Desde 1971. (1971)

8 Capítulo 7 - A família


11 de setembro de 1971

Ao longe era possível ver o sol despontando em todo o território de Hogwarts e na pequena aldeia Hogsmeade. Sirius não havia fechado os olhos durante a noite, talvez apenas alguns minutos jogados, mas era difícil conseguir fazer isso se toda vez que tentava relaxar tinha a imagem do seu futuro na casa da família Black. Narcisa havia dado a entender, quando se encontraram no corredor durante a noite passada, que toda a família — sem exceções — o esperava com ''um diálogo produtivo sobre os atuais acontecimentos no mundo e em Hogwarts.''

Após isso, a mente de Sirius vagava entre abrir ou não as cartas guardadas em sua gaveta, ou apenas queimá-las. Precisava saber como Regulus estava, era a única pessoa com a qual se importava em casa e, se soubesse que estava ferido de alguma maneira — como eles feriam Sirius — voltaria sem pensar duas vezes para ficar com o irmão. Essa incerteza o acertava em cheio e poderia tentar descobrir algo através de Andy...

Sirius olhou para a cama de Remus que era ao lado da sua e ainda estava preocupado com o amigo que não havia aparecido, que havia dormido de olhos abertos por vários momentos nas aulas durante a semana, e aparecido com ainda mais manchas e arranhões em se corpo. James ainda não havia tido retorno da carta que enviara para a mãe de Lupin e ficava mais impaciente a cada hora, Sirius não estava acostumado a ser o que coloca algum juízo e calma nas pessoas, mas o amigo de cabelo bagunçado conseguia ser mais impulsivo que ele.

Voltou os olhos para a cama da frente onde James Potter se encontrava estirado em seu colchão, sem travesseiros ou cobertores pois estes estavam no chão após uma longa noite. Peter dormia tranquilamente a esquerda de Potter, encolhido, como se não estivesse ali.

''É um grande contraste.'' Sirius falou sozinho.

O relógio marcava 5:30 da manhã.

''Onde será que Remus está?'' Questionou — ainda sozinho.

Havia se divertido com o amigo o dia anterior — sexta-feira. Astronomia havia sido algo incrivelmente legal, principalmente porque Remus sabia o nome de todas as constelações e planetas e até mesmo algumas estrelas — o que não impediu Sirius de lembrá-los constantemente que a estrela SIRIUS é a mais brilhante de todas. Nenhum desses havia sido o conteúdo em si, que seria a história da astronomia e O Sol, mas os dois amigos começaram a competir em certo momento por quem sabia mais sobre o universo e se perderam até ouvirem James falar

''Acham que as estrelas podem me mostrar quem será minha futura namorada?''

''Você não pode estar falando sério, Potter!'' Sirius dizia batendo na própria testa.

''É uma curiosidade válida! Gostaria de saber do meu futuro.''

''Saber o futuro é perigoso, James, pode mudar coisas em nosso coração. É bem melhor viver o presente com a surpresa do futuro, não?'' Remus disse sorrindo amigavelmente, sabendo exatamente de Quem aquela pergunta se referia.

''É... acho que sim... Você poderia aprender com Rem a como ser mais amigável, Black!'' James disse torcendo o rosto para o de cabelos pretos.

''Todo grupo precisa de um equilíbrio, se eu começar a ser doce, Remus teria de ser o realista, e acho que ele pode ser muito pior do que eu se quiser.'' Sirius conseguiu uma risada de Peter que se mostrava concentrado na aula e um tapa na nuca de Remus.

Após a aula de astronomia foi a hora da aula de vôo.

Ah! Que hora magnífica para ficar do lado de fora do castelo e tirar os pés do chão em sua vassoura. Foi a sensação de liberdade que fez tudo valer a pena. Era a terceira aula da semana, e em todas a professora havia elogiado ele e James — e sentira Snape torcendo o nariz diversas vezes, o que fez tudo mais prazeroso ainda.

Remus e Peter, por outro lado, tinham muitas dificuldades com a vassoura e o voar em si. Peter pelo menos havia conseguido chamar a vassoura e subir por um tempo no ar, Lupin foi bem diferente disso. Não teve nenhum sucesso nas três aulas durante a semana, e nem mesmo quis conversar com Lily, Alice ou Dorcas sobre isso, saiu emburrado em todas elas e Sirius pôde jurar que viu alguma lágrima após a aula de ontem... não vira o amigo desde então. Quando perguntou por ele para a professora Minerva ela disse apenas que deveria esperar por Remus em nosso dormitório e não havia necessidade para se preocupar, que Remus era esperto e calmo e logo estaria melhor.

Mas adivinha? Ele estava preocupado.

Estava pronto para acordar James para irem a sua procura quando a porta se abre e um garoto alto entra na ponta dos pés no quarto, e fecha a porta. Este, ao se virar, solta um grito por ver uma figura mais baixa com os braços cruzados e sobrancelha arqueada olhando-o. O grito havia acordado o garoto com a cama mais bagunçada que Remus havia presenciado.

''O que faz acordado?'' Remus pergunta com tom ríspido.

''O que você faz acordado e fora do dormitório?'' Sirius rebate arqueando ainda mais a sobrancelha — se é que isso é possível.

''O que EU faço acordado?'' James busca pelo travesseiro no chão e o enterra em seu rosto, minutos depois é possível ouví-lo respirar de forma pesada, indicando que caiu no sono novamente.

''Você sabe que eu estava ajudando a professora Mcgonagal, novamente essa história, Sirius?''

