Desde 1971. (1971)
6 Capítulo 5 - O menino e o monstro
5 de setembro de 1971
Não havia como não acordar com o grito de Sirius Black por todo o dormitório invadindo os ouvidos dos outros três amigos.
A manhã, portanto, começara assim, com Sirius correndo de um lado para o outro pelo quarto com as mãos no cabelo; Peter esfregando os olhos e tentando focar no que acontecia à sua volta; James rindo com lágrimas em seus olhos e segurando a barriga — provavelmente por dar tantas risadas; e Remus entrando no local surpreso pelos três estarem de pé antes das 10:00 da manhã.
''AAAAAAAAAAAAAAAAAAHHHHHHHHHHHHHH!'' Sirius continuava correndo sem parar.
''O QUE ESTÁ ACONTECENDO AQUI?'' Remus dizia fechando a porta atrás de si para que os olhares curiosos que estavam sendo atraídos pelos colegas grifinórios não soubessem muito mais da cena caótica ali dentro.
''SIRIUS-CABELO-PEGADINHA-HAHAHAHAHAHAHAHAHAHAHA-GOSMA-MINHABARRIGA-HAHAHAHAHAHA.'' James dizia palavras soltas em meio à risadas desesperadas e retomadas de ar.
Peter que começava a soltar alguns risos respondeu Remus de maneira mais normal do que os outros dois ''Acordei agora com os gritos desse doido! James está rindo desde então, não sei o que houve mas pelos códigos dele, acho que deve ter sido alguma pegadinha.'' Olhando para Remus do outro lado do quarto.
O quarto tinha quatro camas espalhadas por ele , com duas mesas para estudos, duas janelas, armários pequenos e um quadro de aviso que Peter trouxe de sua casa e que, segundo ele, os amigos poderiam utilizar para deixarem recados uns para os outros quando não se encontrassem.
A cama de Remus ficava em uma das janelas, e a de Sirius um pouco longe mas ao lado da sua, o que significava que para chegar até lá, teria de parar o amigo descontrolado e quase ser voz — como ele consegue manter tanto fôlego assim? Remus se questionou.
''JAMES, O QUE VOCÊ FEZ?'' Lupin perguntou, mas viu que não teria sucesso. Potter fechava os olhos de tanto rir e sem conseguir raciocinar o que estava acontecendo.
''Certo... Sirius... Sirius... SIRIUS BLACK, PARE AGORA MESMO DE CORRER POR ESSE QUARTO ANTES QUE EU DESCUBRA POR CONTA PRÓPRIA UM FEITIÇO PARA TE FORÇAR A ISSO!'' Provavelmente todos fora do quarto também ouviram a explosão do garoto, que fora surpreendente para aquela figura meiga e gentil que todos conheciam.
O menor de cabelos pretos parou e olhou em volta, como se tivesse recuperado sua consciência após tempos desligado, e é nesse momento de pausa que os outros dois — Peter e Remus — percebem algo diferente.
''Isso é... gosma?'' Peter diz se inclinando na ponta de sua cama curioso, mas receoso do que acontecia no cabelo do amigo.
''VERDE! HAHAHAHAH!'' James que não havia parado mesmo com o grito de Remus continua a plenos pulmões.
''EU VOU TE MATAR, POTTER!'' Sirius avança para James que continua a rir sem se importar com a investida do garoto, que só é impedido pois Remus o segura pelas costas e Peter se coloca em sua frente.
''James, se recomponha e nos explique!'' O loiro olhava para o de cabelos bagunçados que tentava cessar a risada e recuperar suas forças, soltando pequenos risinhos.
