Descensus Averno facilis est.

Cap. único

ParteI

ANNABETH

Nove Dias.

Annabeth estipulara o tempo em que o poeta grego Hesíodo havia descrito como o tempo da queda para o Tártaro.

Esperava que Hesíodo estivesse errado. Não sabia ao certo se demorara nove dias, ou horas ou talvez um dia? Parecia uma eternidade. Eles caíram de mãos dadas desde que foram lançados no abismo. Depois Percy a havia puxado para mais perto, abraçando-a com força enquanto despencavam pela escuridão absoluta.

De uma coisa Annabeth estava certa. Se cair do subsolo de Roma até o Tártaro, fora ruim. Se mergulhar com certa violência para dentro do Rio das lamentações, o Cócito fora frio e doloroso, ferir suas mãos em cacos de vidros nas margens, quase ser intoxicada pelo ar venenoso, ter o tornozelo inchado pela fratura desde a “batalha” contra Aracne, beber do Flegetonte que era basicamente o néctar e a ambrosia do Tártaro que apenas te mantinha vivo, que mais parecia uma poção concentrada da pimenta mais ardida do mundo na qual provara uma vez por acidente em São Francisco, fora insuportável tudo isso... Bom, parece que as Parcas ainda lhe guardavam algumas surpresas. Tais como umas duas dezenas de Mantícores raivosos. Que maravilha não é mesmo? Que maravilha era o tempo em que estava passando com o Namorado.

Percy desferia golpes violentos contra os mantícores, mas os mesmos voltavam a se amontoar e cercar os semideuses.

Sua mente tentava pensar em um plano. Mas era meio complicado quando o ar a sua volta parecia inflamável e hordas de monstros mantícores com espinhos venenosos se lançavam contra ela e o namorado fazendo-os matar alguns e desviar-se de outros. O gosto apimentado e nojento do Rio Flegetonte no canto da boca da garota parecia que iria fazê-la vomitar a qualquer momento. Vomitar o nada, só podia ser. Pois estava faminta.

Percy não parecia muito melhor, estava coberto de sangue com a camiseta meio rasgada, havia olheiras tão fundas em seus olhos que parecia que o namorado tinha virado um híbrido de deus olimpiano, humano e guaxinim.

Annabeth forçava sua mente a pensar. O único modo seria tentar conversar com os monstros e pelo menos atrasa-los. Se iria morrer, pelo menos que morreria tentando vencer, como uma semideusa.

– Hey, cabeça de espinho! – Annabeth gritara para o monstro maior que parecia “coordenar” o ataque. – Parece que você é o líder desses outros mantícores não é mesmo?

O monstro que antes esboçava um sorriso maligno ao tentar assassinar os semideuses, agora parecia que estava com cara de bobo.

– Sim, sou eu que estou no comando. O mais forte. Mais brilhante. Meu nome é Epilínaco, o mais forte dos mantícores. Escolhido a dedo pela Mãe Terra. Sou o melhor!

Annabeth interrompeu o que o tal Epilínaco estava dizendo, no qual um tedioso e exagerado discurso parecia estar sendo formado. – Se você é tão poderoso assim, não acha que esses seus subordinados tenham inveja de você? Já que é tão poderoso assim como diz, seria natural.

O monstro Epilínaco parecia ponderar sobre a ideia. Enquanto Annabeth se voltava para os outros mantícores. – Vocês por acaso são obrigadosa seguir as ordens desse grandalhão aí? Se vocês se unissem e o derrotassem seria muitomelhor para vocês! – Annabeth disse para os monstros enquanto Epilínaco olhava com cara de bobo para o nada fazendo a conta nos dedos e murmurando baixinho.

Os mantícores pareciam resmungar coisas como: “Por que somos coordenados pelo bobalhão do Epilínaco?” ou “não acho que ele seja o mais forte”, até mesmo coisas como “não vou obedecer a ele. A glória da mãe terra será minha”.

