Notas iniciais
HEHE, espero que gostem. Boa leitura.

Eu amo meu emprego.

É sério.

Não ligo de acordar cedo e só sair no começo da noite. É como ser paga para fazer as melhores coisas da vida. Se você já ficou de bom-humor depois de uma conversa descontraída com alguém que acabou de conhecer, num ônibus, na fila do cinema... deve entender bem do que eu falo. Só que é mil vezes melhor. Converso sobre livros, sobre tudo. Com pessoas que compartilham a mesma paixão que eu.

Neste momento estou descendo do ônibus, para mais um dia de trabalho. Me despeço da garota que acabei de conhecer, ela estava lendo um exemplar de Do seu lado¹, um dos meus livros favoritos. Que por sua vez cita um dos meus filmes favoritos. Harry & Sally². Ambos trazem uma filosofia linda sobre o amor. Amor de verdade, sabe? Pessoas que foram amigos por muito tempo, que se conhecem de verdade, suas falhas, seus medos. É nisso que eu acredito.

Caminho dois quarteirões − segurando a saia do meu vestido para que ela não suba com o vento forte − até chegar ao meu destino. A livraria tem a fachada toda de vidro, e tem uma vista maravilhosa. Assim que entro pela porta sinto o delicioso e familiar cheiro de livros e café.

− Até que enfim, Emily. − Johanna, uma das minhas colegas de trabalho, fala logo que entro.

− Eu sei. Me desculpa. Mas foram apenas 9 minutos. − Tomo folego.

− Fala isso para os três clientes que não param de ligar, perguntando quando você "finalmente" chegará. − Ela ironizou. − Cruzes, agem como fosse caso de vida ou morte.

− Pode deixar que eu retorno. − Jogo minha bolsa atrás do balcão e me preparo para mais um dia.

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***

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No fim do dia, eu e os outros vendedores estamos colocando os livros espalhados nos seus devidos lugares.

Estou perto de uma das estantes do canto, mais afastadas das outras, quando ouço uma voz grave:

− Você é boa nisso.

A voz veio do outro lado da estante. A princípio só vejo sua silhueta entre os livros arrumados.

− Como? − Franzo as sobrancelhas. Me inclino tentando ver seu rosto, mas parece que está evitando que eu o veja.

− Não houve uma só pessoa que falou com você que não tenha levado algum livro. E estavam bem felizes.

− Ah, obrigada. Eu acho. − Eu falei em modo automático, sem ouvir realmente o que ele dizia. Eu estava andando lentamente, na tentativa de contornar a estante e ver quem era. − Eu posso ajuda-lo em algo?

− Desculpe-me − Ele andou até sair das sombras, para que eu pudesse vê-lo. − Sou Ronny.

− Ronny? − Eu o questionei enquanto apertava sua mão. − Não é um nome muito comum. Você é daqui?

Ronny tinha uns bons 15 centímetros a mais que eu. Isso dizendo por alto. Ele tinha olhos castanhos, assim como o cabelo curto. Ombros largos, mas não o suficiente alguém dizer: Oh, como esse cara tem ombros largos. Nada assim. Estava com os lábios comprimidos, ou talvez sejam pequenos mesmo. E vestido com calça jeans escura e camisa social. Parecia um universitário em busca de emprego.

− Não. Na verdade, sou de Birmingham. Não é tão gloriosa quanto Londres. Mas ainda é uma cidade fantástica. − Ele disse, pude notar um certo sotaque agora.

− Inglaterra? − Levantei uma das sobrancelhas. − Nossa. A biblioteca britânica é uma das...

− Uma das maiores do mundo. É. − Ele sorriu, complacente. Nesse momento eu tive vontade de me estapear.

− Ai, me desculpa. Eu to falando sobre a Inglaterra pra alguém que viveu lá a vida toda.

− Não se preocupe com isso. Pode falar sobre o que quiser. O som da sua voz é inebriante.

Eu fui de envergonhada para completamente sem graça. Pela primeira vez eu não tinha ideia do que dizer. Então apenas olhei para os lados, arrumando alguns livros desalinhados.

