Desculpe a demora
1 Desculpe a demora
As ruas de Market Chipping estavam mais agitadas do que de costume naquela manhã.
A cidade nunca era exatamente tranquila. Sua posição privilegiada fazia dela um dos centros mais movimentados da região, onde mercadorias chegavam e partiam diariamente pelas estradas que a cortavam. Comerciantes abriam suas lojas ainda cedo, carroças disputavam espaço com carruagens, operários seguiam para as fábricas e os armazéns enquanto carregadores descarregavam caixas e barris nas proximidades do mercado. Havia sempre alguma coisa acontecendo em Market Chipping.
Naquela manhã, porém, a cidade parecia ter acordado com uma energia diferente.
Bandeiras pendiam das janelas e atravessavam as ruas de um prédio ao outro, balançando acima das cabeças dos transeuntes. As cores do país estavam por toda parte: nas fachadas das lojas, nos mastros improvisados diante dos estabelecimentos, nos pequenos laços presos aos casacos e até nas mãos das crianças que corriam pelas calçadas agitando pequenas bandeiras de papel.
As pessoas haviam saído às ruas mais cedo do que de costume.
Havia vozes por todos os lados. Risadas, conversas animadas, chamados de vendedores e o ruído constante dos passos se misturavam ao som distante de tambores. Grupos se formavam nas esquinas para acompanhar a movimentação, enquanto outros se apertavam nas calçadas, ansiosos para conseguir uma visão melhor da avenida principal.
Quando os primeiros soldados surgiram ao longe, a agitação cresceu.
Alguns ergueram as bandeiras. Outros aplaudiram.
As crianças foram as primeiras a tentar acompanhar o ritmo da marcha, batendo os pés no chão e imitando a postura rígida dos homens que passavam. Adultos sorriam, alguns orgulhosos, outros simplesmente contagiados pelo entusiasmo que se espalhava pela multidão. Havia algo reconfortante naquela demonstração de união. Algo quase embriagante na sensação de pertencer a um grupo tão grande, tão convencido de estar do lado certo.
A guerra parecia gloriosa quando vista daquela maneira.
Havia apenas música.
Bandeiras.
Uniformes impecáveis.
E homens marchando em perfeita formação enquanto uma multidão os aplaudia.
Howl observava tudo aquilo de uma mesa próxima à janela de uma das tavernas da cidade.
Ele gostava de Market Chipping.
Era difícil não gostar.
A cidade tinha bons bares, boas festas e, sobretudo, mulheres bonitas.
E Howl era um grande admirador da beleza.
Considerava, inclusive, que as jovens de Market Chipping eram particularmente encantadoras.
Howl sabia o nome de algumas delas. De outras apenas havia decorado o sorriso que sempre recebia quando entrava em determinado estabelecimento — e havia ainda aquelas que ele fazia questão de conhecer.
Gostava também do movimento das ruas, das noites barulhentas e da facilidade com que alguém podia se perder entre uma comemoração e outra. Market Chipping parecia estar sempre celebrando alguma coisa, e Howl jamais fora homem de recusar um convite para uma festa.
Naquela manhã, porém, até as tavernas pareciam ter sido tomadas pelo mesmo entusiasmo patriota que dominava as ruas.
Howl girou distraidamente o copo entre os dedos enquanto observava a multidão pela janela.
Os soldados continuavam marchando pela avenida.
E as pessoas continuavam aplaudindo.
Howl apoiou o queixo na mão.
Era impressionante o que um governo conseguia fazer quando colocava música, bandeiras e homens bonitos em uniformes no lugar certo.
Havia algo particularmente desagradável em transformar a morte em espetáculo. Em vestir homens com uniformes impecáveis, colocá-los em formação e fazê-los marchar ao som de tambores enquanto pessoas comuns aplaudiam das calçadas.
Se dependesse dele, reis, ministros e generais poderiam resolver suas disputas uns com os outros sem arrastar o restante do mundo para dentro delas. Ele não tinha o menor desejo de ser recrutado, de escolher um lado ou de morrer gloriosamente por uma bandeira que não significava absolutamente nada para ele.
Howl preferia continuar vivo.
Tomou um gole da bebida e desviou os olhos da avenida.
Sentia o corpo cansado e os olhos pesados. Howl era uma criatura da noite. As manhãs ensolaradas não eram para ele.
Mas, naquela noite, dormir havia sido impossível.
Howl baixou os olhos para a própria mão.
O anel estava quente.
De novo.
Ele o havia colocado sobre a mesa algumas vezes, tentando descobrir se havia alguma magia estranha agindo sobre ele. Não encontrara nada. Ainda assim, toda vez que fechava os olhos, sentia aquele calor contra a pele.
Primeiro discreto.
Depois insistente.
Até se tornar impossível ignorá-lo.
Howl levantara-se antes do amanhecer, vestira-se às pressas e saíra de casa. Não sabia o que esperava encontrar. Só sabia que, depois de algumas horas sendo incomodado por aquele maldito anel, ficar parado já não parecia uma opção.
Agora estava ali, sentado no canto da taverna, esperando que alguma coisa acontecesse.