Annabeth sabia que seu plano estava funcionando. Estava ciente que não tinha o charme de Piper, nem o poder de controlar os ventos como Jason, ou a habilidade de Leo como construir engenhocas que os tirava das piores enrascadas, ou até mesmo o poder de Percy, seu namorado, em inundar as coisas quando estava apavorado.

Seu poder partia de Atena! A Deusa da Sabedoria, da estratégia em combate. E nesse momento a menina se viu agradecida por ser uma coruja do chalé 6 e prometeu a si mesma que sacrificaria uma parte maior de sua comida na fogueira do pavilhão de refeitório no acampamento.

O acampamento... Annabeth não pensara muito no Acampamento desde que partira para as terras antigas, sentia tristeza ao pensar que se ela e os outros do Argo II falhassem, não haveria mais acampamento, não haveria para onde retornar, o único lugar onde já chamara de “lar”, nada seria poupado se Gaia despertasse.

No mesmo instante Percy dava uma pirueta e acertava mais dois monstros que o estavam cercando.

Annabeth continuava a provocar intriga entre os monstros para deixa-los distraídos e o namorado pulverizar um por um com sua Contracorrente. Pouco a pouco os monstros foram sendo massacrados sem nem saber por qual lado o golpe veio. Sobrara apenas Epilínaco.

— Vocês me enganaram! Aaargh! Vão pagar semideuses nojentos! – e partiu para o ataque.

Percy pulou por cima de Epilínaco e bloqueou o caminho entre ele e Annabeth. Começou a desferir golpes violentos com sua espada e o Mantícore chefe desviando de cada golpe apenas sorria. – Você acha mesmo que irá conseguir me derrotar PerseuJackson? Mesmo que consiga me derrotar, está no Tártaro, eu voltarei. Outros virão, garoto. Você e essa garota aí não tem escapatória, nenhum de vocês no mundo inteiro. Quando a Mãe Terra retornar tudo estará perdido. – soltando uma risada macabra o monstro acertou Percy no peito rasgando o resto de sua camiseta e deixando três grandes arranhões em seu peito.

Annabeth que perdera na queda para o Tártaro a adaga de bronze celestial que Luke lhe dera aos sete anos, estava desarmada. Mas começou a disparar pedras contra a cabeça do bicho.

Enquanto o monstro tentava acertar Percy com sua calda de espinho-venenoso, Annabeth cobria sua cabeça de galos.

Finalmente o monstro se virou para Annabeth. – Eu ia deixar você por último, garota, por que está desarmada. Mas se faz tanta questão assim de morrer primeiro, que assim seja!

Annabeth tentou gritar por ajuda, mas já era tarde demais. As garras do Mantícore já estavam em torno de sua garganta apertando cada vez mais forte.

Um estalo. E tudo aconteceu de repente. Percy deu um salto mortal e fincou a Contracorrente nas costas do monstro. Arrastou-se pelas pernas do monstro e empurrou Annabeth com uma das mãos.

— Aaaargh!!! Seu filho d.. – o monstro urrou de dor pela ferida em suas costas.

Percy rolou 45º e cortou as duas pernas do monstro. E enquanto o mantícore agonizava no chão, Percy se posicionou com um pé em seu peito e desferiu um único golpe na testa do monstro com Contracorrente. Apenas um, mas mortal. – Mande lembranças a Gaia. – e desmaiou.

Parte II

PERCY

Percy acordou, mas não abriu os olhos. Estava recostado em algo macio, quente. Por um instante até chegou a pensar que estava de volta ao Chalé 3, no acampamento meio-sangue. Com sua arena de batalhas, a floresta majestosa onde o Caça a bandeira acontecia nas noites de sexta. Os campos de plantação de morango e o cheiro doce que varria toda a extensão do acampamento, ao final da tarde.

