Desconforto

1 O que é o Céu?


Notas iniciais
Olá! essa é a primeira vez que participo do desafio e primeira vez que trabalho com um beta! ~experiência bem proveitosa inclusive~ um bjão e mto obrigada ao meu beta, Renato, super paciente ♥ espero que gostem de Marvin tanto quanto eu gostei de escrever ♥

Marvin rolou de lado, esticou-se na cama ciente de que deveria estar de pé há bastante tempo, mas era incapaz de levantar. Tateou pelo colchão até encontrar o celular, girou-o na mão e pressionou o botão, ‘’nenhuma nova mensagem’’.

Suspirou como se acostumara a fazer e abandonou o ninho de lençóis no qual se acostumara a se esconder, para voltar ao mundo. Permitiu-se demorar o quanto quis no banho quente, sem nenhuma responsabilidade naquele domingo, ou quase nenhuma. Não havia motivação para fazer outra coisa além de estar debaixo da água quente.

Nem se deu ao trabalho de pentear o cabelo ou desamassar as roupas antes de sair. Pôs a bolsa no ombro e o livro debaixo do braço, acompanhado de sua bengala, na direção do restaurante da esquina. Sentou-se na mesa de sempre, próxima à porta, e cumprimentou a garçonete que já sabia seu pedido. O cheiro de desinfetante e café prevalecia. Calmamente, abriu o livro e deixou que os dedos deslizassem pelo alto-relevo das palavras de Shelley enquanto, do lado de fora, pequenos batuques nas mesas de metal sinalizavam a chegada de chuva.

O pequeno estabelecimento começou a ficar amontoado de pessoas que buscavam abrigo, o burburinho foi intensificando-se entre conversas paralelas e passos apressados de um lado para o outro. Marvin esforçou-se para deixar tudo isso do lado de fora enquanto prosseguia com a leitura, mas foi interrompido quando a cadeira ao seu lado foi arrastada em um estridente som de metal no piso de azulejo.

— Posso me sentar aqui? — A voz masculina surgiu de repente. — Todas as mesas estão ocupadas — explicou, muito mais próximo. Marvin protelou alguns segundos, mas assentiu, pigarreando antes de abrir um sorriso educado.

Não demorou para que o frio que torcia a ponta do seu nariz passasse a incomodar também as pontas dos dedos, que poderiam estar escondidas sob as mangas longas do casaco, mas insistiam em passear pelo livro que provavelmente estava lendo pela décima vez. Marvin ouvia com atenção a água caindo do lado de fora, ignorando a zoada do lado de dentro, mas foi interrompido de novo.

— Isso é braille? — O rapaz ao seu lado perguntou. Pela voz deveria ser poucos anos mais jovem que ele. Marvin ajeitou-se na cadeira antes de responder, com outro sorriso educado.

— É, sim.

— E o que você está lendo?

— Shelley.

— Mary Shelley? — Percebeu-o se aproximar, inclinando-se na sua direção provavelmente para olhar para as páginas, cobertas em um pontilhado que ele não saberia decifrar. — É Frankenstein?

— Percy Shelley — Marvin corrigiu.

— Hum — respondeu, voltando a se afastar —, não conheço.

— Mas era o marido dela — riu, como sempre, ao ter que explicar coisa tão boba. Sentiu sobre o livro uma súbita pressão e percebeu que ele estava passando a mão sobre a página. Incomodou-se com a intromissão, mas permaneceu calado.

— E o que está escrito aqui?

Marvin levou a mão de encontro aos dedos dele, para descobrir de que parágrafo ele estava falando.

‘’Sopras vida a nobres mundos...’’ — leu os versos para ele —, ‘’que constelam vãos profundos e as mais desertas brenhas tuas’’.

— Parece bonito — disse. Seu comentário soou mais como se ele não tivesse nada a dizer.

— É sim. — Marvin concordou, por educação, e voltou-se à leitura.

— Como você sabe se alguém é bonito? — interrompeu mais uma vez, dessa vez com uma pergunta tão aleatória quanto era possível e que desconcertou Marvin.

