Desconhecido
7 Capítulo 6 - Sangue Quente
Já é de manhã novamente, Francine acorda com uma dor de cabeça excruciante, Vanessa ainda está dormindo, então ela resolve descer e tomar um remédio, ao chegar lá embaixo, toma seu remédio com um gole de água e deita no sofá, pensando sobre o dia que passou, seus olhos começam novamente a lacrimejar, o que estava acontecendo? Ela queria saber.
Ligou a TV, tentando esquecer o que aconteceu ontem apenas por um tempo, mas ao ligar, o noticiário falava sobre a morte de Trevor, será que isso iria persegui-la pelo resto da sua semana? Desligou a TV. Percebeu que alguém a observava no canto da sala, Bree. Francine quase não havia brincado com ela desde que chegou, fez um sinal com as mãos e ela veio. Passou a mão em seus pelos lisos cor-de-creme, Bree adorava carinhos, Francine flagra-se sorrindo por um instante, Pelo menos alguém não estava preocupada com a morte de Trevor, ela não precisaria estar, era apenas uma cadelinha, frágil e inocente, não sabia ao menos o que era a morte.
- Bom dia, está bem? – Vanessa pergunta, descendo as escadas.
- Um pouco – Francine responde.
- Tente não pensar sobre aquilo, pense que foi apenas um crime infeliz cometido por algum marginal qualquer. Ele não voltou Fran.
- Não, ele voltou, e é a mim que ele quer.
- Vamos deixar esse assunto pra lá – Vanessa diz – Não vai para o enterro do seu amigo? Layla me disse que é hoje.
- Acho que sim, pelo menos não estaremos sozinhas.
Elas se vestem e se preparam, Lorna ainda dorme, então Francine deixa um bilhete dizendo que foi ao cemitério, ao enterro de Trevor.
Elas vão no carro de Vanessa, ao chegar lá, Francine percebe uma mulher, chorando sem parar, provavelmente a mãe dele, rodeada de várias pessoas tentando consolá-la.
- Oi, você está bem? – Layla pergunta.
- Estou... Um pouco – Francine responde.
- Olha, Vanessa me contou sobre a sua infância, de onde vocês vieram, e eu quero te dizer que estou ao seu lado quando precisar, ok?
Francine dá um abraço forte em Layla. Elas veem Liam chegando, com olheiras profundas, provavelmente deve ter passado a noite em claro por conta da morte do seu melhor amigo.
- Oi garotas – Ele diz, com uma voz extremamente fraca.
- Oi Liam – Layla diz, abraçando-o.
- Oi, você está bem? – Francine pergunta.
- Não muito... – Ele abaixa a cabeça – Está na hora, vamos.
Todos se reúnem em frente ao belo caixão que está prestes a ser enterrado, após o padre falar algumas palavras confortantes, a mãe de Trevor joga uma última rosa branca, antes de começarem a descer o caixão e ela desabar em lágrimas.
A cerimônia chega ao fim, a mãe continua parada em frente ao túmulo do rapaz, imóvel, após abraçá-la mais uma vez, as pessoas começam a se retirar lentamente do cemitério, Francine, Liam, Layla, Dana e Vanessa e Chuck estavam parados, em silêncio, até que Chuck quebrou o gelo.
- Então, alguém precisa de carona?
- Não, estamos bem – Francine respondeu.
- Então tá, eu vou indo, a gente se vê.
- Tchau – Liam diz, com sua voz quase imperceptível de tão fraca.
Chuck se retira, e Francine então vê alguém distante dali, ajoelhado na frente de dois túmulos. Jensen. Resolve ir falar com ele, ao chegar até o local, vê de perto os dois pequenos túmulos, Lilith e Jack White, esse sobrenome parecia familiar, Francine o vira em algum local, na lista de alunos na porta de sua sala na Shivers, Jensen White.
- São seus pais? – Ela pergunta.
- Sim – Ele responde, com uma voz dolorosamente baixa.
- Eu sinto muito.
- Eu também – Ele começa a chorar.
- Está tudo bem – Ela o abraça – Vai ficar tudo bem... Você vem sempre aqui?
- Sim, eu me sinto bem aqui, me sinto perto deles.
- Você está muito abalado, não acha melhor ir pra casa, descansar?
- Talvez, mas você iria comigo? Preciso de alguém para desabafar. – Ele pergunta, fazendo Francine estremecer por dentro.
- É claro – É só o que ela consegue responder.
- Ei gente, nós já estamos indo ok? – Layla interrompe. – Vocês veem com a gente?
- Sim nós vamos – Francine responde.
Eles vão embora, após deixar Vanessa, Francine e Jensen na frente da casa de Francine, Dana vai embora e Francine fala para Vanessa:
- Olha, vai descansar, vou ficar um pouco com o Jensen ok?
- Tá, pode ir – Ela responde.