''Certo.. oh, Merlin... essa foi realmente boa! Então, lembra que eu havia prometido minha vingança, certo?'' James recebe confirmações dos dois, e um olhar fuzilante de Sirius, o que o faz segurar novamente uma longa risada. ''E seria contra Rem também, mas ele é tão gentil e legal e sei que Sirius o irrita tanto quanto, portanto, como a boa alma que sou, pensei: porque não algo apenas bem elaborado e bom com o Black? E assim foi. E o que esse dai gosta mais? Exatamente, suas revistas trouxas e seu cabelo. Como eu sei que as revistas ele demoraria à recuperar, o cabelo parecia uma opção mais viável e assim foi. Já havia feito uma mistura de coisas em casa com meu pai há um tempo atrás para formar uma gosma e assustarmos mamãe, e essa foi minha receita, mas no travesseiro de Sirius. Ontem, após ele dormir, levantei e coloquei ela no travesseiro, ele se mexer tanto durante a noite fez todo o trabalho, pois aparentemente ela está por tudo, finalizando assim a minha grande e brilhante vingança. Sem aplausos, por favor!'' James terminava com um sorriso e inclinações para frente.
''Você está MORTO! MEU CABELO, POTTER! MANDE UMA MENSAGEM À SUA MÃE E AVISE QUE SE ELA QUISER UM FILHO É MELHOR ARRANJAR OUTRO!'' Sirius recomeçava a tentar escapar mas Remus era incrivelmente forte para alguém tão magro.
''Sirius, não é o fim do mundo! Troque de roupa, ou vá de pijama mesmo, vamos à Madame Promfrey e ela ajeitará o seu cabelo.'' O loiro soltou os braços do amigo à sua frente e segurava um pouco a risada.
''Está louco? Sair daqui nessa situação? NUNCA!''
''E irá ficar aqui até quando, Black? Sabe, cabelos não se resolvem tão facilmente assim...''
''Oh, por favor, você tem de ir, e ainda com esse seu pijama listrado em amarelo e vermelho e com coração bordado! É tudo o que lhe peço!'' James arqueava uma das sobrancelhas e dava um riso de lado.
''É engraçado, certo, Potter? Aproveite, sua morte logo virá! E para você saber esse coração simboliza A-M-O-R.'' Sirius se vira e vai até suas roupas, para ir trocá-las.
Remus suspira e dá uma piscada e um joia discreto a James, que retorna a rir escandalosamente. O mais alto vai até a mesa perto de sua cama e procura pelo calendário para marcar que dia era hoje.
O primeiro dia. Esse mês seriam seis. Esperava receber uma carta de seus pais hoje, era a primeira vez que se transformaria longe de casa e não sabia o que esperar. Pelo menos sentira-se seguro com seus professores e responsáveis e pensara na desculpa que daria aos amigos durante essas noites.
''Nunca vou me acostumar que você acorda cedo por escolha própria em domingos!'' Peter dizia para Remus enquanto arrumava seus cobertores ''Nem que me joguem um balde de água costumo acordar.''
''Obrigada pela ideia, Pete'' Sirius dizia calçando os sapatos.
''Ah, gosto de aproveitar tudo durante o dia, e isso é bom. Hoje a noite terei de ajudar a professora Mcgonagal com os preparativos para o início das aulas durante essa semana!'' Remus dizia sentando-se para esperar o outro que colocava uma camiseta comum.
''O QUE? AJUDAR PROFESSORES?'' Sirius dizia inconformado.
''Será somente eu, Black, não se preocupe, me voluntariei pois ontem a encontrei e vi que ela precisava de ajuda. Me comprometi durante toda a semana, portanto, não me esperem acordados!''
''Acho que realmente quem nos salvará será Remus, certo? Ele até já é amigo de nossos professores. Não poderíamos ter amigo melhor.'' James dizia já trocado de roupa também, enquanto Remus revirava os olhos e dava um sorriso.
''Não fale com Remus, ele é bom demais para essa sua mente maligna, Potter!'' Sirius estava pronto e apontava para James com cara de bravo ''Vamos, Remmy?''
''Não me chame assim!'' Remus se levantava e dava tchau aos outros dois amigos ''Já disse que te azararei se continuar.''
Sirius deu a língua e o seguiu porta a fora, já sentindo o terror dos olhares e risadas que aguentaria.