— Pelo conforto que a presença dela me traz — respondeu, simplesmente.

— Tipo, pela voz?

— Não — riu ao ter que explicar como se conversasse com uma criança. — Geralmente pelas atitudes da pessoa e o quanto eu me sinto confortável perto dela.

— Eu sou bonito, então?

— Nem um pouco — brincou e riu, percebendo dele uma risada acanhada.

— Desculpa, estou te incomodando, né? — perguntou, envergonhado.

— Está tudo bem.

Quando nenhuma outra pergunta surgiu, Marvin sentiu-se desconfortável. O tempo parecia confundir os pontos sob seus dedos, perdendo o sentido enquanto esperava que alguma coisa fosse dita, mas também não tomou a iniciativa. Deixou que o silêncio ficasse, embora as vozes ao redor fossem insistentes, até mesmo o batuque da chuva nas mesas de fora cessou.

Ouviu o arrastar da cadeira de metal contra o piso, dessa vez muito mais suave.

— A chuva passou, então já posso ir — o rapaz comentou. — A propósito, meu nome é Anderson.

— Marvin. — Esticou a mão na direção dele, que a apertou com gentileza, então soltou e afastou-se.

Ouviu com atenção os passos de Anderson no azulejo até que sumissem porta afora. Ficou com um gosto estranho debaixo da língua, como se o ambiente ao redor tivesse acabado de ficar bem maior e, de repente, frio. Tentou voltar-se ao Shelley, mas não havia harmonia entre as palavras. Estavam tão soltas quanto ele estava só, como sempre esteve. Fechou o livro e respirou fundo enquanto o restaurante esvaziava e a calmaria voltava ao lugar. Pegou o celular no bolso, apertou o botão, ‘’nenhuma nova mensagem’’. Pôs de volta no bolso.

Passos apressados atravessaram o piso e se aproximaram, Marvin assustou-se quando ouviu a cadeira de metal ao seu lado arrastar no azulejo novamente.

— Desculpa. — Reconheceu a voz do rapaz que havia acabado de sair. — Na verdade, haviam outras mesas livres quando eu sentei aqui.

Marvin franziu o cenho, sem entender o que Anderson estava querendo dizer, e surpreso pela súbita volta. A respiração pesada de quem havia andado depressa se mostrava entrecortando as palavras que foram ditas.

— Eu queria sentar aqui — Anderson explicou.

— Por quê?

— Porque queria conversar com você. — Deu uma risadinha, ainda mais envergonhada, enquanto Marvin tinha quase a certeza de que ele o encarava.

Novamente Marvin franziu o cenho e segurou com força o livro em sua mão como se pudesse sentir-se mais seguro assim. Ficou incomodado pela tentativa de aproximação do outro. Pigarreou e tentou sorrir.

— Posso almoçar com você? — Anderson perguntou, quando Marvin se manteve calado.

— Claro. — Esforçou-se para esconder a vergonha e soar natural.

— Você está sempre sozinho, então eu quis te conhecer — comentou, enquanto chamava a garçonete para fazer seu pedido.

— Sempre...? — Marvin empertigou-se quando ouviu a palavra, chamando a atenção do outro.

— Eu sempre almoço aqui — explicou com um sorriso. — E você também.

— Então somos mais conhecidos do que eu imaginava. — Tentou brincar, dando-se por satisfeito quando Anderson riu. — Mas eu não te conheço.

— Eu sou escultor, travesti, gosto de indie rock e Netflix — disse com naturalidade.

— Você gosta de indie rock? — A pergunta debochada fez Anderson rir.

— Você se impressionou com isso?

— Indie rock é péssimo — Marvin respondeu, sinceramente.

— Mil desculpas pela demora — a garçonete interrompeu, aproximou-se e Marvin pôde ouvir o tilintar de quando seu prato foi posto à mesa, seguido pelos talheres, o fundo do copo batendo contra o tampo de metal e o chiado do lacre da lata de refrigerante, na mesma ordem em que ela sempre os dispunha. — O tumulto de repente atrasou tudo...

