Desculpa se não quero Te amar
4 Capítulo 4
Notas iniciais
− Moça... Moça? Você está se sentindo bem?
Eu sabia que essa voz vinha de algum lugar. Mas estava distante... no fim de um túnel bem longo. Nesse túnel eu pude ver toda a minha vida. O que já aconteceu e o meu futuro. Tudo que poderia acontecer.
Me senti como um ameba quando vi Ronny passando pela porta da livraria, na manhã do dia seguinte.
− Moça?
Fui puxada para o presente e voltei minha atenção para a senhora com quem eu estava conversando antes de apagar.
− Sim?
− Você quer que eu chame alguém? Ficou pálida de repente. Parecia que ia desmaiar.
− Não, não precisa. Eu estou bem. Obrigada. − A tranquilizei. − Como eu ia dizendo... − Minha visão alternava entre ela e Ronny. Ele passou sem me olhar e se dirigiu para uma das poltronas, no fundo da livraria. − Ele tem ação e romance na medida certa. É um ótimo livro para se ler num fim de semana, quando não se tem mais nada pra fazer. Depois que começa, você não consegue mais parar.
− É o que sempre dizem. Eu gosto de ter certeza que vou gostar, antes de comprar.
− Confie em mim, sei que vai gostar. E a gente pode fazer assim... se você não gostar nem um pouco desse livro... eu me demito. − Soltei com a maior sinceridade do mundo.
Eu estava usando a posição da senhora na minha frente para me esconder de ser vista. Se Ronny passou direto... ele ainda não tinha me visto. Estava me procurando para tentar algo.
Senti um aperto no coração só de imaginar se ele seria daquelas pessoas que gostam de perseguir.
− O-que? Você está brincando comigo? − Ela resmungou.
− Não. É que eu confio muito no minha intuição pra essas coisas. Estou pondo meu emprego nisso. − frisei. − Eu estou sempre aqui, todos os dias. Prometo que quando voltar... estarei não terei saído do lugar.
− Ok. − Ela concluiu. − Mas se eu não gostar... eu volto mesmo, hein?
− Tudo bem. − Sorri e depois respirei fundo, aliviada. Ela era uma daquelas compradoras desconfiadas e resmungonas, que achavam que queríamos empurrar qualquer coisa. Meu instinto que não falhasse agora. Por tudo que é mais sagrado.
Me permiti dar uma espiada em Ronny, por entre as estantes. Ele ainda continuava sentado com sua atenção focada apenas num livro que lia.
Tentei esquecer que ele estava ali enquanto atendia outros clientes, mas foi impossível. Entre uma conversa e outra eu me pegava observando ele, tentando ver se ele olhava pra mim, se ia tentar algo. No fim do dia eu já estava ficando mais aflita, se ele ainda não tinha tentado nada aqui... poderia estar esperando que eu saísse.
Comecei a ofegar e peguei o celular instintivamente, porém no mesmo segundo me lembrei que Júlia não estava por aqui. O que ela poderia fazer?
Liguei para Kamila e como sempre ela não atendeu.
O que eu farei se ele me abordar no meio da rua?
Eu estava a ponto de ter um ataque quando ele se levantou. Me escorei na estante e respirei fundo. Ok, ia ser agora.
Quando voltei a abrir os olhos ele já tinha passado direto e estava abrindo a porta, indo embora.
Tudo bem, isso não foi o que eu esperava.
O que eu ele estava planejando?
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***
.
No dia seguinte foi a mesma coisa. Ele andava por toda parte, olhava os livros, ia até a cafeteria, lanchava e voltava para sua poltrona. Era comum que as pessoas passassem o dia lendo por ali. Então mais ninguém o notava além de mim.
Durante alguns momentos eu até esquecia que ele estava por ali.
Foi só no terceiro dia que eu me peguei pensando se eu não havia realmente entendido errado, como a Júlia sugeriu. Fiquei tentando lembrar de cada palavra que ele me disse, tentando achar outros sentidos... e me apareceu tanta coisa! Ele poderia estar só dizendo que gostava de mim, ou elogiando meu trabalho.
