O homem mais bonito de todos os espectros.

O ser mais fascinante que já conhecera na vida.

A criatura mais perigosa e cheia de subterfúgios e de armadilhas em que já pusera os olhos.

Para completar, era envolvente, tinha uma bela voz e o cheiro de sangue que o acompanhava era sedutor ao extremo.

Minos já não sabia como fazer para lidar com tantas sensações provocadas por aquele juiz de olhar penetrante e uma propensão a ser cínico na medida perfeita.

O controlador de marionetes de gênio perigoso, perito em matar os outros sem piedade quando tinha algo ou alguém a matar, estava com raiva.

Sentia raiva de si mesmo por ter deixado aquele ser melífluo e de maneiras educadas se aproximar de seu já enegrecido coração.

O que havia acontecido com todo seu ar orgulhoso e seguro? Por que não conseguia mais sentir-se bem na companhia de Aiacos de garuda?

Ou talvez o problema fosse o inverso. Por que já não conseguia se sentir bem em lugar algum sem a presença do juiz de garuda?

A vida de nenhum espectro que se encontrava ali não era um mar de rosas, muito pelo contrário, mas também não precisava ser uma sucessão psicótica de dias horríveis como o espectro vinha tendo desde que Aiacos o levara para uma passar alguns dias de ferias em Vancouver, no Canadá.

O ar gelado daquela cidade no inverno o fizera pensar em chocolate quente, em chá e em cama fofa e cobertores e...

Aiacos o salvara!

Aquele maldito espectro que cheirava a sangue fresco havia salvado a ele, Minos de griffon!

Suprema humilhação!

O pior?

Minos havia se distraído pela primeira vez em anos apenas por que...

Por que...

Flashback

- \"Cuidado, sabemos que nossos inimigos não são meros humanos, sabemos que essa missão deveria ter sido dada aos cavaleiros de atena, já que essa coisa que está matando tantas pessoas não tem nada de humana e sim de infernal, mas sabe como podem ser difíceis as coisas entre Hades e Atena, então ficamos nós com esse trabalhinho sujo. Não que você não goste, não é Minos-san?\"

- \"Aiacos, já lhe disse que faço o que for preciso e não estou nem aí se vamos enfrentar o monstro do Lago Ness ou o Incrível Hulk. Quero sair dessa porcaria de frio logo. Por que não trouxeram o radamanthys? Ele iria adorar essa temperatura horrorosa.\" Minos espreitava uma antiga fábrica de cimento em algum lugar perdido da imensidão do Canadá. Havia ossadas em vários locais ali perto, bem como o cheiro nada agradável de enxofre fazia seu nariz coçar.

- \"Ah, coitado de você, griffon, tem tanto cosmo e não consegue se aquecer? Esqueceu como é ser um juiz poderoso e cheio de talentos ocultos como eu?\" Aiacos fez um muxoxo com os lábios perfeitos e um brilho de puro sarcasmo no olhar muito roxo fez Minos xingar sem desviar o olhar da porta do galpão abandonado.

- \"Garuda, quando a gente voltar eu vou te mostrar o que são talentos ocultos.\"

- \"Isso parece uma daquelas propostas sexuais inusitadas.\" Foi a resposta calma e baixa do juiz.

Minos ficou calado pensando por momentos. Ele só podia estar brincando! – \"Está pensando que sou um dos seus joguetezinhos, Aiacos de garuda? Eu não curto esse seu charme barato e nem esses joguinhos de palavras.\"

- \"Eu gosto do seu jeito, todavia. Não me incomoda absolutamente que você tenha fama de ser uma desgraça na cama...\" Touché...

- \"COMO É QUE É?\" Minos de griffon se levantou de onde estava com os olhos fuzilando de raiva. – \"Quem foi a vagabunda que falou algo absurdo assim!\" O juiz bateu a mão na coxa coberta pelo metal escuro e o barulho se espalhou devido ao silêncio que lá havia.

