Descobrindo o que é Amar

14 Aproximação – Capítulo 14


Eu sinto que dentro de nós temos vários muros. Eles são construídos ao longo da vida, a cada vez que quebramos a cara, nos decepcionamos e tentamos nos esconder. São barreiras de todos os tipos: medo, autoproteção, traumas, tristezas, autopunições etc. Esses obstáculos nos deixam superficiais, distantes das outras pessoas, pois onde moramos, onde nosso ser se encontra, é lá dentro rodeado por esses muros.

Depois que o Gabriel se abriu comigo, algo entre a gente mudou. Antes eu só estava nas emoções impactantes, naqueles momentos onde tudo é novo, rápido, estranho e ansioso. Parecia que agora nós demos um passo a mais na nossa amizade. São nesses momentos onde você se abre para outra pessoa que os relacionamentos melhoram. Eu acho que derrubamos alguns muros entre a gente, e agora estamos mais próximos.

Fiquei feliz de notar a confiança do Gabriel em mim. Não é para qualquer pessoa que nos abrimos, e realmente não devemos nos abrir para qualquer um. Nem todo mundo merece saber sobre nossa vida.

Hoje Gabriel decidiu que iríamos sentar no fundo, ele nem deu escolha, segurou minha mão e me puxou até o fundo. Ele sentou na última carteira da fila encostada na parede e disse para eu sentar na frente dele. Guardamos um lugar para Fernanda, mesmo sem saber se ela ia querer sentar ali atrás.

— Nossa ta muito cedo ainda não é? O pessoal vai demorar a chegar... Bem que você podia vim aqui pro meu lado Daniel.

— Eu já estou do seu lado vei. – falei fingindo não entender.

— Mas tem uma carteira de distancia entre nós, poxa. Coloca sua cadeira aqui vai, queria te abraçar mais um pouco. Por mim a gente ainda estaria ali em pé, abraçados. – Ele me olhava com aqueles olhos de gato carente. Ele nem esperou eu responder e complementou:

Ah sim, só pra constar, seu cheiro é muito bom! – Confesso a vocês que eu fiquei muito sem graça quando ele falou isso, meu rosto todo corou. Mesmo assim, me levantei e fui para o seu lado. Ele passou o braço pelas minhas costas e deixou sua mão em meus cabelos. Suavemente ele começou a massagear minha nuca, subindo com os dedos afastados até minha testa e bagunçando todo meu cabelo – demorei tanto tempo arrumando o cabelo no espelho –, mas estava tão bom, o toque dele era tão prazeroso que nem reclamei. Meus olhos começaram a pesar, eu tinha acordado 40min mais cedo naquele dia. Fechei meus olhos um pouco. Desligando minha visão parecia que minha audição se aguçava e comecei a ouvir a respiração do Gabriel. Estranhamente ela parecia estar ficando mais alta, como se ele estivesse se aproximando... Até que comecei a sentir sua respiração perto de minha bochecha. Eu abri meus olhos e me virei. Seu olhar estava penetrante em mim, seu nariz já se encostava ao meu. Sua boca foi chegando perto da minha, bem devagar, enquanto seus olhos estavam fixados nos meus. Eu não sabia se eu estava preparado para aquilo, eu tinha pedido para ele ir com calma. Então eu abaixei meu rosto e disse:

— Desculpa Gabriel, mas vamos com mais calma, eu não to preparado ainda. Também não consigo aqui, a qualquer hora alguém pode entrar. – Fiquei esperando alguma reação de tristeza, ou reprovação dele, entretanto, ele encostou a ponta de sua testa na minha, sorriu e me beijou na bochecha.

— Tudo bem lindo. A gente vai ao seu ritmo, não se preocupe.

Lindo? Ele me chamou de lindo?! Que estranhooo! Sei lá, meio gay. Gay?! Que palavrinha tensa, mas parece que é ela que se encaixa nisso que está acontecendo. Ahh! Não vou me preocupar com isso agora, eu só sei que o que estou sentindo no coração é muito bom. – Todos esses pensamentos borbulhavam em minha cabeça. Decidi parar de pensar e aproveitar cada segundo da massagem dele.

— Tá bom mesmo esse cafuné em senhor Daniel?! – O Gabriel me perguntou com aquele sorriso dele que beirava a tiração de onda.

— Como assim? Tá ué, por quê?

— To percebendo muito bem que tá! – E sua cabeça abaixou em minha direção, com seu olhar apontando justamente para minha calça. Putz, que vergonha subiu em mim! Eu tinha ficado excitado e minha calça jeans tinha o contorno certinho do Danielzinho. Dei um pulo da cadeira em que estava e fui até a minha, depois peguei minha mochila e coloquei em cima de minha calça, então deitei minha cabeça sobre minha mesa.

— kkkkkkkk Não Daniii, volta aqui, eu vou entender como um elogio para mim kkkkk! Volta bobo! – Ele mal conseguia terminar as frases de tanto rir e sorrir de alegria.

Parece que ele tinha ficado feliz com toda essa situação.

“Aff, todo metido esse guri mesmo viu, deve ta se achando só porque conseguiu me deixar assim” – eu pensei comigo mesmo.

Eu não voltei, mas ele fez questão de colocar uma cadeira do meu lado e começar um novo carinho em minhas costas. Deu um beijou no meu cabelo e me disse que estava muito feliz, para eu não ficar com vergonha.

— Posso segurar sua mão? – me disse o Gabriel.

Eu dei uma olhada para aquele rostinho de cachorro pidão e voltei a abaixar minha cabeça. Estiquei uma das minhas mãos e ele a segurou. A gente ficou assim por uns 20minutos. De repente suas mãos pararam de fazer carinho em mim, eu me levantei para olhar o que aconteceu. Nossos colegas tinham começado a chegar à sala. O Gabriel abriu aquele sorrisão para mim e começou a puxar assunto. Ficamos ali conversando até que a Fernanda chegou e sentou na minha frente; a Júlia e o Jorge vieram sentar perto também, e ficamos ali em nosso grupinho.

Se eu imaginava que as tentativas do Gabriel de “se aproximar de mim” tinham se encerrado com o início da aula, eu estava muito era enganado!