''Remus, são quase 6 horas da manhã, você esteve fora por 12 horas, você até mesmo jantou na sala dela. Eles por um acaso estão te torturando? Se sim pisque três vezes rapidamente e eu, James e Peter daremos um jeito, certo?''

''Pare de ser idiota! Eu estou bem! Acabou finalmente... acabei adormecendo na sala da professora, ela já havia saído há um tempo e eu insisti em continuar para finalizar alguma coisas pendentes, quando me dei conta estava com a cara cheia de tinta da pena, aproveitei e passei nos chuveiros para já tomar um banho.'' Remus respirou fundo se acalmando, o tom de voz havia subido e percebia que James estava retornando a consciência por conta disso ''Então, se me permite, irei me deitar para dormir já que hoje é sábado e não tenho nenhum plano além de ver o pôr-do-sol no campo com as meninas, Peter e Frank.''

''Ei! Porque ninguém nos chamou?'' Sirius dizia acompanhando o amigo com o olhar e apontando dele para James.

''Bom, isso já é com Dorcas. Ela quem organizou tudo... talvez não goste de vocês, sabe? Eu mesmo no momento não gosto.'' Remus dava um sorriso pro amigo que o acompanhou.

''HAHA muito engraçado, Remmy! Bom descanso.'' Sirius ia novamente para sua cama.

Alguns minutos em silêncio — não em completo pois sons da cama de Peter e James continuavam presentes — e a luz cada vez mais presente no quarto, forçando os dois amigos próximos as janelas puxarem a cortina e apreciarem a escuridão não tão escura, Remus, já mais calmo, pergunta:

''Você também não estava dormindo, né?''

''Não.''

Mais alguns minutos de silêncio continuam. Remus não queria quebrar a privacidade do amigo, sabia como era quando faziam o mesmo consigo e o quanto tinha ficado irritado com eles por mais que as intenções tivessem sido boas, portanto, esperou se Sirius se sentiria a vontade para falar por conta e decisão própria.

''Apenas pensando na família, sabe, a grandiosa e honrada família Black. Principalmente em meu irmão, Regulus, sinto falta dele e queria saber como ele está.'' Sirius dizia baixo. Remus não conseguia ver seu rosto pois estava olhando para o teto.

''As cartas não dizem nada?''

''Oh, não as abri ainda.''

Mais um tempo. O loiro já havia percebido a hesitação do amigo com as cartas vindas de casa, com os olhares recebidos pela sua outra prima sonserina, além de ter flagrado a Gaveta de Sirius com todas as cartas recebidas durante a semana — as vezes mais de uma por dia.

''Não as abri porque sei que elas estarão falando sobre o meu fracasso de ter parado na grifinória, sobre como sou uma vergonha para eles nos jantares em família e como Regulus é perfeito.'' Sirius dizia bufando.

''E você tem inveja de Regulus?''

''Não, por Merlin! Talvez há um tempo atrás até eu perceber que nunca realmente quis esta atenção, mas creio que eles ainda tivessem alguma esperança em mim, sabe? Esperando a tradição da família indo para a sonserina e sendo feliz com eles. Creio que minha mãe deve estar ficando com os cabelos brancos desde o dia 1, quando recebeu a notícia de um Black grifinório.''

''Cabelos brancos?''

''Sim, li numa das revistas trouxas que tenho escondidas que as pessoas ficam com cabelos brancos quando ficam velhas e também pode acontecer por stress... foi uma piada.'' Sirius disse soltando um som de risada fraca.

''Sirius?'' Remus disse quase como num sussurro.

''Remus?'' Sirius retribuiu o tom fraco.

''Você não merece ser destratado e chamado de vergonha. Quero dizer, eu posso dizer por mim e pelos dois babões aqui do quarto que é uma honra e felicidade ter você ao nosso lado, não sei o que teria sido dessa semana sem as nossas brincadeiras e conversas, e você é uma parte essencial disso tudo. Chuto certo a dizer que cada vez mais formaremos uma família e que nunca te chamaremos de vergonha ou destrataremos você — a menos que você mereça, é claro.'' Remus terminou virando o rosto para enxergar o amigo que o observava e deu um sorriso, o qual foi retribuído.

''Obrigado, Rem.''

E com os olhos fechando aos poucos e sonhos vindo em suas mentes, os dois amigos pegaram no sono. Um sono profundo do qual se livrariam de todas as perturbações e perseguições que viviam com suas mentes acordadas, esperando que, ao acordarem, o que se passou não fosse real ou, pelo menos, valesse a pena passar por tudo aquilo ao lado de pessoas que os apoiavam.

Sirius sorriu em um impulso sonolento ao pensar nessa possibilidade de família que Remus havia falado. Nunca havia pensado família como algo reconfortante e amável por conta dos exemplos, mas se realmente pudesse escolher uma, com certeza mudaria e escolheria aqueles três garotos que conhecera há apenas uma semana.

Remus, por outro lado, se transportou para uma poltrona laranja que se encontrava na sala de estar de sua casa, com sua mãe lendo um livro no sofá ao lado e seu pai colocando o chá nas xícaras no meio do ambiente enquanto liga a televisão e recebe um tapa no braço da esposa por atrapalhar a sua leitura. Esperava que eles estivessem bem.

Lá fora o salgueiro lutador se balançava livrando-se da garoa da madrugada, Hagrid já abria toda a sua cabana, o sol tocava a maior parte do território de Hogwarts, os pássaros voavam por cima do castelo, e mais um dia se iniciava, trazendo com ele vivências que não poderiam ser previstas ou imaginadas por qualquer adivinhação que fosse.