Bom, se não fosse pelos gritos ao longe, o ar fedendo a enxofre, o corpo todo dolorido e cabeça girando. Poderia até repensar sobre o acampamento. Mas estava no Tártaro. Lar dos monstros, terra de eterno sofrimento.

Assim que abriu os olhos, se deparou com dois olhos grandes e cinzentos observando-o com preocupação. Então estava no colo de Annabeth. Bom, ele poderia se acostumar com isso.

Logo o olhar de preocupação da namorada passou para um olhar descontraído. – Você baba enquanto dorme. – disse a garota, fazendo Percy dar uma gargalhada que seria melhor se não estivesse com umas duas costelas fraturadas. – Acho que já ouvi isso antes, sabidinha.

Os dois se puseram de pé, trocaram um beijo e seguiram caminho pelo Tártaro. Tomando o cuidado de seguir próximo ao Rio Flegetonte para chegar às Portas da Morte.

Percy levara a namorada para passeios românticos antes. Este não era um deles.

Seguiam o Rio Flegetonte. Caminhavam com dificuldade sobre o solo negro de cacos de vidro. Saltavam fendas e se escondiam atrás de rochas sempre que um grupo de monstros saindo das bolhas passava à frente deles.

O calor do rio tostava a pele de Percy. Cada vez que respirava era como se estivesse inalando fibra de vidro com cheiro de enxofre. Quando ficavam com sede, o máximo que podiam fazer era tomar um gole refrescante de fogo líquido.

É. Percy sabia mesmo fazer uma garota se divertir.

Pelo menos o tornozelo de Annabeth parecia estar melhor. Ela quase não mancava mais. Seus vários cortes e arranhões tinham desaparecido. Ela prendera os cabelos louros com uma tira que rasgara da calça jeans e, na luz abrasadora do rio, seus olhos cinzentos brilhavam. Apesar de exausta, imunda e vestida como uma mendiga, Percy achava que ela estava linda.

E daí que estavam no Tártaro? E daí que tinham uma chance ínfima de sobreviver? Ficou tão feliz por estarem juntos que sentiu uma necessidade ridícula de sorrir.

Fisicamente, Percy também estava melhor, apesar de suas roupas parecerem ter passado por um furacão de cacos de vidro. Estava com sede, fome e morrendo de medo (mas não iria contar isso para Annabeth), porém estava livre do frio desesperançado do Rio Cócito. E por pior que fosse o gosto do fogo líquido, ele parecia lhe dar forças.

Percy se lembrara de lutas contra soldados esqueletos no labirinto. Na época, parecia uma situação sem saída. Agora, daria qualquer coisa para que seus problemas fossem assim tão simples. Pelo menos naquele tempo estava no mundo mortal. Ali não havia para onde fugir.

Uau! Já estava até pensando na guerra contra Cronos como os bons tempos...

Isso era triste. Mantinha as esperanças de que as coisas fossem melhorar para ele e Annabeth, mas a vida de ambos só ficava cada vez mais perigosa, como se as Três Parcas estivessem lá em cima fiando o seu futuro com arame farpado em vez de fios para ver quanto dois semideuses podiam aguentar.

De repente se depararam com um precipício. O coração de Percy quase saiu pela boca. Mesmo que ele e Annabeth chegassem ao fundo do abismo vivos, o futuro não era promissor. A paisagem abaixo deles era uma planície desolada e cinzenta de onde se projetavam árvores negras, como pelos de um inseto. O chão estava coberto de bolhas. De vez em quando uma delas inchava e explodia, fazendo surgir um monstro parecido com uma larva saída de um ovo. De repente, Percy perdeu a fome.

Quanto mais Percy olhava para aquela tempestade de escuridão, menos queria ir até lá. Aquilo podia esconder qualquer coisa: um oceano, um poço sem fundo ou um exército de monstros. Mas se as Portas da Morte ficassem naquela direção, era sua única chance de voltar para casa.