- \"Essa é sua idéia de ser discreto?\" Aiacos se levantou também revirando os olhos de puro tédio. – \"Você é péssimo, se não sabe. Preferia alguém mais ajustado como, por exemplo,aquele que você foi atrás,er...como era o nome do cavaleiro mesmo? \" — falou colocando um dedo sobre a boca pensativo – há... Ikki...\"

- \"Porra! E o Ikki é ajustado? Aquele enfezado insuportável que não consegue trocar mais de uma palavra quando está zangado? Se bem que ele já é uma toupeira muda normalmente. Quem você pensa que é para me comparar a um babaca cavaleiro de atena?\"

- \"Céus, como você é sensível! Foi algo que eu disse?\" Aiacos estava positivamente se divertindo loucamente com a situação e se levantou também, observando ao redor. – \"Creio que não estamos sozinhos.\" Sua pose de ataque era bonita e perigosa.

Minos não tinha dúvida de que a aparência belíssima e o jeito de andar elegante e calmo escondiam a alma sanguinária, sádica e pérfida do espectro: Aiacos de garuda. O pensamento o fez arrepiar-se, era como estar ao lado do espectro do apocalipse que representava a morte e achá-lo lindo com uma foice e a face de uma caveira...

- \"Não notei nada demais e sou bem mais experiente em tocaias que você.\"

Foi quando um golpe, ou melhor dizendo, uma rajada feita de ectoplasma reluzente, alcançou o juiz, grudando na armadura escura, cobrindo-o de luz e fazendo o homem que se gabava de cortar cabeças como quem cortava grama gemer de dor quando aquela massa apertou-se contra seu corpo, querendo esmagá-lo.

- \"Ora, vejam só, um ataque sobrenatural! Isso é positivamente interessante.\" Aiacos nem se abalou, deu apenas um golpe que atingiram a cobertura escura, desfazendo-a. Então se virou com um sorriso simplesmente deslumbrante nos lábios rosados perfeitos.

- \"Ora, o que temos aqui. Ousa desafiar um juiz do inferno?\"

Era uma mancha escura borrada e fétida que pairava sobre a neve sem tocá-la. Não tinha forma de qualquer coisa sobrenatural, mas parecia antes um conjunto de bolhas e líquido fervente numa manifestação de refugo de almas digna de filme de horror. Os sons das bolhas estourando era horripilante, bem como o cheiro nauseabundo de carniça e a sensação de horror que a alma de qualquer ser vivo experimentava perto daquilo.

Mal puro.

- \"Aiacos, cuidado.\" Minos ainda se levantava quando uma rajada violenta novamente veio em sua direção e nunca chegou, parada por Aiacos.

- \"Ora, vamos, não me subestimem. Não sou uma coisinha fofa e indefesa. Muito pelo contrário. Pode me dizer, cara criatura, de onde veio e o por quê de atacar humanos indefesos?\"

Minos ficou impressionado com a desfaçatez do juiz. Ele nem parecia estar no meio de um ataque. Mantinha-se controlado e dono da situação. Sentiu-se envergonhado por parecer ele o frágil... Sua masculinidade estava sendo arrasada por um juiz de finos traços?

- \"Humanos não são seres valiosos.\" Foi a resposta daquela coisa que parecia não ter boca, mas falava mesmo assim.

- \"Não? Que interessante! Eu poderia partilhar dessa sua convicção, mas veja você, eu sou humano!\" Aiacos deixou um sorriso malicioso e malvado delinear-se nos lábios que se curvaram de maneira quase inocente.

- \"Então vai ser minha próxima vítima!\" A criatura bem que tentou... Atirou-se em direção a Aiacos que apenas riu e desviou-se em velocidade absurda.

- \"Ah, vamos, seja mais interessante. Eu poderia ter vindo sozinho sem ter que bancar a babá de outro espectro.\"

Aquelas palavras fizeram o sangue de Minos quase entrar em ebulição. Babá? Ora mas quanta petulância! – \"Cale a boca, garuda! Não quero saber o que pensa a meu respeito e, se não for terminar logo com isso pelo menos saia da minha frente para eu fazer o trabalho de homem aqui!\"

- \"Trabalho de homem! Nossa, quanto chauvinismo. Precisa entrar em contato com seu eu feminino...\" Aiacos positivamente adorava avacalhar com o outro.

