— Senhorita Granger, identificamos que a senhorita é, na verdade, uma puro-sangue, herdeira da família Selwyn.

E, depois disso, tudo mudou.

Ela agora era a última herdeira de uma das maiores famílias de sangue-puro da Grã-Bretanha.

Ela ainda tinha uma cicatriz no braço: “Sangue-ruim”.

Existe um contrato de casamento com a família Black ainda válido e que a senhora deverá cumprir.

A única Black solteira é Narcisa, recém-divorciada.

O contrato é magicamente vinculativo; a partir do momento do reconhecimento de linhagem, passa a ser válido.

Em alguns dias, Hermione só quer voltar a ser aquela criança filha de dois dentistas em um mundo totalmente normal. Sem ter que lidar com herança, chefia de uma casa sangue-puro, ser sangue-puro e precisar se casar com a mulher por quem tem uma paixão platônica desde que a viu pela primeira vez.

— Senhorita, devo chamá-la de Granger ou Selwyn?

— Selwyn.

A sua voz saiu estridente, mal conseguindo pronunciar seu novo nome.

— Claro, senhorita Selwyn. Sou a chefe da casa Black agora. Não consegui encontrar uma forma de anular o contrato e sinto a compulsão para me casar com a senhorita. Eu ainda não tinha me acostumado a viver sem a compulsão após o divórcio ser concluído, então consigo lidar com isso. Pode gerir esse assunto como preferir.

Compulsão? Seus olhos ficaram arregalados. Do que Narcisa estava falando?

— Eu não sei do que você está falando, senhorita Black.

Sua voz ainda estava estridente, mas continuava firme.

— A necessidade de ficar perto, de tocar, de abraçar, de beijar e de consumar o casamento. Além da necessidade emocional envolvida. Ainda estou surpresa de que a senhorita esteja conseguindo lidar tão bem com isso.

— Eu não sinto essa compulsão. Tem alguma coisa errada? Tem alguma forma de você parar de sentir? Há algo que eu possa fazer?

Ela tinha uma ideia do que Narcisa estava falando; lera sobre o assunto superficialmente.

— Srta. Black?

— Você não sente a compulsão?

— Não.

— Só não se sente a compulsão em dois casos, senhorita Selwyn.

— É mesmo?

— O primeiro é quando a pessoa não é o herdeiro legítimo, então é preciso descobrir quem realmente é para ajustar o contrato.

— Eu sou a última da minha família, não é essa opção. Tenho confirmação bruxa e com a magia dos duendes também.

Narcisa olhou para ela, pálida, e falou calmamente, mas, pela primeira vez em muito tempo, sua voz saiu estridente e tremida:

— A segunda é quando já existe sentimento genuíno, a ponto de não precisar da compulsão. Somente amor puro e sincero.

Hermione congelou; ela jamais esperaria isso. Ter seus sentimentos expostos totalmente, sentimentos que escondeu por anos.

— Há quanto tempo?

Ainda era uma grifinória, iria responder.

— O suficiente.

— O suficiente para quê?

— Para não quebrar.

Agora fora Narcisa a congelar. Ela sabia exatamente do que a mulher falava: daquele fatídico dia em que sua irmã, seu sangue, sua melhor amiga, torturara uma adolescente em sua casa; no dia em que ela só conseguira mandar uma mensagem mental antes, dizendo “não quebre” antes de começar; dia em que percebeu que havia perdido a última família que tinha; dia em que quase morreu para tentar salvar a garota e, depois, para esconder como havia ajudado na fuga.

— Eu sei o que você fez aquele dia. Obrigada.

— O que eu fiz?

— Me avisou com tempo suficiente para me preparar e, quando foi possível, me ajudou a fortalecer a mente e foi meu motivo. Além, é claro, de ter sido a pessoa a chamar o Dobby.

— Para o que mais?

— O quê?

— O suficiente para o que mais?

— Para saber quem calou Rita Skeeter no meu 4.º ano.

Narcisa se impressionou. Aquilo foi porque se irritou com a mulher fazendo da vida de adolescentes um circo; Harry Potter nem deveria ter competido, seus pais nem estavam lá para protegê-lo.

— Desde quando?

— Desde isso.

Hermione colocou um colar sobre a mesa. Narcisa perdeu o fôlego e empalideceu ainda mais. Ela sabia que dia fora aquele: foi quando Draco ofendeu uma garotinha publicamente, chamando-a de sangue-ruim. Ela mal lembrava da garotinha de 11 anos que seu filho havia ofendido. Ela havia presenteado a garota com um colar de proteção que ela mesma encantara e enviara junto com uma carta pedindo desculpas. Ela não imaginaria que era a mesma garota.

— Demorei para confiar e começar a usar, até que ele me salvou de um trasgo, mesmo sem estar em meu pescoço. Nunca mais o tirei. Me ajudou a salvar o Harry do Voldemort umas três vezes, e me salvou e me protegeu outras tantas.

Narcisa saiu do transe em que se encontrava. A garota disse que havia sido desde o dia que motivara o envio do colar; foi, com certeza, a primeira vez que se viram. Mesmo sem saber quem realmente era, o contrato se fez valer.

— Você sentiu a compulsão com 11 anos?

Sua voz estava assombrada.

