Descobrindo o que é Amar
20 No Escuro do Cinema – Capítulo 20
O filme que decidimos assistir era de suspense-terror. Muita gente tava comentando que era muito bom, deixava você ansioso sobre o mistério projetado na tela do cinema. Mas, mistério e ansiedade de verdade estavam acontecendo ao vivo, na vida real entre eu e o Gabriel.
Estávamos em um ambiente novo, não era o colégio rodeado de colegas que eu ia rever durante o ano inteiro. Ali no cinema a sensação era diferente: mesmo sabendo sobre o fato de pessoas desconhecidas serem curiosas em olhar e espionar a vida alheia, aquele local tinha uma aparência de liberdade maior. Não falo de liberdade física, material. Falo de liberdade psicológica, ou seja, um conforto interno para meus medos. Nós não conhecíamos ninguém, não teríamos de revê-los depois, muito menos dar satisfações.
Quando entramos ainda faltavam uns 10min para começar a sessão, as luzes do cinema ainda estavam acesas e tocavam bem baixinho umas músicas.
— Vamos sentar no meio? Acho que a visão é melhor. – eu comentei.
— Não, vamos um pouco mais para cima, aquele grupo vai ficar conversando e fazendo barulho. – O Gabriel me mostrou um grupo de pessoas sentadas bem no meio que já estavam intertidas entre eles mesmos, conversando alto, rindo, jogando coisas uns nos outros. Então acabamos indo sentar um pouco mais para cima, mesmo assim, não chegava a ser a parte mais longe da tela.
O cinema estava relativamente lotado do meio para baixo. A parte onde ficamos tinha uns pingos de pessoas sentadas afastadas umas das outras, geralmente casais que queriam privacidade, acho até que eu e o Gabriel nos enquadrávamos nessa situação.
— Você está lindo. – ele me falou com um leve sorriso nos lábios, uma fala calma, gentil.
— É... valeu... você também tava bem atraente lá fora.
— É eu sei, algumas meninas vieram até perguntar se eu não queria assistir filme com elas. – ele falou se achando, fazendo um jeito de mauricinho metido.
— Como é que é? – reclamei com ele. Não gostei muito de saber disso.
— Calma, calma. Eu respondi que já estava esperando o guri mais lindo do meu colégio! – ele falou enquanto olhava nos fundos dos meus olhos, ou seja, mais uma de suas cantadas.
Eu confesso que mesmo ele mostrando que era uma brincadeira, eu ainda fiquei com pouco de ciúmes.
— Esse mesmo que está aqui de cara fechada, por sinal fica todo lindinho fazendo o style estressado.
O Gabriel já estava aprendendo a quebrar meu estresse, coisa que é constante, sou meio mal humorado às vezes. Não que eu fique irritado de verdade, só fico sem saber o que responder. Mas como eu tinha dito, ele estava aprendendo a quebrar isso, no lugar de eu ficar com raiva, ele me deixava com vergonha. Nessa fala dele mesmo, fiquei todo vermelho, e eu podia perceber seu olhar em minha direção quando eu ficava assim, sem graça.
— Tava brincando Daniel, é que você fica lindo estressado ou assim todo vermelho com vergonha.
Enchi a mão de pipoca e joguei naquele enjoado. Ele revidou com mais pipoca e durante uns dois minutos ficamos ali rindo, parecendo duas crianças de oito anos jogando pipoca uma na outra. A gente só parou quando as luzes apagaram e começaram os trailers.
Fiquei paralisado. O cinema estava escuro. Aquele primeiro encontro realmente estava acontecendo. Suponho que o Gabriel também ficou um pouco sem reação, pois durante todos os trailers o silêncio reinou entre a gente. A única coisa que fazíamos era comer pipoca e beber refrigerante, mas sempre com a cabeça imóvel na direção da tela.
Eu precisava quebrar aquele gelo. Era o primeiro encontro do Gabriel com outro cara, e mesmo ele usando suas piadinhas para quebrar a timidez, eu senti que ele também estava nervoso.
Decidi esperar o filme passar um pouco para nos acostumarmos mais, ou pelo menos a vergonha diminuir. O filme tinha um início bem interessante, mas meio assustador. Ficamos durante uns 20min parados, só assistindo.