Quando começaram a descer o penhasco, Percy se concentrou nos desafios mais imediatos: não perder o equilíbrio, evitar derrubar pedras para não alertar outros monstros de sua presença e, é claro, garantir que ele e Annabeth não despencassem para a morte.

Na metade da descida, Annabeth disse:

— Percy, espere. Vamos parar um pouco.

As pernas dela tremiam de tanto que Percy se xingou mentalmente por não ter sugerido uma parada antes.

Eles se sentaram juntos em uma saliência ao lado de uma feroz cascata de fogo. Percy passou o braço em torno de Annabeth, que se aconchegou a ele, trêmula de exaustão.

Assim que continuaram a descer o corpo de Percy estava no piloto automático. Sentia câimbras nos dedos. Bolhas começavam a surgir em seus tornozelos. Estava tremendo de fome.

Perguntou-se se iriam morrer de inanição ou se o fogo líquido os manteria vivos. Lembrou-se do castigo de Tântalo, preso para sempre em um lago sob uma árvore frutífera, mas sem poder alcançar nem a água nem o alimento.

Caramba, Percy não pensava em Tântalo havia anos. Aquele sujeito idiota tinha sido brevemente perdoado para ser diretor do Acampamento Meio-Sangue. Provavelmente estava de volta aos Campos da Punição. Percy nunca tinha sentido pena do imbecil antes, mas agora sentia certa compaixão por ele. Podia imaginar como seria sentir cada vez mais fome por toda a eternidade sem jamais conseguir comer.

Continue a descer, disse a si mesmo.

Cheesebúrgueres, respondeu seu estômago.

Cale a boca, pensou.

Com fritas, protestou o estômago.

Um milhão de anos mais tarde, com mais umas dez bolhas nos pés, Percy chegou ao fundo. Ajudou Annabeth a descer, e os dois desabaram no chão.

Andaram por muito tempo, diante deles se estendiam quilômetros de terra estéril fervilhando com larvas monstruosas e árvores que pareciam pelos gigantescos de inseto.

Depois de percorrerem um caminho árduo e longo beirando o Rio Flegetonte, depois de quase serem mortos por um grupo de empousas que eles mesmos haviam matado há alguns anos atrás. Depois de serem salvos por Bob o Titã e sua super-vassoura. Percy desfrutar da hospitalidade de Damásen para curar todas as suas maldições às quais as Arai lhe haviam fornecido pela morte de todos os monstros que ele e a namorada já haviam liquidado.

Percy guiava Annabeth pela densa escuridão juntamente com Bob e seu brilho prateado. Parecia meio que um anjo sinistro na escuridão do Tártaro. Volta e meia passavam em sua cabeça, pensamentos para desistir. “Não ceda ao Tártaro”, dizia a si mesmo.

Quando a escuridão pareceu mais densa e o ar mais frio, Annabeth se aconchegou em seus braços, mas ainda parecia tensa.

- Estamos perto! – disse Bob. – Quanto mais frio e denso, é sinal que estamos mais perto.

“Perto de quê?”, Percy perguntava-se. E ao ver a expressão de Annabeth, percebeu que a namorada deveria estar perguntando a mesma coisa a si própria.

A única fonte de luz era Bob, e sua Contracorrente com o brilho do bronze celestial.

Annabeth entrelaçou os dedos nos dele. O rosto dela ficava lindo à luz de sua espada de bronze.

— Estamos juntos – lembrou ela. – Vamos sair dessa.

Ele tinha ficado tão preocupado em não deixá-la e se abater, e era Annabeth quem estava ali reconfortando-o.

— É. Vai ser moleza – e riu.

— Chegamos – anunciou Bob. – Akhlys pode ajudar.

Depois de Annabeth com bastante psicologia de filha de Atena convencer a deusa da miséria a os esconder com a Névoa da Morte (ideia de Bob para se aproximar das Portas da Morte sem serem notados), a namorada o acompanhava enquanto ele seguia Akhlys para as sombras cada vez mais densas. Bob ficara para trás, não podia percorrer o caminho que só os mortais seguiam ali.

