Desde o princípio
10 Capítulo 10
Notas iniciais
Pela primeira vez em sua curta vida a deusa ficou sem palavras.
Não sabia como reagir, ou o que falar. Sua mente, sempre tomada pelo caos de pensamentos, tornou-se silenciosa e vazia. Por um instante se perguntou se tinha ouvido corretamente, procurou no deus dos mares qualquer sinal de que aquilo não passasse de uma brincadeira, um sorriso, um arquear de sobrancelha, qualquer provocação naqueles lábios.
Porém ele a encarava com seriedade, e até um pouquinho de apreensão por seu silêncio, seus olhos verdes fixos nos dela por um longo instante. Com o coração acelerado ela percebeu que o deus falava sério, era um pedido real de que ela casasse com ele.
― O que? ― sua voz não passava de um murmúrio, mas foi o suficiente para oferecer algum alívio ao corpo tenso do deus.
― Case comigo. ― repetiu, de forma mais firme, sem qualquer hesitação. Aquelas íris verdes escureceram, e por dentro, a deusa estremeceu com a intensidade de seu olhar. ― Amo você, mais do que meu poder ou minha imortalidade, abriria mão disso pela chance de tê-la comigo, dia a após dia, pelo tempo que for.
Aquelas palavras, tão intensas e sinceras, quebraram qualquer dúvida ou insegurança de Atena. Tinha passado horas mergulhada em pensamentos, fingindo ouvir o que os outros diziam, mas com sua mente perdida em sua breve conversa com Zeus. Estivera apavorada com a possibilidade do fim daquilo, era cedo demais, ela sentia coisas que ainda não tinha aprendido a nomear, coisas das quais não queria abrir mão.
Ouvir o deus dos mares falar de seus sentimentos, sobre amor, sobre tudo o que ele faria para estar com ela só dava uma noção da magnitude de tudo aquilo, e como quando a beijara pela primeira vez, Atena viu seus sentimentos florescendo diante de uma situação óbvia.
Ela também o amava, também abriria mão da imortalidade, e de qualquer outra coisa, pela possibilidade de acordar todos os dias envolvida nos braços de Poseidon.
― Sim. ― respondeu, então a certeza tingiu sua voz quando ela voltou a repetir. ― Sim, Poseidon. Eu quero casar com você.
Nos momentos seguintes foi incapaz de falar, o deus voltou a beija-la, de forma intensa que lhe roubava qualquer chance de pensar claramente, e de desejar parar. Agarrou-se ao corpo dele, desfrutando da firmeza de seus músculos, e da maciez de sua pele bronzeada. Levou as mãos até a nuca dele, arranhando levemente e enchendo-se de felicidade ao sentir a forma como reagia ao toque. Naquele momento não existia Zeus que querendo separa-los, ou todos os problemas que viriam a enfrentar, eram apenas os dois.
Por fim seus lábios se separaram, e enquanto Atena se aninhava junto a ele, Poseidon a abraçou apertado, como se ela pudesse desaparecer. A deusa fechou olhos, desfrutando da calmaria do momento, do calor que ele lhe oferecia, da sensação de pertencer a algum lugar. Então, um riso baixo sacudiu o corpo do deus, e erguendo o olhar, a deusa encontrou um deus dos mares com uma expressão muito divertida.
― O que foi? ― indagou, e ele balançou a cabeça negativamente.
― Eu estava apenas pensando... Seu pai vai enlouquecer quando souber.
Deixou escapar um som de frustração, e isso fez com que o deus risse ainda mais. Foi colocada com as costas contra o peito dele, o queixo de Poseidon estava em seu ombro, e seus lábios muito próximos a orelha da deusa.
― Ele não precisa saber, se não quiser. ― murmurou, e sua voz baixa e tão próxima provocou arrepios. ― Podemos fugir essa noite, e daqui a algumas semanas você manda uma carta...
― Poseidon! ― ela repreendeu aquele plano absurdo, mas em nada afetou o humor dele, apenas fez com que beijasse seu pescoço e a fizesse se encolher.
― Então ele não poderá fazer nada, você será minha esposa, minha rainha.
Era impossível não ouvir o orgulho e até a posse em sua voz, mas Atena estava longe de qualquer preocupação ou irritação com aquilo, apenas visualizava o que ele dizia. Poderia ser esposa dele, poderia permanecer junto ao deus que amava pelo resto de sua vida, poderia ter o futuro que imaginara naquela manhã ao acordar com o deus dos mares em seus lençóis.
― Não quero ser o motivo de uma guerra entre vocês.
― Eu lutaria e venceria milhares de guerra por você, Atena. Apenas para tê-la assim, em meus braços. Apenas para poder dizer que é minha.
― E que você é meu. ― ela ressaltou, sabendo que soava um pouquinho possessiva, mas tinha seus motivos, mesmo que não admitisse para ele, sentia mais ciúme do que era seguro demonstrar. Tinha perdido a paciência com algumas ninfas naqueles dias por ouvi-las falar do deus dos mares, sobre como ele podia ser divertido, sobre as noites em que estiveram juntos – tão diferente dos encontros que eles tinham. Vinha constantemente pensando o momento em que ele cansaria daquilo, que buscaria nos braços de outra o que Atena tão firmemente lhe negara, e como ela deveria reagir – ou se sequer tinha esse direito.
Agora ela tinha, aceitara casar com ele, e esse era um compromisso maior do que um romance as escondidas. Logo todos saberiam, logo ela viveria nos mares com Poseidon, logo eles seriam um do outro.