Francine e Jensen andam em direção a casa em frente à dela, ele pega as chaves no bolso e abre as portas, ao entrar, ela se surpreende ao perceber o quão arrumada a casa está, é incomum para um garoto de 19 anos que mora sozinho.
- A empregada veio hoje? – Francine diz, tentando melhorar o clima.
- Não, rs, pode parecer mentira, mas eu fiz tudo – Ele responde, sorrindo pela primeira vez em horas
- Quer uma cerveja? – Ele oferece.
- Sim, eu quero.
Os dois sentam no sofá e Jensen liga a TV, mas os dois ignoram e começam a conversar.
- Mas então, onde você esteve esses anos, antes de vir pra cá? – Jensen pergunta.
- É uma longa história – Francine responde – Não tive uma infância normal.
- Como assim?
Ficaram em silêncio por alguns segundos, ela não sabia se deveria ou não contar? Vanessa e Layla sabiam da história, mas elas não entendiam, ele passou pela mesma coisa, talvez entendesse como ela se sente. Resolve contar.
- Bom, quando estava fazendo 11 anos... – Ela fala e pausa, deixando as lágrimas caírem – Eu perdi minha família inteira, foi um homem, ele entrou na minha casa sem motivo algum e matou todos eles, desde aquele dia, eu prometi a mim mesma que iria me vingar.
- Oh meu deus – Ele quase fica sem palavras, apenas a abraça e deixa que ela coloque pra fora tudo o que a atormenta, porque, apesar do choque, Jensen a entendia.
Ela resolveu não contar sobre o sanatório, isso ninguém mais precisaria saber, afinal, aquele lugar era horrível, Francine não gostava de nem de lembrar-se dos seus dias lá, a não ser das horas que passava com Vanessa.
- Ah, nossa, desculpa, você precisando de um amigo e eu aqui, chorando, rs – Ela diz, enxugando as lágrimas.
- Que nada, ouvir alguém que me entende me faz bem... – Ele diz, e ela sorri.
- Olha, já volto, vou buscar dinheiro, hoje é dia de comer fora – Ele diz, levantando-se.
- Não, não, não, volte aqui, eu cozinho pra você!
- O que? – Ele diz, surpreso – Você precisa relaxar.
- Cozinhar me relaxa queridinho – Ela responde, sorridente.
Ela vai até a cozinha e abre armário, seleciona os ingredientes e começa a cozinhar, Jensen permanece parado, sentado na mesa, apenas observando-a.
Ao terminar, ela põe tudo na mesa e Jensen coloca o dedo no molho do guisado.
- Já lavou as mãos? – Disse Francine, dando um tapinha na mão dele.
- Você quem manda, chefia – Ele levanta-se a vai até a pia lavar suas mãos.
Os dois terminaram de almoçar e agora estão sentados no sofá, assistindo TV, Francine olha no relógio da sala. Quase duas da tarde.
- Droga, preciso ir – Ela diz.
- Você não precisa fazer nada que não queira – Jensen retruca, fazendo-a sorrir.
- Preciso ir sim, tchau, você vai ficar bem?
- Vou tentar – Ele fala, brincando.
- Tchau.
Ela vai pra casa, ao chegar, encontra Vanessa sentada no sofá da sala, conversando com os pais no celular.
- Tá mãe, eu vou amanhã, tchau e beijos – Ela diz, antes de desligar – Como foi com seu namorado?
- Ele não é meu namorado – Diz Francine, jogando a bolsa no sofá e se deitando logo em seguida – Onde está minha avó?
- Foi ao supermercado.
Neste momento, o celular de Francine toca. Layla.
- Fran, você viu a Julia hoje?
- Não, por quê?
- Não sei, ela não foi ao funeral e nem deu notícias, estou com um mau pressentimento.
- Você já tentou ligar?
- Sim, umas mil vezes, mas sempre dá caixa postal. Tá ok, só precisava saber isso, beijos.
- Tchau.
Ela desliga o telefone, e fica preocupada com Julia.
- Quem era? – Vanessa pergunta.
- Layla, queria saber se eu vi a Julia hoje, ela não apareceu no funeral do Trevor.
- Quem é essa?
- Namorada dele, eles tinham brigado na festa, mas isso não é motivo pra não ir ao funeral dele.
- Bom, vai saber né.
- Não sei, estou meio preocupada.
- Na certa ela está em casa, triste, sem querer falar com ninguém. Mas enfim, sente-se ai agora, vai passar uma sequência de vários episódios de AHS, vamos assistir, isso vai te fazer esquecer um pouco os acontecimentos recentes, é sua série preferida não?
- Vamos – Francine diz e senta-se no sofá.
Já está ficando tarde, está passando o último episódio da série, Vanessa está quase adormecendo no sofá.
- Vamos pro quarto? – Francine pergunta.
- Ah, vamos, estou morrendo de sono – Ela responde.