— Chegamos. – Akhlys se virou e lançou um olhar maligno para eles.

O sangue de suas bochechas escorria e pingava na veste. Os olhos doentios da deusa pareciam úmidos e inchados, mas de algum modo entusiasmados. Será que a miséria consegue parecer entusiasmada?

— Hã... ótimo. Mas chegamos onde? – perguntou Percy.

— À beira da morte final – disse Akhlys. – Onde a Noite encontra o vazio abaixo do Tártaro.

Annabeth avançou alguns centímetros e espiou o precipício.

— Pensei que não existisse nada abaixo do Tártaro.

— Mas há, com certeza há... – Akhlys tossiu. – Até o Tártaro teve que surgir de algum lugar. Este é o limite da escuridão mais antiga, que era minha mãe. Abaixo ficam os domínios de Caos, meu pai. Aqui vocês estão mais perto do nada do que qualquer mortal jamais esteve. Não conseguem sentir?

Percy percebia o que a deusa queria dizer. O vazio parecia atrai-lo, roubando o ar de seus pulmões e o oxigênio de seu sangue. Ele olhou para Annabeth e viu que os lábios dela estavam ficando azuis.

— Não podemos ficar parados aqui – disse o semideus.

— Não mesmo! – disse Akhlys. – Vocês não sentem a Névoa da Morte? Estão passando por ela agora mesmo. Vejam!

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Após a traição da deusa, (o que já era esperado), os dois terem de lutar pela própria vida, de novo. Após vencerem chamando a deusa de “fofa, linda, miss simpatia, quentinha, macia que da até vontade de abraçar. Forninho, zoas.”

Depois de Percy quase matar a deusa com o próprio veneno, controlara o líquido até de suas próprias lágrimas para sufocar Akhlys e Annabeth ter lhe implorado para parar, a deusa fugir... E até mesmo a própria Noite (Nix) quase fazer picadinho dos semideuses.

E então, tudo aconteceu de repente. O garoto parecia entrar em uma espécie de transe. De repente não havia mais Annabeth, deusa da miséria, não existia ele próprio. Os acampamentos, o argo II, o fim do mundo, o despertar de Gaia. Nada. Só existia o nada.

Percy se sentia cada vez mais atraído para dentro do Nada. Caos, ele estava na beira dos domínios da divindade mais antiga de toda sua linhagem. E então pulou.

Ele não sabia se Annabeth tentara segura-lo, ou se a deusa teria ficado surpresa com o que acabara de acontecer.

Só sabia que sentia o Caos. Sentia todo ele. Sentia nada. Tudo e nada. O que há o que não há. Existência da inexistência, o começo do final do vazio preenchido com o vácuo. De sentimentos, esperança, sentidos, olfato, paladar, toque, visão. Consciência se fora, desejos se foram.

Estava vivo, mas de fato existir. De fato, nem respirar precisava. O Caos... Falava. Em silêncio. E em sua mente, o Caos gritava desesperadamente. “A linhagem mais pura. De mim veio Urano, Gaia. Em sequência, Gigantes, Titãs, Deuses. E aqui está você, pequeno semideus. O que deseja semideus? Criatura pequena. Não é mais do que uma poeira cósmica na imensidão do universo.”

Percy parecia flutuar, não caía. Flutuava no nada. Não conseguia responder ao que Caos lhe falava. “O que estava acontecendo?”.

“Não tente entender, filho do deus do mar.” O garoto já estava sem forças. “Todos vocês semideuses, estão conectados a mim, agora. Durante muito tempo eu aguardei, abaixo do Tártaro. Muito, muito abaixo de vocês, mortais. E agora, eu tenho o contato com você. Perseu Jackson. Todos vocês, semideuses. De todo esse mundo medíocre que vocês chamam de lar, vão sofrer. Por que agora, você pertence ao vazio.”

