Descoberta !

1 Capítulo Único


Vidas separadas.

A cama tomada por completo pelo homem grande, esparramado sobre ela, de bruços.

O turno havia sido bastante desgastante e cansativo. Ele mal teve tempo de arrancar sua camisa, abrir o botão de sua calça escura e se jogar heroicamente nela.

As costas largas, doloridas, precisavam de uma boa massagem, mas por hora, só o que tinha era a maciez de seu colchão recém-adquirido.

Grissom gostava do conforto de sua casa, projetada especialmente para que pudesse ser seu refúgio.

Seus livros, sua sala enorme, a suíte bem arranjada.

Mas no momento ele só precisava descansar e nada mais !

Os olhos fechados e um som distante, aos poucos ele adormeceu e segundos depois, os sonhos vieram.

Uma frenética sequência de flashes dela !

Agachada fotografando, em pé, analisando inteligentemente uma cena, imaginando o melhor encaixe para uma possível descoberta, que os levaria ao desfecho final.

Ela tinha uma mania de esticar a boca em um doce biquinho que o deixava sem palavras … um pouco mais !

De repente aquele lugar, dezenas de vezes repetidas. Uma praia deserta e ela olhava para o por do sol, os contornos de seu corpo esguio, o vento em seus cabelos e ele sempre a chamava, mas ela nunca parecia ouvir, apenas se abraçava e se deixava abandonar pelo barulho das ondas batendo em seus pés descalços.

….......

Sara entrou em seu apartamento um pouco entediada, fazia calor e ela precisava de um banho relaxante e fresco !

Ela abriu as janelas, olhou o movimento da rua, um vai e vem frenético pelo horário e sorriu !

Gostava de imaginar o que as pessoas estavam pensando.

Uma senhora de mãos dadas com um garoto falante e sorridente. Talvez uma avó protetora, com seu neto incrivelmente bonito. Ela sorria para o garoto docemente, com certeza ele era a razão de sua vida !

Uma garota apressada, com uma enorme mochila nas costas, muito magra de cabelos escorridos e fones de ouvido. Ela viu a si mesma há alguns atrás e arqueou uma de sua sobrancelhas.

Um casal de mãos dadas, enquanto ele olhava com encanto para a mulher, não muito bonita, ela parecia absorta em seu mundo, compenetrada em alguma coisa que talvez a incomodasse. Quem sabe um segredo, ou uma notícia que ensaiasse contar a ele.

Ela abriu bem as cortinas e deixou que o ar entrasse em seu apartamento e se espalhasse pelos cômodos.

Minutos depois, relaxava de verdade na banheira, ainda pensando naquelas pessoas, depois fechou os olhos e repassou seu turno. Relembrou seu dia agitado e inevitavelmente pensou em seu supervisor !

O relaxamento total e ela já podia sentir seu estado de sonolência.

Sonhos ?

Todos para ele !

Uma mão em seus cabelos que pareciam grossos, mas sedosos. Ela sentia a textura diferente na ponta de seus dedos.

Sua mão suave passeava pelo seu rosto e desenhava o contorno de seu nariz pequeno, a boca extremamente tentadora.

Invariavelmente, ela mantinha a boca encostada em seu pescoço forte, depois seguia por toda sua barba, quase áspera e terminava em seus lábios.

Eles tinham um gosto diferente de tudo o que poderia imaginar.

O hálito dele era delicioso, e ela se pegava falando bem de perto apenas para senti – lo, tanto em seus sonhos quanto na realidade.

Esse era seu segredo, e ele sempre parecia nervoso e inquieto.

____________

Destino

De alguma maneira, ele manipulava os pares nos casos, para que não passasse mais de uma semana sem que pudesse estar perto dela, o suficiente para sentir o perfume de seus cabelos.

E ela tinha uma “mania” maravilhosa de falar bem de perto, como se não pudesse ouvi – lo, há mais de um palmo de distância.

Isso o arrebatava, mas também o assustava.

Seus sentimentos eram uma incógnita. Vontades controladas pelo excesso de responsabilidade, misturadas ao prazer quase mórbido do amor platônico. Um dia ele teria coragem … um dia !

..........

Naquele caso, ela parecia absorta em seus pensamentos, e ele sabia que estava maquinando ideias que pudessem desenrolar o emaranhado de questões.

_Sara ?

Ela não respondeu.

Depois de alguns segundos ela bateu uma mão contra a outra e sorriu.

_Bingo ! Acho que sei o que aconteceu !

Incrível sua capacidade de gerar saídas, sua inteligência o fascinada, sua veia investigativa era perfeita.

Toda ela era perfeita !

As mãos gesticulavam e ele acompanhava sua linha de raciocínio embevecido.

Na maioria das vezes, ela tinha sempre uma opinião que pesava sobre os demais. E quase sempre, tinha razão. Ela havia nascido para aquilo !