Mas o anel não parecia se importar nem um pouco com a paciência de seu dono. Howl baixou os olhos e encarou a pedra avermelhada contra a pele.
— Está bem, eu entendi — resmungou ele, ajustando a posição do anel no dedo. O calor no metal aumentou imediatamente, quase queimando. — Não precisa ser dramático.
A pedra brilhou uma vez, em um tom vibrante. Howl suspirou, derrotado, e levou a bebida aos lábios — mas travou no meio do movimento.
Foi então que percebeu o feixe de luz.
Uma linha fina e dourada escapava do anel, quase invisível sob a claridade da manhã que entrava pela janela. Howl franziu a testa, aproximando a mão do rosto para ter certeza de que não era o efeito do cansaço.
A direção era clara. E estava completamente errada.
Aquilo não acontecia. Não daquela maneira. O anel sempre fora uma espécie de bússola mágica — uma extensão do pacto que ele carregava no peito para ligá-lo a Calcifer e ao castelo. As montanhas ficavam a leste de Market Chipping, e era rigorosamente para lá que a luz deveria apontar.
Mas aquele feixe não apontava para o leste. Apontava para o coração da cidade.
Howl virou o corpo lentamente na cadeira, acompanhando o brilho. Além dos vidros da taverna, atravessando a rua enfeitada por bandeiras e a multidão que assistia aos soldados, a luz parecia se perder entre as fachadas das casas.
Ele estreitou os olhos. Por um instante, pensou ser apenas um reflexo da poeira dançando no sol.
Então percebeu: o feixe havia se movido.
Foi um deslocamento mínimo, discreto, como o balanço de uma bússola tentando se calibrar. Howl prendeu a respiração e esperou. A luz tornou a mudar de posição, avançando alguns metros pela calçada oposta.
Seja lá o que o anel estivesse rastreando, estava se movendo.
Howl se levantou da mesa, deixando algumas moedas sobre a madeira sem sequer contá-las. A preguiça da manhã havia desaparecido por completo.
O feixe apontava para dentro da cidade, desaparecendo entre as construções e reaparecendo sempre um pouco mais adiante. Howl saiu da taverna e começou a segui-lo.
Não era exatamente fácil.
A direção mudava conforme ele avançava. Howl precisava parar de tempos em tempos, erguer a mão e esperar que a luz se definisse outra vez antes de escolher para onde ir.
Era irritante.
Howl atravessou uma esquina e quase trombou com um grupo de três jovens que conversavam à porta de uma perfumaria.
A mais alta, de laço fita nos cabelos, soltou um pequeno suspiro surpreso ao ver quem quase a atropelara.
Howl parou a um passo de distância. O movimento foi tão fluido que parecia ensaiado.
O olhar dela cruzou com o dele — e Howl fez o que vinha naturalmente a ele desde que descobrira o poder da própria beleza. Inclinou a cabeça de leve, ajustou a gola da camisa e ofereceu um sorriso lento, daqueles que pareciam projetados sob medida para fazer o coração de qualquer garota errar a batida.
— Por favor, mil perdões — disse ele, a voz aveludada e perfeitamente calma. — Seria uma tragédia imperdoável estragar uma manhã tão bonita causando um acidente.
As três garotas trocaram olhares rápidos antes de caírem em um riso abafado, os rostos corando quase no mesmo tom das bandeiras que enfeitavam a rua.
— O senhor não estragou nada... — murmurou a do meio, enrolando uma mecha de cabelo no dedo e encarando-o através dos cílios.
Howl deu meio passo à frente, pronto para retribuir a atenção com o entusiasmo dramático de sempre. Afinal, a guerra podia esperar alguns minutos e o mundo parecia um lugar bem mais tolerável quando havia moças bonitas sorrindo para ele.
Záp.
Uma pontada de calor seco e afiado atravessou seu anular direito, diretamente do anel.
Howl estremeceu e puxou a mão contra o peito como se tivesse sido picado por uma abelha.
— Ai! — deixou escapar, quebrando instantaneamente a postura elegante.
As garotas piscaram, surpresas com a reação repentina.
Howl encarou a própria mão com uma expressão de traição e indignação absoluta.
— Isso foi de um mau gosto inacreditável — murmurou ele, baixo o suficiente para que apenas o anel ouvisse.
A pedra rubi deu uma única piscada de luz sob o sol da manhã.
— Não me venha com atitude — repreendeu-o mentalmente, franzindo os lábios. — Eu estava apenas sendo cordial.
O anel esquentou mais um grau.
— Certo, certo! Já entendi, sua jóia neurótica.
Howl recompôs a postura num piscar de olhos, limpou a garganta e lançou às garotas um último sorriso brilhante — embora um pouco mais rápido desta vez.
— Negócios urgentes me chamam, minhas damas. Tenham um excelente festival!
Antes que elas pudessem responder, ele girou sobre os calcanhares e seguiu em frente a passos largos, resmungando baixo com os próprios dedos enquanto o grupo atrás dele caía novamente na gargalhada.