E então Percy adormeceu.

Acordou em uma espécie de campo silvestre. Porém sem a beleza natural de um campo. O campo se encontrava seco. Apenas terra batida, cinzenta. Não havia céu. Só havia aquele extenso campo coberto de... Nada.

Ouviu passos, e quando se virou, deu de cara com ele mesmo. Sim, uma versão própria com um pequeno infinito dentro dos olhos. Não havia roupas, não havia sexo. Era apenas... um corpo. Mais se parecia um recipiente de vazio.

— Quem é você? O que quer? Onde está Annabeth? O que está havendo aqui? – Percy gritou com ferocidade para seu Eu macabro.

— Ha hahahaha! – uma risada vinha da criatura. Porém não havia boca para sorrir, muito menos para gargalhar. – O Caos não irá se submeter à responder perguntas de um moleque arrogante como você, Perseu Jackson. Basta saber que você está em todo lugar, mas também em lugar nenhum. Você é o Caos. E o Caos, é você. Pouco a pouco sua essência será dissolvida. E eu, tomarei seu corpo, o que possivelmente só aguenta 5% de todo meu poder, mas que bastará para tornar todo o mundo que você conhece meu domínio. Gaia, Urano, Titãs, Gigantes, os três grandes, e vocês, Meio-Sangues, não passam de baratas.

— Agora me diz, é legal falar de si na terceira pessoa? – e o semideus partiu para o ataque. – Se quer a mim, terá de lutar.

Acordou de volta ao penhasco do vazio. A deusa Akhlys e Annabeth estavam olhando para a imensa escuridão. Depois se deparou com Nix e Annabeth olhando diretamente para ele. Só que ele, não era exatamente ele. O garoto assistia a cena de cima.

— Vá embora, Noite. Hoje, você não tem vez aqui. Nem hoje, nem nunca. – disse Percy Caos.

A deusa da noite desapareceu na escuridão, restando apenas seu Eu maligno, sua namorada Annabeth e o próprio Percy de plateia.

— Quem é você? – perguntava Annabeth. – O que houve com Percy? Como você pulou naquele precipício cabeça-de-alga? Como apareceu aqui de repente, ein?

Percy maligno aproximou-se e disse:

- Interessante, uma cria de Atena apaixonada por uma cria do próprio Poseidon. – lançou um olhar frio para a garota. – Eu sou Caos. E seu namoradinho? Já não existe mais. – e partiu para o ataque.

Enquanto Percy lutava contra Caos, com olhos de pequenos infinitos, ele sabia que seu corpo, lá no Tártaro, estava sob controle do Primeiro deus. E sua namorada corria perigo por isso. Mas o Caos era astuto, não seria derrotado. Não facilmente

Percy partiu para o ataque destampando sua Contracorrente e desenhando um arco com sua espada, na esperança de acertar Caos. Como de costume, estava errado. A espada passou direto e o deus se materializava onde bem entendia. Percy estava em apuros.

Enquanto Annabeth desviava compulsivamente do deus, Percy estava cada vez mais nervoso. Mas pelo menos uma notícia boa, essa versão do Caos, podia ser atingida. Annabeth bateu com o cabo da espada de osso de Drakon que Damásen lhe dera, na cabeçado Percy maligno, porém o mesmo não caía.

E se Annabeth fosse morta? E se ele perdesse seu corpo para o próprio Caos? O que seus amigos iriam pensar? “Você foi para o Tártaro com a missão de impedir Gaia e retorna com o Caos dominando seu corpo?”

Simultaneamente estava de volta a sua luta particular contra seu próprio eu versão punk. – Você perderá tudo Perseu Jackson. Não haverá mais nada. – a gargalhada do deus ecoou por toda a extensão do campo vazio. – E o nada, será todo meu reino.