Quando o dia amanheceu, a luz tímida do sol atravessando as copas das árvores, os pontos luminosos na campina como peças de um mosaico, Atena se permitiu permanecer junto ao corpo morno de Poseidon por mais alguns instantes. Quando se despediram, horas mais tarde, ele a beijara lentamente, mas o coração dela batia desenfreado. Quando a deusa entrou em seu templo era impossível conter o sorriso em seus lábios, e ela não queria fazê-lo.
Medusa estava junto ao altar, suas preces eram um murmúrio constante e cheias de adoração, mas havia coisas em seu coração que a deusa da sabedoria não conseguia decifrar. Por vezes queria ser Apolo, ter a capacidade de decifrar a alma daqueles que estavam a seu redor apenas com um olhar, mas não podia, e a ela só restava confiar em sua sacerdotisa.
Nos dias que se seguiram ela tentou contar a Zeus sobre tudo, sobre as escapadas para o bosque, sobre Poseidon, sobre seus sentimentos, mas o universo parecia conspirar contra isso. No fundo Atena se sentia mal por mentir para o pai, odiava-se quando ele a olhava, cheio de confiança e orgulho, como se ela fosse a melhor coisa que tinha lhe acontecido. Esquecida disso nos braços de Poseidon, nos murmúrios em seus lábios, e em suas histórias.
Certa tarde encontrou o deus dos mares acompanhado por uma menina, quando se arriscara a visitar uma praia e enfrentar o mar. Pensava que o Olimpo era a mais bela visão que se poderia ter, mas com os pés na areia e o sol queimando sua pele, Atena sentia-se hipnotizada por aquelas águas azuis.
Foi assim que Poseidon a encontrou, sua mão enlaçada na da criança que sorria ao se colocar diante da deusa. Marcie era adorável, Atena gostou da menina no mesmo instante.
― Você é a namorada do tio Poseidon? ― ela indagou, sem cerimônias enquanto caminhava junto as deidades na areia.
― Creio que “noiva” seja o termo mais adequado. ― Poseidon foi mais rápido em responder, e a deusa da sabedoria riu, sabendo que ele não deixaria passar aquela chance de se vangloriar.
― Sim, noiva é o termo adequado, mas namorada também é bom. ― a loira piscou para a menina, em cumplicidade, e por alguns instantes pensou se isso tinha irritado o deus, uma vez que ele parou de andar e franziu o cenho. ― Poseidon?
― Problemas no reino, importa-se de cuidar ela por alguns instantes? ― ele indicou a menina, cuja expressão ofendida deixava claro que ela não precisava ser cuidada, Atena gostou ainda mais de Marcie, ainda assim assentiu. ― Certo, comportem-se, meninas.
Com isso ele desapareceu, e as duas voltaram a caminhar, naquela praia não havia aldeias de pescadores ou qualquer sinal dos mortais, eram quilômetros de areia clara e ondas, Marcie começou a contar sobre como costumava andar por ali com Poseidon todos os dias.
― Quando eu nasci minha família começou a passar por dificuldades, meus pais eram pobres, e o pouco que meu pai conseguia mal dava para sustenta-lo com a esposa, imagine com um bebê, passaríamos fome. Então um dia ele foi pra o mar, com uma canoa, e disse que não voltaria para casa sem algo para nós. Ele não queria roubar, não tinha terras para plantar, então buscou auxilio do mar, e foi acolhido por Poseidon. ― ela contou enquanto chutava areia, Atena ouvia tudo com atenção, ávida por informação como só ela podia ser, era triste e até cruel a realidade por trás daquela história. ― Ele se tornou um devoto do deus, de alguma forma eles se tornaram amigos. Papai voltava com peixes todos os dias, não passávamos mais por tantas dificuldades, então um monstro atacou o barco, e ele nunca mais voltou.
― Foi dessa forma que chegaram ao palácio de Poseidon? ― a deusa questionou, e a menina assentiu antes de correr alguns metros a frente e dar estrelinha na areia.
― Um dia um homem grande e bonito apareceu na nossa casa, dizendo que iria cuidar de nós, então nos levou para o mar e vivemos lá desde então. Às vezes tento lembrar meu pai, sinto que estou esquecendo ele as pouquinhos, por isso Poseidon me traz até a praia todo dia, ele me conta histórias, assim jamais poderei esquecer.
A deusa da sabedoria tentou visualizar aquela cena, a pequena Marcie recebendo a notícia da morte do pai, o medo e o futuro incerto, e a chegada de Poseidon lhe oferecendo segurança e cuidados. Sentiu que descobria um pouco mais sobre o homem por quem estava apaixonada, um lado oculto que ele raramente deixava explicito aos que estavam a seu redor. Caminharam por um longo tempo, e por fim o deus dos mares surgiu, recebendo Marcie em um abraço depois da menina se atirar sobre seu corpo.
― Falando de mim, meninas? ― o sorriso nos lábios do deus quase apagou a expressão cansada que trazia, novamente a deusa quis oferecer ajuda, mas sabia que ouviria a mesma resposta dos dias anteriores. A cada encontro o deus dos mares parecia mais exausto, chegando a dormir no colo de Atena por mais de uma vez.
― Sim, Marcie me contou histórias interessantes sobre você.
― Posso imaginar que sim, Mar é uma boa contadora de histórias.
A menina riu nos braços dele, e Poseidon a colocou cuidadosamente no chão, então segurou a mão da deusa da sabedoria, e a puxou para seu lado. Eles caminharam juntos até que o entardecer, então era hora de Atena voltar ao Olimpo, e quando se despediu do deus dos mares, embora soubesse que iria encontra-lo naquela noite, ela sentiu que algo ruim estava para acontecer.
Só não conseguia imaginar o que.
Fale com o autor