As duas sobem, Vanessa toma um banho e em seguida, Francine, ela se prepara para dormir, Vanessa já está adormecida. Ela vai até a janela, fechar as persianas e então se depara com a seguinte imagem, um homem, observando-a, atrás de alguns arbustos na casa de Jensen, porém, não é ele, a menos que Jensen use uma máscara de pano assustadora com dois olhos negros e vazios. Droga, não é Jensen, é o homem a quem jurou vingança. Francine fecha os olhos.
- É apenas uma ilusão, é apenas uma ilusão. Droga! – Ela repete, até abrir os olhos e perceber, ele tinha embora, ou até mesmo nunca esteve lá.
Francine deitou-se, com um pressentimento ruim sobre aquela visão. Adormeceu.
São onze e cinquenta e um. Layla e Chelsea se preparam para dormir, Layla está penteando seus cabelos quando vê um garoto, andando sozinho pelo meio da rua. É Liam.
- Liam, o que está fazendo? – Ela grita ao abrir a janela – Você deveria estar em casa!
- Por favor, não me diga o que fazer – Ele diz, aparentemente bêbado e vai embora.
- Droga! – Layla diz, pegando o celular para ligar para os pais de Liam, mas repete a palavra assim que percebe que está fora da área de cobertura. Decide ir dormir, ele iria voltar para casa alguma hora.
- O que foi? – Chelsea pergunta.
- Liam. Ele anda muito mal ultimamente, espero que não se meta em encrenca.
Liam está bêbado, andando pelas ruas vazias do bairro, apenas alguns carros estacionados em uma fileira na rua. Está escuro. As luzes das casas estão desligada e uma névoa está cobrindo toda a rua, ele enxerga apenas pela luz do luar que hoje está clara, quando enfim, percebe uma luz atrás dele, vira-se para ver e então encontra um carro, parado no meio da rua, ele desliga os faróis e permanece lá.
- Mas que porra é essa? – Ele diz, tentando enxergar quem está dirigindo.
Antes que pudesse perceber, o carro acende novamente os faróis e desta vez, o motorista os deixa piscando, Liam fica desesperado e começa a correr, quando o carro acelera em sua direção, ele corre olhando para trás, tentando ver o motorista, durante o intervalo das piscadas dos faróis ele finalmente consegue enxergar o motorista, dirige como uma pessoa, mas seu rosto denuncia, não são feições humanas, na verdade, é uma máscara, ele fica ainda mais desesperado e corre mais rápido, então vira a esquina e percebe que os faróis apagaram, ele olha para trás e o carro não está mais lá. Após respirar um pouco o ar frio daquela névoa, ele continua correndo, até chegar à outra esquina, onde percebe vários carros estacionados na rua, todos eles muito parecidos, mas, aparentemente, não há ninguém dentro dos carros, mas mesmo assim, ele anda pela rua, desconfiado, com medo, é até uma situação engraçada, é hilário ficar com medo de um carro. Mas ele não estava com medo de um carro, e sim de um homem, com uma máscara assustadora. Liam permanece andando, analisando cada carro, ele consegue ouvir as batidas aceleradas do seu próprio coração. Quando finalmente parece que ele foi embora, um dos carros na fileira acende os faróis. É ele.
Liam volta a correr desesperadamente, mas ele é mais rápido e consegue acertá-lo em cheio, fazendo-o cair no asfalto, o homem desce e anda lentamente até a frente do carro, arrastando pelo chão um machado, que em atrito com o asfalto, produz um som agonizante e assustador, ao perceber que Liam não está no chão, como ele pensou, o homem olha para os lados e percebe o garoto tentando correr e virar a esquina, Liam não consegue andar muito rápido pois havia machucado a perna no atropelamento. Ele olha pra trás e não vê ninguém, isso deveria confortá-lo, mas faz totalmente o contrário, o deixa mais nervoso ainda. Ele tenta andar até a casa de Layla ao perceber pela janela do seu quarto, que a luz ainda está acesa, se arrasta pelas paredes laterais da casa até chegar à frente, por um momento, pensa que está salvo, até ser surpreendido pelo grande homem de máscara de pano com olhos vazios, o homem ergue um machado e Liam solta um grito fraco, então é tarde, toda sua tentativa de se salvar foi em vão, o assassino acerta o machado na cabeça do garoto, decepando-a imediatamente, o sangue de Liam, desce pela máscara do homem, sem que ele expresse emoção alguma. O assassino coloca a cabeça de Liam dentro de uma mochila e limpa um pouco do sangue da parede da casa de Layla com um pano, colocando-o na mochila logo em seguida.
Layla. Ela levanta-se da cama, pensando ter ouvido um grito, mas ao olhar pela janela, não consegue ver nada, portanto volta a dormir. Enquanto isso, o assassino arrasta o corpo de Liam pelo chão até sumir completamente na névoa.
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