Fui me sentindo cada vez mais uma completa idiota.
.
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Eu me dedico muito em tudo que eu faço aqui, por isso não fui um alvo constante das broncas do Sr. Oscar. Ele não é um chefe ruim, só é resmungão e exigente.
Dessa vez foi impossível escapar.
Me deixei apagar de novo, enquanto Ronny conversava com uma das clientes. Minha mente viajou e meu corpo continuou andando no automático.
E, bem... era uma livraria... é claro que eu esbarraria em alguma coisa. Só que não foi qualquer coisa. Anthoni, um dos meus colegas de trabalho, estava colocando o ultimo livro no topo de uma enorme pirâmide pomposa que ele passou um tempão fazendo. Sim, foi exatamente nela que trombei.
Quando eu voltei ao planeta, vi o tamanho do estrago que fiz. Todos os livros estavam espalhados no chão, Anthoni me olhava como se quisesse me comer vivo.
Fiquei um bom tempo sem saber o que fazer.
Me ergui rapidamente e olhei ao redor, todos me encaravam como se eu fosse louca.
Ótimo, seu dia está cada vez melhor, Emily. Pensei. Mas é claro que tudo pode piorar.
− Emily? Mas... mas o que é isso? −O sr. Oscar resmungou, saindo de trás do balcão para ver a destruição que eu fiz.
− Me desculpa. Desculpa mesmo. − Me virei para Anthoni. − Eu não te vi, me desculpa, posso te ajudar a fazer de novo.
− Me ajudar? Sabe quanto tempo levei pra montar isso? − Anthoni rosnou.
− O que está acontecendo com você? − Sr. Oscar sussurrou para mim. Naquele momento a atenção dos clientes já tinha se voltado para outras coisas, e eu estava tentando dar um jeito na bagunça. − Tem andado distraída o tempo todo, não dá a atenção que deve aos clientes. Está tentando ser demitida?
− Eu... eu... − Eu não sabia mais o que dizer. Ser demitida era a última coisa que eu queria.
− Sim, ela está.
Não. Meu dia não podia ser tão desastroso dessa forma. Tem que ter alguma lei que proíba isso. De todos os momentos possíveis, Ronny escolheu justamente o pior para fazer algo.
Pude sentir o perfume já característico dele atrás de mim. Me forcei a continuar olhando pra frente.
− Desculpe, quem é você? − O Sr. Oscar questionou, já com a paciência esgotada.
− Alguém que reconhece um talento quando vê um.
− Ronny... − Meu tom de voz foi um pedido e um alerta. Tudo que eu não precisava agora é de uma briga entre ele e meu chefe. Me permiti dá uma olhada por cima do ombro só para ficar mais nervosa com a falta de espaço entre nós.
− Do que você está falando? − o Sr. Oscar rosnou. − Emily, você conhece esse rapaz?
Abri a boca para falar algo, mas fui interrompida.
− O senhor sabe muito bem do que eu estou falando. − O tom de voz dele era tão hostil quanto o do meu chefe. − Não pode ser tão cego que não enxergue o que eu demorei menos de 3 dias para perceber. Emily é sua melhor funcionária. Vende mais que qualquer um aqui. Você deveria agradecê-la e não destratá-la. Faz isso para que ela não saiba o tanto que vale e use isso contra você. Então... sim, ela quer ser demitida, quer trabalhar em algum lugar que reconheçam seu esforço.
Naquele momento eu sabia que estava acabado. Meu emprego já era. Não importa o que dissesse. Eu teria que arrumar minhas coisas e ir embora. Provavelmente seria demitida por justa causa e se eu não conseguisse outro emprego rápido... teria que me mudar, não conseguiria pagar o aluguel. Vi milhões de problemas se formando em questão de segundos.