Ao chegar no final das escadas deparou-se com o salão meio cheio. Já era 9:00 da manhã e alguns alunos mais velhos se preparavam para o início do ano letivo, mas as conversas cessaram quando os dois primeiranistas entraram no ambiente. Sirius pegou na mão de Remus e andou depressa o puxando, ouvindo algumas pessoas cumprimentarem Remus e gritarem ''Belo visual, Black!''.
Ao passarem pela passagem, Sirius suspirou aliviado.
''Está bem?'' O amigo ao lado perguntou, percebendo que Sirius ainda não soltara sua mão.
''Estou!'' Balançando a cabeça e piscando duas vezes bem forte para se recuperar ''Vamos indo!''
Grande parte do caminho foi feita em silêncio, pois ambos estavam imersos em seus pensamentos: Remus sentia sua pele fervilhando e o humor mudando a cada segundo que se passava, e Sirius pensava apenas em seu precioso cabelo e o que seria dele.
Em algum momento, Lupin decide quebrar o gelo.
''Então... aquele coração é uma demonstração de A-M-O-R, hum? Sua mãe o colocou ali?'' Ele continua olhando de lado para o menino mais baixo que dava um sorriso discreto.
''Não, foi minha prima, Andrômeda, ela é do último ano aqui em hogwarts, é da sonserina como a maioria dos Black! Ela é a minha favorita de todas! Me deu o pijama uma semana antes de vir para cá e disse que era para me lembrar do amor que ela sentia. Parece bobo, eu sei, mas nunca ganhei nada assim antes.''
''Não é bobo! Minha mãe vive fazendo essas coisas para mim! Acho que Andrômeda deve ser muito legal!'' Remus disse incentivando o amigo que havia ficado corado.
''Ela é! Ela está namorando um garoto do último ano, mas parece que ele é de outra casa... minhas família tem reclamado, mas Andy diz não se importar com o que dizem.'' Sirius conclui quando chegam à enfermaria. ''É aqui que minha vida acaba.''
''Pare de drama, Sirius! O máximo a acontecer será cortar o seu cabelo.''
''O QUE?'' E essa foi a deixa para Remus o empurrar para dentro.
''Bom dia, madame Promfrey, este é meu amigo, Sirius Black, e ele teve um problema capilar mais cedo... a senhora poderia nos ajudar?'' O menino empurrava o amigo para uma cadeira e dava um sorriso caloroso para a mulher à sua frente.
''Bom dia, meninos! Oh! Por mil varinhas, o que houve aqui?'' Ela dizia assustada.
''Brincadeira entre garotos, sabe como é...'' Sirius dizia corando e com medo do que viria.
''Certo... Infelizmente o que posso fazer é cortar o seu cabelo... ora não chore, ele crescerá novamente, você verá.''
Remus segurava uma risada, e quando Sirius percebeu, provocou
''Ria enquanto pode, Lupin, mas quem sabe a próxima vítima não será você... Seus livros são tão bonitos, eles podem querer um pouco de diversão...'' Arqueando a sobrancelha, Sirius sabia que havia pego em um ponto fraco do amigo.
''Faça isso e estará morto, Black!'' Murmurou entre os dentes.
''Você só fala, mas não faz nada!''
A discussão continuou, o que ajudou para Sirius distrair-se da tragédia que acontecia em sua cabeça. O som da tesoura fechando em seus cachos negros e ver eles caírem ao chão era como a pior dor do mundo à ele — e ele já havia sentido muitas dores.
''Pronto! E da próxima vez, não coloque essas coisas em sua cabeça, ouviu?''
Os dois se despediram e seguiram caminho ao Salão principal para tomarem o café da manhã.
''Não ficou ruim...'' Remus animava o amigo ''Ficou um estilo diferente, eu gostei! E além disso, logo mais cresce, estamos em uma idade em que tudo é muito rápido.''
''Vou confiar em você, Rem, mas a morte de Potter ainda virá, você vai ver.''