….......

Ás vezes, ela mesmo se surpreendia com a rapidez de seus pensamentos, as respostas pareciam pipocar em sua mente inquieta, porém ordenada e linear.

Ela estivera o olhando furtivamente, e percebeu que ele fazia o mesmo.

Tentando se concentrar, ela acabou enxergando além e quem sabe, com um pouco de sorte, ela conseguia o surpreender com sua astucia. Adorava quando ele arqueava suas sobrancelhas e ficava sem resposta, numa concordância muda.

Na verdade, ela vivia para impressioná — lo.

Há muitos naos, quando ainda estudante, ele havia dito que ela tinha uma mente brilhante !

Motivada em agradá – lo, ela mantinha o exercício constante de pesar as infinitas possibilidades que sempre iluminavam sua cabeça pensante.

….......

Eles estavam sentados, ouvindo com atenção, uma velha senhora bastante sábia, descrever o relacionamento de sua filha com o monstro com que havia se casado.

Não havia lágrimas em seus olhos, apenas uma tristeza misturada com um certo alívio.

_Eu o fiz, querida ! Acabei com a tortura de viver temendo um simples telefonema. Sabia que um dia ele a mataria, então apenas fiz a minha parte. Se você não é mãe jamais vai saber a ligação! Ver os primeiros passos, a roupa nova cheirando a goma, e ela correndo pela casa para mostrar o quanto estava linda, enchendo nossos ouvidos de alegria com seus gritinhos histéricos. Minha menininha cresceu e encontrou aquele ... covarde inútil !

_Senhora … vai ser acusada e condenada !

_Pouco me importa ! Ela está livre agora, para viver sua vida, talvez encontrar um bom homem que a ajude a criar meu neto. Ele quer ser cientista ! Imagine você, Robert era tão ignorante que mal sabia escrever o nome do próprio filho sem que se atrapalhasse.

Ela olhou para a sala como se procurasse algo.

_Está vendo ? Me aponte uma só foto em que ele aparece segurando seu filho nos braços ! Procure à vontade.

Eles olharam na direção apontada pelos seus olhos e souberam imediatamente o que ela queria dizer.

Os policiais a algemaram e eles se renderam aos seus próprios pensamentos.

Ela havia tirado do caminho a pedra que estava impedindo a felicidade de seu bem mais precioso, sua filha ! Quem poderia julgá – la ?

Sara pensou em sua própria mãe … ela fez o mesmo quando tirou da vida delas, aquele ser que um dia havia chamado de pai, ele havia se transformado em um homem estranho, agressivo, infiel e vil !

Uma pequena lágrima escorreu de seus olhos castanhos.

…......

_Sara ?

Em segundos ele se sentou ao lado dela e tocou seu braço, bastante apreensivo.

Os olhos dela pareciam tão distantes quanto os da velha senhora.

_Sabe quando você olha para sua própria vida e acha que tudo o que faz, nunca, jamais, será o suficiente ? Nunca será bom o bastante ? Sempre haverá uma nuvem negra encobrindo seus esforços em agradar ?

_Você está bem ?

Ela se virou para ele e olhou para sua mão ainda tocando seu braço.

_Como era sua família , Grissom ?

Ele não chegou a responder.

_Sente falta deles ?

_Sara ? Vamos sair daqui … esse ambiente …

_Não ! Espere ! Não precisa responder. Vai me dizer que não podemos nos envolver emocionalmente com os casos !

Ele não ia dizer nada, apenas tirá – la dali, ela estava o assustando e aquele olhar desconhecido parecia não partir da mulher que ele tanto admirava, estavam frios e opacos.

_E se sua mãe tivesse matado seu pai ? E você fosse apenas um garoto que mal sabia da vida, a não ser pelos livros escondidos que costumava ler, com o quarto iluminado apenas por uma vela, para que ele não viesse e o surrasse pelo simples fato de ainda estar acordado ?

“Meu Deus !” — Foi o que ele coseguiu pensar.

_Não sabe me dizer não é ? Pois eu sei ! Nunca precisei de motivos para levar uma surra, sempre que sentia aquele cheiro horrível de bebida, muitas vezes, tantas que perdi a conta! Por um tempo achei que minha mãe nunca quisesse fazer nada, nunca quisesse reagir, só não percebia que antes dele me bater já havia deixado minha mãe sem sentidos, inerte.

Ela escondeu o rosto entre as mãos e chorou. Ele a embalou em seus braços, com aquele sentimento de revolta que vez ou outra o atacava.

_Ela fez isso … por mim, Grissom !

Ele sentiu seu corpo estremecer e a apertou ainda mais, como se aquele gesto fosse protegê – la do passado. Ele estava sendo cúmplice de seu sofrimento, e ficou ainda mais encantado com o que ela havia se tornado, mesmo passando por tudo aquilo.