— Não tem problema. Obrigado.

— Você já experimentou alguma coisa aqui além desse empanado? — Anderson perguntou em um tom descontraído, caçoando da zona de conforto na qual Marvin vivia desde que podia se lembrar. O mais velho sentiu-se incomodado e retesou-se na cadeira com um sorriso tímido.

— Tentei a torta de maçã uma vez, mas não era boa.

Anderson riu, mais uma vez, e continuou alimentando conversas aleatórias enquanto esperavam. Marvin esperou até que a refeição do rapaz chegasse para que pudessem comer juntos, em um ato muito mais empático do que estava acostumado a fazer e embora estivesse bastante incomodado com a súbita companhia, não se sentia tão desconfortável quanto quando o bip do celular anunciava que não havia nenhuma nova mensagem.

— Você mora pra esse lado, não é? — Anderson perguntou, depois que haviam pagado suas contas e caminhavam para a rua úmida.

— Que lado? — Marvin perguntou, confuso, o que fez com que o outro desse uma risada.

— Desculpa. Pra esquerda.

— Ah, sim — sorriu e assentiu. — Umas quatro casas à frente. E você?

— Umas duas ruas depois.

— Vamos caminhar juntos, então — Marvin sugeriu, depois de tirar do bolso do casaco sua bengala e estendê-la até que tocasse o chão. Ajeitou os óculos escuros sobre o nariz por puro hábito.

Caminharam em silêncio, os sapatos estalando na calçada molhada com cheiro de chuva, o ar estancado de forma abafada ao redor. Marvin parecia que não estava respirando direito, tamanho o desconforto de ter que atravessar sua rota diária sem a tranquilidade do individualismo. A presença de Anderson não era tranquila de forma alguma; parecia agitar os nervos dentro da sua cabeça como se a qualquer momento ele fosse fazer alguma pergunta que Marvin não saberia responder, ou dizer algo que ele não queria ouvir, e apenas essa impressão o sufocava. Tanto desconforto não cabia dentro da sua concha.

— Eu moro aqui — avisou, quando reconheceu o degrau que indicava a calçada de sua casa e procurou nos bolsos as chaves do portão. Segurou-as com força na palma e deu um sorriso na direção de Anderson em uma despedida. Surpreendeu-se quando uma pressão no seu antebraço o puxou para a frente de repente, embora de forma gentil, e um braço cruzou seus ombros. Nem lembrava da última vez em que abraçara alguém.

Foi rápido, desconsertante e quente. Estranho e desencontrado, totalmente torto. Nenhum dos dois soube de certo o que fazer depois e, apesar de que o rosto de Marvin estivesse quente, ele não tinha certeza da expressão que devia estar sustentando no momento. Permaneceu parado como se houvesse esquecido que deveria entrar em casa, segurando as chaves na palma, de pé junto a Anderson.

Quase instintivamente, Marvin ergueu uma mão na direção dele, que pousou hesitante no queixo. Escorregou os dedos pelo maxilar comprido, demorando-se nos pelos mal aparados, delineando as bochechas para formar na sua cabeça uma imagem mais complexa do que uma voz jovem e uma risada acanhada. Notou o rosto esticando-se sob sua mão em um sorriso aberto.

— Eu sou bonito? — Anderson perguntou, baixo para que só de perto ele pudesse ouvir.

— O meu conceito é diferente — Marvin brincou, tentando esconder a vergonha que agora o impelia a se afastar do outro. Foi impedido quando Anderson o segurou pelo pulso e com gentileza levou sua mão de volta ao próprio rosto.

— No meu conceito, você é muito bonito — Anderson respondeu.

Embora tenha previsto, não estava preparado para tamanha proximidade quando Anderson sutilmente se inclinou em sua direção. Os lábios frios dele encontraram os seus com calma e não se demoraram, como se fossem duas crianças se beijando pela primeira vez. A ideia fez Marvin rir que, nervoso, não escondeu o sorriso e acabou levando o outro a rir junto, ambos tão envergonhados quanto poderiam estar.

