Desde 1971. (1971)

4 Capítulo 4 - O diretor e as marcas


4 de setembro de 1971

Logo cedo no sábado de manhã Remus Lupin havia se colocado em pé, arrumado suas coisas e descido ao Salão Principal para tomar seu café, sem a pretensão de esperar ou avisar os garotos com os quais dividia o quarto, pois, na noite anterior, seu sonho onde machucava-os fora nítido e estava determinado a evitar que qualquer coisa desse âmbito acontecesse.

Sendo assim, como dizia um bilhete recebido durante a tarde de sexta-feira do professor Dumbledore, ele deveria tomar café e procurar a professora Mcgonnagal que o levaria a sala dele para discutirem os detalhes dos próximos dias que se seguiriam — e que se repetiriam todos os meses e anos até o final em Hogwarts.

Estava nervoso pelo o que viria.

O medo do diretor dizer para ele ''Pode ir embora, senhor Lupin.'' rodou em sua mente desde que pisou no território da escola, e estava vendo sua expulsão desde ali, afinal, quem era o doido de deixar um monstro como ele frequentar uma escola cheia de vítimas em potencial? O risco que estava correndo era grande.

Comeu seu pão e tomou um suco qualquer de forma rápida e sem muito sentir o gosto. Tentava revisar o que falaria para se defender — mesmo que fossem argumentos ruins.

Tentava se controlar com as mãos e seu lábio — para não machucarem mais do que já estavam machucados.

E lembrava que, caso fosse necessário, havia duas barras de chocolate em seu quarto — escondidas por um feitiço para que Sirius ou Peter não o roubassem.

''Se pegarem, infelizmente, terei de achar um lugar para jogar o corpo morto e frio de vocês.'' Lembra-se de ter dito dando de ombros aos dois e ouvido James falar ''com a minha ajuda.''

Precisava tomar cuidado.

Havia se apegado demais aos amigos e já se davam até mesmo apelidos em 4 dias juntos.

Remus não era esse tipo de pessoa, não podia ter amigos ou amor real em sua vida.

Seus pais o amavam, sim, mas o tratavam de forma diferente. Desde o incidente, eles tem medo e Remus chegou a machucar seu pai diversas vezes, tanto fisicamente quanto emocionalmente, pois vê que o homem sofre por vê-lo daquela forma.

De qualquer modo, precisava encarar Dumbledore.

Remus amava mais do que qualquer coisa ler e estudar e queria ter essa oportunidade, e quando recebeu o diretor em sua sala, conversando com seus pais que choravam de emoção e agradecimento o menino nada fez além de olhar para aquele rosto pálido e com vestes esquisitas e dizer baixo e sincero:

''Muito obrigado!''

Foi retribuído com um sorriso terno.

Não deixaria a oportunidade de um futuro ir embora e lutaria por isso — até mesmo se fosse com Albus Dumbledore.

Andando em direção a professora Mcgonnagal que confiscava na mesa da grifinória snaps explosivos que alguns terceiranistas brincavam, Remus a analisa profundamente e pergunta-se se pode confiar nela. Talvez não. Ninguém gosta de lobos.

''Professora?'' o menino a chama ''O professor Dumbledore disse para procurá-la assim que eu tomasse meu café da manhã.''

''Sim, senhor Lupin! Vamos indo, o diretor quer conversar com você.'' Ela diz sorrindo amigavelmente e indo a sua frente.

Várias escadas e corredores em silêncio, e uma senha dita rapidamente em frente a uma estátua, e Remus encontra-se na sala do diretor. É grande, com vários quadros atrás da mesa do mesmo — que o menino reconhece como todos os diretores de Hogwarts -, uma fênix ao lado, que só havia visto em livros e pensou ser uma miragem, diversos livros, e um teto com constelações desenhadas.

Além dos três no recinto também estava a madame Pomfrey, enfermeira da escola, e a professora Sprout, esta que era a professora de herbologia.

Remus congelou.

Mais pessoas saberiam?

E agora?

''Bom dia, Remus! Como está nessa manhã?'' O diretor inicia o diálogo levantando-se da mesa e indo em sua direção.