Os soluços vieram discretamente, depois eles se tornaram intensos, o fazendo quase chorar junto com ela.

Deus, ele a amava, queria apagar seu passado, destruir as marcas que aquele crápula havia deixado nela.

Depois de um pequeno tempo, ele se levantou e segurou firmemente sua mão gelada.

_Venha … vou leva – la para casa !

_Nosso turno ainda não acabou. — Ela respondeu chorosa.

_Sou eu quem decido ! Você vai para casa !

Ela se limitou a acompanhá – lo em silêncio.

__________

Cuidados

A todo momento ele a olhava com compaixão, os olhos fechados e por vezes apertados.

_Está se sentindo bem ?

_Estou com dor de cabeça !

Ele decidiu segurar sua mão cada vez que o trânsito lhe permitia essa liberdade.

Assim que chegaram, ele tomou as chaves de sua mão e abriu a porta para ela.

_Onde é seu quarto ?

Ela apontou para o corredor e ele a guiou com uma mão em suas costas. Tirou sua jaqueta, ajeitou seus travesseiros e a deitou na cama. Tirou seus sapatos e tocou seus cabelos.

O que ele está fazendo ?”

_Grissom ,por favor, não quero incomo ….

_Shiiii … — ele a calou com o indicador e sorriu. _Onde guarda suas aspirinas ?

_No armário do banheiro !

Na cozinha, ele encheu um copo de água, voltou para o quarto e lhe serviu dois comprimidos.

_Grissom …

_Não diga nada, querida, apenas me deixe fazer o necessário.

_Mas não é justo, estou bem … acredite !

_Não acredito … vou ficar até que se sinta melhor … e não discuta comigo. — Ele pensou um pouco e argumentou. _Sou seu chefe !

Ela quis sorrir, mas a dor em sua cabeça estava cada vez pior.

…......

Ela abriu os olhos e parecia ter dormido uma eternidade, olhou ao redor e se levantou.

O apartamento estava vazio, ele havia ido embora. As chaves estavam no chão, o que a fez pensar que ele as jogara por debaixo da porta.

O que havia acontecido com ela ? Que fraqueza era quela, justamente na frente dele ?

Ela pensou, depois balançou a cabeça. Tinha se sentido tão protegida, tão cuidada, nos braços dele.

Sara viu a mesa arrumada e a cafeteira ligada, ainda aquecendo o café. O cheiro estava bom.

Havia um pequeno bilhete e ela o pegou com cuidado.

Assim que acordar, por favor me ligue, estarei esperando. Grissom”

Ligar ou não ligar ?

Ligar !

_Sara ?

_Oi ! Você …. me pediu para …

_E você ligou ! — Neste momento ele sorriu. _E então, como está se sentindo ?

_Na verdade … chateada !

_Por que ?

_De te fazer de babá.

Ele riu discretamente.

_Eu gostei. Como está sua cabeça ?

_Bem … a dor passou. Onde está ? No laboratório ?

_Não … estou por perto !

Ela não entendeu muito bem, mas resolveu não perguntar mais. Estava sem graça e muito sem jeito.

_Grissom … me desculpe … eu não sei o que dizer !

Ela não sabia, mas ele esteve o tempo todo vigiando seu sono, ele havia se deitado cuidadosamente ao lado dela, depois de preparar o café, apenas para vê – la adormecida.

Ela era linda e ele teve vontade de tê – la em seus braços, fazer voltar o tempo e dar uma chance aos dois. Esquecer das incertezas e medos e apenas viver aquele turbilhão de emoções que se descobriu ao cuidar dela. Os sentimentos sempre estiveram ali, mas a intensidade havia lhe pregado uma peça.

Frágil, ele teve ímpetos de carregá – la nos braços e sussurrar bem baixinho que ele a protegeria por uma vida inteira.

_Grissom ? Ainda esta aí ?

_Sim !

Ele queria estar do lado dela, mas como dizer ?

_Hum … obrigada … de verdade ! E por favor, me desculpe, sinceramente. Você foi … maravilhoso.

Ele estufou o peito orgulhoso e sorriu mais uma vez.

Coragem ! Você consegue !”

_Eu … fico feliz … em ajudar …

_Pode acreditar que não haverá uma próxima vez, eu … apenas me deixei levar … e você … foi obrigado a … perder seu tempo comigo.

Essa foi a deixa.

_Sara ? Eu … gostaria de “perder” mais tempo com você.

_É … eu sei mas precisa desligar, não é ? Tudo bem ...

Ela entendera tudo errado.

_Não ! Eu … realmente quero perder mais tempo com você !

_Co … como ? Não entendi.

_Se abrir a porta, posso explicar melhor !

Ele apenas disse, no mesmo instante em que tentava desamassar suas roupas que até há alguns minutos atrás, estavam sentindo o calor do corpo dela.

FIM

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