— Essa loirinha vai morrer, sempre as líderes de torcida morrem. – ele comentou baixinho.
— É... pensei que esse filme era mais de suspense, não imaginei que tinha essas partes sobrenaturais. – eu comentei. Confesso que fiquei um pouco impressionado com algumas cenas.
— Se você quiser eu posso segurar a sua mão.
— Certo... – então ficamos de mãos dadas com nossos dedos entrelaçados repousando em cima de sua perna.
Algo tirou minha concentração do filme. Era o polegar do Gabriel, estava fazendo um carinho por cima dos meus dedos. Sei que parece uma coisa boba, mas não foi. Esse simples carinho era muito bom. Depois de um tempo ele soltou minha mão e começou a acariciá-la por completo, num movimento que ia da ponta dos meus dedos até o final do meu braço. Ele não me olhava enquanto fazia isso, nem eu o olhava, ele simplesmente fazia.
— Fica mais juntinho de mim Dani... – ele falou meio tímido.
Então tirei minha mão de sua perna e coloquei em volta de suas costas, abraçando-o. Ele em contrapartida deitou sua cabeça em meu ombro e começou a fazer leves carinhos em meu peitoral, passando sua mão suavemente.
— Eu realmente gosto de você Daniel. Estar aqui com você é uma sensação incrível! – ele falou bem perto do meu ouvido.
Ao ouvir isso, senti umas alfinetadas em meu coração, como se ele se contraísse, não sei explicar. Um ardor surgiu em meu rosto também.
Parecia que surgiu em mim, naquela sala de cinema, uma nova sensação desconhecida. Era diferente das outras que eram movidas por ansiedade, excitação; essa era calma, serena e forte. Antes meu coração acelerava, dessa vez ele não estava acelerado, mas estava apertado, era como se eu ouvisse cada batimento dele.
Chegou a hora! Esse sentimento só confirmava que tinha chegado a hora! Esse sentimento confirmava o carinho enorme que estava surgindo entre a gente.
— Gabriel... – o chamei e ele se ajeitou em sua cadeira para olhar em meu rosto.
Ficamos olhando fixamente um para o outro, acho que ele conseguia ler meu olhar. Ele colocou uma de suas mãos sobre minha bochecha e começou a se aproximar. Eu inclinei um pouco meu rosto e também fui me aproximando, bem devagar. Seu nariz estava tão perto que eu sentia sua respiração.
Seus lábios começaram a se encostar aos meus, estavam úmidos e quentes. No primeiro momento nossas bocas só se encostaram. Eu estava de olhos fechados, não tive coragem de olhar para ele. E isso foi ótimo porque todos meus sentidos se concentraram em sua boca. Sua mão saiu de minha bochecha e foi até meus cabelos, ele agora conseguia segurar minha cabeça, então seus lábios começaram a se movimentar, eu reagi e correspondi a ele.
Dei uma leve mordida em seus lábios.
Comecei a fazer um cafuné em seus cabelos, o jogo entre nossos lábios já estava ficando mais intenso e eu conseguia sentir nossas línguas se tocarem. O que começou calmo ficou mais intenso. A adrenalina entrou em meu sangue e meu corpo ficou quente.
Depois de alguns minutos naquele beijo, eu e o Gabriel já estávamos sem fôlego, começamos a parar o beijo, mesmo assim nossas testas ainda estavam juntas. Pude ver um sorriso enorme na boca dele, ao mesmo tempo em que escutava nossas respirações ofegantes.
— Ual! Acho que foi o melhor beijo da minha vida. – ele falou.
— O meu também.
— Eu acho que estou ficando apaixonado por você Daniel. – Dessa vez foi minha boca que sorriu. Foi involuntário. Meu coração pulsava a mil.
— Eu também Gabriel!
Ele me abraçou, e nessa posição mesmo nos ajeitamos para voltar a ver o filme. Ficamos ali abraçados, fazendo cafuné, mãos dadas, sentindo o cheiro um do outro, até o filme acabar.
Eu estava feliz, meus olhos estavam na tela do cinema, mas minha cabeça tinha voltado para o passado, para cada minuto do nosso beijo. Toda sensação boa daquele momento. Como se finalmente eu pude deixar minhas verdadeiras cores fluírem. Acho que eu tinha descoberto o que eu sempre quis: uma paixão de verdade!
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