Remus estava travado.

Suas mãos mexiam e seus lábios eram puxados por seus dentes dentro da boca. James havia percebido essas manias e disse ao amigo que sempre que sentisse vontade de fazer isso, deveria pensar nele e em Sirius fazendo alguma palhaçada para acalmar.

E o loiro tentou.

E conseguiu.

E ainda teve de se segurar para não soltar uma risada.

Sentiu as mãos relaxando aos poucos e os lábios dormentes pelas mordidas.

''Bom dia, diretor!'' Remus estende a mão ao homem ''Obrigado por me receber.''

O diretor — ou professor — Dumbledore era um homem esguio com um início de barba e pele parda, suas roupas eram normalmente azuis, roxas ou cinzas com algum desenho que remetia ao universo, e seus óculos meia-lua era sua marca registrada.

''O prazer é sempre meu... vamos sentando, sim? Aceita chá ou está cheio de sua refeição?''

''Nem a senti, estou, de certa forma, nervoso.'' Ele dá um sorriso amarelo acompanhando o de barba até um sofá onde se encontravam a outras três professoras.

''O julgaria um tolo se não estivesse.'' o diretor senta-se em uma poltrona e o menino ajeita-se ao lado da professora Minerva. ''Creio que se lembre de suas professoras e de nossa enfermeira?''

Remus concorda com a cabeça.

''E também, deve estar se perguntando o que tantas pessoas fazem aqui...'' Dumbledore arqueia a sobrancelha e ao receber um positivo do aluno, continua ''Sabe, Remus, as coisas não podem ser realizadas sozinhas nessa vida e sempre contamos com apoio daqueles que nos querem bem. Quando tomei a decisão de ir a sua casa convencer os seus pais a mandá-lo para Hogwarts não foi diferente...''

Depois de recuperar o fôlego o mesmo continua.

''Contei com a ajuda de minhas colegas aqui sobre o que eu deveria fazer, como deveria fazer, e após muitas discussões decidimos que não, não deveríamos privar um jovem tão bom dos estudos por uma condição que ele ao menos tem culpa; e que deveríamos garantir a ele uma vida tão normal e tranquila quanto a que ele e seus pais merecem. Essas mulheres, Remus...'' Ele diz olhando para cada uma das presentes no recinto ''Foram a minha ajuda, e consequentemente são e serão a sua também.''

Remus queria chorar. A felicidade e gratidão que o invadia era imensa.

Elas ajudaram ele a ter estudos e uma vida normal?

Aquelas mulheres que ele ao menos conhecia?

Ele não era digno disso... era?

''Remus, querido...'' a professora Sprout, que era uma mulher baixa e rechonchuda com vestes bege combinando e um brasão da Lufa-Lufa em seu braço direito — pois era diretora de tal casa — começou a falar ''Os estudos de plantas para auxiliarem o controle de dores e transformações avançam a cada dia mais, e eu auxiliarei mais ainda nisso visando o seu benefício, além disso, farei pomadas e medicamentos para sua melhora, certo?''

''Estamos aqui para te ajudar, senhor Lupin, saiba disso.'' A professora Mcgonnagal afirma.

Remus iria chorar a qualquer momento, tinha certeza e sentia as lágrimas subindo.

Simplesmente não imaginou essa cena acontecendo. Nem em um milhão de anos pensou que, não uma mas quatro pessoas, se disponibilizariam para ajudá-lo apesar de ele ser o que era.

''Quer saber como faremos, Remus?'' é chamado pelo diretor que o olha com ternura.

''Sim.'' Não sabe como tinha voz para dizer, mas tinha.

''Providenciei o Salgueiro Lutador, como deve ter notado no exterior do colégio... até mesmo já tivemos acidentes de alunos que não o conheciam na enfermaria.'' Ele balança a cabeça em negativa ''A árvore só responderá a mim ou alguma das professoras aqui presente, ou a você. Ela não atacará, e em seu tronco, bem escondido, há um buraco com um túnel que o levará á uma casa abandonada afastada do vilarejo e da escola, mas que auxilia na sua volta para cá.''

O garoto estava perplexo. Tudo isso por ele?