A luta continuou. O semideus estava levando a pior, enquanto tentava de tudo, Caos não parecia nem se importar. Acertava incansavelmente o garoto e gargalhava de satisfação consigo mesmo.

Annabeth corria perigo, enquanto o Percy maligno forçava a Anaklusmos contra a garganta da garota.

O verdadeiro Percy, de camarote assistindo a própria luta ser um fiasco. A namorada quase morrer, todos os semideuses do mundo sofreriam o controle de Caos, segundo ele. Bom, daria para escrever um livro, não?

O pavor tomava conta de seus pensamentos, de sua respiração. A pessoa que mais amava, que estava ali com ele no Tártaro, passando por tudo com ele, estava prestes a morrer. E o garoto não poderia fazer nada para impedir.

De volta à sua luta, o Caos, da mesma maneira que fez com Annabeth, só que com uma versão sombria da Anaklusmos empurrou a lâmina contra o pescoço de Percy. Fazendo sua visão embaçar, o terror o consumir. Fechara os olhos. Estava inconsciente dentro de sua inconsciência.

De repente, viu rostos de todos os semideuses que conhecia: Leo, Frank, Jason, Annabeth, o falecido Luke, Connor Stool, Nico, Piper, Hazel, Clarisse, Beckendorf. E muitos outros.

Mas também, viu o rosto de semideuses que não conhecia. Semideuses em outras partes do mundo.

Rússia, com um monte de adolescentes treinando com aqueles chapéus engraçados parecendo o cabelo da “Marge Simpson”.

Itália, com um monte de semideuses sentados à uma fogueira comendo macarronada.

Arábia, com turbantes e tudo mais.

China, um bocado de mini Franks, correndo com suas espadas. (Será que iriam lutar com aqueles palitinhos?)

Japão, espadas samurais, gritos de artes marciais e um monte de semideuses treinando de Kimono.

Um grupo de semideuses brasileiros em uma espécie de parque ecológico. Um rapaz com uma grande testa que parecia estar vestido de caçadora (Thalia ficaria uma fera com isso) o qual era conhecido como Milord pelos outros semideuses. Um rapaz com a blusa do Capitão América, alargador, filho de Hades pelo visto, coordenava o vermelho para um ataque contra o azul no caça a bandeira. Sua irmã estava ao lado. Com marcas no rosto, no estilo marcas de guerra. Uma blusa preta com o Cérbero na frente e “Chalé 13” lia-se atrás. Havia ate um louco fantasiado de Finn, com um escudo com a cruz de Hades entalhado.

O chalé de Apolo parecia levar a melhor sobre o chalé de Poseidon. Um menino com uma bermuda florida e uma camisa do time de futebol, “Atlético Mineiro”, segurava um arco usando uma lança de flecha. (Alguém, pelos deuses, conte pra ele que aquilo não é uma flecha. O chalé se destacava com uma líder baixinha, com uma fita vermelha na testa, mas feroz. Desferindo golpes com sua espada em tudo que se mexia. Um rapaz alto e musculoso, seu irmão pelo visto, vestia a camisa de “Dragon Ball”, e derrubava vários semideuses com um único golpe.

Era uma visão linda. Chalé de Hermes com seu líder, que todos os outros seguiam pregando peças nos outros. “Espera aí Frost, queremos zoar com a cara de Ares também!!!” Um deles dizia. O garoto de Hades, e o rapaz da testa do tamanho do Estige davam uma bronca num grandalhão de Zeus.

Ares não ficava para trás, era liderado por um rapaz de estatura média, barbudo. Com uma Katana em mãos. Lutando ao lado de outra filha de Ares, uma ruiva com pircings na boca.

Basicamente, todos os semideuses do mundo, seus acampamentos. Tudo estaria perdido, pela fraqueza de Percy. Pelas Parcas estarem tirando uma com a cara dele e da namorada. Provavelmente estavam as gargalhadas dos garotos. LOL, seu noob.