Ao entrar no Salão, os olhares dos amigos e dos que já conheciam Sirius foram de surpresa. Sirius pôde ouvir Marlene dizer o quão bonito ele estava enquanto o mesmo se ajeitou e abriu um sorriso.
''Cortou o cabelo então, Black?'' James sorria perguntando.
''Sim, Potter, e o próximo será o seu.. após darmos uma lavada nele, pois parece sujo há anos.'' Sirius ia se sentando acompanhando Remus que estava ao seu lado.
''Bom dia, meninas.'' Remus cumprimentava e virava-se para Lily que estava ao seu lado. ''Lily, vou ter que desmarcar nosso jogo hoje, pretendo ficar um pouco só e me preparar para o início das aulas, sinto muito... mas os meninos aqui sabem jogar xadrez tanto quanto, se quiser companhia.''
''Tá tudo bem, Rem, vou sair com as meninas pelo campo hoje, mas se precisar de mim, me chame!'' Ela lhe deu um sorriso e se levantou com as amigas, se retirando.
''O cabelo dela parece fogo, né?'' James a acompanhava sorrindo.
''E você parece um idiota.'' Sirius provocava colocando um pedaço inteiro de bolo na boca.
Peter começou a contar uma história de sua infância que causou risadas em todos e fez Sirius espirrar suco pelo nariz, provocando mais risadas ainda, o clima ia bem até uma sonserina se aproximar da mesa, acompanhada por outros dois atrás dela que pareciam ser um casal.
''Six?'' A moça com cabelos escuros como de Sirius disse ''Cadê os seus cachos rebeldes que me animo de ver?''
''ANDY!'' Sirius levantou animado e abraçou a prima, que era bem mais alta que este. ''Ah! Isso foi culpa foi culpa do meu grandioso amigo, James Potter! Mas, sabe, ele tem é inveja! Olhe para o cabelo dele... todo bagunçado e sem saber o que é ser lavado... triste, não?''
''Ah, Sirius! Ficou muito mais bonito do que era, e sabe que não minto...'' Andrômeda se virou aos outros meninos ''E vocês são?''
''Sou Remus, prazer!'' Remus estendeu a mão, enquanto analisava a fisionomia da garota. Parecia calma e feliz, diferente dos que se encontravam atrás da mesma, que olhavam enojados ao seu redor, o garoto de cabelos claros, quase prateados, lhe passava um certo tremor nas espinhas e raiva, mas era só o seu outro lado falando.
''Sou Peter!'' Peter, que estava com a boca suja, disse com um sorriso no rosto, recebendo um toque de James para limpar logo após.
''Foi muito bom conhecer vocês! Cuidem bem do meu primo, e da próxima vez que pregarem uma peça nele, me chamem, eu os ajudo.'' E soltou uma gargalhada ao ver a cara do mais novo. ''Fique bem, Six! Sabe onde me encontrar. Estou muito orgulhosa de você, sabe disso, certo?''
''Sei, Andy! Obrigado!''
Ao se despedirem e darem mais algumas risadas juntos, Remus calculava que era a hora de se isolar em algum canto para preparar-se para o que viria à frente.
''Vou ir saindo, vou para a biblioteca relaxar e ler um pouco! No almoço nos vemos! Até mais tarde.'' E saiu correndo antes que os amigos o questionassem.
''De novo ele não ficará com a gente? Remus é legal, mas as vezes sinto que ele não gosta de nós.'' Peter disse terminando seu prato de pães caseiros.
''Bobagem, Pete! Ele nos adora, apenas é mais quieto, como você, a diferença é que ele lê bastante e você se entreteu nas nossas bobagens, que, por acaso, você precisa escolher um lado... mas saiba que a chacina contra esse ai será feia.'' Sirius dizia apontando para James, que começava a rir e bater em sua mão.
''Remus é nosso amigo, Peter. Em pouco tempo já somos muito próximos, mas mesmo assim devemos respeitar o espaço de cada um... só fico preocupado com as cicatriz em seu rosto, o que será que aconteceu?'' Potter fazia uma luta de dedos indicadores com Sirius.
