Descobrindo o que é Amar

23 Medo e Estereótipos x O que Eu Sinto – Capítulo 23


Juro a vocês que parecia que ele ia me beijar, mas eu nunca saberei direito se era isso, porque meu celular começou a tocar. Quando eu ouvi a música, me afastei dele e sai da piscina. Fui até o celular, mas já tinha parado de tocar:

“1 Chamada não atendida” – era do Gabriel. Eu ia ligar de volta, mas uma sms chegou:

“Estou com saudades, passei o dia todo pensando em você, ansioso por amanhã! Abraço bem forte, Gabriel s2”

Poxa vida, me senti um pouco mal quando li essa mensagem.

O Gabriel tinha passado o dia todo pensando em mim, mas eu com tudo que aconteceu dos vizinhos novos, piscina, tinha me esquecido dele.

— É do seu “rolo”. – a voz do Nícolas surgiu pelas minhas costas.

— É... sim... – gaguejei para falar.

— Deve ser uma pessoa de sorte. – ele falou meio cabisbaixo e foi até nossos irmãos.

— Fiquei um pouco parado tentando digerir os acontecimentos!

Comecei a me questionar em pensamentos: então a irmã dele era lésbica, ou bi, sabe-se lá! Ele não parece ser gay, mas aquela aproximação na piscina foi muito estranha. E eu nisso tudo? Aff, que falta de respeito com o Gabriel! Quer dizer... , será que eu fiz algo para desrespeitar ele? Bom, eu não fiz nada! Mas mesmo assim fiquei o dia todo pensando nesse guri e nem pensei nele. Acho que estou muito confuso!

Acabei voltando para o grupinho, que estavam rindo muito com o Gustavo. Meu irmão realmente sabia ser comunicativo, desse tipo de guri popular que conversa com todo mundo. Acabei me esquecendo dos meus pensamentos e entrei na conversa. Ficamos um bom tempo ali rindo. Até que começou a escurecer e eu decidi ir embora. A Natália falou que gostou muito da gente que era para voltar mais vezes.

Apesar dos ocorridos estranhos, eu gostei muito deles também. Eram simpáticos e trataram tanto eu como meu irmão muito bem. Eu tinha poucos amigos homens e seria legal ter um vizinho parceiro.

Meu irmão acabou indo na frente e eu fiquei para ir ver o Snoop de novo.

— Você pode vim ver a gente quando quiser. – o Nícolas falou se referindo a ele e ao cachorro. Eu acho... , deve ser um modo de falar não é? Acho que ele quis falar só do cachorro.

— Ah, beleza. – eu respondi.

— Espero que sejamos amigos, vizinho. – ele estendeu sua mão para apertar a minha, junto com um grande sorriso no rosto.

— Claro que sim pow. Seremos. – eu apertei sua mão e retribui o sorriso.

— Espero não ter te assustado hoje, se eu fiz ou falei algo que você não gostou, me desculpa, sério mesmo. – quando ele falou isso, seu sorriso sumiu e ele demonstrou realmente ter ficado preocupado.

— Que isso cara, eu gostei de tudo! A tarde foi perfeita. – eu respondi rápido, por educação e porque ele parecia ter ficado preocupado. O problema é que só depois que falei que percebi as palavras: “eu gostei de tudo!”. O Nícolas até levantou o olhar e fez uma cara de feliz. Acho que eu me expressei mal e ele entendeu errado. Mesmo assim deixe isso pra lá e fui embora para casa.

Chegando em casa, decidi ir tomar um banho quente. Fechei meus olhos e tentei ouvir somente o som da água quente batendo em meus ombros. Ali parado eu entrei no “mundo do Daniel”, ou seja, nas minhas doidices de ficar conversando comigo mesmo. Recordei-me da frase do Nícolas e comecei a refletir sobre ela:

“– É que... como posso explicar a ti... é que a Natália prefere garotas, se é que você me entende.”