- \"Vai lutar ou bancar a última flor da terra?\" Minos já estava ficando de saco cheio. Ou melhor, já estava de saco cheio! – \"Eu vou picotar essa bosta aí!\" Avançou na direção da mancha reluzente. Havia sido previdente e estudara a provável natureza do inimigo. Não era juiz do submundo por acaso.

- \"Eu te dou cobertura, então. Já fiz muito mesmo.\" Aiacos nem se deu ao trabalho de esperar e encostou-se numa parede qualquer com ar de enfado. – \"Não faça muita sujeira que não vou fazer faxina de jeito nenhum.\" Riu baixo.

- \"Pelo que me tomam? Idiotas!\" O ser estranho bem que tentou fugir. Só que enfrentar o juiz não era ver-se frente a frente com um ser humano vulnerável. Escapou do primeiro e do segundo golpe, viu o homem forte e de olhos brancos desviar de ataques diversificados e finalmente...

- \"Volta pro poço fedido de onde não devia ter saído!\" Minos atingiu o ser com violência. Sentiu uma força puxando-o para dentro daquela gosma e agitou-se, tentando resistir. Iria ser tragado por algum buraco negro?

- \"Tsc, tsc... Ah, mas claro que EU preciso salvar o dia.\" Aiacos não titubeou. 4 ataques foram o suficiente.

- \"Puta que pariu, Aiacos!\" Minos viu-se quase sem armadura, pois os ateque feriram ele e o inimigo os golpes não eram de deixar nada inteiro. – \"Hades-sama vai ter trabalho. Agora onde vou arrumar sangue para essa armadura?\" Estava cortado, sangrando, cansado. Era humano, apesar do cosmo.

- \"Vamos embora. Problema resolvido. Consegue ir sozinho?\" O olhar um pouco escuro era preocupado. Não quisera atingir o juiz, mas não tinha jeito.

- \"Sim, pode deixar. Não preciso de ninguém me vendo chegar amparado por você.\" Olhou diretamente para os olhos belíssimos e sentiu... Uma fisgada dentro da alma já dura de não sentir nada. Então, como sentira...

Admiração.

Respeito.

Carinho?

Ok, agora estava delirando e precisando de uma boa dose de vinho. Talvez um litro e meio de vinho frances especial, uma boa massa.

- \"Minos? Vem ou fica?\" Aiacos estava parado bem em frente ao juiz, a capa negra imaculada, armadura negra reluzindo. Nem parecia que havia travado uma batalha, ao contrário de Minos que estava positivamente arrasado.

- \"Vamos embora.\"

Fim do FlashBack.

Hades fizera um excelente trabalho. A armadura de griffon estava novamente inteira e reparada.

Só que aquilo tivera um preço. E agora Minos estava indócil em ter que aceitar que estava em débito com o juiz. Fora Aiacos quem cortara a pele alva e perfeita para deixar um tanto de seu sangue fluir para restaurar a armadura. Fora Aiacos quem desmaiara nos braços de Minos que se surpreendera ao notar que ele não era assim tão delicado.

O juiz fora carregado para seu castelo por um aturdido Minos. A roupa que o juiz de garuda usava era normal, nada demais. Uma calça de moletom e uma camiseta regata. Minos não tinha reparado antes nos braços esguios e com músculos bem feitos, nem havia sentido antes o peso daquele homem.

Decididamente a aparência perfeita de Aiacos enganava bastante. Ele era um homem de traços finos, mas um homem, sem dúvida.

Minos o deixara em seu castelo, sob cuidado de seus criados e fora para sua casa. Preocupava-se com Aiacos.

Nem queria pensar que estava além de admirado com aquele juiz. Ele realmente era perigoso, mortal e, deu-se conta, alguém que lhe despertava alguma coisa que não conseguia entender. Ou não queria.

Dois dias se passaram até que Aiacos estivesse bem o bastante para ir treinar. E, quando o fez, deixou mostras de que não estava nem um pouco abatido, não mais. Enfrentou justamente Minos em algumas lutas.

Novamente Minos ficou estarrecido. O corpo flexível e ágil de Aiacos era uma arma, também. O olhar lânguido escondia uma mente fervilhante de estratégia e determinação. Como não reparara no juiz antes? Como?