''Perguntei o mesmo e ele não disse... acho que é questão de tempo.'' Sirius disse, omitindo a parte em que mostrou suas cicatrizes ao amigo.
Sirius tinha um método para evitar que suas marcas fossem vistas, as mais recentes, pelo menos, as antigas misturavam-se com seu tom de pele claro e só eram percebidas quando analisadas muito bem, ao trocar de roupa no dormitório, virava-se de costas ou trocava-se embaixo das cobertas. Ninguém o questionava ou o perturbava, e assim não era enchido de perguntas como ''O que aconteceu?''.
Como explicaria, afinal, que o que havia acontecido era sua família. Que aquela marca pertencia à uma queimadura deixada por seu pai, aquele corte por sua mãe, e a batida por um tio seu? Não haviam explicações, e por isso ficaria calado. A cara de preocupação de Remus quando mostrou as marcas o partiu o coração e não queria deixar os recentes amigos assustados ou preocupados com sua vida que, boa ou ruim, pertencia apenas à ele.
A cartas que estavam sendo enviadas de sua casa estavam guardadas em uma gaveta que foi denominada ''Gaveta de Sirius'' de forma grande por Remus pois, segundo ele, não queria a imensurável — o que quer que isso signifique — bagunça de Sirius misturada com as suas organizadas coisas (James riu quando tudo ocorreu, recebendo um olhar de aviso no mesmo momento do amigo loiro, que dizia ''Isso é para você também!''), e essas cartas não seriam abertas, apenas queimadas em algum momento. Não se martirizaria ou se irritaria com conteúdos como aqueles, era difícil o suficiente ver nomes conhecidos nos jornais que falavam sobre a guerra e bruxaria das trevas.
A única coisa que o preocupava era Regulus. Quando estava em casa conseguia tirar o peso que os pais jogavam em cima do irmão mais novo. Como Sirius, agora de vez, foi descartado de herdeiro da família, Regulus recebia as honrarias, os jantares obrigatórios, tudo com 9 anos, mas o mais velho tentava o aliviar, lembrando que eles eram apenas crianças que não precisavam da guerra e de trouxas ou sangues-puros ou morte e líderes. Sem estar em casa, não tinha ideia do que acontecia, e com certeza as cartas não revelariam nada a respeito do irmão. Talvez Andrômeda soubesse, mas não poderia arriscar que Narcissa ou seu noivo ouvissem os dois cochicharem, afinal, antes de ir para a escola, Sirius ouvira de seu pai que sua prima logo mais seria manchada na tapeçaria Black, simbologia que mostrava que ela estaria morta para toda a família. Mas o motivo era algo que Sirius ainda não compreendia de forma clara.
Os pensamentos acabaram quando Peter gritou ''Correio!'' e sabia que mais uma carta viria.
''Nada para mim hoje. Acho que meu pai deve ter escondido todas as cartas e corujas de casa da minha mãe.'' James deu um sorriso ao lembrar de casa e de como seu pai costumava dizer que sua mãe era amorosa à um nível extremo quando se tratava do filho.
''Para mim também nada!'' Peter exclamou ''Mas parece que Remus recebeu algo, devemos ir atrás dele para entregarmos?''
''Não, deixe-o relaxar quando o virmos, o entregamos.'' James disse recebendo uma concordância do amigo ao seu lado ''O que recebeu, Sirius?''
''Mais uma carta, nada demais.'' Sirius a jogou em cima da mesa, e pegou o pacote de Remus ''Os pais de Lupin são gentis como ele. Olhe o tanto de chocolate que ele recebeu! Não acredito que não dividiu conosco!''
''Sei que é sua família, mas argh! Esse selo preto com um B me dá arrepios.'' Peter disse tremendo o que causou uma risada verdadeira em Sirius.
''Acredite: em mim também!''
Os amigos se levantaram e tentavam decidir o que fazer, decidindo, por fim, vasculharem o castelo.
