela de novo.

Elesis abaixa a cabeça e abre a boca para falar, mas nada sai. Depois de muito pensar, tudo que ela consegue dizer é: — As Deusas disseram que a trariam de volta, mas...

— Tudo bem. Não sei por que tive esperança delas cumprirem a promessa. AS promessas...

— Me perdoe Lupus...

A garota sai e Lupus continua a olhar o sol, que lança seus últimos raios por entre as montanhas.

Lupus caminha pela estrada de pedra que leva ao templo, onde Lin foi criada, e agora será enterrada. É de manhã, o Sol é apenas uma grande linha de luz aos olhos. Está nevando. Uma neve calma, com flocos pequenos que caem tranquilamente do céu.

O garoto se aproxima de uma floresta. Há muitas árvores com troncos brancos e folhas claras, algumas tem flores nos galhos. Os riachos por entre as árvores correm, soando com água límpida e transparente. Os flocos que caem se desfazem, ou viajam em cima das folhas que nadam junto com a correnteza. Lupus nunca prestou muita atenção aos seus arredores, mas esse lugar nunca lhe foi tão notado quanto agora. Ele abriu seus olhos, e naquele lugar, Lin era a única coisa de que ele conseguia lembrar.

No final do caminho era possível de avistar o templo. O lugar estava envolto por velas e luzes, uma decoração maravilhosa que se completava com a neve e com as flores do lugar. Mas não havia ninguém do lado de fora. O demônio esperou por alguns minutos, até uma senhora sair, cabisbaixa, de dentro da casa. Ele foi até ela, que sorriu com gentileza ao vê-lo.

— Com licença, senhora.

— Lupus, não é?

— Isso mesmo.

— Precisa de alguma coisa meu jovem?

— Não obrigada, eu só... Queria ver como estão as coisas para o enterro...

— Ah, entendo... – A mulher perde o sorriso e desvia os olhos. – Todos estão orando agora. O enterro será feito à noite.

— Sim, sim... Claro... Posso vê-la?

A senhora olha para ele com um pouco de receio, mas depois sorri. – Sim... Você foi quem a trouxe para nós, nada mais junto que deixá-lo vê-la.

— Obrigado, senhora.

— Venha comigo criança.

A moça leva Lupus até o templo, em que há muitas pessoas, em diferentes quartos, rezando. Todos parecem tristes. Há velas acessas por todo o lugar, e pétalas de cerejeira cobrem o chão, mostrando um caminho por onde ambos seguem.

Os passos cessam em frente a uma porta de madeira cerrada, que possui detalhes desenhando delicadas árvores do chão ao teto. O moreno encara a porta por um tempo antes de ser aberta, revelando a albina deitava sobre uma mesa de flores. As pétalas eram brancas, assim como a roupa e os cabelos da garota. Ela deitava serena, como a neve que caía pela janela atrás dela.

Lupus entrou devagar e a mulher fechou a porta atrás dele, deixando-o sozinho com a garota. A sala cheirava a rosas. Até mesmo Lin tinha perfume de flores. O garoto se aproximou dela e segurou sua mão fria.

— Sabe que dia é hoje? – Ele sorri tristemente enquanto acaricia seu rosto. – É o dia em que nos conhecemos. Estava nevando também, da mesma maneira. Meu pai tinha me deixado e eu estava sozinho. Eu tinha fugido de casa pra tentar encontrá-lo e me perdi no frio. Mas aí você veio. A coisa mais linda que eu já tinha visto, brilhando junto com a neve. Me abraçou e me ajudou. Nunca esqueci o calor daquele abraço. – Lupus agora olhava pra baixo e apertava a mão da garota com força, chorando. – Eu nunca vou te esquecer, Lin. Nunca vou deixar de te amar.

“Me desculpa”

As palavras de Lin voltam à mente de Lupus que libera um riso engasgado de dor.

— Eu te perdôo Lin... – Ele leva a mão pálida de Lin até seu rosto e chora sobre ela. – Eu te perdôo por tudo... Então por favor, me perdoe também...

Um floco de neve entra pela janela e, junto com o raio de luz que emana de fora, começa a passear pelos cantos do templo.

— Me perdoe pelo modo como te tratei... Me perdoe por não ter te contado nada antes... Me perdoe por não dizer que te amo quando eu pude... Me perdoe por te deixar morrer...

A neve flutua até eles e cai sobre as mãos unidas do casal, se desfazendo. Lupus treme pelo frio do gelo e olha para fora. O mundo está calmo. Agora ele ouve pássaros que a pouco não cantavam e olha mais uma vez para a dama deitada, até se levantar e ir embora.

Os passos de Lupus ficam marcados por som e profundidade no tapete branco que cobre o chão, conforme ele se afasta. Não há ninguém, apenas ele no espaço sereno e triste do templo em luto. Agora sério, o garoto não derrama mais lágrimas, apenas segue seu caminho, sem olhar para trás. A porta do templo se abre devagar com o cessar das orações. Há vozes, mas o garoto não consegue distingui-las, pois já está longe, fora da floresta de flores, seguindo o córrego em direção ao horizonte. Seu vazio é tanto que não percebe que alguns passos se aproximam.

— Eu já te perdoei.

Lupus para. Congela. A neve não cai mais, ela para junto com ele.

O garoto vira rapidamente e avista no meio das árvores a albina, quase camuflada no meio da neve, sorrindo para ele com lágrimas nos olhos.

— ...Essa é minha garota.

Lin abre ainda mais o sorriso e começa a se aproximar dele. O garoto, sem esperá-la, corre em sua direção e a envolve em seus braços. Ela retribui o abraço sem parar de sorrir e chorar. Lupus começa a rir aliviado e a aperta ainda mais, fazendo ambos sentirem seus batimentos, agora sincronizados.

Ele segura a nuca da garota e a atrai para um beijo apaixonado, no qual ambos podem, finalmente, sentirem liberdade e não terem mais nenhum medo ou remorso.

Notas finais
Obrigada por lerem até o fim amores! Espero que tenham gostado S2 ATÉ A PRÓXIMA!
Você chegou ao fim do livro. Parabéns!