— Vai me dar o seu telefone?

Marvin pegou o aparelho no bolso e o estendeu na direção dele. Pôde ouvi-lo digitar, os sons agudos das teclas pressionadas com pressa e o bip de confirmação. Queria sorrir e embora tentasse com todas as forças se conter, estava tremendo.

— Eu sou o número seis — Anderson avisou, quando pôs o celular de volta na mão dele. Marvin assentiu.

— Tchau — despediu-se com um sorriso e voltou a caminhar para o portão, quase perdendo o senso de direção.

— Até mais — ouviu-o responder, enquanto afastava-se com passos estalados na calçada.

Quando finalmente trancou a porta de entrada, estava com os joelhos bambos. Incomodado e agoniado, tomado de uma euforia estranha. Pior do que se tivesse virado a madrugada dançando, ganhado no jogo do bicho ou voltado a enxergar. Deixou a bengala e as chaves no chão e caminhou até o quarto, abandonando as roupas pelo corredor.

Jogou-se na cama e voltou a rolar para debaixo do ninho de lençóis no qual se acostumara a se esconder, ignorando que o mundo girava do lado de fora da porta e suspirando, dessa vez diferente de todos os suspiros que acostumara-se a dar. Estava morrendo de medo.

———

O frio incomodava seus pés insistentemente, assim como um bip contínuo que soava pela sua cabeça. Marvin rolou de lado, esticou-se na cama ciente de que deveria estar de pé há bastante tempo, mas se deixou aproveitar a preguiça dos lençóis por mais alguns minutos. Quando os cliques tornaram-se insuportáveis, despertou, tateou pelo colchão até encontrar o celular, girou-o na mão e pressionou o botão, ‘’uma nova mensagem’’. Sorriu, como acostumara-se a fazer todas as manhãs há um tempo, e ouviu.

‘’Bom dia, espero que não se atrase pro trabalho hoje de novo. Eu estou correndo às pressas porque, como sempre, extrapolei o prazo...’’ surgiu no quarto silencioso a voz que tornara-se familiar. ‘’Inclusive, deixei uma coisa pra você na sua caixa de correios. Espero que goste.’’

Curioso, sequer se deu ao trabalho de vestir alguma coisa além do calção que usava para dormir ou de responder à mensagem antes. Atravessou a casa depressa até escancarar a porta, tateando na direção da caixa de correios do portão. Encontrou, lá dentro, uma caixa de papelão do tamanho de um livro, que não hesitou em rasgar.

Havia, realmente, um modesto livreto lá dentro. Folheou e deslizou a mão por uma das páginas grossas, sentindo debaixo dos dedos uma infinidade de minúsculos pontos que, de início, pareceram aleatórios, mas que Marvin não demorou a entender. Seguindo a mistura de pontos que nada tinham a ver com braille, formando linhas contínuas e figuras, pôde discernir um rosto. Seu coração acelerou.

Voltou para dentro e afundou-se no sofá com o livro sob as mãos, começando pela primeira página. Um homem estava sozinho em uma cadeira e na página seguinte já eram dois, lado a lado. Riu sozinho, gargalhando pela casa, as mãos tremendo de ansiedade, quando na terceira página seus rostos estavam juntos, um beijo.

As páginas seguintes foram simples, e na sexta e última página haviam apenas duas mãos juntas e, bem embaixo, com pontos mais robustos de braille, uma pergunta, ‘’O que é o céu?’’

Deixou que seus dedos descansassem sobre a pergunta e sorriu.

‘’Um globo de orvalho’’ — respondeu, sozinho, morrendo de medo de uma felicidade que há anos acostumara-se a não sentir.

Notas finais
O poema a que a história faz referência é Ode ao céu, de Percy Shelley, que você pode ler aqui: https://escamandro.wordpress.com/2011/10/26/shelley-ode-to-heaven/ Obrigada a quem leu ♥
Você chegou ao fim do livro. Parabéns!