''Como sua transformação dura os dias em que a lua permanece no céu, você tem a opção de não comparecer às aulas e daremos um jeito de receber os conteúdos caso não sinta-se bem, porém, pedimos que retorne para que possamos cuidar de você para não ferir-se cada vez mais.'' A madame Pomfrey fala, recebendo sinalização de positiva de todos.

''O que me diz, Remus Lupin?'' Dumbledore o olha no fundo dos olhos ''Está disposto a confiar e aceitar a nossa ajuda?''

Depois de tempos em conflitos, de 7 anos aceitando seu destino de lobo no mundo, ali estavam quatro pessoas dispostas a ajudar ele e seu monstro. Agradeceu mentalmente aos seus pais e lembrou-se de mandá-los uma carta assim que saísse dali.

Tomando coragem, Remus olha para os adultos à sua frente e diz.

''Sim, diretor, eu estou pronto!''

Remus nem viu o que passou, só correu até seu dormitório — o qual estava vazio — e escreveu a carta para seus pais. Sabia que eles sentiriam sua emoção através das palavras, e enviou uma foto que tirou do da frente do castelo junto.

Terminando de escrever, sentindo como se um peso tão grande tivesse saído de cima de si, o menino se encaminhou até o espelho no canto do quarto.

Retirou seu suéter da Grifinória e viu seu reflexo à sua frente.

Todas as marcas o rodeavam.

A partir do 6 anos, Remus havia descoberto que machucar a si mesmo aliviava a vontade de machucar a terceiros, além de sentir a punição por ser o que era, de forma sincera e vívida.

O castigo e o ódio que sentia por si mesmo era tanto que Remus saía tão machucado quanto se fosse atacado por outro igual à ele.

As cicatrizes estavam pela barriga, ombros, pescoço e claro, a sua famosa e que deu início a tudo, em seu rosto, logo perto da orelha.

As odiava.

Se virasse de costas conseguia ver mais.

Tudo sob a pele clara que seguia. As mais recentes estavam avermelhadas e as mais antigas estavam brancas. Algumas fundas, outras superficiais. Mas todas ali, estampadas para ele se lembrar quem e o que era.

Sirius havia perguntado no segundo dia juntos quando ficaram sozinhos.

''Rem, posso fazer uma pergunta?'' Ele disse sentando-se do tapete em que estava deitado na Sala Comunal quase vazia.

''Depende se será boa ou não.'' o loiro retrucou sem levantar os olhos do livro que trouxera da mãe — Um escândalo vermelho.

''O que são essas marcas?''

Remus sentiu seu lábio voltar a ser mordido e congelava.

''Oh... bem... são... como posso dizer...''

Sirius, percebendo que o amigo estava desconfortável completou

''Pois eu acho elas muito bacanas!'' Ele disse sorrindo largo.

''O-oque?'' Remus solta os lábios e olha para o de cabelos compridos e bagunçados à sua frente.

''Sim! Como marcas de guerra, sabe? Você deve ser como uma guerreiro que luta pelo nosso bem todos os dias e nem sabemos... E olha que não duvido dessa possibilidade não.''

''Não sou um herói, Sirius.'' o menino diz murmurando entre os dentes cabisbaixo, sem admitir que havia achado engraçado a forma que o amigo disse.

''Tá tá... Sabe que pode contar comigo para qualquer coisa, certo?''

''Agora, sei!'' E os dois riam.

Depois de algum tempo, Remus diz que vai procurar Lily para conversarem e antes de sair Sirius fala

''Sabe, Rem... eu também tenho as minhas marcas...'' E levanta a camisa mostrando queimaduras por toda a barriga.

''Sirius...'' o mais alto diz sem saber o que fazer ''O que houve?''

''Não não, meus segredos de guerra só serão revelados quando os seus também forem.''

Remus dá um riso de lado e o olhar de Sirius o acompanha desafiando.

''Veremos até quando guardaremos segredo, Black.''

Ambos preocupados um com o outro, voltam a pensar no que passava na vida um do outro.

Sirius não sabia naquele momento, mas Remus ainda teria muitas batalhas à travar.