Sem perceber a hora, vão correndo para o almoço, encontrando Frank no caminho e começando a conversar sobre quadribol.
''A última temporada foi o máximo! Fui a dois jogos com o meu pai, me pintei e fantasiei!'' James afirmava animado enquanto andavam até Remus que já estava comendo.
''Não brinca! Eu estava lá também! Não foi o máximo quando o batedor acertou a plateia?'' Frank dizia nostálgico.
Os dois continuaram em tons animados e explicando diversas coisas a Peter, cumprimentando Remus com a cabeça, enquanto Sirius sentava ao lado do mesmo e o entregava o pacote dizendo em voz baixa
''Está me devendo um chocolate pelo serviço prestado.''
''Em seus sonhos talvez, Sirius.'' Ele disse sorrindo sem tirar os olhos do prato à sua frente. ''Já terminei e vou saindo, vejo vocês, talvez, apenas amanhã, certo? Durmam cedo e se preparem para nossas aulas.'' Pegou o pacote, acenou e saiu apressado, deixando todos para trás e nem ao menos olhando para Lily quando passou por ela.
Ao chegar em seu canto já estabelecido na biblioteca, Remus relaxou e olhou para o pacote em suas mãos. A caligrafia da mãe era reconhecível de longe, e uma foto dele com o pai era vista logo de cara. Eram muitos chocolates, realmente, e sentira-se mal por não dividir com os amigos, mas se preocuparia com isso depois.
Ao abrir a carta, Remus sentiu a saudade de casa e querendo largar tudo e voltar correndo, respirou fundo e começou a leitura:
''Remus,
Cá estou eu escrevendo essa carta com toda a gratidão do mundo e ouvindo seu pai dar risadas baixas na cozinha — acredita que ele até chorou discretamente? — não posso dizer o quanto o meu espírito se animou ao ler as deliciosas palavras da última carta.
Amigos. Escola. Estudos. Pessoas bondosas. Tudo o que você merece, Remmy, e ainda virão muitas coisas mais. Você é um garoto extraordinário independente do que muitos digam, eu conheço o seu eu verdadeiro. E eu o amo de completo coração, meu filho, assim como seu pai. Tememos por você, e queremos o proteger, mas ver que há pessoas boas nesse mundo, faz tudo valer a pena, Remmy. Sei que esses 6 dias não serão fáceis, e aqui, ficaremos nervosos também, mas aguente firme! E qualquer coisa, peça a Dumbledore para voltar, se precisar, mas sei o menino forte que você é, e confio em você.
Aproveite — com moderação — os chocolates, e ao comê-los, lembre-se que eu e seu pai estamos com você em qualquer situação.
P.s.: Diga a Sirius que permito que o chame de Remmy, apenas por tê-lo feito rir.
P.s.2: Terminou o livro de Sherlock? Me conte na próxima carta.
Com amor,
Mamãe.''
O garoto ficara paralisado segurando as lágrimas por um grande período de tempo. Sentia tanta falta de seus pais, seus melhores amigos, que não sabia como faria após esses 6 dias dolorosos. Mas o conforto de saber que, se quisesse, poderia ir vê-los, era bom.
''Podemos sentar?'' Ele levanta os olhos para ver duas garotas conhecidas à sua frente sorrindo timidamente.
''Sempre.''
E elas puxam as cadeiras para acompanhá-lo.
''Então, o que lia?'' Alice pergunta estreitando os olhos que já eram pequenos por trás das lentes de seus óculos
''Nada demais, apenas uma carta da minha mãe. Sinto falta dela.''
''Sinto falta da minha família também. Papai sempre faz biscoitos nos domingos à tarde, são incríveis! Um dia peço para mandar e dou à vocês'' Alice terminava animada ao lembrar de casa.
''De domingo costumávamos jogar algum tipo de jogo, como palavras cruzadas ou adivinhação de mímicas.'' Lily dizia enquanto desenhava alguma coisa. ''Petúnia sempre se estressava porque perdia em todas, era engraçado.''