Talvez por que sempre se achara o senhor heterossexual?

Na verdade, sobrava tão pouco tempo para pensar em namoros que vez por outra saía para o prostíbulo de Atenas como uma pessoa normal não queria todos os cavaleiros contra si. Ou ficava com uma ou outra serva. Ou ia a alguma boate e tinha transas de uma noite. Talvez duas se estivesse disposto.

Não tivera um único relacionamento estável em toda sua vida. Não que não quisesse, nem que se desesperasse com isso.

Só que começou a ver...

Coisas...

Justamente em Aiacos.

E agora haviam se passado quase três semanas da missão. E a cada dia ficava mais perplexo com o tanto que havia sobre Aiacos e que não sabia.

Descobriu-se prestando atenção nos hábitos dele e ficando curioso quando o juiz parecia olhá-lo de longe. Estava ficando um pouco curioso demais sobre o que havia em Aiacos para ser descoberto.

E então naquela tarde, aquele convite.

Uma letra elegante, um papel de papiro antigo. Um perfume que já sabia ser dele. Havia até um selo de cera na bendita carta!

Classe e elegância? Nunca imaginara aquele serzinho sádico sendo gentil. Oh, sabia sobre as maldades de que era capaz . Lembrava-se da Ilha da rainha da morte e de como Aiacos praticamente reduzira tudo a um nada.

Pensar que Radamanthys estivera naquela missão trouxe a Minos um desconfortável sentimento de...

- \"Eu não tive esse pensamento.\" Disse a si mesmo enquanto lia novamente o pequeno convite.

Não podia estar com ciúme. Aiacos era um homem, só para começar... Se bem que, embaixo de seu \"couro\" duro, Minos tinha lá alguma doçura escondida. Nem que fosse só um pouco. Culpa do filho da mãe de seu signo! Odiava ter um centro tão macio quanto o de uma alcachofra! Escondia-se sob uma carapaça tal qual o griffon que simbolizava seu signo.

Escondia sua dor solitária sendo agressivo, profundamente cínico e frio. Matara há muito tempo qualquer idéia sobre romance e amor. Nunca soubera quem eram seus pais, como quase todos ali. Simplesmente um órfão qualquer que virara juiz. Só isso.

Então por que diabos aquele desgraçado convite o estava deixando numa agonia sem par?

Por que?

Não podia estar gostando de Aiacos.

Só que estava. Não era paixonite, não era esse tipo de merda de romance de banca de jornal.

Era simplesmente como se tivesse descoberto alguém que o entenderia e compreenderia seu trabalho, sua vida e talvez sua insegurança que jurara nunca demonstrar.

O que havia visto nos olhos roxos naquela missão, uma preocupação sincera, não podia ter sido fingida. Não podia acreditar, mas...

- \"Eu preciso falar com você.\" Disse olhando o convite e mordendo os lábios. Havia algo ali, naquele homem melífluo, naquele olhar roxo, naquele corpo que, se pensasse bem, não o desgostava nem um pouco.

Parou encostado numa parede de seu castelo.

Longas pernas rijas de um lutador, todos eles eram lutadores afinal. Sim, Aiacos tinha longas pernas. Braços fortes, não exageradamente.

Então, quando pensou nos olhos, na boca guarnecida pela pessoa perfeita e, principalmente, no olhar malicioso e no jeito amoral, teve finalmente certeza.

Estava fascinado por Aiacos.

Riu de um jeito quase infantil, não ia contestar mais o amor de hades e kagaho, não ia mais discutir se radamanthys e pandora deviam ou não ficar se pegando no submundo...

Parecia que sua propalada heterossexualidade se curvara de uma vez por todas. Não pelos atributos físicos de Aiacos. Não era apenas isso.

Era admiração. Vontade de conhecer mais alguém que não tivera o menor pudor em tirar sarro dele, Minos.

Respeitava Aiacos por ele ser do jeito cínico que era, por ser malicioso e adorar intrigas. Era um espectro perigoso. Iria naquele jantar, não tinha dúvidas disso.

Se tudo aquilo iria evoluir para um relacionamento? Somente o tempo diria.

Notas finais
gostaram ?_?
Você chegou ao fim do livro. Parabéns!