Fechei os olhos e deixei os ombros cair, derrotada. − Eu vou buscar minhas coisas.
− Espere. − Sr. Oscar tapou minha passagem. − O que você quer? Um aumento?
− O que? − Aquilo foi como levar um tapa.
− Ele está certo. As vendas só continuam bem por sua causa. Não... não posso me dar ao luxo de perder você,Emily. Eu estaria arruinado. Então, me diga. Qual é a sua proposta?
Arregalei os olhos com a surpresa. Aquilo não podia estar acontecendo. Era surreal demais.
− O que eu quero.... hm...
− A gerência. − Ronny completou.
− Impossível.
− Sim, é isso que eu quero. − Coloquei o máximo de convicção na minha voz. Me deixei levar pela irritação de ter sido usada por todo esse tempo. − Ou eu estou fora. − Arrisquei.
O Sr. Oscar bufou fortemente e pensou por alguns segundos até finalmente dizer: − Feito. Só me dê alguns dias para refazer o quadro de funcionários.
Concordei e respirei pesadamente quando ele deu as costas. Eu estava quase desmaiando. Eu agora era gerente? Não podia acreditar.
− Meu parabéns pelo novo cargo. − Tive vontade de chorar quando lembrei que meus problemas não foram todos resolvidos. Em algum momento eu teria que lidar com ele, me virei e o encarei.
− Eu poderia ter perdido o emprego. − O recriminei.
− Não ia, não. − Ele sorriu.
− Como podia ter tanta certeza?
− Não tinha. − Deu de ombros. − Fui pelo que observei aqui.
− Como é que é?
− Fiquei observando você, e os outros funcionários. Você vende os livros como água. É de longe a melhor. Quando vi a maneira que ele te tratou... soube na hora que você não tinha ideia do quanto é boa. Mas ele com certeza sabe.
− Você arriscou meu emprego por pura.... intuição? − Levantei uma das sobrancelhas.
− Bom... de certa forma... − Ele sorriu, tentando parecer inocente. − Mas eu sou muito bom em observar.
− Você é completamente louco. − Aquilo estava era me deixando louca. − E que bom que estava certo. Obrigada, mas, por favor, não volte a fazer isso.
O sorriso logo sumiu do seu rosto e ele ficou sério. Eu sabia o assunto que vinha pela frente. Não estava nem um pouco preparada.
− Quero pedir desculpas pelo outro dia. Sei que devo ter parecido um idiota psicótico. Comecei completamente errado.
− Hm... Okay. Desculpas aceitas. Tchau.
− Espere. − Ele me segurou para que não me distanciasse. − Por favor, me deixe fazer isso do jeito certo.
Prendi a respiração e esperei que ele falasse.
− Sou Keillan Ronald, mas pode me chamar só de Ronny. Tenho 26 anos e gosto muito do Júlio Verne.
Não sei o motivo, mas acabei deixando escapar um risinho quando ele falou sobre livros. − Tá bem.
− Eu já li todos os livros do Verne e nunca dei chance para outros autores, nunca achei que algum pudesse me agradar tanto quanto ele. Mas − Ele frisou bem o "mas" − como eu confio na sua intuição. Vou te dá essa responsabilidade.
− Bem... Eu preciso traçar o seu perfil para indicar o livro certo, pra isso tenho que saber algumas coisas a mais. − Eu falei no automático, é o que digo para todos os clientes. Só depois eu percebi no que eu havia me metido.
− Ótimo. − Ele abriu um sorriso enorme. − Estou a sua disposição. Podemos conversar sobre o que quiser.
Me apressei em dizer: − Na verdade... Outro vendedor...
− É só um livro, Emily. Vai me negar isso?
Que incrível. Ele me levou a um beco sem saída. O que eu podia fazer? Expulsá-lo? Sair correndo?
Decidi por ser profissional e provar pra ele que não estava interessada. Isso.
− Certo. − Suspirei. − Mas é só pelo livro. Nada mais.
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