''Eu queria ter uma irmã ou irmão, algum de vocês pode me adotar? SERIA INCRÍVEL.'' Alice diz provocando risada nos demais.
''Irmão eu não sei, mas que com namorado você logo está, isso te garanto!'' Lily continuava desenhando e provocando a amiga.
''Pare! Ele nem ao menos respondeu meu bilhete.'' Ela dizia fazendo cara de decepcionada.
''Ah, Alice! Isso é porque ele não entendeu. Peter comentou conosco, eles acharam que era uma brincadeira... li em um livro que garotos demoram mais para entender as coisas.'' Remus tentava acalmar a amiga ''Tenho certeza que Frank a admira muito, mas ainda nem percebeu isso... estamos no nosso 5º dia apenas, relaxe.''
''Ouça o Remus, ele é a voz da razão de todo nós, não?'' Lily parecia muito intretida até que ''ACABEI!''
E mostrando sua obra de arte à todos com um sorriso, esperava elogios.
''Lily... o que é isso?'' Alice perguntava curiosa.
''Ora, é uma televisão...''
''O que?''
''Televisão. A gente vê as coisas nela como, filmes, jornais, essas coisas.''
''Remus, você conhecia isso?'' Alice se vira para o amigo que dava um sorriso.
''Sim sim, temos uma em casa, é bem legal.''
''Uau... vou contar aos meus pais então.'' Alice concluiu e provocou risadas nos outros dois.
A tarde foi assim até a chegada das 17:00. A lua estaria subindo às 18:00 e planejava estar pronto a partir daí. Foi acompanhado pelas meninas até a sala comunal, e, subindo as escadas para o dormitório, se deparou com um Peter escondendo as roupas de Sirius e James embaixo das camas.
''Oh, é você Remus! Que susto!'' Ele exclamou vermelho e com a mão no coração.
''O que está fazendo, Pete?'' Remus pergunta curioso.
''Uma pegadinha, vou esconder as roupas dos dois e ver no que isso dá! Onde vai?''
''Ajudar a professora, lembra?'' Remus separava uma troca de roupa. ''O que é esse recado no quadro?''
''Sirius, idiota, queria passar um recado ao James, mas é hilário.''
James, peço, por favor, que aprenda a deixar os sapatos para fora do quarto — ou se possível, do castelo — ninguém mais aguenta este cheiro.
Sirius
''Bom... Não está errado, né?'' Remus ria e revirava os olhos.
''Nem um pouco.'' Peter acabava sua pegadinha e se levantava ''Quer que eu te acompanhe, Rem?''
''Não precisa, pode descansar um pouco. Avise os meninos que passei aqui. Bom jantar, Pete!'' Acenou e saiu do quarto.
Enquanto se dirigia à sala da professora, pensava em como daria tudo certo. Não havia como dar errado. Ao bater na porta ouviu um ''Entre'' e com o coração na mão, entrou.
''Oh, senhor Lupin! Pretende ir agora? Tenho aqui separada a sua comida da noite, como o senhor pediu. Vamos indo porque Hagrid checou e os alunos não estão por perto da árvore, sendo assim, está seguro.'' Minerva o olhava e sorria tentando tranquilizar o jovem rapaz.
''Obrigado, professora!'' Foi tudo o que conseguiu dizer.
Ao caminharem, Minerva percebia a tensão do garoto, algo diferente do dia anterior que caminhou com ele até a sala de Dumbledore, algo mais, raivoso. Quase difícil de se acreditar existir em um garoto tão dócil como Remus Lupin se mostrara. Quando a proposta foi ouvida pela mulher da boca de Alvo, foi um choque, um lobisomem? Mas, com a foto em mãos que o professor lhe mostrava, não pode deixar de pensar que era apenas um garoto, e nada mais do que isso, e ela se comprovara de que ele era muito mais do que esperava, e ficava feliz por isso.
''É aqui.'' Minerva disse as palavras que pararam a árvore ''Boa sorte, Remus! Até amanhã.''
