Desconstruindo Amélia
1 Capítulo Único
Notas iniciais
Às vezes é necessária a mudança. Mudar de ares, trocar o cabelo, vestir aquela roupa guardada lá no fundo do armário, esquecer aquele velho eu que tanto lhe incomodava e se transformar. Descobrir-se. E foi o que eu estava tentando fazer naquela hora.
Meus olhos semicerrados mostravam profundas olheiras de uma noite extensa de insônia. Não era a primeira vez, mas sabia que não seria a ultima, algo me incomodava, e nem sequer sabia o motivo de tal perturbação. Talvez o trabalho, ou quem sabe mesmo a solidão que se esgueirava em alguns momentos quando me permitia pensar por longos períodos de tempo. Péssima ideia, agora eu sabia.
Acaricio minha face, não era a garota mais bonita do bairro, eu sabia disso, mas poderia ser considerada atraente. Em plenos 25 anos de idade, com tantas coisas pela frente, eu não me sentia bem. Talvez se meu temperamento não afastasse as pessoas ou às vezes buscasse um pouco de diversão além do trabalho eu poderia me sentir realizada, mas a quem eu iria enganar? Eu estava bem assim, estava bem acostumada a ter uma vida monótona. Sem amigos, sem amores, sem luxo. Apenas eu, meu trabalho, e os livros o qual me acariciavam nas noites mais solitárias em meu apartamento. Essa sou eu.
O vestido parecia um pouco curto demais, e me deixava com cara de vadia. Não sabia se era pelo simples motivo de não conseguir me ver de uma forma mais atraente, ou se o medo de me arrepender do que iria fazer era maior. Olho de relance, ele era bonito. Era simples, e de couro, um pouco apertado, mas ainda dava para respirar. Meu cabelo recém cortado mostravam uma mulher até então não descoberta em mim. Uma mulher que poderia conquistar o que quisesse.
A maquiagem era pouca, nada de luxos, ou algo muito exótico, apenas o básico. Batom vermelho, pó e rímel. Sentia-me outra pessoa. Alguém segura de si. Alguém com planos. Alguém interessante o suficiente para tentar decifrar. E eu estava amando isso, ao mesmo tempo em que sentia medo do desconhecido.
O que poderia dar errado? Estava perambulando pelas ruas perdida em meus próprios devaneios, perdida no meio das luzes da cidade. Era tudo tão lindo quando se esquecia dos problemas, que me perguntava o motivo de não ter feito isso outras vezes.
Uma pequena quantidade de pessoas estava aglomerada no parque, fazia um pouco de frio, mas nada que não pudesse aguentar. Ainda dava tempo de voltar, mas meu coração pela primeira vez implorava para continuar. E pela primeira vez o ouvi.
- Amélia? Quanto tempo querida! Aí meu Deus, como você está diferente... Olha seu cabelo, o que houve? Algum pretendente? – A frase saiu tão rápido que nem consegui acompanhar direito. Não me lembrava de conhecê-la, mas sua voz me soava familiar. – Não se lembra de mim, não é? – Ela deixa um sorriso divertido invadir a noite e me deixo levar por aquele momento. – Sou Camille, estudei com você na faculdade! – Ela me abraça, e por algum motivo retribuo. – A-Ah sim, lembro-me de você! – Tentei parecer natural, mas era uma péssima mentirosa e ela parecia perceber isso de longe.
- Você sempre foi uma péssima mentirosa! – Ela sorriu divertida pairando sua mão direita em seus cabelos negros e alisando-o. – Mas o que a trás por essas bandas? Pensei que não gostava muito de sair. – Estava nervosa por algum motivo, não que não conversasse com ninguém, mas não era tão fã de contato humano. Mas hoje isso iria mudar. – Bem... – Paro um pouco e penso antes de falar, não poderia dizer o que der na telha. – Queria ver a cidade um pouco, a noite parecia tão bonita. Nunca vi o céu tão estrelado quanto hoje, acho que essa foi minha deixa. – Deixo um sorriso pequeno escapar. – E não, nenhum pretendente... Ainda. – Ri mentalmente da minha frase e prossegui sem medo. – Sabe, às vezes é preciso mudar a si mesmo se quiser que algo aconteça. Olha o resultado disso. O que achou? – Ela olha de cima para baixo e sinto meu corpo formigar. Era estranho o modo como ela me olhava, aquelas orbes azuis me encarando, faziam-me tremer sem motivos aparentes. — Está ótima, até parece outra pessoa. – Ajeito as pequenas madeixas que caiam em minha face, e suspiro. Talvez aquela tenha realmente sido uma boa ideia.
O resto da noite foi embargado de risadas e conversas sobre o passado. Camille contou-me sobre seus dois filhos, que impressionantemente eram tão diferentes dela que me perguntei se não eram adotados. Péssima coisa a se fazer, eu sei. Caminhamos por entre a extensa praça e deixamos ser levadas pela companhia uma da outra, era calmo ver dali de cima o resto da cidade que ganhava vida naquela noite. Mas Camille tinha que partir, e novamente fiquei sozinha para desbravar o mundo, ou pelo menos dar o segundo passo, de vários outros.
Meu corpo agia impulsivamente em meio a vontade iminente de conhecer um dos locais o qual tinha ouvido falar algumas vezes. The Broken Hearts Club. Irônico esse ser o nome de uma balada, principalmente uma das mais visitadas. Teria sorte se conseguisse entrar naquela noite.
Meu corpo foi imprensado pela aglomeração ao entrar. De primeira meus olhos não conseguiram absorver a luminosidade dos jogos de luz, e a música alta me deixava com ânsia, mas com o passar do tempo fui me acostumando e meu corpo relaxando. Menos meu coração.
Uma bebida para acalmar. Duas. Três. Nessa hora já estava um pouco alterada, o gosto era estranho, forte e amargo, mas conseguia aguentar. Ainda estava em frente ao minibar, percorrendo todo o lugar a procura de algo, ou alguém. O álcool não foi bom para mim. Ri de meus próprios pensamentos enquanto meu dedo percorria a borda do copo pela metade.
Olhos, essa foi à primeira coisa em que reparei. Duas orbes de uma cor que não conseguia definir me encaravam. E um misto de excitação e medo me puxou para realidade. Ele continuava a me encarar. E impulsivamente caminhei em sua direção.
Fale com o autor