Percy não podia mais aguentar, se o Caos estaria conectado com todos os semideuses, e tomaria tudo e todos... E ele era o Caos naquele momento, então o semideus também estava conectado com todos os outros meio-sangues do mundo! Era um bom plano. Na teoria

Percy se concentrou, tentou sentir todos os semideuses que vira. Os que não vira. Os que conhecia, e os que não conhecia, principalmente. Tinham que salvá-los. Não seria justo levar o terror e a destruição para aqueles que nem ao menos sabiam da existência de Percy.

O filho de Poseidon sentiu toda a energia, todo o poder percorrer seu corpo. Sentiu todos os acampamentos e sentiu todos os semideuses. Um por um.

De repente soube que a força bruta de nada valeria contra o Caos.

E num momento... BOOOM!

Sua raiva explodiu. Não deixaria o Tártaro levar tudo que era mais precioso para Percy. Que sempre se sentiu só, sem lugar. E que junto dos semideuses encontrava um lar... Que mesmo com vários problemas e perigos, era SEU lar... Não o abandonaria em prol de um deus que era mais velho do que cagar agachado.

Com um suspiro, inverteu a situação. O tempo em que Percy inspirou e expirou o ar do vazio, ficou por cima do Caos. Brandiu contracorrente e perfurou um dos pequenos infinitos que eram seus olhos.

O deus urrou de dor, rastejou por baixo de Percy e tentou atacar novamente.

O garoto era treinado em combate. Rolou pela direita e desferiu um golpe na perna do deus. Levantou-se e chutou seu Eu maligno, no peito.

Tudo girava devagar, o mundo girava devagar. Tudo estava ao seu favor. “Ora, por favor, me emprestem suas forças.” Percy pedia aos semideuses do mundo.

Atacava o deus incansavelmente. Bater, girar, pular, estocar, virar, rolar.

O deus parecia “se cansar”. Percy usava toda sua energia, ou o que sobrara dela. De repente estava em cima do deus, com a espada erguida... E perfurou. Perfurou o coração de seu EU, maligno.

Houve um feixe de luz negra, um grito mudo. E uma dor dilacerante em seu peito e depois estava parado encima de Annabeth, segurando contracorrente contra o pescoço da garota. Agora ele era ele mesmo. Pelo que dava à perceber, conseguiram a Névoa da Morte.

Ficaram um tempo imóveis se olhando. Annabeth encarava-o com certa curiosidade e medo nos olhos. Percy afagou os cabelos da namorada. – Eu sou eu agora, está bem? — e estavam prontos para partir. Quando:

— O que houve cabeça de molusco? – perguntou Annabeth. – Não me venha mentir. O Caos, em seu corpo? O que houve? Como o expulsou?

— Te explicarei tudo no caminho, Annie. Por que agora, temos uns traseiros monstruosos para chutar. E umas portas da morte para fechar.

Seguiram caminho para as portas da morte junto de Bob, que não atraia nenhuma atenção. E mesmo assim, a Névoa da Morte de Akhlys parecia funcionar perfeitamente. Certos momentos se esgueiravam para que não vissem Bob e o viessem tratar como Jápeto. Tomaram todos os cuidados enquanto seguiam para as portas da morte.

— Vamos conseguir, não vamos? – perguntou Annabeth.

Percy, depois de explicar tudo que houve enquanto enfrentou o próprio Caos. Tudo sobre todos os acampamentos, em evidência o acampamento brasileiro, os semideuses, o tamanho da testa de um rapaz caçadora com uma barbicha bem hipster. Deu um sorriso à namorada. Com os lábios ressecados e febris.

— Claro, eu te disse. Quando os semideuses se juntam, não há problema que não possa ser resolvido! Juntos, fazemos qualquer coisa, sabidinha. – disse Percy

— Claro cabeça-de-alga. – deu uma risada. — inclusive babar enquanto dorme.

Você chegou ao fim do livro. Parabéns!