Bom, se ele contou isso para mim, uma pessoa que ele conheceu hoje, deve significar que ela é assumida. Eu acho pelo menos. Assumida... “ASSUMIR”! Esse verbo me parece um monstro. Um receio que me enche de medo. Quer dizer, a mim não, sei lá, eu nem entendo ainda o que esta acontecendo, só se assume quem é gay... e eu não sou... Eu sei que beijei o Gabriel e não vou mentir dentro de minha própria cabeça falando que não gostei... Mas eu não me vejo sendo gay! Eles são escandalosos, promíscuos, eu não sou nada disso! Não sou mesmo! Gay, que porra, falei essa palavra muitas vezes hoje, aff! – eu já estava gritando dentro de minha cabeça.

Falei tanto, mas nem parei para pensar sobre o que essa palavra significa! Então quando a falei, me lembrei de uma imagem que sempre escuto o pessoal falando, o famoso estereótipo: “viadinho”. Mas, pensando melhor gay é toda pessoa que se relaciona com o mesmo sexo, então... , aff, não acredito que vou falar isso... , mas minha relação com o Gabriel é gay? Ahhh, que droga, mas eu não sou um viadinho!

Enquanto eu estava pensando tudo isso e me complicando em meus próprios pensamentos, achei melhor parar um pouco. Em alguns minutos que minha mente ficou em silêncio acho que a ficha caiu. Desde a primeira vez que pensei no verbo assumir o medo começou a me controlar, e depois a palavra gay com certeza adicionou mais temor. Pensando de cabeça fria, eu vejo que esse medo cria estereótipos imaginários. Criou em mim e cria em muita gente. Muitas pessoas, criando seus muros de medo, utilizam as famosas frases: “Eu só penetro outros homens, por isso sou hétero!”; “Gay é quem eu como!”; “Gay é só aquele que é afeminado, eu não sou, sou macho!”. A imagem dessas palavras é tão deturpada que se tornaram xingamentos e ofensas, rsrs, que absurdo. Homossexual perdeu seu verdadeiro significado e foi associado pelas mentalidades como um insulto. Vamos então voltar para o seu significado real: cidadão que sente atração sexual por pessoas do mesmo sexo. Vou falar mais claramente: você teve contanto sexual ou afetivo (beijos ou sentimentos verdadeiros)? Sim? Você teve uma relação homoafetiva!

Você sentiu o que um hétero sente numa relação com sexo oposto. É o mesmo sentimento! Só que causado por situações diferentes. Se ele tem o direito de sentir, será que eu e você não temos também?!

Também tem outra coisa, ser mais afeminado ou mais masculino não é definição de caráter para ninguém. Nem sexualidade, nem comportamentos definem caráter. Quem faz seu caráter é você mesmo! Então não posso confundir promiscuidade ou falsidade com ser gay ou ser afeminado.

Fiquei meio triste por ter sido tão preconceituoso até comigo mesmo, mas essas palavras são novas para mim, e as barreiras de autojulgamento e receio não vão sumir do dia para a noite. Vou voltar para o pré-suposto que a minha relação com o Gabriel me despertou sentimentos que são bons, me fazem bem. Não vou me preocupar agora se essa relação é gay e se essa palavra me causa tanto pavor.

Eu o quero. Eu quero o Gabriel. Preciso abraçar ele, sentir seus lábios de novo...

Mergulhei tanto em minhas reflexões em baixo do chuveiro que me esqueci do que a iniciou: os meus novos vizinhos gêmeos. Em especial a Natália. Pelo visto ela lida com essa questão de saber do que gosta bem melhor que eu. Quem sabe se eu fizer mais amizade com o Nícolas, conversar mais com ele, talvez se ele me falar mais da Natália, eu consiga me entender.

Ou talvez eu nem devesse mais falar com eles, olha só a confusão que gerou em minha cabeça! Bom, amanhã eu vou me encontrar com o Gabriel, com ele minhas dúvidas desaparecem. Pronto, decidido! Amanhã nada de pensamentos ruins, só pensar nele!