Notas iniciais
Olá o/ Espero que gostem

− Calma! Espera... Respira ou você vai acabar tento um treco. Eu não quero ter um corpo na minha sala.

− Eu... eu... ele apareceu. Ele apareceu! O que eu faço? AEMEUDEUS.

Eu estava a ponto de estapear Emily, mas eu realmente vi o medo nos olhos dela então só a segurei pelos ombros e a sacudi com força. − Ei! Se controla. Você. Precisa. Ficar. Calma. Ok?

− Tá bem.

− Ótimo. − Suspirei. − Senta.

Logo no início da noite Emily tinha me ligado desesperada, sem conseguir dizer coisa com coisa. Não estava muito diferente de agora.

Eu não precisava de muito para conseguir entender minha amiga. Sabia exatamente do que ela estava falando.

− Como você sabe que é ele? − Sussurrei, depois de dar um copo de água para ela. Ela estava encolhida e encurvada no sofá da minha sala, parecia tão pequena. E olhe que o meu apartamento é minúsculo. A sua situação me despertava um estranho instinto de proteção.

− Ele disse que era. − Ela suspirou. Sua voz saiu tão fraca que eu quase não a reconheci.

− Tem certeza? Você pode ter entendido errado.

− Júlia! Eu tenho certeza, tá bem? Tenho muita certeza. − Disse, se virando pra mim.

− Okay! Você tem certeza. Agora...

Agora... eu não sabia o que fazer. E essa constatação me deixou quase a beira do pânico. Eu não podia perder o controle, ou estaríamos nós duas gritando no meio da rua. Tudo que eu sempre quis foi que eles não nos encontrassem. Eu faço de tudo pra isso. Me mudar, tratar de sujar minha imagem, não da trela para nenhum cara que queira mais que algo de uma noite. Eu planejo de tudo para não acontecer. Mas... e SE acontecer comigo? Eu não sei.

Vou para a pergunta mais óbvia. − Como está se sentindo?

− Mal, né? E com muito medo. Eu pareço estar diferente? − Questionou.

Tudo que eu via nela era um rosto borrado e cheio de lágrimas.Ver isso transformou minha insegurança em raiva. O jeito que estamos sendo forçadas a viver. O medo... o tempo todo.

− Você está ótima. Sua maquiagem tá horrível, mas pra mim é a mesma de sempre.

− Obrigada. − Ela riu, limpando o rosto. − Eu disse pra ele ficar longe de mim. Que era o certo.

− Boa, garota. E ele?

− Parecia que ele esperava que eu fosse me jogar nos braços dele assim que eu descobrisse.

− Típico. − Bufei.

− Ele ficou tão perdido. Tadinho.... − Ela arregalou os olhos e tapou a boca. − Ah, não. Olha pra mim! Já estou pensando nele.... Júlia! Você precisa me ajudar.

− Ei, vamos dar um jeito nisso, ok? − Eu disse, me levantando e dando poucos passos até chegar a cozinha também minúscula e sem graça. − Vou fazer nosso jantar enquanto você me conta detalhadamente tudo que aconteceu.

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***

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Nós pegamos a mesinha de centro para apoia os pratos e nos sentamos no chão, com as costas apoiadas no sofá.

− Já pensou em pedir transferência do seu emprego? − Perguntei entre uma garfada e outra.

− Não, isso está fora de questão. Eu não fiz nada, por que tenho que viver uma vida de criminosa? Eu não quero passar meus dias em torno disso, pensando o certo e errado a fazer para que não acabe o encontrando novamente. Isso não é vida.

− Você tem razão. − Eu engoli em seco. Aquilo doeu em mim, de certa forma... era o que eu estava fazendo. Vivendo como uma fugitiva. Deixando de viver.

− Você ainda pode dizer que é lésbica. − Soltei.

− Ele não vai cair nessa. Se eu fosse lésbica ele seria uma mulher.

− A gente pode... você sabe... − fiz um gestão com o punho batendo na palma. − E depois damos um jeito no corpo.

− Júlia! − Seu tom de recriminação me fez rir.

− Eu estou só tentando aliviar a tensão. É que eu...

− Não faz ideia do que fazer tanto quanto eu. − Ela me interrompeu. − Eu sei.

− Me desculpa, gostaria de poder ajudar mais. − Senti sua mão afagando meu ombro.

− Você já fez muito. Agradeço todos os dias por ter você como amiga. Não quero nem saber o que eu faria se estivesse sozinha. Obrigada por me ouvir.... me acalmar.

Seu sorriso de gratidão era genuíno. Por isso a culpa foi lentamente saindo dos meus ombros.

− Sabe... talvez eu tenha sido clara o suficiente. Talvez ele tenha entendido que eu não quero nada e desistiu... voltou pra casa dele.

Balancei a cabeça, concordando e lhe dando forças. − Espero muito que isso tenha acontecido. Seria maravilhoso pra todas nós se as coisas puderem ser resolvidas assim.

− Você acha mesmo que ele veio da Inglaterra só pra me encontrar?

− Emily...

− Eu sei, é só curiosidade. Esquece.

− Toma cuidado, tá? Nós só vamos nos de novo ver daqui três dias. Se ele aparecer, seja firme e não dê chance. E nada de entrar em pânico. − Instruí.

− Ah, você tem que viajar. − Ela encolheu os ombros. − Tudo bem, vou ser forte se precisar.

Você vai precisar. Pensei em dizer.

Mas, as vezes, não saber sobre certas coisas é a melhor coisa que pode nos acontecer.

Notas finais
Gostaram? Comentem.