− Hm... Ronny? Muito prazer. Sou Emily. − Mudei de assunto. − Vivo aqui desde que nasci. Seja bem-vindo. Você fala muito bem minha língua, por sinal.

− É uma prazer conhecê-la, Emily. E obrigado. Eu me esforcei bastante para isso.

Ronny me encarou por alguns minutos, como se compactuasse algum pensamento. Bom, se ele tentava me dizer algo estava falhando miseravelmente.

− Nós vamos fechar em 37 minutos. − Alertei, enquanto olhava no relógio. − Se me disser o que procura...

− É mais quem do que o que.

− Ah, está procurando alguém? Eu posso chamar... − apontei o polegar para trás.

− Eu gostaria de alguém que me ajudasse a conhecer melhor a cultura daqui. E acabei de encontrar. Você é perfeita.

Eu recuei alguns passos.

− Ah. Não, não. Acho que um guia turístico seria mais útil. Mas conheço ótimos autores nacionais... E também sei muitos livros que citam os melhores lugares para conhecer por aqui.

− Emily?

− Sim?

− Adoraria que fosse você. − Ele sussurrou. − Mesmo.

Eu franzi o cenho e sussurrei de volta. − Por que?

Ronny coçou a cabeça e sorriu, meio enviesado.

− Não sei como dizer isso. E eu passei dias treinando na frente do espelho. Verdade.

− Dizer o que? − Eu balancei a cabeça, sem entender.

− Estava esperando que você fosse me procurar. Depois de um tempo fiquei tão ansioso que não consegui mais esperar. Pensei que talvez você não tivesse conhecimento...

Meu coração começou a disparar e eu senti um estremecimento por todo o corpo.

− Ronny... espera aí. O-oque está querendo dizer? − Minha voz saiu trêmula. Eu estava rezando para que não fosse o que eu pensava.

− Fiquei dias olhando para sua foto. Pensando em como seria o seu jeito, o som da sua voz. E até agora está sendo muito melhor do que eu imaginei. − Ele praguejou baixinho. − O que que eu estou dizendo? Eu ainda não perguntei se você tem conhecimento do que eu....

− Ah, meu Deus. AH. MEU. DEUS. − Eu arregalei os olhos.

Ok, não entre em pânico. Não entre em pânico.

Ele é só um cara normal.

Bonito, mas nada excessivo. Você ainda está no controle.

Você quer largar tudo e fugir com ele? Não.

Não. De jeito nenhum. Não.

− Não. − Eu recuei rápido demais e esbarrei numa estante.

− Emily? − Ele me olhava, preocupado. − Você está bem? Eu não... Não quis te assustar... Eu sou... − Ele se aproximou e eu estendi a mão para que ele não chegasse mais.

− Não, não. − rosnei. − Não chegue perto de mim com esse vórtice.

Eu fui me arrastando, colada na estante. Bem lentamente. Enquanto ele me olhava sem entender nada.

− Vórtice? Eu não entendo. Nós dois...

− ... temos que ficar longe um do outro. − Eu completei. − Acredite em mim, é o melhor.

Depois que eu me arrastei para longo o suficiente, corri até o balcão e peguei minhas coisas.

Tinha que fugir dali o mais depressa possível.

− Emily, eu... − Ronny foi até mim, com uma mistura de preocupação e tristeza. − Me desculpe, eu me expressei mal. Desculpe se a assustei, ou a ofendi de alguma forma.

− Ronny... − Eu parei, antes de sair. Minha maldita consciência falando mais alto. − Essa coisa não é tão bonita quanto parece. As pessoas... não quero ficar como elas e você também não deveria querer. Por favor, precisa ficar longe de mim.

Não sei bem se ele entendeu o que eu quis dizer, mas não fiquei para saber.

Saí pela porta para uma noite fria e segui a mesma direção que as outras pessoas por ali.

Peguei o celular e liguei para Júlia. Precisávamos de uma reunião urgente.

Notas finais
Bjs e até o próximo.