— Nunca pensei muito nisso, mas, quando te vi pela primeira vez, senti vontade de me aproximar e falar com você. Mas, quando olhei em seus olhos, inexplicavelmente, tudo deixou de existir e só consegui sentir.

Narcisa Black suspirou. A garota tinha tido amor à primeira vista por ela. Era algo divino e lindo, raríssimo mesmo no mundo bruxo. Ela só poderia ser grata; a compulsão e a distância de Narcisa teriam enlouquecido a criança.

— Foi amor à primeira vista, não foi? Nunca parei para pensar nisso. Cresci sabendo que você era única para mim, não percebi nem quando estudamos sobre esse fenômeno.

Narcisa, pela primeira vez em décadas, olhou nos olhos de outra pessoa diretamente e sentiu: a compulsão que a torturava passou e um sentimento tomou-a por completo. Amou a mulher à sua frente instantaneamente.

— Almas gêmeas.

— O quê?

— Somos almas gêmeas, por isso você não entendeu.

— Como seria possível? Não é a primeira vez que nos vemos.

— É a primeira vez que olho nos olhos de alguém diretamente desde que me casei com Lucius.

— Merlin.

Hermione empalideceu novamente, mas permitiu-se pensar no assunto. Isso, na verdade, era uma notícia muito boa.

— Venha comigo.

— Onde…?

— Minha casa.

Hermione estendeu a mão e Narcisa aceitou. Desaparataram.

Hermione levou a mulher até a mansão Selwyn, conduziu-a até seus aposentos e abriu uma caixa.

— Aqui está tudo que eu quis te dar um dia. Por favor, aceite.

Narcisa se surpreendeu. Havia presentes, cartas, livros e muitos itens. A caixa tinha um feitiço indetectável de extensão, claramente.

— Aceitarei seu dote, todo ele, mas vou vê-lo calmamente.

Hermione acenou e ficou em sua frente. Mostrando a coragem grifinória, perguntou:

— Posso te beijar?

A resposta de Narcisa foi beijar a noiva. Ela amava e era amada, algo que nunca achou que teria, e aquele beijo a levou do céu ao inferno e de volta ao céu novamente.

— Vamos nos casar em breve, venha morar comigo. Não quero passar nem mais um dia longe de você. Eu te amo.

— Venho, meu amor. Eu jamais vou me afastar de você novamente.

Casamento... quem diria que ela se casaria novamente após acabar de se divorciar? Queria agradecer aos seus ancestrais por fazerem aquela cláusula que as obrigou a casar em seis meses. Sua noiva seria sua esposa e finalmente permitiria a si mesma fazer amor com ela, tirar a sua inocência e, por fim, viverem juntas para sempre.

Hermione estava nervosa, não via a hora de se entregar à esposa e de a ter entregue. Ela estava linda naquele vestido, mas ficaria ainda mais linda nua. Arrependia-se de ter dito à mulher que ainda era virgem; depois disso, ela se recusou a tocar Hermione, informando que queria fazer tudo certo com ela e que isso fortaleceria o vínculo entre elas.

— Vamos, meu amor. Temos uma chave de portal a pegar.

— Claro.

Ao aparecerem na França, surpreenderam-se com a beleza da noite. O ar estava calmo e quente, numa noite estrelada e com uma lua cheia imponente. Narcisa cruzou os dedos com sua agora esposa e a levou para dentro do chalé.

— Eu te amo.

— Eu também te amo, meu amor.

As roupas ficaram jogadas ao chão, o tempo foi esquecido e a noite foi iluminada pelo amor entre as duas. Compartilhavam algo mágico: amor puro, felicidade e magia puramente. Sem saber, estavam fortalecendo os núcleos mágicos uma da outra, estavam fortalecendo a própria magia, mas só o que conseguiam pensar era no que compartilhavam. Na união que o destino ajudou a se realizar.

Um Falcão Real mágico parou em frente a Hermione com uma carta. Ao abrir, surpreendeu-se ao ver uma carta de seus pais biológicos. Foi um rabisco rápido dizendo que a amavam, que estavam fugindo de Você-Sabe-Quem, que ela estaria protegida agora, que Narcisa estaria protegida até elas poderem ficar juntas e que o Falcão Real mágico estava ligado a ela e era o símbolo da sua família. A mensagem informava que, ao receber aquela carta, significava que ela estava casada com Narcisa e que eles estavam mortos, mas que ela jamais estaria sozinha novamente.

— Eles te amaram, meu amor. Seja lá o que aconteceu, fizeram questão de deixar uma carta para você com o seu guardião.

— Obrigada, meu amor. Venha, vamos voltar para a cama.

Dois anos foi o tempo que passou até decidirem que queriam filhos. Cada uma gerou uma criança: uma seria o herdeiro Selwyn e a outra, herdeiro Black. Mas os dois garotos seriam conhecidos como as crianças Black-Selwyn, catalisadores de uma série de problemas em Hogwarts por sua genialidade e capacidade de causar grandes problemas. Porém, isso ainda demoraria alguns anos para acontecer e, nesse momento, as mulheres ainda estavam planejando a gravidez em conjunto.

Vinte anos depois, os garotos assumiram a chefia das casas e dividiram as heranças com as irmãs mais novas de forma igualitária, tornando-se uma referência no mundo mágico e garantindo que as três irmãs nunca ficassem desamparadas.


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