Howl ainda resmungava para o anel enquanto se afastava das jovens, mas, pouco a pouco, a atmosfera ao seu redor mudou.
Não foi um som que o alertou. Foi uma sutil mudança na pressão do ar, um zumbido elétrico na base da nuca que só um mago reconheceria. O barulho vibrante do festival, que segundos atrás parecia uma sinfonia de vida, tornou-se abafado, como se ele estivesse submerso em água.
Howl parou de caminhar, fingindo observar uma vitrine de relógios. Pelo reflexo do vidro, ele viu.
Atrás dele, no meio da multidão, algo estava errado.
Um borrão escuro, viscoso, que não deveria estar ali. Era uma forma que parecia manchar a luz do sol, deslizando pelas pedras da calçada com uma fluidez repugnante, como tinta derramada que desafiava a física. Enquanto as pessoas passavam por cima dela sem notar, a mancha se esticava, tentando encontrar uma forma sólida.
Howl não se virou. Ele apenas estreitou os olhos, o reflexo revelando sua mandíbula contraída.
Homens de barro, pensou ele com um nojo profundo. A Bruxa realmente não sabe ser sutil.
Outra sombra se desprendeu da lateral de um prédio, escorrendo pela alvenaria como óleo quente descendo um vidro. Ela se achatou, atravessou uma fresta estreita entre duas construções e voltou a se erguer do outro lado, como se o espaço físico fosse apenas uma sugestão e não uma regra.
Howl sentiu um arrepio. Não de medo, mas de pura aversão. Aquilo não era vida; era um insulto à ordem natural das coisas.
Ele ajeitou o colarinho, escondendo o anel discretamente com a manga do casaco. O sorriso de sedutor que ele ostentava momentos atrás desapareceu, substituído por uma expressão de foco gelado.
Market Chipping estava cheia de becos, construções antigas e passagens estreitas. Uma cidade como aquela oferecia possibilidades suficientes para alguém que soubesse usá-las.
E Howl sabia.
Estava usando Market Chipping como um tabuleiro.
Quando percebeu que os homens da Bruxa haviam se aproximado demais, abandonou as ruas mais movimentadas e subiu por uma escadaria estreita que levava aos telhados.
O vento recebeu-o imediatamente.
Howl pousou sobre as ardósias de uma casa de enxaimel, seu casaco colorido se agitava atrás dele.
Muito melhor.
Dali, conseguia enxergar boa parte da praça.
E também conseguia vê-los.
As criaturas da Bruxa rastejavam pelas paredes dos edifícios, escorrendo pelas fachadas como manchas de óleo. Para a maior parte das pessoas abaixo, não passavam de uma sensação desagradável, um arrepio inexplicável ou, no máximo, uma sombra estranha no canto dos olhos.
Howl, porém, podia vê-las perfeitamente.
— Certo — murmurou. — Vamos brincar.
Estalou os dedos.
Uma pequena pedra que estava sobre o telhado se transformou em uma faísca dourada. Howl a lançou para o outro lado da praça, onde ela explodiu em uma chuva de pontos luminosos.
As criaturas se viraram imediatamente.
Dessa vez, sua própria sombra se desprendeu de seus pés e disparou pelo telhado na direção oposta, atraindo os últimos espectros que insistiam em segui-lo.
Howl não esperou.
Projetou-se para fora do telhado. Por uma fração de segundo, a luz do sol projetou contra a parede uma sombra distorcida e muito maior do que a de um homem — as abas do seu casaco colorido pareceram se abrir como grandes asas plumadas ao vento, silenciando o ar ao redor. Ele desceu do alto da construção e aterrissou na calçada sem emitir o menor ruído, leve como uma pena.
Ajustou os punhos da camisa e começou a andar.
Atrás dele, o truque da sombra se desfez, e as criaturas da Bruxa finalmente perceberam o engano. Uma delas se achatou contra a parede e escorreu pela fresta a uma velocidade impressionante.
Howl olhou por cima do ombro. O sorriso zombeteiro desapareceu por um instante.
— Ah. Eles estão ficando mais rápidos.
Apressou o passo, o anel voltando a queimar contra a pele.
Virou em uma rua estreita e viu o feixe de luz novamente. Ali. Dessa vez, brilhava com uma intensidade quase cegante.
O anel queimou contra sua pele com um estalo seco.
Howl dobrou a esquina da passagem entre as duas construções. Havia uma garota ali, encurralada contra a parede sob o sombreamento de um chapéu modesto, acuada por dois soldados da guarda.
Howl franziu a testa, dando mais um passo. A luz do anel se apagou de repente — a bússola havia encontrado seu destino.
Ela se virou. Quando os olhos dela encontraram os dele, o barulho da cidade desapareceu. As marchas, os tambores, os monstros na parede... tudo se transformou em ruído de fundo. O rosto que ele tentara imaginar por anos finalmente tinha uma forma.
Seu sorriso, antes um mero disfarce para os guardas, surgiu naturalmente.
— Desculpe o atraso — disse, parando ao lado dela e pousando a mão em seu ombro com a familiaridade de quem a conhecia há uma vida inteira. — Estava te procurando por toda parte.
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