''Até'' E Remus se afundou em uma escuridão.
A próxima coisa que notou era estar em uma casa de madeira, quebrada e empoeirada, que rangia a cada passo. Subiu ao andar de cima e sentou-se na cama. A lua iria iniciar a subir as 18:00 e estaria em seu esplendor à 00:00, e as seis horas que se seguiriam seriam de agonia e dor.
Comendo enquanto tinha forças, Remus se deliciou com cada alimento colocado ali para sua refeição.
Às 19:00 começou a sentir um desconforto por seus músculos, e eles doíam como se estivessem sendo puxados, furados e rasgados por facas. A dor era tanta que Remus não conseguia evitar de soltar grunhidos de dor à cada minuto que se passava.
Uma hora depois foram os ossos querendo rasgar sua pele e qualquer limitação que o corpo humano tivesse delimitado para eles. Nesse momento os grunhidos ficavam mais altos e mais completos na boca do garoto que, deitado na cama, se contorcia por suas dores constantes.
Com as 21:00 chegadas, o maxilar range e ele sente milhões de socos distribuídos por ele e frações de segundos. Toda vez sente que todos os seus dentes estão prestes a cair, mas isso nunca acontece, eles apenas começam a se alongar e pedem que seu maxilar cresça junto deles, mas ainda não é a hora... e isso torna a dor ainda pior.
Às 22:00 e as 23:00 são destinadas a adaptação: sua vista fica turva até se ajeitar com sua nova condição; as unhas alongam; as mão começam a se manchar e alongar em dedos mais finos, assim como os pés; o maxilar finalmente vai crescendo; assim como seus membros.
Todo o processo seguido por grunhidos que se transformaram em gritos a medida em que as dores aumentavam e Remus não mais aguentava ser racional, pois o seu monstro interior tinha agora mais controle do que o menino — ironicamente lembrando à ele o seu livro favorito ''O médico e o monstro'' — e isso o deixava transtornado e triste, com todas as emoções aumentadas nessa sua outra forma, se convencendo de que as marcas que deixaria em si, seriam para lembrar-se do que era realmente, mais uma vez e, dessa vez, realmente sozinho em uma casa abandonada e escura na Grã-Bretanha.
E então, à meia-noite, com a lua em seu esplendor, Remus Lupin era o que realmente o seu nome dizia, um lobo, e assim, uivando e se reconhecendo como tal, iniciava o seu processo de ferimentos e sofrimentos físicos próprios para recompensar o que fazia os seus pais passarem, por se odiar em ser aquilo o que era, por nunca conseguir ter amigos e alguém que o apoie sabendo sua real verdade, por ser um risco a todos.
Remus começava a sua autopunição por simplesmente existir.
A noite iria ser longa.
Novas cicatrizes surgiriam.
Novas marcas para olhar.
O primeiro de longos seis dias em que fugiria daquelas pessoas que conversara tão bem e quase se sentira incluído em seus mundos.
Não deixaria aquele monstro livre e vivendo bem, enquanto pudesse, o puniria.
Até, 6 horas depois, quando a lua tivesse ido embora de vez e ele estivesse recuperado, ainda iria sentir a dor do que era ser o que era.
Sem roupas, sangrando, no chão sujo de uma casa que agora tornara-se seu abrigo, o menino abria os olhos, com o corpo tremendo.
Ao se recuperar, olha em volta e vai até a roupa no canto do quarto, a coloca e se encaminha mancando até o túnel, onde, ao ver a luz do sol em seus olhos que ainda ardem e doem, sente vergonha do grande homem que o espera por ele saber o que ele é. A caminhada curta, dolorosa e silenciosa lembra a Remus que agora essa seria sua rotina e vida, e com um
''Você é muito forte, garoto.''
De Hagrid, Remus começa a chorar e tremer novamente, até desmaiar nos braços do maior, que o pega com facilidade e o leva a enfermaria, onde descansará e será cuidado, preparando-se para a próxima noite.
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