Desculpe-me, mãe...
1 Desculpe-me, mãe...
Notas iniciais
Desculpe-me, mãe...
Hoje deveria ser o dia em que mais lhe daria orgulho. A senhora, mãe solteira e adolescente, me criou sozinha sem pedir ajuda a ninguém. Sempre fui a melhor da turma, a mais jovem da família a conseguir entrar em uma faculdade (e com bolsa de 100%), nunca bebi, nunca xinguei e muito menos me droguei, mas ainda assim a senhora sempre fora criticada. Sei que a senhora sempre teve orgulho de tudo que eu fiz, mas sempre havia aqueles pra dizer coisas maldosas da forma que fui criada, que eu nunca arrumaria um marido porque nunca houve um exemplo de homem dentro de casa.
Há cinco anos conheci Enzo, e a senhora vibrou. Católico, sem vícios, bom filho, estudante de engenharia vindo de uma família humilde e muito boa. O marido ideal pra mim, aos seus olhos. E sem me dar conta, ele estava no nosso sofá, te pedindo a benção para namorar comigo. Quem imaginaria que no ano seguinte eu conheceria Ana em meu primeiro ano da faculdade.
Agora estou aqui eu, em frente à porta da igreja, com um lindo vestido branco, um belo buquê em cascata nas mãos, só esperando o sinal para entrar. Sei que nesse momento, a senhora está a trinta passos de mim, no altar, junto com meu padrasto, Enzo e meus sogros. Sei também que minhas damas, incluindo Ana, estão seguindo o percurso que seguirei em alguns minutos, todas lindas de vestidos longos de cor clara, cada uma de um tom.
O sinal. A porta se abre, chegou a hora e instintivamente procuro por Ana no altar. Ela está de vestido longo na cor marfim e seus belos cabelos estão soltos, com um headband de argolas enfeitando. Impossível não notar suas lagrimas. Trintas passos até o altar. Só trinta.
No meu primeiro passo lembro-me de como a conheci, ela vinha correndo toda suja de tinta quando esbarrou caindo em cima de mim. Era minha segunda semana na faculdade, eu caloura de enfermagem e ela veterana em Desenho. No mesmo dia tomamos café juntas e trocamos numero de celulares com a promessa de ela me mostrar todo o campus qualquer dia.
Segundo passo, meus olhos enchem de lagrimas. Depois de alguns meses de amizade com ela a conto sobre o quanto te amo, mãe. No mesmo dia falo sobre Enzo, sobre minha infância e de como eu sempre me senti estranha por espiar outras meninas no vestiário. Ela ri e me abraça.
No terceiro passo já sinto algumas lagrimas escorrendo. No terceiro semestre Enzo havia me dado um apartamento perto do campus, comecei a morar sozinha e nesse momento Ana me conta que é lésbica. Inexplicavelmente fico feliz e com o tempo ela passa a dormir comigo com freqüência, sempre com a mão dada a minha.
Nos passos seguintes já não consigo segurar o choro, quase travo. Lá pelo décimo passo lembro-me do nosso primeiro beijo. Estávamos no meio do pátio, no seguindo andar do refeitório, ela tagarelava sobre reprovar em xilogravura. Estava tão linda com cabelos ao vento, acabei não me contendo e a beijei. O mundo parou naquele instante. Parecia que vive a vida inteira comendo jiló e finalmente está provando chocolate. Não sei quanto tempo durou, mas sei que quanto a soltei podia notar milhares de olhares sobre nós. Ela sussurrou um singelo “Por que demorou tanto?” e sorriu. Na mesma noite aprendi como duas mulheres se amam sobre uma cama.
Metade do percurso até o altar e já estou soluçando, muitos convidados notam que não há felicidade em meu choro. Quando Enzo me pediu em casamento, no meu aniversario de 19 anos, pude vê-la murchar no outro lado da sala e sei que a senhora também notou, mãe. Depois daquilo a senhora me perguntou milhares de vezes se aquilo era realmente o que eu queria e se não havia outra pessoa e todas às vezes lhe contar da Ana, mas sempre me via na cabeça todas as vezes que te apontaram o dedo. Eu amo a Ana, mas te amo também, mãe.
Ao subir no altar, chorando sem controle, lembro-me de meus últimos meses com Ana. A cada noite juntas ela declarava seu amor e meu coração se quebrava cada vez mais, cada pedido de desculpa meu era acompanhado de um sorriso fraco dela. Ela sabe e respeita o motivo de eu levar esse casamento em frente, o que torna tudo ainda pior.
O padre está olhando pra mim, ele parece esperar uma resposta. Olho pro Enzo, ele parece triste por me ver assim, mas já está com alianças em mão. Viro procurando a senhora do meu lado do altar, a senhora parece incrédula e guia minha visão para Ana, que está chorando tanto quanto eu, porém mais silenciosa e contida. O que a senhora quer que eu faça? E mesmo sem eu ter dito em voz alta, a senhora me responde.
—Chega dessa palhaçada!- Era a primeira vez em anos que a senhora grita comigo. — Você realmente quer isso?! Por quê?!- Sua voz sai firme e alta o bastante para toda igreja ouvir.
—Eu só quero te deixar feliz, ter uma vida tranquila, casada com um rapaz que a senhora...
—Que tipo de mãe você acha que sou pra ficar feliz vendo minha filha infeliz?- Sou interrompida pela senhora. — Eu não se você vá se casar com Enzo ou não, só quero te ver realizada, independente do que terceiros pensam, sua felicidade vem primeiro. E nesse momento, não vejo ninguém feliz nesse casamento!
Automaticamente volto meu olhar a Enzo, ele está mirando o chão. Ele ergue os olhos e foca em mim, sem produzir sem nenhum ela diz “Seja feliz com ela”. Me soa tão sincero, mas ao mesmo tempo tão triste... Também espero que ele seja feliz.
Mãe, obrigada. Durante toda minha vida eu tentei seguir tudo que me ensinou com tanto amor, mas esqueci do mais importante, viver por mim e nunca pela aceitação de ninguém.
Nem lembro quando comecei a beijar a Ana ou se foi ela quem me beijou, só de gritar “Casamento cancelado” enquanto corro com o amor da minha vida para fora dessa igreja. Agora sou só eu e ela, como sempre deveria ter sido.
Obrigada, mãe...
Notas finais
Amo ocêis
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